Trib0s - Interativa
2 1. Academia Militar
Notas iniciais
— Hey, você. — Chamou Dante.
Um garoto se virou com um olhar meio psicopata, encarando o maior por trás dos óculos de armações retangulares. Estava apanhando alguns livros no chão, provavelmente derrubados pela confusão do corredor. O garoto era mais baixo que Dante, de cabelos castanhos e pequenas pintas no rosto. Terminou de apanhar suas coisas e ficou de frente para o maior e para Dahila.
— Meu nome não é “hey você” — Respondeu, ajeitando os óculos com um ar de desdém — Meu nome é Luke Verona. São novos pelo visto.
— Ha! Novidade — A morena replicou sarcástica.
— Perdoe a grosseria dela — Dante a puxou pelo ombro pra mais perto, a sacudindo um pouco — A propósito, me chamo Dante Lancaster e esta é Dahila. Estamos procurando nossa classe.
— Ouvi dizer que vocês tem um sistema diferenciado para a separação das classes, verdade? — A garota quis saber, puxando o lenço amarrado no pescoço do maior por trás, o enforcando por rápidos segundos — Troco.
— Bem, tudo por aqui é meio peculiar — Luke respondeu — Lancaster, é? Acho que vi seu nome na lista de transferidos. Posso levá-lo até sua sala, já que é a mesma que a minha.
— Que bela coincidência.
Pararam em frente à porta do novo ambiente em que passariam a estudar. Dahila levantou uma sobrancelha ao dar-se conta da bagunça que aquilo era. Alguns dormiam sobra suas carteiras, outros gritavam uns com os outros, e havia uns dois ou três pichando mesas ou paredes.
Dante viu Luke adentrar a baderna segurando os livros contra o peito, andando calmamente como se já fosse acostumado com tal comportamento da parte dos demais. Trocou olhares com Dahila antes de fazer o mesmo e procurar por uma carteira vazia.
As únicas vagas se encontravam distantes uma da outra, o que não contribuiu para o humor da morena. Sentou-se pesadamente, cruzando os braços. Já Dante, em uma das primeiras da sala (todas as carteiras do fundo já haviam sido ocupadas), cruzou as pernas sobre a primeira, em sua frente e observou melhor os alunos ao redor.
Uma garota o chamou a atenção. Estava na carteira ao lado, ouvindo música no celular e com os olhos fechados. Ela era linda, em seu ponto de vista. Parecia um tipo de garota delicada – o total oposto de Dahila –, com cabelos castanhos e meio encaracolados.
Ele viu quando ela bufou ao tirar os fones, provavelmente frustrada por não conseguir ouvir suas músicas em meio à bagunça da sala. Dante viu sua hora de puxar assunto.
— O que estava ouvindo? Ou melhor, tentava ouvir?
A garota se virou para ele com seus olhos azuis, parecendo se impressionar a primeira vista devido aquele bizarro estilo.
— Tim Minchin — Ela sorriu amigavelmente.
— Hm, nossa — Ele pareceu perdido, olhando pelos cantos — Esse é aquele cara ruivo meio estrábico?
A garota deixou uma risada divertida escapar.
— Não. Esse é Ed Sheeran. — Se arrumou na cadeira — Tim é um cantor de jazz que pinta os olhos de preto.
— Ah, claro — Dante pareceu relaxar mais em seu lugar, como se estivesse em casa — Moça, já pensou em ouvir algo mais... Legal?
— Você é um daqueles da tribo de rock, não é?
— Tribo? Que história é essa?
E mais uma vez ela riu.
— Sou Angel Houston.
==========(X)=========
Dahila olhou para o relógio na tela de seu celular, checando pela milésima vez o horário. Perguntava-se internamente onde diabo estaria o professor, e impaciente, resolveu perguntar para o garoto em sua frente.
— Hey — Chamou em tom grosseiro, lhe cutucando o ombro. Este não a atendeu prontamente. A morena cutucou mais forte — Hey!
Quando ele se virou pra ela, Dahila se arrependeu levemente por ter sido tão bruta. Não por o garoto ser assustador com feições de brutamontes, mas sim por aparentar ser mais delicado que seda. Ao vê-lo pela primeira vez, era possível julgar que um simples toque o quebraria.
Tinha pele pálida, olhos castanhos perdidos e cabelos brancos. Com traços asiáticos, parecia uma criança avoada no meio do moletom que usava.
Tombou a cabeça para o lado, numa interrogação do porque do chamado.
— Sabe me dizer a razão pela demora do professor? Ou essa escola sempre foi assim? — Dahila indagou, com mais calma.
— O quê? — Perguntou confuso, ainda parecendo estar na lua, ou algo assim. O tom de voz baixo fez a garota se esforçar para ouvir.
— Professor. Aula. — Repetiu.
— Não sei. É meu primeiro dia também.
— Ótimo — Resmungou, voltando a se jogar na carteira com os braços cruzados. — E por que você está aqui? É desligado demais para um colégio para problemáticos.
O garoto deu de ombros.
— Dizem que eu fiz coisas ruins. — Falou.
— É, todos fazem — Debochou. — Qual é o teu nome, garoto?
— Kippie.
— “Kippie”? Que tipo de nome é esse?
E antes que a conversa pudesse se alongar, o professor adentrou a sala de aula, desengonçado e arfando. A bagunça da sala foi amenizada, porém não completamente. Talvez a pose de general de exercito militar o ajudasse a se impor na sala. O homem bateu as mãos, pedindo atenção.
— Malditos adolescentes — Praguejou em voz baixa antes de se voltar aos alunos — Desculpem o atraso. Houve alguns assuntos... — Pigarreou — A serem tratados. Sentem-se no lugar, agora.
De contragosto os alunos obedeceram, cada um em seu tempo, atrasando mais alguns minutos da aula.
— É bom ver que começamos bem este ano. — Já recuperado, dava para perceber o quanto era ameaçador. Sério, de estrutura grande e de olhos penetrantes, sua áurea era de alguém que não estava ali para brincadeira. — Só vamos conhecer os novatos e relembrar as regras, crianças. Espero que não tenhamos grandes problemas durante o ano letivo.
Até mesmo Dahila percebeu o clima pesado que ficara na sala. Aquilo não era um colégio. Era uma academia militar da América.
Luke Verona se inclinou para a garota.
— Não precisa ficar tão rígida. Nem todos são assim.
— Espero que esteja certo. Tô nem um pouco a fim de pagar meus pecados com flexões e essas porras todas aí...
O professor caminhou um pouco pela sala, encarando os alunos presentes com o olhar autoritário. Ao passar por Dahila, ela fez questão de retribui-lo com a mesma gentileza o que não o agradou muito.
Quando voltou para frente da classe, seu tom cínico foi mais do que claro:
— Espero que aproveitem essa jornada em San Sebasthian.
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