Trevo de Quatro Patas

1 Babá de cachorro por um dia. Ou mais


Notas iniciais
Oi, gente! Depois de algum tempo sem postar nada, finalmente voltei com uma fanfic fresquinha Solangelo para vocês! Espero que gostem e boa leitura!

Nico di Angelo vivia dizendo que não acreditava em superstição, que tudo isso não passava de uma grande besteira. Porém, lá no fundo, ele era uma pessoa supersticiosa. E como não seria se a sua vida parecia ser sempre carregada por grandes infortúnios e raros momentos de sorte?

Na época da escola, ele nunca era sorteado para ficar no mesmo grupo que o gatinho da sala, mesmo que tivesse “sorte” em ganhar um tema razoavelmente fácil para fazer o trabalho. Ele nunca ganhou ingressos em um sorteio para ver a banda que gostava. Suas paixonites ao longo da vida foram todas unilaterais, porque os caras que ele realmente tinha interesse nunca davam bola para ele. Às vezes, ele simplesmente achava que o azar o perseguia, que ele era o cara mais azarado do mundo.

E talvez isso justificasse porque alguém estava ligando para ele em um sábado de manhã e interrompendo seu sono. Nico pegou o celular e viu o nome da sua irmã mais velha na tela. Sentiu vontade de ignorar a ligação, fechar os olhos e voltar a dormir na sua cama macia e confortável, mas sabia que isso não faria Bianca desistir, pelo contrário, ela ligaria quantas vezes fossem necessárias até ele finalmente atender.

— Oi — ele atendeu de forma mal-humorada.

Bom dia, maninho! — ela disse de forma alegre.

— Você interrompeu meu sono, é um péssimo dia — ele resmungou. — O que você quer?

Estou estacionando na sua rua, te vejo daqui uns 5 minutos. Tchau!

Ele sentou-se na cama rapidamente.

— O quê?! Espera... — Nico tentou protestar, mas ela já havia desligado.

Droga! Agora ele precisava mesmo sair da cama.

Levantou-se, foi até a cozinha e ligou a cafeteira. Depois, dirigiu-se ao banheiro e jogou água no rosto, tentando acordar de vez. Passou o pente pelos cabelos, mas isso só os deixou ainda mais rebeldes. Tudo bem, afinal, era apenas Bianca e ela com certeza já havia visto o cabelo do irmão em situações bem piores do que a de hoje.

Quando Nico estava colocando café na xícara, a campainha tocou.

— Já vai! — ele anunciou, tomando um gole de seu café rapidamente e arrastou seus pés até a porta.

— Bom dia! — Bianca falou animada. Sua irmã era provavelmente a única pessoa da face da Terra que conseguia estar 100% acordada e feliz a essa hora da manhã.

— Hm, oi. — Nico respondeu, com seu mau humor típico matinal. — O que você está fazendo aqui tão cedo? São 8 da manhã!

— Oh, é assim tão cedo? — ela olhou para o relógio no pulso, com uma expressão de surpresa.

Nico reprimiu a vontade de revirar os olhos. Bianca era uma péssima atriz.

Foi então que Nico notou duas coisas no chão, ao lado dos pés da irmã: uma bolsa floral — que o fez pensar em Perséfone, sua madrasta, que adorava tudo que tivesse flores — e uma caixa de transporte azul. Bianca notou para onde o irmão estava olhando e, muito rapidamente, colocou a bolsa nos ombros e pegou a caixa, entrando no apartamento.

— O que é tudo isso? Você vai viajar também? — Nico olhou confuso para a irmã enquanto fechava a porta.

— Papai e Perséfone pegaram o voo ontem à noite. — Bianca mudou de assunto, fingindo não ouvir a pergunta anterior do irmão.

— Eu sei — ele fez uma careta.

Afinal, como Nico poderia ignorar essa viagem se o celular dele não parou de tocar ontem à noite? A cada “bip” era uma foto nova que Hades enviava para o grupo da família. Lá estavam eles na fila, fazendo check-in; depois, mostrando as nuvens com o dedo indicador através da janela do avião, uma selfie de Hades com óculos de sol e usando uma camiseta estampada com abacaxis — um visual completamente bizarro e que Nico achava que não combinava nada com o pai; uma foto de Perséfone tomando um copo de refrigerante como se fosse champanhe e muitas outras que ele nem fez questão de olhar. Assim como sempre fazia, Nico apenas visualizou as mensagens, mas não respondeu nada. Ele não estava no grupo porque realmente queria e sairia se pudesse, mas Bianca já havia o ameaçado dizendo que o botaria de volta se ele fizesse isso.

— Três semanas viajando pela Europa… — ela falou com a voz mais alta, fingindo estar animada, mas Nico sabia que a irmã estava apenas tentando evitar o assunto principal. Seja ele qual fosse. — Ah, que inveja!

O pai deles não era do tipo que gostava de viajar. Na verdade, Hades adorava ficar em casa, sentado em sua poltrona confortável, assistindo televisão o dia todo e comendo porcaria. E provavelmente era isso que ele estaria fazendo neste final de semana se não tivesse ganhado um ultimato da esposa: ou arrumava um bom presente para comemorar os 10 anos de casamento deles ou Perséfone iria passar as férias na casa da mãe sem previsão de retorno. E, pelo Tártaro, todo mundo sabia que Hades e Deméter — sua sogrinha nada querida — não se davam bem.

— Você veio aqui para falar sobre a viagem deles?

— Não. Na verdade... — ela mordeu os lábios, tentando ganhar tempo. — Preciso de um favorzinho seu.

Nico olhou de relance para a caixa azul no chão e um pensamento passou por sua cabeça. Bianca estava ali para pedir o que ele estava pensando?

Claro que não! Ela ainda não tinha perdido o juízo! Não é?!

— Diga. — murmurou, já com medo do que ouviria a seguir.

— Então… — ela começou, mas não concluiu a frase. Parecia não encontrar as palavras certas para falar.

Nico colocou a xícara na mesa e massageou as têmporas, sentindo uma dor de cabeça surgindo.

— Tem um cachorro aí, não é? — apontou para a caixa.

— Como você sabe? — Bianca arregalou os olhos, surpresa.

— Por qual outro motivo você andaria com uma caixa de transporte para animais por aí?

Ela não disse nada, apenas abaixou-se e abriu a portinha, fazendo uma criaturinha peluda sair. A caixa dava o dobro do tamanho dele.

— Você já conhece o Cérbero? — ela pegou o filhote no colo.

Claro que Nico conhecia. Era o filhote que o pai havia ganhado recentemente de um amigo. Lembrava-se de ver várias fotos dele no grupo da família apenas algumas semanas atrás, mas ele era ainda menor na época.

— Hm, sim, é o cachorro do nosso pai que você vai cuidar enquanto ele estiver fora. — Nico respondeu. Bianca fez uma expressão estranha, como se tivesse provado algo estragado. — Por favor, não me diga que você me acordou tão cedo para pedir o que eu estou pensando!

— Depende. Se você estiver pensando em ficar com ele por um dia para mim… — ela deu de ombros, como se não fosse nada demais. — Sim, é isso mesmo.

— Não! Pode tirar esse vira-lata da minha frente! — ele deu um passo para trás e apontou para a porta. — Agora!

Se fosse qualquer outra pessoa, teria recolhido suas coisas e ido embora com a cabeça abaixada. Mas estávamos falando de Bianca di Angelo e ela nunca desistia de uma batalha até ter certeza que era mesmo o fim.

— Ele não é vira-lata, é um Rotweiller puríssimo. — Ela o corrigiu, como se isso mudasse algo.

— Que seja! — exclamou. Afinal, não estava nem aí para a raça do cachorro, só queria ele longe do seu amado apartamento.

— Minha segunda opção seria Hazel, você sabe. — Bianca argumentou. Hazel era a irmã mais nova deles, ela morava em outra cidade por causa da faculdade. — Eu não te pediria esse enorme favor se não fosse mesmo uma emergência. Você é a única pessoa que pode me ajudar agora! Eu não sei mais o que fazer!

E para mostrar que estava mesmo desesperada, agarrou o braço do irmão, deixando Nico assustado pelo contato repentino. Cérbero colocou o nariz gelado no braço dele também, o cheirando. Parecia até que os dois haviam combinado de fazer um complô contra ele!

— Foi você quem se ofereceu para cuidar do cão — ele a lembrou, sutilmente tirando a mão da irmã do seu braço e se afastou.

— Eu sei, mas eu não contava com um pequeno imprevisto: meu prédio não aceita animais.

— Você mora lá há uns três anos, como só soube disso agora?

— Porque eu já tinha visto alguns vizinhos com cachorros, então achei que podia. Mas o que eu não sabia é que eles mantinham os cachorros em seus apartamentos sem a síndica saber! Pensei em manter Cérbero escondido no apartamento por uns dias também, só até eu achar uma solução melhor, mas minha colega de quarto é certinha demais e disse que ia contar tudo. E, bem, digamos que Cérbero não seria o único a ficar desabrigado. — Ela deu um suspiro. — Você não imagina como foi difícil mantê-lo quieto ontem, principalmente porque o apartamento da síndica fica bem em baixo do meu!

E, para o azar de Nico, cachorros eram totalmente permitidos em seu prédio. Se ele soubesse que um dia sua irmã lhe pediria esse favor, com certeza teria se mudado para um lugar que não aceitasse animais.

— Caramba, Bianca! — Nico passou as mãos pelos cabelos, andando de um lado para o outro, sentindo-se atordoado. — Você deveria ter averiguado isso primeiro! E por que raios nosso pai não o deixou em um daqueles lugares particulares para cachorros?

— O nome correto é “hotel para cães”. — Bianca explicou. — Ele disse que Cérbero ainda não está acostumado com outros cachorros e ficou com medo de acontecer algo de ruim com ele.

Com certeza aconteceria algo ruim, mas seria com Nico. Como ele sobreviveria a essa companhia peluda durante um dia inteiro? Ninguém estava pensando no bem-estar do garoto além dele mesmo!

— Por favor, maninho! Faça isso por mim e pelo Cérbero. — Bianca lhe lançou um olhar triste, fazendo biquinho como bônus. — Você consegue dizer “não” para nós?

Para o cachorro, Nico conseguiria sem pestanejar. Mas para Bianca? Jamais!

— Ok… — ele se deu por vencido. Bianca deu um sorriso enorme. — Mas é por um dia! — deixou claro.

— Você é o melhor irmão do mundo todo! — ela o abraçou, ainda com Cérbero no colo, quase fazendo um sanduíche de cachorro.

— Não precisa me bajular, eu já disse que sim — ele revirou os olhos e a afastou. Droga, ele já estava cheio de pelo de cachorro na sua camiseta preta!

Bianca explicou algumas coisas que ela julgava “importantes e essenciais”. Tirou várias coisas da bolsa floral — que era mesmo de Perséfone — e distribuiu no chão. Ração, a guia, alguns brinquedos e outras coisinhas que Hades havia lhe dado, caso precisasse. Nico definitivamente não estava interessado em nada daquilo, mas obrigou-se a prestar atenção em tudo que a irmã falava.

Após uma explicação que demorou muito mais do que ele previra, a irmã despediu-se e foi embora; deixando Nico sozinho com aquela grande bola de pelo que atendia pelo nome de Cérbero.

***

Nico já estava totalmente disperso, então sabia que voltar para a cama não era mais uma opção. Além disso, ele não queria arriscar deixar o cão sem supervisão no apartamento. Ele então resolveu tomar o café da manhã. Só foi ele dar a primeira mordida na sua torrada que escutou Cérbero ganir pertinho dele.

— O que você está olhando? — Nico perguntou ao filhote, que o observava com atenção. Ele sabia que Cérbero não estava morrendo de fome, pois sua irmã havia lhe dado ração antes de sair. — Eu não vou te dar a minha comida.

Cérbero latiu em resposta. Nico não entendia a linguagem dos cachorros, mas sabia que ele não concordava com isso.

Nico terminou de comer e foi até à cozinha lavar sua xícara. Cérbero o acompanhou, certamente achando que ganharia algo se continuasse persistindo. Sem sucesso, obviamente.

E o dia seguiu assim: onde Nico ia, Cérbero ia atrás.

Quando Nico foi para a sala ver um filme, Cérbero também foi atrás dele. O cão parecia gostar do garoto, mesmo que ele não tivesse feito absolutamente nada para ganhar o seu afeto, tanto que até tentou subir no sofá para ficar ao seu lado. Nico não permitiu e o filhote deitou-se no chão, com a cabeça apoiada no tapete e ficou quieto. Quando o filme terminou, Nico percebeu que o cão havia dormido e aproveitou o momento para ir ao banheiro sem ser seguido.

Ao voltar para a sala, não encontrou o cachorro. Olhou na área de serviço, nada. O seu quarto havia ficado o dia todo com a porta fechada. Então só restava um local: a cozinha. Encontrou Cérbero perto da pia, com a língua de fora, parecendo extremamente feliz.

— Te achei! O que você está… — Mas Nico não terminou a frase, porque caiu com tudo no chão molhado.

Espera, por que tinha água no piso? O encanamento havia estourado?!

Nico olhou para a mão e só então viu que não era água, era um líquido amarelo: xixi de cachorro.

— Seu cachorro dos infernos!

***

Após trocar de roupa e limpar o chão da cozinha, enquanto soltava vários palavrões, Nico colocou a guia na coleira do cão. A última coisa que ele queria agora era sair de casa, mas se não fizesse isso, Cérbero ia deixar um presente muito pior do que xixi no seu apartamento.

Pegaram o elevador e desceram. Querendo acabar logo com isso, Nico limitou-se a passear com o cão pelo quarteirão. Cérbero parecia estar apreciando o passeio, pois cheirava todas as árvores, hidrantes e qualquer outra coisa que encontrasse no caminho com toda a paciência do mundo.

— São todas iguais, apenas escolha uma! — Nico reclamou, sem paciência, após Cérbero cheirar outra árvore exatamente igual a anterior.

Naquele momento, Nico ficou pensando por que as pessoas tinham cachorros: latiam por qualquer motivo, precisavam ser levados para fazer as necessidades na rua e ainda exigiam atenção. Fora os gastos com comida e outras coisas. Eles davam trabalho demais!

Após o que pareceu uma eternidade, Cérbero cumpriu o seu objetivo. Nico fez uma careta ao pegar as fezes com o saquinho, deu um nó e jogou na lixeira mais próxima. Missão cumprida!

Eles estavam voltando para o prédio, quando ouviu alguém dizendo atrás dele:

— Ei, gracinha!

Nico congelou no lugar. Ele não acreditava que estava recebendo uma cantada tão brega assim! Isso era tão anos 2000! O garoto girou nos calcanhares, pronto para lançar um olhar mortal ao indivíduo que, se fosse sábio o suficiente, entenderia o recado e iria embora correndo sem olhar para trás.

Foi aí que ele percebeu que o dono daquela voz era ninguém mais, ninguém menos que Will Solace: aquele loiro gatinho que morava no seu andar. Também conhecido com a paixonite super ultra mega secreta de Nico há quase um ano.

Espera, seu vizinho estava dando em cima dele?! Impossível!

Os pensamentos de Nico foram interrompidos quando Will se abaixou e começou a fazer carinho na cabeça do cachorro. Cérbero abanou o rabo, feliz em receber atenção de um total desconhecido. Ele não sabia se ficava desapontado, aliviado ou incrédulo por alguém achar que aquele vira-lata pulguento era uma “gracinha”, porque ele claramente não era!

Ah, mas estávamos falando de Will e o rapaz era um anjo em forma de pessoa, sempre com um sorriso no rosto, muito educado e gentil com todos os moradores do prédio. Até mesmo com Nico que só lhe dava respostas curtas.

— Desculpe, eu nem te cumprimentei. — Ele olhou para cima, encarando Nico com seus grandes olhos azuis. — Tudo bem, cara?

Nico apenas assentiu e entrou no prédio, seguido por Will que ficava olhando e falando com Cérbero como se ele fosse a coisinha mais fofa da Terra. Ele nem precisou chamar o elevador, pois um morador havia acabado de sair, cumprimentado eles na saída.

— Ei, qual é o seu nome? — Will perguntou, apertando o botão do andar deles.

— Nico.

— Eu sei o seu nome, Nico di Angelo. — ele riu. — Estava me referindo ao cachorro.

Por um breve momento, Nico ficou feliz que Will soubesse seu nome, mas então ele lembrou-se como o vizinho era sociável e provavelmente sabia o nome de todos os outros moradores — que não eram poucos ­— do prédio também. Sua memória deveria ser excelente. Tudo que Nico queria agora era um buraco para se esconder e não sair nunca mais.

Nico não era do tipo que ficava tímido ao conversar com outras pessoas, na verdade, ele realmente não se importava com as opiniões ao seu respeito. Mas ele não conseguia manter uma conversa com caras bonitos sem ficar nervoso. E seu vizinho era extremamente bonito! Então, ele sempre respondia o mínimo possível para não fazer papel de bobo. Claramente, não estava sendo bem-sucedido agora.

— Cérbero — murmurou, por fim.

— Nome diferente. Gostei. — Will acariciou a orelha do cão, que havia se pendurado na sua perna para receber mais carinho — Eu não sabia que você tinha um cachorro.

“Porque eu não tenho mesmo”, Nico pensou.

— Não é meu. Só estou tomando conta dele por um tempo. — Nico respondeu. Seu vizinho não precisava saber que “esse tempo” era apenas um dia.

Will apenas balançou a cabeça em concordância. Ele claramente estava curioso para saber mais, porém não era do tipo intrometido, o que era um alívio.

Quando o elevador finalmente chegou ao sétimo andar, os três saíram. Will foi para a direita e Nico pretendia ir para a esquerda, onde seu apartamento ficava, mas Cérbero tentou seguir seu vizinho.

— Ei! — Nico exclamou.

Cachorro ingrato! Um pouco de carinho e ele já preferia alguém que havia conhecido há 10 minutos! Bem, Nico não podia negar que o cão tinha bom gosto, afinal de contas.

Will olhou para trás e sorriu.

— Ei, amiguinho, você quer ir para casa comigo? — ele acariciou a cabeça do cachorro. Cérbero latiu em resposta, o que fez Will soltar uma gargalhada feliz. — Acho que isso foi um sim!

“Você o quer? Pode levar!”, Nico pensou.

— Preciso ir agora. — Will ergueu a mão na direção do cachorro, que tentou morder seu dedo. Ele riu de novo. — Parece que você ainda não aprendeu a dar a patinha. Alguém deveria te ensinar uns truques.

Will olhou para cima e deu uma piscadinha e Nico desviou o olhar, sentindo seu rosto esquentar. Droga, por que seu vizinho era tão lindo? Deveria ser crime alguém possuir tanta beleza assim!

— Vamos — Nico deu uma puxadinha de leve na guia, chamando a atenção do cachorro. Quanto mais rápido ele fosse embora, menor seria o risco de passar outra vergonha na frente do seu vizinho.

— Tchau, te vejo por aí! — Will acenou, entrando no seu apartamento.

— Tchau...

Nico virou-se devagar e pegou sua chave, enquanto voltava para o seu apartamento. Não acreditava que havia acabado de ter uma conversa com Will Solace por causa desse filhote peludo e que ele tinha proferido até frases relativamente longas no processo! O mais engraçado é aquela fora provavelmente a conversa mais longa que eles tiveram durante esses dois anos em que Nico morava no prédio. Normalmente, os dois apenas se cumprimentavam quando se viam no corredor e no elevador, ou quando Will comentava algo relacionado ao tempo ou ao prédio. Nunca falavam sobre vida pessoal. Nico só sabia seu nome, que ele ainda estudava — mas não sabia o curso — e que eles aparentavam ter mais ou menos a mesma idade.

Se fosse para Nico ter mais conversas “longas” com seu vizinho, talvez ter Cérbero por perto não fosse algo tão ruim assim.

***

Nico havia vasculhado a sua geladeira à procura de algo para comer, mas ela estava praticamente vazia. Ele costumava fazer compras no final de semana à noite, pois o sol já havia ido embora — assim ele não “derreteria” de tanto calor. Mas hoje ele não tinha coragem de sair e deixar o filhote sozinho em seu apartamento.

Então ele abriu o aplicativo de delivery e olhou o menu do seu restaurante chinês favorito, pedindo um yakisoba e uma Coca-Cola. Ele comeu na sala, enquanto via um filme qualquer que passava na televisão. Cérbero ficou o tempo todo perto dele, provavelmente esperando ganhar algo. Nico apenas revirou os olhos e o ignorou, fingindo que era apenas mais uma noite comum em que ele estava sozinho em seu apartamento.

Quando terminou, ele pegou o biscoito da sorte que o restaurante sempre enviava junto. É claro que ele não acreditava nessas frases ridículas que vinham dentro, eram sempre ditados populares, profecias, coisas genéricas que poderiam acontecer com qualquer um. Mesmo assim, ele sempre se sentia tentado a lê-las, mesmo que fosse para reclamar depois.

Ele dividiu o biscoito em dois e desdobrou o papel que havia dentro:

“Você terá sorte em muitas coisas" — leu em voz alta. Por fim, deu uma risada debochada. — Sorte?! Há! Até parece!

Ele ignorou o biscoito partido e começou a recolher o lixo sobre a mesinha de centro. Foi então que ele ouviu um “crack”. Curioso, ele abriu a sacola de papel do restaurante em suas mãos, encontrando outro biscoito da sorte.

Nico havia perdido a conta de quantas vezes já havia pedido comida naquele restaurante, mas essa era a primeira vez que isso ocorria. Não colocarem o biscoito no seu pedido? Sim, já havia acontecido! O biscoito vir sem papel dentro ou, pior ainda, com um papel em branco? Mais de uma vez! Dois biscoitos? Não, isso realmente nunca tinha acontecido antes! Nico se recusava a pensar que isso era fruto da tal “sorte” escrita no biscoito que acabara de abrir poucos segundos atrás, provavelmente foi apenas o erro de um funcionário novo que estava nervoso demais ao embalar os pedidos e acabou se confundindo.

Com certo receio, ele fechou os olhos e pegou o outro biscoito, o partindo no meio. Enquanto desenrolava a tirinha de papel devagar, foi abrindo os olhos lentamente, temendo o que lhe esperava. E se a primeira frase já lhe deixou surpreso, a segunda o deixou ainda mais:

“O amor está mais próximo do que você imagina” — leu.

Nico não pôde deixar de olhar para a porta de entrada, pensando no seu vizinho que morava no outro lado do corredor. Não, isso era apenas uma coincidência! Ele se recusava a acreditar que isso era algum tipo de presságio! Afinal, as coisas nunca davam certo para ele no quesito amor, não seria agora — por causa de uma frase idiota em um biscoito idiota — que as coisas mudariam... certo?!

— Au?! — Cérbero latiu, provavelmente querendo dizer: “Humano, posso ficar com esse biscoitinho delicioso?”.

Nico olhou para o biscoito partido em suas mãos e, depois, para o outro deixado em cima da mesinha. Suas irmãs costumavam dizer que ele só deveria comer caso a frase fosse boa.

— É meu! — ele rebateu para o filhote, jogando os dois biscoitos na boca.

E mesmo que Nico dissesse para si mesmo que não era o tipo de pessoa que acreditava em frases ridículas que vinham em biscoitos da sorte ele torcia que, apenas desta vez, a sorte estivesse mesmo a seu favor.

***

Mais tarde, naquela mesma noite, Nico encarou a tela do celular, pensando se deveria mesmo ligar para a irmã ou não. Para ela, seria uma ótima notícia; para ele, nem tanto.

Ele deu um longo suspiro e, por fim, apertou o botãozinho verde na tela.

Bianca atendeu após o terceiro toque.

Você já quer devolvê-lo? O dia ainda não acabou. Por favor, apenas me dê mais algumas horas! — sua irmã disparou, sem nem ao menos dizer “alô”.

Nico não conseguiu disfarçar um sorriso ao ouvir a irmã toda desesperada no outro lado na linha.

— Olá, irmã. Sim, eu estou bem, obrigado por perguntar — ele ironizou.

Desculpe, eu estou um pouco estressada — ela suspirou. Só um pouco? — Mas você ligou para eu ir buscar o Cérbero, não é?

— Hmm... — Nico fez uma pausa um pouco mais longa do que era preciso, apenas para manter o suspense e irritar a irmã, afinal, ela bem que merecia. — Na verdade, eu pensei sobre isso e... decidi ficar com o cão. Claro, se você quiser.

Pelos Deuses, é claro que eu quero! — ela gritou do outro lado da linha.

— Céus, meus ouvidos! — ele reclamou, afastando um pouco o telefone da orelha. — Sou muito novo para ficar surdo, ok?

Desculpa! — Ela disse, agora com a voz mais calma: — Mas você está realmente falando sério? Não é uma pegadinha?

— É claro que eu estou falando sério — respondeu. Certamente não seria uma tarefa fácil cuidar de Cérbero, mas Nico iria sobreviver. Ele só precisava torcer para que os dias passassem rápidos, muito rápidos.

Sua irmã ficou em silêncio por um tempo.

— Ei, você ainda está aí? — ele perguntou, pensando que a ligação poderia estar ruim.

Sim. — Ela finalmente se pronunciou. — Olha, eu agradeço muito que você esteja fazendo isso por mim, mas você tem certeza sobre isso? São três semanas. Eu posso continuar procurando outro lugar para ele...

Nico revirou os olhos. Bianca estava o tratando como um garotinho de 10 anos incapaz de fazer as coisas por conta própria, o que era bem típico dela.

— Ei, eu posso ser seu irmão mais novo, mas eu já sou um adulto, ok? Não sou tão irresponsável como você pensa.

Não é isso, é que... — ela fez uma pausa, como se procurasse as palavras certas. — Só estou pensando em como você vai ficar quando Cérbero for embora, caso... você sabe, acabe gostando dele.

Ah, então sobre isso que sua irmã estava se referindo.

Por que Bianca precisava ter tocado nesse assunto justo agora? Nico estava tentando não pensar sobre isso.

— Fique tranquila, isso não vai acontecer. — Nico fechou os olhos por um breve segundo, ele já podia sentir o nó se formando em sua garganta. — Eu não vou me apegar a essa bola de pelo irritante.

Bem, não foi o que aconteceu da última vez e...

— Não. — Nico a cortou rapidamente — A situação era totalmente diferente e você sabe muito bem disso.

Sinto muito, maninho — Bianca percebeu que havia ido longe demais. — Eu não deveria ter tocado nesse assunto.

Nico queria ficar bravo com Bianca, mas ele sabia que ela não havia falado isso de propósito. Sua irmã estava apenas preocupada que as coisas se repetissem, mas ele não iria deixar que isso acontecesse novamente.

— Tudo bem. — Nico forçou um sorriso, mesmo sabendo que ela não podia vê-lo. — Bem, preciso ir, depois a gente se fala.

Nico estava prestes a desligar quando Bianca exclamou:

Espera! Você não me disse por que decidiu ficar com ele.

— Por sua causa, é claro! — ele disse como se fosse óbvio. — Você chegou aqui toda desesperada pedindo a minha ajuda e eu, como um bom irmão que sou, aceitei.

Corta essa, maninho. Eu te conheço muito bem — ela respondeu, não caindo no joguinho dele. — Sei que tem alguma outra coisa nessa história que você não está querendo me contar.

Seus olhos foram parar imediatamente nas duas tirinhas de papéis em cima da mesa de centro.

— Não faço ideia do que você está falando, irmã. — Nico disse com a voz firme. Ao contrário de Bianca, ele era um ótimo ator; afinal, sempre soube mascarar muito bem os seus sentimentos ao longo dos anos. — Tenha uma boa noite, tchau.

E desligou antes que Bianca pudesse fazer mais perguntas.

Nico olhou para Cérbero, que parecia o observar atentamente, como se estivesse o julgando pelo forma que tratou a irmã.

— O que foi? — ele revirou os olhos para o cão. — Eu não gosto de você e nem vou gostar! Pode poupar sua energia em tentar me conquistar!

Cérbero latiu em resposta, o que Nico interpretou como: “desafio aceito, humano!”.

— São apenas três semanas. — Nico deu um suspiro, sentindo-se exausto de repente. — Eu consigo.

Ele só havia aceitado só por causa dos benefícios que um filhote de cachorro poderiam oferecer, apenas por isso. Nico daria comida e um teto para ele e, em troca, Cérbero o ajudaria a se aproximar de caras bonitos que gostassem de animais. Principalmente se o cara em questão fosse o seu vizinho extremamente simpático e lindo.

Não tinha a menor chance de Nico di Angelo se apegar a esse vira-lata.

Notas finais
E aí, o que acharam desse começo? Me contem a opinião de vocês nos comentários! Tenho dois lembretes rápidos... 1- A fanfic também está sendo postada no Spirit com o mesmo título (meu user também é o mesmo); 2- As postagens funcionarão da seguinte forma: toda sexta-feira à noite um novo capítulo para vocês (ao todo, serão 12 capítulos + o epílogo)! Até a próxima! õ/