Notas iniciais
"Não havia suor, não havia cansaço, não havia pausas. Música após música, a dança continuava, como se o próprio salão proporcionasse aquela atração a quem fosse agraciado com um convite para o baile."

Uma infinidade de velas iluminava o enorme salão e, ainda assim, as sombras prevaleciam, atraídas pelos convidados que dançavam, giravam e gargalhavam de forma elegante. Os lustres de cristal pareciam seguir o balanço da música proporcionada pelo belíssimo piano que ocupava o centro do local, e dos três violoncelos, logo à frente do outro instrumento. Os músicos estavam trajados elegantemente com sobrevestes negras que continham dezenas de botões até chegar na barra, acompanhados por detalhes carmesim que enriqueciam a vestimenta. Assim como todos aqueles que dançavam no baile, eles estavam mascarados.

As máscaras eram variadas e pareciam falar sobre a personalidade de quem as utilizava. Grande parte das mulheres cobria seu rosto com adereços plumosos, sem perder a elegância, deixando em evidência as peles pálidas e lábios extremamente rubros. Os homens, por sua vez, permaneciam mais discretos e mantinham simples máscaras negras em seus rostos, que tampouco escondiam os olhares insaciáveis direcionados às parceiras de dança.

O ritmo da música se acelerava, e assim o fazia a dança. A melodia se intensificava em um esplendoroso crescendo, culminando em movimentos largos e arcos horizontais, giros longos e compassados, passos arrastados, mas silenciosos, preenchendo os olhos daqueles que assistiam à dança com um calor sobrenatural. Não havia suor, não havia cansaço, não havia pausas. Música após música, a dança continuava, como se o próprio salão proporcionasse aquela atração a quem fosse agraciado com um convite para o baile.

Um par de mãos longas e brancas se uniu meia-dúzia de vezes em palmas quase inaudíveis, e na sexta repetição, dança cessou. O salão ficou em silêncio, os músicos tiraram as mãos de seus instrumentos e os deixaram repousar em seus apoios, e todos aqueles que preenchiam o local se viraram direção a quem reproduziu o comando. Com uma última vênia dos pares dançarinos, estes se afastaram, abrindo o espaço ao meio do salão. Serviçais com rostos ocultos por máscaras completas, pretas e inexpressivas, entraram silenciosamente para remover os instrumentos. Os violoncelos foram carregados individualmente, e em seguida, três deles se uniram para remover o piano dali.

Os delicados pés de uma dama tocaram os degraus aveludados da ampla escadaria que levava ao piso superior do salão, observada por todos os presentes. Suas mãos suspendiam o vestido lateralmente, de forma a não atrapalhar seus passos em direção ao centro daquele local. O vestido era composto por mangas longas e caídas, com sobras nos ombros e o colo exposto, alvo como a neve, contrastando com a longa cortina negra formada pelos seus cabelos, que caiam por seus ombros e pelas costas. Os cachos engalfinhavam-se como sombras mal intencionadas, e esta era uma característica que se transmitia ao sorriso da mulher. Seus lábios contorciam-se suavemente em um sorriso maldoso, repassado por seu olhar, que varria aquela multidão silenciosa por um breve momento. O vestido era de um vermelho vinho, imponente, composto por um corset que delineava uma silhueta esbelta, e se arrastava por mais dois metros atrás da mulher. Havia uma gema em seu pescoço, rubra como todos os outros adereços em seu corpo.

—Tragam os efêmeros! —ela bradou, com firmeza, e as portas do salão abriram-se de imediato, como se obedecessem naturalmente ao que a mulher falava. Um quarteto de servos, vestidos da mesma forma que os anteriores, adentraram o local com varinhas empunhadas. Eles as mantinham erguidas, apontadas para uma enorme caixa flutuante que os acompanhava no centro do quadrado formado pelos servos. Ao chegar no local onde antes ficava o piano, ergueram a mão livre e fizeram dois arcos no ar, cada um, e o caixote dividiu-se em duas metades que giraram horizontalmente, cada um para uma direção, e se separaram quando encontraram-se novamente.

A caixa se abriu.

A metade inferior do objeto aterrissou suavemente no piso de mármore, enquanto a superior simplesmente desapareceu, evaporando em uma névoa escura que não durou mais que um segundo. O objeto da caixa ficou à mostra, e todos aqueles ao redor dela compartilharam um suspiro de ansiedade.

Uma dúzia de pessoas amarradas umas às outras observavam, de dentro da caixa, aqueles ao seu redor com um pavor genuíno no olhar. Uma criança, entre elas, perguntou com a voz trêmula à mulher ao seu lado:

— M-Mãe... Quando vamos embora?

As lágrimas abundantes da mãe rolaram pelo rosto enquanto ela abria a boca para responder, a voz falhando por um momento.

— Apenas feche os olhos, querido. Feche os olhos e logo estaremos em casa! — ela se virou para encarar a mulher que descera as escadas, e sua voz vacilante se transformou em um grito. — Por favor, milady Carmilla! Eu juro que trago mais gente para o seu povo, para você, apenas nos deixe ir embora! Nunca direi o que aconteceu aqui, direi que são boa gente, que...

— Shhhhhh... — Carmilla colocou um dedo sobre os lábios da mulher, que choramingou de forma abafada. A distância entre as duas era de quase cinco metros, mas de alguma forma, ela aparecera diante da pobre prisioneira em um piscar de olhos. — Eu acredito em você, efêmera. Acredito que nunca dirá o que aconteceu aqui. — Ela olhou dentro dos olhos daquela mulher, o vermelho encontrando-se com o castanho, e a pobre coitada demorou dois ou três segundos para entender o recado. A ínfima esperança que surgira em seu âmago desapareceu e seus lábios se contorceram para baixo no mais primitivo desespero.

Abriu a boca para gritar, mas já afogava-se em seu próprio sangue antes disso, com o pescoço abocanhado pela imponente dama carmesim. As mãos alvas agarraram a cabeça da prisioneira e a pressionaram enquanto todo o sangue era sugado da traqueia esmagada. Com a boca completamente manchada pelo líquido, ela se afastou por um breve momento do corpo quente e olhou para aqueles ao seu redor, com um largo sorriso rubro e insano nos lábios.

— Banqueteiem-se, meus filhos! Roubem para si o calor dos efêmeros, sorvam até a última gota! Eu lhes presenteio! — e logo tornou a abocanhar a mulher, enquanto os convidados ao seu redor se lançavam como uma turba voraz sobre os prisioneiros, que berraram de desespero por poucos segundos antes de serem silenciados para todo o sempre.

Mais tarde, naquela mesma noite, Carmilla encontrava-se contemplativa em seus aposentos. Um banho havia sido preparado por suas serviçais e a mulher preparava-se para entrar na banheira, despindo-se cuidadosamente. Carmilla era conhecida, dentre os seus, por esta peculiaridade; a cada fase da lua, banhava-se no sangue quente de belas mulheres para que ela mesma pudesse manter sua aparência enquanto vivesse. Por desconhecimento, muitos associavam este fato à uma característica vampírica, mas este era um engano comum; aquilo era magia de sangue, uma das muitas banidas pelo recém-criado Ministério da Magia em Londres.

O cheiro que exalava do líquido na banheira era inebriante. Já fizera aquilo milhares de vezes, mas nunca se tornava menos prazeroso. Botou um de seus pés no sangue para experimentar a temperatura, sentando-se na borda da enorme banheira de mármore e, em seguida, constatando que estava do seu agrado, escorregou o corpo para dentro, ficando apenas com a parte superior do rosto acima do nível do sangue.

Pouca-Vida, Bolsas-de-Sangue, Receptáculos... Carmilla tinha inúmeros nomes humilhantes para aqueles cujas veias não bombeavam sangue vampírico. Eles nunca a incomodavam de verdade, pois ela os enxergava única e exclusivamente como comida, como a diversão de seus dias entediantes, como brinquedos. Mas os efêmeros, como costumava chama-los, por suas vidas curtas e insignificantes, estavam se organizando.

Ministério da Magia... pensou, com um vislumbre de desprezo transparecendo em seu olhar. Humanos são apenas humanos, com varinhas ou não. Por que os homens ainda acham que aquilo que carregam nas mãos pode dar a eles o poder que nunca tiveram? À pouca luz do cômodo, seus olhos queimavam como brasas, acesos em um vermelho intenso e ameaçador, iluminando à frente como pequenos lampiões na escuridão.

Mergulhou completamente no sangue e deixou que seu corpo absorvesse pacientemente tudo o que poderia extrair dali. Pela última vez, banhava-se em sangue trouxa, e, por isso, deveria apreciar a experiência. O baile daquela noite marcava uma nova era para o Povo da Noite. Carmilla Sanguina e sua corte de vampiros haviam decidido retaliar, após serem classificados pelo Ministério da Magia como criaturas a serem caçadas pelos aurores.

Quando a Lua Vermelha surgir nos céus, será o fim da Sociedade Bruxa.

Notas finais
Espero que gostem do primeiro conto da antologia! A personagem Carmilla Sanguina foi mencionada apenas como um cartão de sapo de chocolate, e pela carência de histórias sobre os vampiros do universo de Harry Potter, decidi fazê-lo! Obrigado pela leitura!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.