Trevas de Sangue
1 𝙑𝙞𝙨𝙖̃𝙤
Notas iniciais

“E eis que o sangue que fora dado como pacto, tornou-se sangue que fora cobrado como dívida.
Os primeiros que o beberam ergueram catedrais com mãos trêmulas e olhos vermelhos, e chamaram aquilo de bênção.
Nós, que escrevemos estas palavras antes de sermos silenciados, dizemos: não houve bênção.
Houve apenas um espelho, e nele os homens viram o que sempre foram e gostaram do que viram.
A magia não corrompeu ninguém, ela apenas parou de mentir.
Assim caiu Zaya, pela ausência, e todo vazio é preenchido pelo apetite de quem fica.
O Sangue Roxo, que fora escrito com tremor e reverência nas primeiras páginas, foi por fim vertido sem cerimônia, como água, como esgoto
E vimos o dia recuar
Não de uma vez, a luz nunca morre de uma vez.
O sol ainda nasce sobre Umbriana, mas seu véu radiante tornou-se fino como pele doente, e sob ele os homens continuaram a fingir vida, esperança e pureza como se não sentissem, todos os dias, o cheiro do que crescia embaixo das pedras.
E então, veio a noite que não terminou.
A lua ergueu-se pálida e moribunda, e não se pôs mais.
Nada mais restava que merecesse a manhã.
As criaturas que se escondiam sob os panos das igrejas subiram aos altares.
Os que comandavam por debaixo agora comandavam por cima, e ninguém corrigiu, porque ninguém mais sabia a diferença entre santo e voraz.
Chamamos isto de punição.
Escrevemos isto como punição, para que os que vierem depois tenham a quem culpar além de si mesmos.
Mas nós sabíamos, ao escrever, que mentíamos pela última vez.
Não foi um deus que nos amaldiçoou, fomos nós que, tendo recebido cor, escolhemos o apodrecimento.
E assim as pétalas de violeta, antes vivas, se abriram e secaram na mesma hora.
Que este seja o último registro dos que ainda tinham nome.
A era do sangue terminou.
A era nefasta começa nas mãos de quem carrega esse livro.”

O livro é fechado
Os ventos frios começavam a indicar, mais uma noite onde muita neve iria cair, e uma fogueira lentamente se apagava, ao redor, duas figuras sentadas encostadas em uma mesma árvore, uma delas, que carregava o livro rasgava a última página que acabara de ler para jogar na fogueira.
—O que achara, irmã?
A outra figura, encosta dois dedos na região lateral do pescoço de sua irmã
“Sombrio”
—Eu também achei, mas isso pouco importa.
Ela se levanta, e olha em direção a floresta, que já conseguia observar o fim da mesma.
—Estamos quase chegando em umbriana novamente, e se o taberneiro estiver correto, ele estará em umbriana no verão de vinha.
A primeira mulher era alta, mais alta que a maioria dos homens que já cruzou caminho, o corpo talhado por anos de luta e por algo mais, algo que nenhum treino explicava sozinho, tem cabelos brancos como neve longos e ligeiramente ondulados sobre os ombros, cobrindo parte do rosto com mechas soltas que ela raramente se dava ao trabalho de afastar, um tecido branco cruzava metade do seu rosto, escondendo o olho direito e a cicatriz que vivia por baixo, o olho esquerdo, o único visível, tinha um tom claro e nublado, como um céu prestes a nevar
Usava um casaco pesado de pelos escuros, gasto nas bordas, por baixo, couro reforçado cobria o torso, marcado por cortes velhos remendados, correntes finas prendiam pequenas lâminas às pernas e nas costas, a espada afiada, cuidada, seu cabo era preto com adornos de rosas.
A outra moça também se levanta.
Mais baixa que a irmã, a segunda mulher, de constituição mais delicada, seus cabelos negros e lisos caíam retos até a cintura, emoldurando um rosto pálido de traços suaves, quase sempre voltado ligeiramente pra baixo, havia pequenos adornos, flores secas entrelaçadas em fios vermelhos e brancos, presas atrás da orelha e espalhadas discretamente pela gola da roupa um vestido pesado de inverno, prático, mas cortado com um cuidado que denunciava mãos habilidosas de costura.
Ao redor do pescoço, um cordão fino trançado com pequenos nós decorativos repousava contra a pele cada nó, tendo cor e posição e significado
Seus olhos, escuros e frequentemente distantes, raramente se demoravam em qualquer coisa por muito tempo exceto quando pousavam em Lydianna, e então, por um instante breve, ganhavam um foco quase doloroso de intensidade, como se ali, e apenas ali, ela ainda encontrasse algo que valia a pena permanecer vendo.
Ela segue a irmã, encostando suas duas mãos no braço esquerdo da mesma.
“Proteção”
—Eu sei. Devemos nos preparar, mas pensaremos nisso amanhã, certo? Agora vamos dormir.
“Croac!”
Atrás das duas garotas escuta-se um bater de asas, seguido de um grasnar de corvo.
Nesse momento a mulher de cabelos brancos sente um arrepio na nuca, e no mesmo momento arregala seus olhos e tem espasmos involuntários nas mãos e no rosto.
Enxerga novamente aquilo.
Ela olha para sua irmã e percebe aquela mesma aura preta espiralizada.
A mesma começa a fazer sinais com os dedos
“Tudo bem. Vamos dormir.”
E ela vai em direção a uma pequena tenda improvisada
O corvo pousa nos ombros da mulher.
Ele tem olhos violetas e ao seu redor paira uma aura roxa distorcida.
—”Lydianna” –Uma voz distorcida começa a se infiltrar nos pensamentos da mulher, é o corvo se comunicando.
Lydianna — Diga, Bran.
Bran — “Amanhã você dará início a sua vingança.”
Lydianna — Sim, eu sei.
Bran — “Você irá desagradá-la.”
Lydianna — Ao menos farei ela sentir alguma coisa.
O corvo levanta voo
A mulher também vai em direção a tenda, e ao entrar dentro dela, vê sua irmã já deitada tentando dormir.
Lydianna — “Eu irei olhar pelos olhos dele novamente essa noite, verei como está a situação.”
A irmã balança a cabeça
“Certo.”
Lydianna então com dois dedos dá dois toques em cada bochecha de sua irmã e depois faz o movimento de uma linha na testa da garota
“Boa noite, durma bem, Lyzza.”
Lyzza repete os gestos, fazendo sua irmã dar um leve sorriso, e então sua feição fica séria, ela se deita para dormir e se concentra em despertar nos olhos do corvo.
Conexão realizada
Ao olhar pelos olhos do corvo, enxerga-se o mundo em tons de violeta.
Ela começa a controlar o voo e vai em direção a cidade de Umbriana
É noite de monstros.
O corvo começa a tremer e auras roxas vão surgindo em todos os lugares que o corvo olha, até que sua visão vai se distorcendo, e aos poucos tudo vai se espiralizando como se estivesse prestes a desmaiar, e então quando o corvo vai chegar ao chão
A visão muda
agora tudo está sendo visto normalmente, às cores, os ângulos.
Lydianna acabara de coletar uma violeta de um campo e começa a sorrir olhando para sua irmã mais velha.
Lydianna — Eu consegui achar mais violetas que você!! Eu ganhei de novo!
Lyzza começa a rir, sua risada é suave e calmante.
Esta é uma visão rara e quase impossível para Lyzza de atualmente, mas nessa época era mais comum do que o sol aparecer no dia seguinte.
Lyzza — Ok, tudo bem eu desisto! Você é a melhor. – ela continua rindo e continua
— Porém se tem algo que você nunca vai ganhar de mim é na corrida!
E ela sai em direção a uma casa.
— NÃO VALE!! –lydianna grita e começa a correr também em direção a casa
Às duas estão rindo bastante e se divertindo
A irmã mais velha entra na casa
Ao se aproximar da casa a mais nova começa a escutar murmúrios similares a de uma discussão, que vai crescendo e crescendo
O ar começa a sufocar, deixando o peito pesado
E então ela abre a porta
A primeira coisa que ela percebe, são gotas minuciosas que caiem sobre o chão, e um braço estirado no chão
Aos poucos, entrando mais dentro da casa oberseva
o cheiro metálico de sangue, os gemidos de dor, e depois uma visão horrível
há quatro figuras altas e esguias, de aparência afável
Há sangue pra todo lado, Lydianna vê o corpo de sua mãe estirada no centro da sala, uma das figuras está mordendo o pescoço da mesma, sugando seu sangue.
Foi aqui, que o coração de Lydianna parou de bater.
E o seu primeiro instinto foi de se vingar.
Ela pega a espada curta que sua mãe guardava ao lado da sala como proteção e vai correndo em direção a figura que acabara de matar sua mãe, ela dá apenas um golpe, com a maior força possível que tinha naquele momento
A criatura quase bate a cabeça no chão, e cospe um pouco de sangue.
Ela para, e levanta o olhar, profundamente nos olhos da garota.
Ela tem uma feição surreal, porém bestial, monstruosa, tem cabelos brancos longos, dois chifres curvados que se iniciam onde teria os olhos e vão até atrás da cabeça, e um olho vermelho na testa
—Eu vou fazer você sofrer.
Ela se levanta
—Você vai implorar para eu matar você.
A figura se aproxima e Lyzza começa a gritar o seu nome
“LYDIANNA!! LYDIA!!! NÃO POR FAVOR, ELA NÃO! LYDIA!!!!”
Essa foi a última vez que a garota escutou sua irmã mais velha falar.
Mais gritos são proferidos, o som é perturbador
A figura pega a garota pelo pescoço, que tenta se desvencilhar da criatura e novamente tenta atacar com a espada
A criatura segura a espada com ás mãos, que faz um corte profundo, ela pega a espada pela lâmina e crava na barriga da garota
E ela acorda com um grito
Em um susto, ofegante, suada e amedrontada, Lydianna imediatamente procura sua espada, e começa a segurá-la.
Bran — “Noite de sangue. Não deveria ter visto pelos meus olhos esta noite.”
Lydianna — Eu não sabia que era noite de sangue!
Bran — “Cometeu um erro.”
Lydianna — Que merda, eu sei disso porra!
A mulher se levanta ainda empunhando sua espada, sua irmã já não estava mais na tenda e ao sair dela consegue ver-la preparando seus cavalos
Lyzza olha para Lydia com um olhar de preocupação
E encosta em um dos nós que está em seu cordão no pescoço
“Preocupação.”
Lydianna — Eu tive de novo aquela visão, Lyzza, aquele maldito momento
Ela se aproxima de Lyzza e dos cavalos
Lydianna — Eu juro que eu irei matar aquele ser, e vingar a nossa mãe Lyzza, eu juro!
Lyzza faz sinais com os dedos
“Isso não vai trazê-la de volta, você sabe disso.”
Ela não responde, apenas arruma suas coisas, desmonta a tenda e monta no seu cavalo, e ambas partem juntas em direção a cidade...
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