Trevas de Sangue
2 𝑶 𝒄𝒐𝒓𝒗𝒐 𝒆 𝒂 𝒗𝒊𝒏𝒉𝒂
Cidade de Umbriana
Oeste de Marco

1461

O caminho até os portões de Umbriana era de terra batida, e conforme se aproximavam, o cheiro de fumaça de churrasco, especiarias e cerveja começava a se misturar ao frio que ainda restava do inverno recém-saído.
Bandeirolas vermelhas balançavam entre os telhados inclinados, marcando o início do
Verão de Vinha
o nome que os moradores davam ao evento festivo que anunciava a temporada mais quente.
Lydianna puxava as rédeas de seu cavalo com uma mão, a outra pousada no cabo da espada, por hábito, não por necessidade. Usava um sobretudo preto com capuz que cobria um pouco de suas roupas de frio
Lyzza vinha ao seu lado, seus olhos vazios mantinham sua atenção ás bandeiras, que balançavam ao vento, assim como os adornos de flores em sua orelha b
Um homem de meia-idade, com um bigode grosso, um cabelo curto marrom e um crachá de metal preso ao peito, as recebeu no portão.
Homem — Documentos, ou nome de família, para o registro do evento.
Lydianna — Lydianna e Lyzza, guerreira e viajantes. — ela respondeu, sem tirar o capuz.
O homem anotou em um pergaminho velho, sem levantar muito os olhos.
Homem — A tarde de lutas começa amanhã ao meio-dia, inscrições ainda abertas até o anoitecer de hoje, na tenda central, festas começam ao entardecer, todos os dias, até o fim da semana, aproveitem Umbriana.
Ele fez um gesto de cabeça e liberou a passagem.
As ruas eram estreitas e cheias, tendas de comércio disputavam espaço com barracas de comida, crianças corriam entre as pernas dos adultos gritando de rir, um grupo de homens já embriagados cantava desafinado perto de uma fonte seca.
Lyzza tocou o braço direito de Lydianna mexendo ele.
"Muita gente."
—Eu sei — Lydianna respondeu, guiando o cavalo por entre a multidão.
— Vamos deixá-los na estalagem primeiro, depois eu me inscrevo na tenda de lutas.
Encontraram uma estalagem de fachada torta, chamada O Corvo e a Vinha — o nome fez Lydianna erguer uma sobrancelha por baixo do tapa-olho.
Deixaram os cavalos ao cuidado de um rapaz na entrada, entraram, e o calor da lareira e o barulho de conversas as engoliu.
Sentaram-se em uma mesa de canto uma mulher que trabalhava no local atendeu os pedidos das meninas, trouxe pão quente, um guisado de carne escura e duas canecas, uma com cerveja, outra com água, que Lydianna empurrou discretamente pra frente de Lyzza sem que ninguém percebesse.
Lyzza fazia uma gestos com os dedos
"Estamos ficando sem dinheiro."
Lydianna — Isso é um dos motivos do porque eu quero me inscrever para lutar.
Lyzza franze a sobrancelha esquerda, em tom de julgamento
Lydianna — O que foi? Como você pretende ganhar dinheiro?
Lyzza encolhe os ombros
Foi enquanto comiam que os aplausos e risadas vindos do centro da praça, visível pela janela embaçada da estalagem, chamaram a atenção das duas.
Um pequeno palco de madeira fora montado bem no meio da praça, iluminado por tochas e lanternas penduradas em cordas.
Sobre ele, uma figura loira, de rosto pintado como um palhaço, olhos delineados de vermelho se debruçava sobre a plateia com os braços abertos.
—E foi ASSIM — a voz dela ecoava, teatral, exagerada — que o Duque Alaric perdeu as calças no meio do baile real, na frente da própria Duquesa!
A multidão gargalhou, alguém jogou uma moeda no chapéu virado ao lado do palco.
—Quem é essa? — Lydianna perguntou, ainda mastigando.
Uma mulher na mesa ao lado, sem nem ser perguntada diretamente, respondeu animada:
—Ah, é a Carmine! Toda temporada ela sobe naquele palco, ela é a pessoa mais engraçada de Umbriana, com certeza.
Lyzza observava com atenção, a cabeça levemente inclinada, ela tocou dois dedos na têmpora, e mexeu repetidamente de um lado pro outro
"Diferente."
—Diferente como? — Lydianna sussurrou
Lyzza não respondeu
Apenas continuou olhando pra Carmine
Carmine era dona de uma beleza difícil de ignorar, os cabelos longos e dourados caíam em ondas suaves até a cintura, iluminando ainda mais a pele excessivamente pálida que parecia jamais conhecer o sol os seus olhos eram de um vermelho profundo, carregando um brilho vivo e curioso, sempre acompanhados por um sorriso fácil
Veste-se em tons de vermelho um casaco de pelo de lobo cinza e um tecido vermelho vibrante, havia nela uma elegância natural, mas também um desleixo encantador.
No palco, Carmine fez uma reverência exagerada, quase caindo de propósito, arrancando mais risadas, e por um breve segundo, entre uma piada e outra, seus olhos cruzaram a janela da estalagem e pousaram, curiosos, sobre as duas forasteiras encapuzadas observando de longe.
Lydia e Lyzza terminaram sua refeição, Lydia pegou um quarto para ás duas, porém antes de se deitar, foi se inscrever no torneio.
A tenda central estava cheia quando Lydianna chegou, homens robustos e alguns poucos mais magros e ágeis, todos esperando a vez de anunciar nome e arma pra um escrivão entediado atrás de uma mesa.
—Nome?
—Lydianna.
—Sobrenome?
—Não tenho.
O escrivão nem levantou os olhos, só anotou.
—Arma?
—Espada.
—Categoria livre ou categoria armada específica?
—Livre.
—É proibido o uso de armas de pólvora, usar poções ou ervas que deem alguma vantagem, e matar, não é permitido.
Ele carimbou um pedaço de papel e entregou a ela, junto com um número de tecido para costurar na roupa.
—Boa sorte, guerreira. Lute amanhã após o meio-dia.
Lydianna guardou o papel e saiu da tenda, o ar da noite batendo gelado contra o rosto.
Foi então que sentiu o familiar arrepio na nuca, o mundo ao redor começando a ganhar bordas roxas na visão periférica.
Bran pousou em um poste próximo, os olhos violetas brilhando na escuridão.
—"Ele está aqui" — a voz distorcida do corvo se infiltrou na mente dela.
Lydianna parou.
Lydianna — Quem?
Bran —"Olhe pelos meus olhos, e você vai ver."
Ela fechou os olhos ali mesmo, no meio da rua, e o mundo mudou.
Tudo em tons de violeta, as pessoas reduzidas à silhuetas e auras, algumas pálidas e fracas, outras densas e escuras.
E então, através dos olhos do corvo, ela viu.
Um homem forte e alto, rindo abertamente com outros dois na fila de inscrição, ainda se recuperando de algo que os outros haviam achado engraçado.
A aura dele era de um marrom sujo, comum, humano, mas Lydianna reconheceu o rosto antes mesmo de reconhecer a aura.
Ela lembrava daquele riso.
Mellus, fora ele quem, anos atrás, apontou para fora da janela da própria casa e disse aos seres da noite, em troca de proteção e algumas moedas de prata, onde vivia a família de mulheres que "trabalhavam com as trevas". Foi ele quem entregou o endereço.
Bran —"Reconhece"
Lydianna —Reconheço — a voz da guerreira saiu baixa, quase um rosnado, ainda com os olhos fechados.
Bran —"Ele se inscreveu pra luta amanhã."
Um silêncio pesado se instalou entre ela e o corvo.
Lydianna —Ótimo — a mulher finalmente disse, abrindo os olhos, o mundo voltando às cores normais, o homem ainda rindo à distância.
Bran ergueu voo, sumindo entre os telhados.
Lydianna ficou ali, parada, olhando o homem por mais um instante, não enxergava bem a distância, mas naquele momento enxergava como ninguém naquele momento.
Ela ouvia a risada do homem, o mesmo riso, os mesmos olhos pequenos e satisfeitos
Ela voltou para o quarto.
O quarto que conseguiram era pequeno, com duas camas estreitas separadas por um baú de madeira e uma janela que dava pra um beco lateral, longe do barulho da praça principal. Lydianna tirou as botas, colocou a espada apoiada contra a parede ao alcance da mão, por hábito.
Lyzza estava sentada na beirada da própria cama, lendo um livro.
Lyzza levantou os olhos, e por um instante ficou apenas olhando a irmã
Depois, devagar, tocou o próprio peito com a palma da mão, e em seguida apontou dois dedos na direção de Lydianna.
"Você."
—Eu o quê?
Lyzza hesitou.
Colocou o livro de lado, no baú, e se aproximou, sentando-se ao lado da irmã na cama estreita, como faziam quando crianças, quando o mundo ainda cabia dentro de uma casa cheia de mulheres e o pior medo era apenas o escuro debaixo da cama.
Ela encostou dois dedos no peito da irmã e girou os dedos sobre o coração.
"Frio."
Lydianna desviou o olhar.
—Eu não estou fria com você.
Lyzza balançou a cabeça, discordando, fez outro gesto, as duas mãos se afastando lentamente uma da outra.
"Distante."
Fez uma linha no ar
Desde então."
Lydianna ficou em silêncio por um tempo longo demais.
—Eu voltei, Lyzza. Eu estou aqui. — A voz saiu mais dura do que ela queria.
Lyzza segurou a mão da irmã entre as suas, com cuidado fez que sim com a cabeça, devagar.
Fez um sinal com ás mãos
"Seu corpo. Não seu coração."
Lydianna não teve resposta para isso.
Porque era verdade, e as duas sabiam.
Ficaram assim por um tempo, mãos entrelaçadas, sem mais gestos, sem mais palavras
—Eu ainda te amo, você sabe disso. — Lydianna disse, baixinho, os olhos fixos na chama da vela sobre o baú.
— Isso não morreu. Só... o resto de mim morreu um pouco, e eu não sei se volta.
Lyzza apertou a mão dela mais forte, em resposta, e não fez nenhum sinal.
Lyzza afinal apoiou a cabeça no ombro da irmã, e Lydianna, com um suspiro cansado, deixou.
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