Trevas de Sangue

6 𝑴𝒂𝒓 𝒄𝒂𝒍𝒎𝒐


Lydianna andava cambaleando para fora da arena, todo o corpo doendo e quanto mais a adrenalina descia, mais a dor tomava espaço. Ainda assim, um pequeno sorriso teimava em seu rosto, uma satisfação genuína pelo que acabara de fazer.


Ao se aproximar da saída, um homem gritou em sua direção:


—Ei, garota!


Era Marvin, agora sem a armadura, apenas com uma camisa de tecido comum, uma das mãos pressionada contra as costelas, como se a qualquer momento fosse cair caso a soltasse.


Lydianna parou, surpresa por ele ter chamado por ela, mas, como sempre, se preparou para o pior.


Marvin —Eu tenho que admitir, você é uma guerreira impressionante, tem técnica e força, derrotar eu e Mellus não é para qualquer um. –ele deu um leve sorriso.


Lydianna retribuiu.


Lydianna —Obrigada pelo reconhecimento. É raro ver homens como você admitindo que perderam de forma justa para mulheres.


Marvin —Vamos com calma, eu não disse que foi justo. Estou gripado desde ontem, da refeição da tarde! –fez uma tosse mal simulada.


Isso arrancou uma pequena risada de Lydianna.


Marvin —Eu me chamo Marvin Tallhart, sou o atual vencedor do torneio. E você, quem é?


Lydianna —Me chamo Lydianna.


Marvin —Não tem sobrenome? De onde você vem?


Lydianna —Venho de Karst.


Marvin —Lydianna de Karst. Talvez nos encontremos de novo. –ele abaixou a cabeça levemente, em respeito, e se retirou.


Foi só quando ele já se afastava que a fraqueza finalmente alcançou Lydianna por completo. A visão foi ficando turva aos poucos, o chão parecendo inclinar-se sob seus pés, até que ela ouviu uma voz familiar se aproximando, Carmine, puxando o braço de Lyzza, gritando algo que a guerreira já não conseguia distinguir direito.


—Eu... eu tô bem. foi a última coisa que ela disse antes de desabar.


Carmine conseguiu alcançá-la a tempo, segurando o corpo antes que caísse de vez na terra.


—LYDIANNA! – Carmine gritou, o pânico tomando conta da voz por um segundo inteiro, antes de sentir, contra o próprio braço, a respiração ainda constante da guerreira, o peito subindo e descendo, devagar mas presente.


Lyzza chegou logo atrás, ajoelhando-se junto, as mãos correndo rápido pelo rosto da irmã, checando, procurando algo pior do que realmente havia.


Carmine — Ela tá respirando. – Carmine falou, mais para si mesma do que para Lyzza, o alívio chegando quase tão rápido quanto o susto. —Tá, ok, ela tá respirando, isso é bom, isso é ótimo na verdade.


Lyzza pressionou dois dedos no pulso da irmã, sentiu a batida firme, ainda que acelerada, e soltou um suspiro que era quase um som de voz, o mais próximo que ela conseguia chegar de falar em momentos assim.


—Ela só... apagou, de cansaço. – Carmine constatou, ajeitando o corpo de Lydianna com mais cuidado contra o próprio colo, olhando ao redor em busca de ajuda. —Faz sentido, né? Levar aquela surra toda e ainda ficar de pé bancando a durona com o Marvin, eu também desmaiaria.


Um dos guardas da arena, vendo a cena, se aproximou rápido, oferecendo ajuda para carregá-la. Entre ele e Carmine, ergueram Lydianna, os braços dela pendurados frouxos, a cabeça tombando de leve contra o ombro de Carmine no processo.


—Vamos pra estalagem. – Carmine decidiu, a voz recuperando um pouco da firmeza de sempre. — O quarto de vocês é mais perto do que minha casa, e ela precisa deitar antes de qualquer outra coisa.


Lyzza assentiu, ainda tensa, mas o pânico inicial já cedendo espaço para uma preocupação mais controlada, o tipo que ela já conhecia bem demais, de acompanhar a irmã por batalhas que sempre cobravam um preço.


O caminho até a estalagem foi rápido, o segurança carregando a maior parte do peso, Carmine segurando as pernas de Lydianna com mais força do que imaginava ter, ofegante pelo esforço mas recusando qualquer ajuda extra.


Assim que chegaram ao quarto, deitaram-na com cuidado na cama, e foi só ali, vendo o peito da guerreira subir e descer regularmente, o rosto relaxado de quem só dormia um sono pesado demais, que o resto da tensão finalmente saiu do corpo de Carmine.


—Ok, ok, ela só precisa descansar, vamos limpar os ferimentos antes que ela acorde, assim quando abrir os olhos já vai estar tudo resolvido.


Lyzza já estava buscando o pano e a água na bacia do canto do quarto, os movimentos rápidos e treinados de quem tinha feito aquilo, cuidar da irmã — inúmeras vezes antes.


Foi só quando Lydianna gemeu baixinho, os olhos entreabrindo, ainda confusos, que Carmine soltou o ar que nem sabia estar segurando.


—Ei, você voltou! – a loira disse com um sorriso genuíno se formando, o alívio evidente na voz. —Assustou a gente aí, viu. Achei que ia ter que carregar seu corpo escada acima sozinha, e olha que eu não tenho os músculos para isso.


Lydianna piscou devagar, ainda desorientada, o corpo pesado demais para reagir com a irritação que normalmente teria.


—O que... aconteceu?


"Você desmaiou, de cansaço" – Lyzza sinalizou, tocando a própria testa e depois fazendo um gesto de queda com a mão.


—Ah. – Lydianna murmurou, fechando os olhos de novo por um momento, a vergonha chegando antes mesmo da dor física. —Ótimo, perfeito, muito digno da minha reputação de guerreira assustadora.


—Você ainda é assustadora. – Carmine garantiu, já puxando uma cadeira pra perto da cama, o tom voltando ao de sempre, leve e rápido. —Só que agora é uma assustadora que precisa de curativo.


O quarto da estalagem cheirava a ervas e pano fervido enquanto Lyzza, ajoelhada à frente da cama, começava a limpar os ferimentos da irmã, que não eram poucos, hematomas roxos se formando nas costelas, um corte ainda aberto na sobrancelha pingando fio fino de sangue e seu rosto estava com vários hematomas inclusive, seu único olho bom estava roxo e inchado.


Lydianna, sentada agora com esforço, a parte de cima nu exceto pelo top curto e apertado, encarava a parede à frente, a mandíbula travada, com os pensamentos longe daquele quarto, voltados para à arena, ao machado, ao momento em que poderia ter cravado a lâmina mais fundo, mais certeira, e simplesmente terminado ali mesmo, na frente de todos, sem esperar o sangramento fazer o trabalho sujo por ela.


Devia ter sido ela a matar, não a espera.


"Fica parada"


Lyzza sinalizou, pressionando um pano contra o corte da cintura.


—Eu tô parada. – Lydianna resmungou, a voz mais seca do que pretendia.


Lyzza ergueu uma sobrancelha, sem se abalar, e continuou o trabalho com a mesma paciência de sempre.


Carmine estava de pé perto da porta, os braços cruzados com força, os dedos afundados na própria manga, alternando entre olhar pro teto, para janela, para qualquer lugar que não fosse o corpo ferido e seminu de Lydianna.


—Vocês duas são loucas, sabiam? – ela falou, a voz mais alta e mais rápida do que o normal, tentando preencher o silêncio pesado do quarto. — Eu quase tive um troço lá na arena, viu? Meu coração ainda tá... – colocou a mão no peito, rindo sem graça — ainda tá lá em algum lugar da arquibancada, não voltou pro lugar certo ainda.


Lydianna não respondeu, os olhos ainda perdidos na parede.


—Ai! – ela resmungou quando Lyzza pressionou o pano num ponto mais fundo, bem ao lado da cicatriz antiga.


"Desculpa!" Lyzza sinalizou, sem parar.


—Você podia ser mais delicada. – Lydianna murmurou, com o corpo tenso, mais incomodada com a situação inteira do que com a dor em si.


Lyzza revirou os olhos, e fez um gesto rápido com a mão livre, um dedo apontando para própria testa, depois pra Lydianna. "Teimosa."


Carmine riu baixinho, apesar de tudo, e isso arrancou um olhar de Lydianna na direção dela, o primeiro em minutos.


—O que foi engraçado?


—Nada, nada, é só que – Carmine deu de ombros, um sorriso torto no rosto — vocês duas têm uma língua secreta inteira só de cara feia e dedo apontado, é meio incrível de assistir, tipo teatro de fantoches.


Lyzza, sem largar o pano, ergueu as duas mãos e fez um gesto exagerado de reverência teatral na direção de Carmine, uma pequena piada silenciosa, reconhecendo a comparação.


Carmine explodiu numa risada de verdade dessa vez, breve, mas genuína.


—Ela concordou comigo! Isso é uma vitória histórica, quero que conste em ata.


Lydianna, contra a própria vontade, sentiu o canto da boca querer se mover, mas segurou, os pensamentos ainda pesados demais para permitir aquilo.


Carmine deu um passo à frente, tentando ajudar, estendendo a mão em direção ao pote de ervas na mesinha ao lado mas parou no meio do caminho, os olhos passando, só por um instante, pelo sangue escorrendo pela lateral do corpo de Lydianna, pelo cheiro de sangue fresco que dominava o quarto pequeno e abafado.


Ela recuou a mão.


—Sabe, eu vou... eu vou ficar aqui. – disse, encostando as costas na parede, mais longe do que precisava estar. — Vocês duas parecem que já têm isso sob controle, eu só atrapalharia com meus dedos de atriz, não de curandeira.


Lyzza olhou de relance para ela, desconfiada da desculpa, mas não insistiu.


Carmine levou a própria mão até a boca, quase sem perceber o que fazia, e mordeu de leve a lateral do polegar, um gesto rápido, quase automático, os dentes fincando na pele, seu sangue escorreu um pouco


—Argh, cortei a unha errada de novo. – ela murmurou, sacudindo a mão, um sorriso forçado no rosto, como se aquilo justificasse o gesto.


Lydianna, mesmo cansada, ergueu uma sobrancelha na direção dela, a atenção finalmente puxada de volta pro presente.


—Você tá bem?


—Eu? Ótima! Maravilhosa! Nunca estive melhor. – Carmine respondeu rápido demais, ainda com o polegar entre os lábios por um segundo antes de forçar a mão para baixo, cruzando os braços de novo, os dedos apertando com força a própria manga do vestido. — É só... muito sangue, para uma tarde só, eu sou mais de sangue de mentirinha, sabe, tinta vermelha no palco, aquilo é bem mais fácil de lidar.


Lydianna a observou por um momento mais longo do que pretendia, algo naquele jeito de desviar o olhar, de recuar o corpo, de morder a própria mão para segurar algo, parecia familiar demais.


Não era medo de sangue, era outra coisa, era controle.


Ela reconhecia controle quando via, vivia disso havia meses.


—Você não precisa ficar, se for difícil; – Lydianna disse, a voz mais baixa agora, sem o tom seco de antes. — Sério, eu aguento.


Carmine piscou, surpresa com a consideração vinda justamente da pessoa mais fechada do quarto.


—Não, não, eu fico. – respondeu, mais quieta dessa vez, sem a energia performática de sempre. — Só... preciso de um minuto, ou uma janela aberta, ou os dois.


Lyzza, sem largar o pano ensanguentado, estendeu a mão livre e ofereceu um gesto simples para Carmine, os dedos batendo de leve contra o próprio peito, depois apontando para ela.


"Eu entendo."


Carmine engoliu em seco, entendendo o gesto mesmo sem saber os detalhes exatos por trás dele, e forçou um sorriso menor, mais verdadeiro que os anteriores.


—Vocês duas são estranhamente boas em me fazer sentir menos sozinha. – disse, baixinho, quase para si mesma.


Lydianna não respondeu, mas não desviou o olhar dessa vez, havia ali um reconhecimento silencioso entre as duas, nenhuma delas era inteiramente o que parecia ser, nenhuma tinha escolhido completamente aquilo que se tornara, e talvez fosse por isso que nenhuma das duas conseguia, ainda, olhar para outra com o mesmo distanciamento fácil que reservavam pro resto do mundo.


Lá fora, o sol já começava a descer mais rápido do que deveria, tingindo o céu de um laranja estranho, quase doente.


Lyzza se levantou, apontando para o pote de ervas quase vazio na mesinha e depois para a porta —Vai. – Lydianna assentiu. — A gente sobrevive aqui sem você por cinco minutos.


Lyzza deu uma piscada com seu olho, e obedeceu, pegando a cesta de panos sujos com uma mão e saindo, a porta se fechando atrás dela com um clique suave.


O silêncio que sobrou era diferente do que existia quando Lyzza estava ali, mais pesado, de um jeito estranho, como se o quarto tivesse ficado menor de repente.


Carmine ainda estava encostada na parede, os braços cruzados, os olhos evitando, por hábito, o corpo ferido de Lydianna.


Lydianna, por sua vez, olhava para própria mão, virando os dedos devagar, só para ter algo pra fazer que não fosse encarar o silêncio.


Passaram-se uns bons segundos assim, nenhuma das duas dizendo nada.


—Então. – Carmine finalmente quebrou o silêncio, a voz um tom mais baixo do que o normal, sem a energia de sempre.


— Você é bem musculousa né? – Carmine tentava puxar algum assunto.


Lydianna arqueou uma sobrancelha, sem dizer nada


Carmine deu um sorriso envergonhado, e depois de assunto, rapidamente — Mas aí, você enxerga mais com seu olho ou mais pelos sentidos ou pelo toque?


— Eu enxergo, pouco, mas o suficiente, meus outros sentidos ficaram mais aguçados quando eu perdi a visão de um olho, é por isso que na nossa linguagem de sinais, tem muitos gestos em que ela toca em mim... –Ela faz uma pausa, mexendo um pouco o canto da boca... — O toque é mais importante para mim, no começo foi bem difícil sabe?


— Eu imagino, sua irmã não fala, e você mal enxerga, mas a comunicação de vocês é deveras impressionante e fofo. –Ela dá um sorriso, ficando mais confortável no ambiente


— O que significa "fofo?". –A mulher perguntava, tentando entender a palavra


Carmine se levantou da cadeira em um susto


— OXE MULHER... fofo é tipo quando você vê um filhote de gatinho e você fica falando com voz de bebezinho para ele e fazendo carinho.


— Ah... entendi, fofo. –Ela testava a sonoridade da palavra


—Mas então, Marvin, hein.


Lydianna ergueu os olhos, confusa.


Lydianna — O quê?


Carmine — Marvin, lá na saída da arena.


Lydianna — Você estava espiando?


Carmine — Eu tava vindo te buscar, e vocês dois demoraram uma eternidade se cumprimentando feito nobres numa festa chique.


— Ele parece simpático. – Carmine continua.


Lydianna — É...


Carmine — Bonito, também.


Lydianna — Nunca reparei.


Lydianna balançou a cabeça, um meio-sorriso escapando


—Ele reconheceu que perdeu, e isso é raro no mundo dos homens. –Dessa vez, o sorriso dela foi bem genuíno


Carmine percebeu o sorriso, e apertou sua mão com força, um pequeno sentimento estranho palpitou nela naquele momento...


—Ah, eu sei, eu sei, isso é verdade, teve um cara que não gostou do fato de eu imitar um guerreiro sendo medroso em batalha, tipo, era só uma historinha cara!


Carmine fez uma pausa, mudando de assunto, seus dedos batendo de leve contra o próprio braço.


Lydianna a observou por um momento, o silêncio voltando, só que dessa vez menos pesado, mais como uma pausa natural


—Por que você fez aquilo? – Lydianna perguntou, de repente, a voz mais séria.


—Fiz o quê?


—Correu até mim, na arena, você nem hesitou.


Carmine ficou quieta por um segundo, os dedos parando de bater contra o braço.


—Você ia cair no chão de qualquer jeito – ela respondeu, tentando manter o tom leve. — Eu só decidi que preferia que caísse em cima de mim.


—Isso não responde minha pergunta.


Carmine suspirou, os ombros abaixando um pouco, a armadura de humor rachando só uma fresta.


—Eu não sei explicar direito, vi você desabar e simplesmente... corri.


—Não pensei. – Ela deu um risinho sem graça. — Deve ser instinto de palco, sabe, quando alguém esquece a fala e eu preciso improvisar rápido pra ninguém perceber que a peça quase desandou.


—Eu não sou uma peça de teatro, Carmine.


—Eu sei disso. – a voz de Carmine saiu mais baixa, mais sincera do que o normal, os olhos finalmente encontrando os de Lydianna e ficando ali, sem desviar dessa vez. — Acredite, eu sei muito bem disso.


O silêncio voltou, mas agora era outra coisa completamente mais quente, mais carregado, os olhos de Carmine ainda presos nos de Lydianna, como se estivesse tentando decifrar algo que nem ela mesma conseguia nomear direito.


Lydianna, sem saber muito bem o que fazer com aquele olhar, quebrou o contato primeiro, fingindo interesse renovado nos próprios dedos.


—Você é estranha. – ela murmurou.


—Eu prefiro "encantadoramente complicada" – Carmine respondeu, a voz recuperando um pouco da leveza de sempre, como se tivesse decidido, consigo mesma, recuar daquele momento antes que ele fosse longe demais. — Mas estranha também serve, eu aceito qualquer elogio disfarçado.


Lydianna revirou o único olho visível, mas não conseguiu esconder totalmente o pequeno sorriso que escapou.


Foi nesse momento que a porta se abriu, Lyzza entrando de volta com os braços cheios de panos limpos e um pequeno frasco de bandagens, olhando de uma para outra com uma curiosidade silenciosa, sentindo que tinha perdido alguma coisa importante enquanto estivera fora.


—Chegou na hora certa. – Carmine anunciou, a voz alta de novo, o momento anterior guardado rápido debaixo de energia performática. — Estávamos aqui discutindo os méritos relativos de guerreiros musculosos e sérios versus atrizes encantadoramente complicadas, empate técnico, no momento.


Lyzza olhou para Lydianna, erguendo uma sobrancelha questionadora.


Lydianna só balançou a cabeça, recusando-se a explicar, e estendeu o braço para que Lyzza continuasse o curativo de onde tinha parado.


O quarto tinha finalmente encontrado um tipo de paz, Lydianna estava deitada, com muitas partes do corpo enfaixado, sem mais sangue visível a não ser as manchas escuras já secas nas bandagens. Carmine, sentada na cadeira puxada para perto da cama, parecia mais à vontade agora, o olhar já não fugindo tanto do corpo curado da guerreira.


Foi então que o primeiro sino tocou.


Um som grave, distante, mas claro o suficiente pra cortar o silêncio da noite que começava a cair lá fora.


Carmine congelou.


—Isso é... – ela começou, a voz já perdendo a leveza de segundos atrás.


O segundo sino tocou, mais próximo dessa vez, seguido de um grito abafado vindo de algum lugar das ruas.


—Merda. – Carmine se levantou de um salto, os olhos arregalados, o corpo inteiro tenso de um jeito que Lydianna nunca tinha visto nela antes.


O terceiro sino tocou.


—Noite de sangue. – Carmine confirmou, quase sem voz, olhando pra janela como se pudesse ver através das paredes da estalagem até a barraca de tecidos, até a casa onde deveria estar sua mãe àquela hora.


Lyzza se levantou também, o corpo em alerta, os olhos indo de Carmine para a janela.


—Minha mãe. – Carmine murmurou, já se movendo em direção à porta, as mãos tremendo levemente enquanto ajustava o casaco nos ombros. — Ela tava na barraca até tarde hoje, tinha uma encomenda pra terminar, ela disse que viria embora antes do anoitecer mas–


Ela não terminou a frase, a respiração ficando mais curta.


—Fiquem aqui. – Carmine disse, virando-se para elas com uma urgência que não deixava espaço para discussão. — Sério. As duas, eu conheço os atalhos, eu sei onde ela costuma ficar, eu vou mais rápido sozinha.


Lydianna já estava se levantando da cama.


—Eu vou com você.


—Não, você não vai. – Carmine respondeu, quase brusca. — Você mal consegue ficar de pé, Lydianna, olha o estado que você tá.


—Eu fico de pé o suficiente para isso.


Lyzza se colocou entre as duas, de mãos erguidas, fazendo gestos rápidos e firmes, mais urgentes do que o normal, batendo a palma contra o próprio peito, depois empurrando o ar na direção da irmã, um gesto claro de "pare", "fique".


—Não. – Lydianna respondeu, a voz baixa mas irredutível.


Lyzza balançou a cabeça com força, se aproximando, agarrando o braço da irmã com as duas mãos, tentando impedi-la de se levantar de vez, os dedos apertando o tecido da manga.


"Não."


o gesto veio rápido, quase desesperado, batendo a mão contra o próprio peito e depois apontando pro corpo ferido de Lydianna.


"Você. Machucada."


—Eu sei que eu estou machucada, Lyzza.


"Então fica." – Lyzza insistiu, os olhos já úmidos, segurando com mais força ainda, o corpo inteiro tentando barrar fisicamente a passagem da irmã até a porta.


—Eu preciso ir. – Lydianna disse, e havia algo estranho na própria voz dela ao dizer aquilo, quase como se estivesse tentando se convencer tanto quanto convencer a irmã.


Carmine observava a cena, dividida entre a pressa de sair correndo e a confusão genuína diante da insistência de Lydianna.


—Por quê? – Carmine perguntou, a pergunta escapando antes que ela conseguisse segurar. — Por que você quer tanto ir? Você nem conhece minha mãe.


Lydianna abriu a boca para responder, e parou.


Porque a verdade é que ela não tinha certeza da resposta.


Não era só proteção, ela sabia dizer em voz alta, isso soava certo, nobre, do tipo de coisa que uma guerreira deveria sentir. Mas havia algo mais embaixo daquilo, algo que ela não conseguia nomear direito, um puxão estranho que vinha desde o momento em que ouviu o primeiro sino, uma vontade, quase uma urgência física, de estar lá fora, de encontrar o que quer que estivesse causando aqueles gritos.


Ela não sabia se era a promessa que fizera a si mesma de proteger as pessoas ao seu redor.


Ou se era só a sede de mais uma luta, disfarçada de nobreza.


E essa dúvida, mais do que qualquer coisa, foi o que a fez hesitar por um segundo — um segundo que Lyzza percebeu, o olhar da irmã cheio de uma pergunta que Lydianna não sabia responder nem pra si mesma.


—Eu preciso ir. – ela repetiu, mais para encerrar a própria dúvida do que qualquer outra coisa, se soltando gentilmente do aperto de Lyzza. — Fica aqui, ou vem comigo, mas eu vou.


Foi nesse momento que um som cortou o ar lá fora, algo grave, gutural, um rosnado estridente longo que ecoou pelas ruas estreitas de Umbriana, seguido do barulho de madeira se estilhaçando, uma porta ou uma barraca sendo derrubada.


Carmine empalideceu ainda mais.


—Isso... isso são bestiais. – ela sussurrou.


Lydianna já estava pegando a espada apoiada na parede, colocou seu casaco preto, e mesmo com o corpo dolorido protestando com cada movimento, seus olhos estavam fixos na porta agora, com a decisão tomada.


—Então é melhor irmos logo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.