Trevas de Sangue
3 𝑪𝒂𝒓𝒎𝒊𝒏𝒆
Algum tempo se passou desde que Lydianna e Lyzza estavam na cama juntas, Lyzza estava quase pegando no sono, enquanto sua irmã a fazia carinho cabelo
— Eu sempre vou te amar, não importa o que aconteça, você é mais importante. -Ela falava baixinho no ouvido de sua irmã, até que
Uma pessoa bate à porta, Lydia se levanta para abrir, acordando Lyzza, e vê a mesma moça que às serviu comida.
Mulher —Com licença — a mulher sorriu, gentil.
Mulher — Tem uma apresentação de teatro daqui a pouco na praça, dessa vez uma peça mais longa, muita gente de fora costuma gostar, é bom pra distrair antes da tarde de lutas amanhã. Se quiserem ir, vai começar logo, logo!
Lyzza olhou pra Lydianna, com os olhos pesados, porém com uma expectativa quieta nos olhos, algo que fazia tempo que Lydianna não via.
Lydianna —Tudo bem — a irmã mais nova respondeu
A praça estava ainda mais cheia do que de tarde, tochas por todo lado, o pequeno palco de madeira agora com um cenário improvisado de tecidos pintados representando um castelo torto.
Carmine, ainda com a maquiagem borrada de propósito, interpretava sozinha uns quatro personagens diferentes, mudando a voz e a postura de forma exagerada a cada troca, arrancando gargalhadas da plateia inteira.
Lyzza, ao lado de Lydianna, observava atenta, e em um momento particularmente ridículo
Carmine fingindo ser um rei arrogante que tropeça na própria capa, algo raro aconteceu: o canto da boca de Lyzza se ergueu, um sorriso pequeno, quase acidental, mas real.
Lydianna percebeu
A peça terminou em aplausos estrondosos, Carmine se curvando três vezes seguidas, cada vez mais exagerada que a anterior, até fingir desmaiar de tanto agradecer.
Ela levantou-se de um salto, procurou entre a multidão, e ao avistar as duas encapuzadas de novo, praticamente correu na direção delas, já com as mãos erguidas.
Carmine—VOCÊS VIERAM! Eu sabia! Eu VI vocês espiando de novo, e dessa vez eu tenho testemunhas, aquela senhora ali do chapéu roxo pode confirmar que eu apontei e disse "olha, são elas de novo"
Carmine parou pra respirar só um segundo, os olhos brilhando de energia, ainda com a maquiagem de palhaço parcialmente borrada pelo suor da apresentação.
— Então? O que acharam? Podem mentir se quiserem, mas eu vou saber que é mentira.
Lydianna — Foi engraçado — a mulher de cabelos brancos admitiu, ainda com o capuz meio abaixado, o rei tropeçando na capa três vezes seguidas foi exagero de propósito, imagino.
Carmine — Óbvio que foi de propósito! — Carmine levou a mão ao peito, fingindo ofensa.
Carmine — Eu ensaiei aquele tropeço com carinho e dedicação, cada queda tinha uma intenção artística diferente. A primeira era arrogância, a segunda era negação, a terceira já era puro desespero existencial. Isso é trabalho de atriz séria.
A garota de cabelos pretos ao lado ergueu as duas mãos e bateu palmas devagar, um gesto pequeno e silencioso de aplauso só pra Carmine ver.
Carmine parou, genuinamente surpresa por um segundo, antes de sorrir largo.
Carmine —Obrigada! Finalmente alguém reconhece meu gênio sem eu precisar implorar.
Ela então pareceu se dar conta de algo, e bateu a palma da mão na própria testa.
Carmine —Espera, eu tô aqui há dez minutos fazendo vocês duas de plateia particular e nem perguntei o nome de ninguém. Que falta de educação profissional gravíssima. Eu sou Carmine, atriz, contadora de histórias, vendedora de tecidos nas horas vagas, e general reconhecida da própria opinião.
Lydianna— Lydianna — ela respondeu, ainda meio cautelosa.
Carmine olhou pra garota ao lado, esperando.
A garota de cabelos pretos tocou o próprio peito com a palma da mão, e depois fez um pequeno gesto circular no ar.
Carmine inclinou a cabeça, confusa por um segundo, olhando de relance pra Lydianna
Lydianna — Lyzza — Lydianna completou por ela.
Carmine —Lydianna e Lyzza — Carmine repetiu, testando os dois nomes na boca, satisfeita, como se estivesse guardando-os em algum lugar importante.
Carmine — Combinam com vocês, tipo, de um jeito que eu não sei explicar, mas combinam.
Ela deu um passo pra trás, olhando as duas de cima a baixo com curiosidade nova.
Carmine— Vocês duas parecem cansadas de viagem e eu tô com fome. Deixa eu adivinhar, vocês também não comeram direito hoje?
Lydianna —Já comemos mais cedo
Carmine —Isso não impede de comer de novo. Vem, eu conheço a mesa boa daqui, longe da fumaça da lareira e perto o suficiente do balcão pra gente gritar por mais pão sem ter que levantar.
Sem esperar resposta, Carmine já estava caminhando de volta em direção à estalagem, gesticulando pra que as duas a seguissem.
Lydianna trocou um olhar rápido com Lyzza, que deu de ombros levemente, um gesto quase divertido, e as duas foram atrás.
Acomodaram-se em uma mesa de canto, mais afastada, enquanto Carmine já chamava uma moça por cima do ombro pedindo
"o pão bom, não aquele duro de ontem, e três canecas, uma com bastante água pra ela" — apontando pra Lyzza sem nem perguntar, como se já tivesse decidido cuidar das duas.
Foi só depois que o pão chegou, quente e fumegante, e Carmine partiu um pedaço com as mãos sem cerimônia nenhuma, que Lydianna aproveitou a pausa natural na conversa para perguntar o que realmente queria saber desde que chegaram à cidade.
Lydianna —Carmine, me diz uma coisa. Como funcionam as coisas aqui em Umbriana?
Carmine —Ah! Deixa eu te dar um mapa mental rápido, gratuito, cortesia da casa.
Carmine se ajeitou na cadeira, animada como se tivesse esperado a vida inteira por essa pergunta.
Carmine — Umbriana funciona em dois turnos, de dia, tudo é festa, comércio, luta, riso, sol gostoso, criancinhas fazendo bagunça. À noite... bem, à noite é mais complicado.
Lydianna —Complicado como?
Carmine —Tem coisas na noite que não são só escuridão bonitinha de poesia, sabe? ela baixou um pouco o tom, ainda sorrindo, mas com algo mais sério por trás.
Carmine — De vez em quando acontece o que o pessoal daqui chama de "noite de sangue". Ninguém sabe prever direito quando, é meio aleatório, mas quando acontece, é melhor estar trancado em casa com a porta benzida.
Lydianna —E o que acontece nessas noites?
—Coisas saem pra caçar de verdade. As criaturas que normalmente ficam nas sombras, comportadinhas, decidem que não querem mais ficar nas sombras.
Carmine deu de ombros
Carmine — É por isso que existem os caçadores, gente que faz disso profissão, viaja de cidade em cidade, aparece quando as coisas ficam feias, cobra caro, resolve o problema, some de novo.
Lydianna —Tem muitos por aqui?
Carmine —Bastante.
Carmine olhou de relance para a espada apoiada ao lado da cadeira de Lydianna, e sorriu, ela já tinha juntado as peças, mas não ia comentar em voz alta.
Foi nesse momento que o mundo, pro canto do olho de Lydianna, ganhou uma sombra roxa e distorcida
Bran, pousado no parapeito da janela da estalagem, os olhos violetas fixos em Carmine.
Bran —"Cuidado" — a voz distorcida do corvo se infiltrou na mente de Lydianna, arrastada, quase um sibilo.
Bran —"O sangue dela mente. Metade bate. Metade não."
Lydianna franziu levemente a testa, olhando de relance pra janela, depois de volta pra Carmine, que continuava falando animadamente sobre alguma história de um caçador que ela conheceu que usava um chapéu ridículo.
Bran —"Ela não é o que parece"
Bran —"Nem totalmente viva. Nem totalmente dos seus."
Lydianna apertou os dedos ao redor da caneca, os olhos avaliando Carmine com uma atenção nova, mais fria.
Lyzza, sentindo a mudança sutil no corpo da irmã, tocou de leve o braço dela por baixo da mesa. Um único gesto.
"Calma."
Carmine, bateu palmas uma vez.
Carmine —Enfim! Chega de papo sério, isso não é hora pra isso. Amanhã tem tarde de lutas, Lydianna vai mostrar serviço, e à noite tem mais festa.
Carmine — A vida é curta demais pra ficar séria o tempo todo, mesmo quando ela insiste em ser difícil.
Ela disse a última parte com um sorriso que durou um segundo a menos do que deveria.
A conversa seguiu mais leve depois disso, Carmine contando histórias absurdas sobre apresentações que deram errado, sobre a mãe dela reclamando que ela gastava tecido bom demais em fantasias, sobre um cliente da barraca que tentou pechinchar um casaco de pele oferecendo em troca "sorte", o que ela recusou educadamente.
Quando finalmente se despediram, já tarde, Carmine se levantou de um salto.
Carmine —Amanhã eu vou torcer por você, Lydianna. Bem alto, constrangedoramente alto, aviso desde já
Lydianna— Não duvido
Carmine acenou para Lyzza, que ergueu a mão de volta, um gesto pequeno, mas genuíno, antes de a garota loira sumir porta afora, ainda cantarolando alguma coisa desafinada.
De volta ao quarto, Lydianna tirou o casaco pesado, sentando-se na beira da cama, a espada apoiada contra a parede de novo. Ela retira o tapa olho, revelando a cicatriz em seu olho direito bem grande.
—Eu vi ele — ela disse, sem rodeios.
— O homem. Aquele que vendeu às informações de onde a gente morava… ele se inscreveu pra luta amanhã.
Lyzza parou de se ajeitar na própria cama, e fixou os olhos na irmã.
—Amanhã eu acabo com isso — Lydianna continuou, a voz baixa, mais pra si mesma do que pra Lyzza. — Um a menos.
Lyzza se aproximou devagar, sentando-se ao lado dela. Ficou em silêncio por um tempo, só olhando, antes de tocar o peito da própria irmã, depois o dela mesma, e por fim abrir as duas mãos, como quem solta algo.
"Deixa ir."
Lydianna balançou a cabeça.
—Não posso.
Lyzza insistiu, tocando o rosto da irmã com cuidado, obrigando-a a olhar nos olhos dela.
"Ele não traz ela de volta. Nada traz."
—Eu sei disso, Lyzza — a voz de Lydianna tremeu, pela primeira vez em muito tempo.
— Eu sei que a mamãe e ás meninas não voltam. Mas eu preciso que ele sinta, mesmo que só um pouco, o que a gente sentiu.
Lyzza segurou as duas mãos da irmã entre as suas, apertando com força, seus olhos vazios, começavam a se encher de lágrimas, que não caem.
"E depois? Quando acabar? Ainda vai sobrar você?"
Lydianna abriu a boca para responder, e foi então que o corpo dela travou — um espasmo repentino, os olhos arregalados, a respiração ficando presa na garganta.
As bordas roxas da visão do corvo começaram a se infiltrar, sem que ela tivesse chamado por elas.
—"NÃO." — a voz de Bran veio mais forte do que nunca, quase violenta dentro da mente dela.
Bran —"Você não desiste. A dívida ainda existe. Morte se paga com vida. Sempre foi assim. Sempre será."
Lydianna arfou, uma mão na própria cabeça, o espasmo passando devagar, deixando-a ofegante e suada, como acordar de um pesadelo estando ainda acordada, seu nariz estava sangrando…
“Lydianna?”
Lyzza segurou o rosto dela, o pânico visível mesmo sem palavras.
—Eu tô bem — Lydianna murmurou, ainda tremendo de leve.
— Só... cansaço.
Lyzza não pareceu acreditar completamente, mas não insistiu, apenas puxou a irmã para perto, os braços em volta dela, e Lydianna, pela primeira vez em muito tempo, se deixou ser abraçada sem enrijecer o corpo.
O que ela não disse, o que ela guardou só pra si, junto com o peso gelado que Bran tinha acabado de deixar em seu peito era que a dívida não terminava com a morte do homem, nem da última vítima que ainda estava por vir.
Terminava com a dela mesma.
E ela preferia que Lyzza acreditasse, até o último dia possível, que havia um mundo onde as duas ainda envelheceriam juntas.
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