Trevas de Sangue
5 𝐎 𝐩𝐞𝐬𝐨 𝐝𝐨 𝐚𝐜̧𝐨
O caos se instalou no primeiro segundo, o rugido da plateia misturado com os sons de espadas se batendo umas nas outras, um barulho estridente. A guerreira foi indo para trás, procurando alguém, até que dois guerreiros se aproximaram, vendo ela recuar em meio ao caos.
Era Marvin, que avançou direto sobre ela, junto de outro guerreiro mais baixo, os dois claramente decidindo que ela era o alvo mais fácil.
Lydianna só tinha olhos para um homem, Mellus, que estava um pouco atrás deles, aquele que estava em sua lista , mas antes de chegar até ele precisava passar pelos dois que já vinham em sua direção.
O primeiro golpe veio alto, um corte de cima pra baixo, previsível.
Lydianna desviou com um passo lateral rápido, girando o corpo, e usou o próprio impulso do adversário contra ele, um golpe seco na lateral das costelas, o som de metal contra couro reforçado, seguido de um gemido de dor. O homem cambaleou.
O homem mais baixo veio por trás, tentando pegá-la desprevenida.
Lydianna sentiu o movimento antes mesmo de ouvir. Ela girou, bloqueou o golpe com a lâmina, e num movimento contínuo, desarmou o homem com um giro de pulso preciso, chutando a espada dele para longe.
—ELA DESARMOU ELE! — alguém gritou nas arquibancadas, a surpresa geral.
Carmine, ao lado de Lyzza, deu um pulo, gritando com as duas mãos em concha ao redor da boca:
Carmine — ISSO AÍ, LYDIANNA! MOSTRA SERVIÇO!
Lyzza apenas observava, tensa, as mãos apertadas uma na outra.
Lydianna finalizou o primeiro homem com um golpe certeiro no ombro, a lâmina achatada, não cortante, o suficiente para derrubá-lo com dor mas não para matá-lo.
Regras da arena, ela sabia bem: humilhar, não assassinar, guardava a morte de verdade para outro alvo.
Marvin, ainda se recuperando do ataque nas costelas, tentou se levantar, mas um segundo golpe de Lydianna, agora certeiro na nuca com o cabo da espada, o derrubou de vez.
Lydianna —Acho que você que se enganou, aqui não é lugar para dormir, homem.
Ele fechou os olhos, gemendo de dor.
Dois guerreiros no chão, restavam quatro na arena.
Foi então que Lydianna viu do outro lado da arena, avançando com passos pesados e calculados, um homem grande, de barba grisalha grossa e ombros largos como tronco de árvore, um machado de duas mãos apoiado no ombro.
O mesmo homem que ela reconheceu pelos olhos de Bran na noite anterior.
Mellus.
Ele avançava com facilidade, o machado descia em golpes largos que espantavam qualquer adversário que se aproximasse, derrubando um arqueiro com um só movimento, o corpo do homem sendo lançado para longe pela força bruta.
Os olhos de Lydianna e Mellus se encontraram através da arena, e algo nela travou, reconhecimento puro e cru.
Ele riu, um som grosso e satisfeito.
Mellus — Vem, garota, vamos ver do que você é feita!
Mas entre eles ainda restavam dois guerreiros
Um com escudo pesado, avançando cauteloso, e outro empunhando duas adagas curtas, rápido e ágil.
Lydianna precisava passar por eles primeiro.
O do escudo veio de frente, tentando empurrá-la para trás com a força bruta do peso.
Lydianna não recuou e em vez disso, avançou contra o próprio escudo, usando uma força sobre-humana, o impacto derrubou o homem, surpreso com a resistência que não devia existir naquele corpo aparentemente franzino.
—COMO?? -ele dizia, desesperado.
O das adagas aproveitou a distração, atacando por trás com rapidez, cortando as costas de Lydianna, que por sorte teve a maior parte do ataque coberta pelo casaco reforçado.
Ela sentiu a dor, quente e imediata, mas não parou.
Girou o corpo, segurou o pulso do homem antes do segundo golpe, e com um movimento brusco, fechou a distância entre eles, o cotovelo dela acertando o rosto dele com força suficiente para derrubá-lo de vez.
Lydianna — Atacar alguém por trás? Que vergonha!
— Tá se achando né, garota? EU VOU TE MOSTRAR O QUE É SER UM GUERREIRO DE VERDADE! -uma voz rouca e grave gritava em direção a ela.
Quando ela se virou, era Mellus.
A plateia inteira gritava agora, o nome dele ecoando junto com apostas gritadas, enquanto Carmine, nas arquibancadas, apertava o braço de Lyzza sem perceber, com os olhos grudados na arena.
Ele avançou primeiro, usou toda sua força em uma machadada fatal.
Lydianna desviou por pouco, sentindo o vento cortante do golpe passar perto do rosto. O impacto do machado no chão da arena ergueu terra e poeira.
Mellus —Rápida. –já preparando o próximo golpe.
Mellus — Mas rapidez não segura tudo.
Lydianna apertou a espada com mais força.
E de repente, num ato que até assustou o grande homem à sua frente, a mulher gritou com todo o ar preso em seus pulmões:
Lydianna —VOCÊ SE LEMBRA DE MIM?
Lydianna —SEU MALDITO, VOCÊ SE LEMBRA DO QUE VOCÊ FEZ?
Mellus —O quê? O que você tá dizendo? Tá louca?
Ela avançou, atacando o flanco dele, a lâmina buscando as brechas da armadura pesada.
Mellus bloqueou com o cabo do machado, o choque de metal ecoando, e contra-atacou com um chute brutal que a acertou no estômago, jogando-a para trás, o ar escapou dos seus pulmões com violência.
Ela caiu no chão lamacento, cuspiu sangue.
—AH! –Carmine gritou nas arquibancadas, tapando a boca com as duas mãos.
Lydianna tirou o tapa-olho do rosto, revelando o olho direito, marcado por um corte parecido com uma lâmina e cicatrizes de queimadura ao redor. Depois, rapidamente, retirou a armadura superior do corpo, revelando parte da cintura e barriga — usava uma regata curta e apertada, e na barriga havia uma grande cicatriz, assustadora, atravessando de um lado a outro, um pouco acima da cintura.
Lydianna — Você é o culpado dessa cicatriz, SEU MERDA!
Mellus não escondeu a cara de surpresa. Lembrou do dia em que contou para as criaturas da noite onde algumas mulheres que trabalhavam para as trevas moravam, em troca de moedas de prata.
Lembrou de ver o vizinho carregando o corpo de uma garota, uma espada enfiada na barriga dela.
Mellus — Você?
Lydianna — Agora... eu vou retribuir o favor.
Mellus — EU VOU TERMINAR O QUE ELES COMEÇARAM, SUA VAGABUNDA!
Lydianna rolou pelo chão, e se levantou mais rápido, cuspindo um fio de sangue pelo canto da boca.
Mellus gritou de raiva, avançando com outro golpe bruto.
Dessa vez Lydianna não desviou, ela segurou o impacto direto na lâmina, os braços tremendo com a força do choque, os pés escorregando na terra da arena, mas segurou.
Mellus — COMO VOCÊ SEGUROU ESSE ATAQUE? –ele gritou, empurrando o peso do golpe contra ela.
Lydianna —Você às matou. Não foi você quem empunhou as armas, mas foi você que às matou.
Mellus — Era vocês ou eu! O que eu podia fazer?
Lydianna —Olha o seu tamanho, VOCÊ TINHA COMO SE DEFENDER! Como camponesas se defenderiam daquilo?
Ela, com a espada, empurrou o machado até fincá-lo no chão, deu um soco no rosto do homem, e atacou o antebraço dele com um corte rápido.
Mellus grunhiu de dor, recuando um passo, olhando o próprio braço sangrando.
Mellus — Você é rápida demais para ser normal –ele disse, com os olhos estreitando. —O que você é? Eu vi você morrer!
Lydianna —Você viu uma inocente morrer. –ela respondeu, avançando de novo, a voz agora trêmula e chorosa.
— Eu não sou nada, agora, por sua culpa.
A confusão nos olhos dele durou só um segundo antes do próximo golpe, e a luta se intensificou, com trocas rápidas de ataques. Mellus, agora sem o machado, ainda tinha força suficiente para fazer seus socos machucarem mais do que espadas.
Em um momento da luta que já se estendia, ele conseguiu derrubá-la, e começou a socar a guerreira com toda sua força, o barulho dos golpes podendo ser ouvido pela plateia inteira.
Carmine — NÃO, NÃO! EI, CARA, VOCÊ VAI MATAR ELA! — A garota gritava
Mellus — Você vai voltar pra onde nunca deveria ter saído, para debaixo da terra, sua puta maldita.
Ele a puxou pelo cabelo, que nesse momento já não era mais um rabo de cavalo, e esfregando o rosto de Lydia pelo chão, a levou para perto do machado.
Pegou o machado, olhou para a arquibancada, e deu um grito de vitória.
Lyzza e Carmine estavam de pé, assustadas com o que viam, enquanto a plateia ao redor rugia de aplausos e comemoração.
Carmine estava com as mãos na boca, ela olhou em direção a Lyzza, que tinha uma feição apreensiva, mas algo no olhar dela entregava:
Ainda não tinha acabado.
Com o rosto já completamente ensanguentado, a cada vez que puxava o ar para respirar, o pulmão parecia perfurado por uma dor equivalente a centenas de lâminas, ela tossia sangue.
Qualquer um já teria morrido naquele momento.
Mas ela já estava morta.
Um grasnar se ouviu, junto de uma batida de asas acima da arena.
A mulher, que parecia lentamente aceitar a derrota, de repente arfou e tossiu mais sangue.
Seu olho brilhou num tom de violeta.
Ela se levantou, ainda fraca, e avançou sobre Mellus, tentando tirar o machado das mãos dele.
Mellus — O QUÊ? AINDA NÃO DESISTE? –ele falava em tom de deboche, mas ligeiramente preocupado.
Lydianna — Ele me agarrou pelo pescoço.
Ela colocou uma das mãos ensanguentadas no pescoço do homem, agora com uma força muito maior do que antes.
Mellus — O-o quê? Q-que f-força... argh... p-put...
Ela apertou com mais força.
Lydianna — Ele puxou a espada da minha mão.
Com a mão que ainda disputava o machado, puxou-o para si com facilidade, e numa velocidade impressionante,
cravou o machado na lateral do abdômen do homem, logo abaixo da armadura, no ponto exato onde o couro protetor era mais fino.
Lydianna — E encravou em mim.
Um silêncio momentâneo tomou conta da arena.
Mellus arregalou os olhos, caindo com um baque surdo assim que ela o soltou.
Cambaleou para trás, a mão indo até o ferimento, sangue escorrendo por entre os dedos grossos.
Lydianna pegou a espada de volta. Ele olhava pra ela com uma mistura de raiva e confusão.
— Você... -ele engasgou, o sangue já subindo pela garganta. -Eu... não...
E então caiu no chão, com uma mão se arrastava para trás tentando se afastar dela.
Lydianna se abaixou levemente, seguindo-o devagar, e falou baixo, só o suficiente para que apenas ele escutasse, a voz rouca, baixa e fria.
Lydianna — Você contou a eles onde minha família morava...por moedas de prata.
De seus olhos caíam lágrimas, porém não de tristeza e sim de raiva.
—A-aquela noite... –ele sussurrou, mal conseguindo falar.
—Aquela noite. –ela confirmou.
O ferimento não era fatal por si só.
Um homem forte, com os cuidados certos, talvez sobrevivesse, mas Lydianna sabia, com uma certeza fria que vinha de algum lugar além dela mesma, exatamente onde tinha cravado a lâmina, exatamente quanto tempo o corpo dele tinha antes que o sangramento interno fizesse o resto do trabalho por ela.
Ela não precisava dar o golpe final.
Só precisava não impedir o que já estava em curso.
Lydianna — Alguém venha ajudar! –ela disse, se levantando, a voz alta o suficiente agora para a plateia ouvir, encenando a piedade que o momento exigia.
— Eu não mato homens desarmados.
A plateia explodiu em aplausos, gritando o nome dela, satisfeitos com a demonstração de "honra" da vencedora.
Carmine — BOAAAAAA, EU SABIA, EU SABIA QUE SERIA FACINHO PRA ELA!
Carmine continuava gritando.
Olhou para Lyzza, que tinha uma expressão aliviada, e puxou a garota pelo braço, levando-a em direção à arena, de onde Lydia estava saindo, bem machucada.
Curandeiros da arena correram até Mellus, tentando estancar o sangramento, gritando por panos e ervas.
Mas Lydianna já sabia, que aquele homem não veria o pôr do sol daquele dia.
Ela tinha cumprido a promessa que fizera a si mesma.
Um a menos.
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