Trem E Portal
1 Capítulo 1
Numa manhã fria de 1930, sabemos que nada acontecerá por acaso. Por trás de pequenas atitudes cotidianas, há um caos para ser instaurado. Vergonha. Essas pessoas, conspiradores, jamais poderão ser chamados de filhos. As ruas calmas da cidade que acabara de ser pavimentada com paralelepípedos segue sua rotina.
O trem continua subindo e descendo o morro, com centenas e centenas de pessoas ebtrando e saindo, cada uma com sua história.
Desce um homem misterioso, singelo, com sua capa e sua mala de mão, couro. Tudo novo. O homem segue até o arco de concreto que separa uma realidade da outra. Avista a cidade.
Anoitece. Um prédio localizado no centro da tal cidade tem tudo o que é necessário para causar o estopim de uma guerra generalizada.
Em minha casa, todos adormecem. Eu não. Já tentei, mas não posso por algum motivo que não sei. Quando vou para a sala, vejo que a porta tem um espaco significativo até o chão. Isso nao teria sido um problema se eu nao percebesse o homem vindo em sua direção. Quer dizer, eu não sabia que era um homem, mas sentia. Uma pessoa tenta ouvir a movimentação da casa. Como não a ouve, agacha e começa a passar a mão por debaixo dessa porta. Medo. Pânico. Impotência. Eu queria muito chamar meu pai, mas não consigo sair do lugar. Insatisfeito, o homem sai da porta. Ainda adsim nao sinto alivio.
Um predio à minha direita recebe este homem. Térreo. Indecoroso. Não aceita não como resposta. Muito agitado, ele bate na parede. Uma guerra vai começar. Alguns andares acima, onde um bebê dorme tranquilamente, percebe os tremores causados pelo impacto do soco na parede dado pelo homem. A estrutura é abalada de tal forma que o prédio implode. O estopim? Um isqueiro que caiu no chão. Daqueles, tipicos de 1930, que quando se abrem, liberam um gás praticante inofensivo.
Foco no relógio. Tic. Tac. Alguns segundos se passaram. Explode o apartamento e o bebê se vai, juntamente com sua família. Pessoas tentam escapar, mas não adianta. Esse era o momento escolhido para iniciar a guerra. Pessoas correndo pelas ruas, fogo, labaredas, bombas e desespero eram as únicas coisas que podiam ser vistas nas ruas que naquela manhã foram tão pacatas.
Em minha casa, aprontamos nossas malas. Todas de mão e couro, como as típicas de 1930. Nossos cabelos e roupas, característicos de 1925, ajeitados. Não iríamos viajar. O nome disso é fuga. Iriam atrás de nos, era questão de tempo. Não deveríamos estar ali. Ou aqui. Ou lá. Deveríamos atravessa o outro lado. Medo. Pânico. Coração acelerado. Lágrimas nos olhos, presas, pois não deveriam estar ali. Ou aqui. Ou em qualquer lugar. Deveria, em seu lugar, haver determinação para a fuga. O homem está vindo com uma arma atrás de nós, totalmente alheio ao caos das ruas, que antes foram pacatas. Ele nos vê e tenta se comunicar conosco. Atravessamos o outro lado. Morte.
No outro lado, na estação. Vejo um dia lindo. Um riacho passa por detrás do trem, localizado num lindo monte. Uma mulher, feliz, aponta para o trem e diz: "Vamos!". Eu vou. Estou feliz e aliviada. Atravessamos o outro lado.
Dentro de meu sonho eu acordo. Como sempre, vou contar o sonho doido que tive para minha mãe. Sento em sua cama e lhe conto detalhes, sem citar necessariamente que tive medo é que ainda o estava sentindo. A porta continua com o vão enorme até o chão, mas provavelmente aquilo sempre fora assim e eu nunca notei. Um homem se aproxima da porta. Medo. Aviso meu pai que alguém se aproximava. Olhamos por debaixo da porta e a mesma mão passava por ali, procurando algo que não sei.
Meu pai se levanta com muito ódio e pisa na mão do sujeito, que grita, também com ódio, jurando voltar. O homem pega sua mala de couro. Vai embora.
Acordo.
Continuo com medo, mesmo após escrever o sonho. Coração acelerado. Adrenalina. Estou em guerra? Socorro.
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