Trem 101-099
1 Capítulo Único
Passei pela roleta do metrô e desci as escadas o mais rápido que podia para não perder o trem que acabara de parar. Consegui entrar, empurrando muita gente. Acho que foi o trem mais lotado que já entrei (e olha que já peguei muito trem na minha vida). O trem começou a andar, a minha estação era a última, então faltavam quase vinte estações até eu chegar ao meu destino. Como você deve saber, a viagem era das longas. As oito primeiras estações eu passei em pé, mas eu consegui um lugar perto de um homem. Ele estava todo de preto: usava um chapéu que cobria seus olhos, um casaco até os joelhos com as golas cobrindo o rosto, calça e sapatos sociais. Perguntei-me se ele estaria indo para um funeral... Enfim, ainda faltavam muitas estações, então resolvi dormir um pouco.
Acordei com uma pancada na cabeça no assento da frente. A pancada foi forte o suficiente para me deixar a visão embaçada por alguns segundos. Passei a mão na testa e vi que estava sangrando. Olhei em volta e toda aquela gente que vi quando entrei no trem, tinha sumido. Olhei pela janela, estava tudo escuro do lado de fora, não conseguia ver em que estação estava. Tentei abrir as portas, sem sucesso. De repente, as luzes se apagaram e, não sei como, mas no outro vagão, vi um rosto. Um rosto azul marinho, com uma cicatriz no lado esquerdo do rosto, mas o que mais me assuntou foram as órbitas dos olhos vazias.
As luzes se acenderam novamente, e então eu vi uma criança sentada no chão, dormindo. Ela vestia as mesmas roupas do homem de preto, o que eu havia sentado do lado. Mas eram exatamente as mesmas roupas, digo, eram do mesmo tamanho. Andei até a criança, queria saber quem ela era; desde que acordei pensei que fosse a única naquele trem. Mas assim que toquei na criança, ela acordou e olhou diretamente pra mim, os olhos azuis muito claros, quase transparentes.Ela se levantou e começou a gritar, mas ela gritou tão alto que os vidros das janelas se quebraram. Os olhos da criança se viraram, ficaram totalmente brancos e ela foi se rasgando, como se fosse feita de papel molhado.
Dela saiu aquele homem, estava com a roupa preta, mas dessa vez o chapéu não cobria os olhos, e eu conseguia ver muito bem o rosto dele. E para eu ficar mais apavorada (se é que possível) era o mesmo rosto que eu vi no outro vagão, quando as luzes se apagaram. O rosto azul, com a cicatriz e as órbitas vazias. O grito estridente da criança se transformou em uma risada, uma risada má, com um som horrível como o de unhas arranhando um quadro-negro.
Qualquer pessoa normal correria, mas eu fiquei parada lá. O homem (se você sequer pode chamar alguém com a cara azul de ser humano) foi andando na minha direção, e eu queria correr, mas as minhas pernas pareciam não obedecer aos meus comandos.
Ele enfiou a mão dentro do casaco e tirou de lá uma faca. Por um milagre eu consegui correr. Corri até o final do vagão onde tinha uma porta. Tentei abrir. Nada. Então olhei para trás e, pra quem tava querendo matar alguém, estava andando na minha direção, e me aparentava calma... eu acho. Tentei abrir a porta novamente, em vão. Desesperada, chutei a porta com toda a minha força. Ela abriu e vi que não tinha mais nada depois da porta.
Tarde demais, eu já havia caído.
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