Treinados para Escuridão
9 Não sou só eu
Notas iniciais
P.D.V MILENA
Já era a terceira vez que alguém chegava perto do nosso ´´grupinho´´ para saber sobre Joca, Enzo repetiu o que disse aos outros, que era só uma virose, e logo ele iria voltar e blá blá blá.
Estávamos todos na aula de educação física, sempre foi uma das minhas aulas favoritas. Não que eu não gostasse de estudar com lápis e papel, é que as vezes eu preferia só....não estudar... Era ótimo parar e não ter forçar minha mente para tentar encontrar algum tipo de enigma como na aula de interpretação, as vezes eu tinha a impressão que a professora simplesmente inventava aqueles montes de significados por trás dos textos. Sorri um pouco com esse pensamento, imaginando e virei um pouco a cabeça pegando sol no rosto, era dia de testes, então o professor deixava quem já tinha terminado ficar de bobeira, eu estava sentada sobre uma mesa com os pés em cima da cadeira à minha frente, tinham sempre mesas e cadeiras do lado de fora da quadra, em geral elas só eram postas ali quando havia jogos, mas acho que depois de um tempo os funcionários simplesmente se zangaram e as deixaram ali de vez. Enzo estava recostado na parede com o quadril encostando na cadeira de Rose, que fazia o possível para parecer que não se importava, Luenne e Carlos jogavam cartas no chão, os dois encostados na grade da quadra.
Todos tentando pegar o máximo de sol possível, não era exatamente constante a chuva na nossa cidade, mas quando acontecia a cidade ficava tão escura e fria que e me arrependia por todas as vezes que reclamei do calor. Nossa quadra era coberta mas fora dela, onde estávamos, o sol deslizava livremente nos rostos animados dos jovens.
Ouvi um ofegar se aproximar de mim e abri os olhos virando o rosto na direção do som, Berlinda se apoiava na mesa em que eu estava sentada e puxava com força o ar
M: Tá tudo bem?
B: Uhum...só... um minuto
M: Ok, pelo visto hoje você pagou por todas as aulas de que fugiu,né?!
Ela me olhou feio antes de bater nos meus pés para tira-los de cima da cadeira que queria sentar.
M: Cadê Inara?!
B: Ela fugiu durante um tempão, mas o Inácio percebeu e não deixou ela escapar, deve estar nas abdominais até agora...
Eu ri só de imaginar, Inara era do tipo que só se exercitava mudando o canal da tv, isso se o controle estivesse perto.
B: Ei, por que o Joca tá faltando tanto? E ouvi dizer que ele está com uma doença contagiosa, não é nada grave, tipo ebola ou algo tipo né?!
Olhei para Berlinda perplexa por um momento e desatei a rir.
RO: Meu Deus, que explosão do nada foi essa de ti, menina?! Perguntou Rose
Tentei explicar o motivo mas ainda ria demais para isso, levantei a mão, pedindo para ela esperar.
L: Que explicação maravilhosa, Milena. Luenne ironizou
M: Berlinda escutou sobre Joca e perguntou se ele tava com ebola
Quatro pares de olhos focaram na Berlinda e seguindo meu exemplo, começaram a rir.
E: Meu Deus, ninguém disse nada sobre ebola, porque sempre que falam em doença automaticamente pensam nisso? Enzo perguntou revirando os olhos, o sorriso ainda nos lábios.
B: E como eu ia saber? Até agora vocês só riram e ninguém me disse nada sobre Joca.
C: Ele tá com uma virose, só isso, ele saiu numa tarde pra fazer sei lá o que, e quando voltou não estava se sentindo bem, foi pro hospital mas não descobriram nada de grave, só mais uma daquelas viroses temporárias. Carlos explicou
RO: Por falar nisso, não era para durar 72 horas?! Hoje já é o quarto dia, quer dizer, quase uma semana faltando a escola....
E: Ele deve estar abatido ainda e tenho certeza que nem se lembra da escola nesse estado.
B: Bom, fico feliz que não seja nada grave então...
L: Não se preocupa, qualquer sinal suspeito e colocamos ele em quarentena.
Luenne disse arrancando novas risadas.
B: Mas esse tipo de coisa não é contagiosa? De quem será que ele pegou isso?
M: Berlinda, relaxa.. Eu disse revirando os olhos
C: Não Milena, ela está certa, qualquer lugar pode ser infectado por essa doença maligna....
RO: Para de assustar a menina, Carlos. Rose ralhou
E: Ah, mas ele não tá mentindo, a escola pode até ser o principal foco da virose misteriosa, sabia?! Enzo arregalava os olhos numa imitação de horror
B: A escola? É claro que não...você tá mentindo
L: Bom, tecnicamente é uma possibilidade já que a escola foi o último lugar que ele visitou antes de se sentir mal. Luenne disse calmamente baixando as cartas que estavam nas suas mãos em um só movimento.
C: Você tá roubando...não é possível.
As meninas riram, mas outra coisa tinha prendido minha atenção
M: Espera... A escola foi o último lugar em que ele esteve? Mas o Carlos não disse que ele saiu?
C: Sim, ele veio pra cá..pro tal grupo....EU VI ESSA CARTA ESCONDIDA NO SEU CASACO, LUENNE!!!
RO: Ah, o tal grupo de reforço?!
E: Foi o que ele disse. Respondeu Enzo
Parei por um momento, Joca tinha estado com o Pedro, provavelmente sozinho com ele e sumiu por quatro dias... mas Enzo tinha falado com ele, ele devia estar bem... não é?!
B: Por favor, digam que estão brincando...
O comentário de Berlinda me trouxe de volta a realidade. Tentando parecer casual perguntei a Enzo:
M: Quando você falou com ele mesmo, Enzo?!
E: Só ontem, nos outros dias falei só com a mãe dele, pelo visto ele tava derrubado mesmo e pra completar o celular dele quebrou então a gente demorou a se falar
M: Ah...entendi. A gente podia sabe...visitar ele né?! Dar uma força...
C: Eu e o Enzo estávamos mesmo pensando em ir lá hoje, vocês podem ir também
RO: Eu tenho curso hoje, mandem melhoras por mim.
L: Eu vou, ele perdeu uma aposta para mim e ainda não pagou, pode ir comigo se quiser, Milena.
M: Fechado.
Berlinda balbuciou que não tinha tempo e saiu antes de esclarecer, nós rimos dela e escutamos o apito do professor, que reunia todos no centro da quadra, desci da mesa e fui até lá.
***
Já era possível ouvir as risadas do lado de fora da porta, bati enquanto Luenne se despedia do pai, que nos levara até ali. As risadas diminuíram um pouco e eu ouvi passos rápidos até a porta, a cara do Carlos surgiu na brecha da porta
C: Qual é a senha?
L: Sai da frente que eu tô passando. Luenne disse revirando os olhos
C: Resposta errada.
Mas mesmo assim abre a porta para nos deixar passar.
M: Como tá o doente? Perguntei tentando afastar os pensamentos que insistiam em uma ligação entre essa virose e a tarde com o Pedro.
C: Tá bem, nem parece que estava doente.
Ele fechou a porta e tomou a frente, nos guiando para o quarto do Joca, nós entramos e ele se encontrava sentado na cama, o cabelo escuro bagunçado e o rosto um pouco mais pálido que o normal, mas fora isso parecia bem. Joca estava com os braços magros afastando Enzo que usava uma máscara e tinha em suas mãos uma tesoura, não pareceram perceber nossa chegada, até que o flash da câmara do celular de Luenne disparou.
Todos a olharam enquanto ela guardava o celular de volta na maior calma.
L: Pra guardar de lembrança. Ela sorriu com uma falsa inocência
Carlos desatou a rir junto comigo, Joca parecia constrangido e rapidamente se endireitou na cama enquanto Enzo tirava a máscara.
E: Você não fez isso...
M: Olha Enzo, todos temos fetiches, o primeiro passo é assumir.
E: Ha há, muito engraçado, apaga isso aí vai...
L: Mas NUNCA, eu prefiro pegar essa tal virose.
J: Você tá dizendo isso agora.
M: Falando nisso, vocês não deviam estar oferecendo conforto ao doente invés de brincar de assassino da tesoura?
J: É pra você ver o tipo de amigos que eu tenho.
C: Ah, deixa de reclamar. Carlos se esticou na cama
Eu e Luenne sentamos na ponta.
L: Então, totalmente curado?
J: Por aí, é uma sensação estranha, já que nos últimos dias eu me sentia quase que flutuando.
M: Que tipo de erva colocaram no teu remédio mesmo?!
Ele revirou os olhos
J: É sério...Ele me olhou
J: Quase como...se eu estivesse em outro lugar e aqui também...não sei
L: Ô Joca, você explicar teve uma virose e não uma experiência extracorpórea
Os meninos riram, mas eu estava paralisada no olhar do Joca, lembrando que eu mesma já tinha sentido aquilo, só uma vez... Foi no primeiro, de agora regulares, sonhos estranhos, ele descreveu exatamente como me senti quando sonhei com a garota ruiva. Como se eu só observasse, como se de certa forma eu estivesse lá...Como se só...flutuasse...
Joca desviou os olhos dos meus, e empurrou Enzo da cama o fazendo cair já rindo no chão, balancei a cabeça afastando os pensamentos, passei a mão nos braços pra disfarçar os pelos arrepiados e engrossei o coro de risadas deles com a minha.
Passamos a tarde toda brincando e conversando, de vez enquanto a mãe do Joca ligava para um dos meninos para saber como o filho estava.
Eu evitei pensar sobre o Pedro aquela tarde, eu deixaria minhas teorias para depois, afinal, apesar de tudo, coincidências podem acontecer e e estava totalmente convencida disso e teria acreditado fielmente nisso se tudo tivesse continuado daquele jeito, mas em meio a piadas constrangedoras e lágrimas de riso, algo...mudou. Foi como um piscar de olhos, num minuto estávamos inclinados sobre o jogo de detetive e o outro um arrepio corre a minha espinha e tudo escurece, olho pra cima, a luz da lâmpada volta e tremeluz nos nossos rostos, fracamente acesa por dois segundos e depois volta com força total como se nunca tivesse falhado.
M: O que foi isso?
C: Foi o som de um assassino sendo preso! Essa eu vou ganhar.
J: O que?
Eu que ainda olhava para cima baixei o olhar para eles, todos estavam na mesma posição, inclinados para o jogo, nem um centímetro de diferença, mas...só eu achei isso estranho e ninguém mais?
L: Ô Joca para de olhar pro teto e joga!!!
Olhei pro Joca, ele parecia confuso...Não, era além disso, ele parecia esperar por algo, apreensivo, olhou para nós e engoliu em seco antes de desistir do jogo e falar que estava cansado.
C: MAS EU IA GANHAR!
E: Dá um desconto, o cara tá doente.
L: Só tá dizendo isso porque ia perder
E: Mas é claro. Enzo riu
Um leve vibrar fez Luenne puxar o celular e depois guarda-lo de novo.
L: Tá tudo lindo, mas meu pai já chegou, vamos Milena?!
Eu olhei para ela ainda tentando entender tudo o que tinha acontecido, e me levantei junto dela, automaticamente imitando-a.
J: Milena?
Virei rapidamente
M: Sim?
J: Você ia esquecendo. Joca estendeu meu celular que estava na cama.
M: Ah, obrigada.
Quando, no entanto, eu pego o celular de sua mão, senti um papel entre meus dedos e o celular, o encarei só por dois segundos mas foi o bastante para entender que era algo que os outros não deviam saber. Guardei discretamente o papel junto com o celular no bolso da calça jeans.
Dessa vez foi Enzo que nos levou até a porta, o pai de Luenne já nos esperava na porta, dentro do carro, nós entramos e ele deu a partida.
L: Tá bem?!
M: Claro, por que?
L: Tá calada...
Dei ombros, ela suspirou e afivelou o cinto, eu sabia que ela não ia mais insistir, Luenne só perguntava uma vez.
Discretamente tirei o papel do bolso e vi a caligrafia usual do Joca, um pouco mais desajeitada que o normal, era um simples bilhete e ele só dizia:
´´Eu também vi´´
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