Treinados para Escuridão
10 Então...Virose?
Notas iniciais
P.D.V PEDRO
Não foi difícil de achar, a tal rua, os moradores mais próximos ligaram para os bombeiros, temendo um possível incêndio depois de os postes de luz “explodirem”. Os bombeiros examinaram e não sabiam a razão do acontecido, declararam que por ser uma rua mais velha, os postes também não eram mais tão resistentes e que um possível curto pode ter feito as lâmpadas não aguentarem, a história apareceu no jornal local, mas nada que realmente impressionasse a população.
Eu estava na ponta da calçada observando discretamente os postes já restaurados. Fechei meus olhos tocando o mais próximo e respirei fundo...devagar pude ver....sombras rápidas pelo telhado, passos apressados na calçada, as sombras tentam alcançar o dono dos passos apressados e sobrevoam o primeiro poste, a luz da lâmpada se intensifica, o vidro começa a rachar, a base treme, luz explode dentro do vidro que se estilhaça num baque agudo e sacode cacos pelo chão.
Abro os olhos rapidamente e solto uma respiração pesada, olho para cima e vejo o atual poste impecável, contrastando com o que vi segundos atrás. Ia me virar para ir embora quando eu a vi, ela andava devagar, olhando fixamente para cima, ficou abaixo no poste mais longe de mim, na outra ponta da calçada e parecia perdida em pensamentos, senti minhas sobrancelhas arquearem de incredulidade enquanto via a cena.
P: Só pode ser brincadeira. Eu disse andando rumo a ela.
Ela nem pareceu sentir minha aproximação, meu Deus, matá-la seria fácil como respirar nessa situação
P: Milena. Chamei com força
Seus olhos desviaram para mim, e seus olhos só se arregalavam a cada passo que eu dava, ela olhou de um lado para outro e se virou como se fosse correr, nem realmente acreditei que ela cogitava essa hipótese.
P: Milena...você não vai realmente correr né, sabe que eu já vi você.
Isso a fez virar-se lentamente na minha direção.
M: O..O que tá fazendo aqui?
P: Eu é que pergunto.
M: Mas eu perguntei primeiro. Ela diz empinando o queixo
P: Ah, você perguntou primeiro, que legal, quantos anos têm? 10?
Ela me olhou e suspirou
M: Olha ...eu só ...queria fazer uma coisa
P: Aposto que é uma coisa que eu pedi para não fazer.
M: Bom, pode ser por aí.
P: Milena, por que é que você é tão teimosa? Só tinha três coisas que pedi para você não fazer, não andar só, não voltar para cá e não ficar parada em lugares onde coisas estranhas aconteceram e você conseguiu fazer as TRÊS COISAS EM UM MESMO DIA.
M: Você esqueceu sobre agir discretamente, por que não é nada mas acho que se alguém passar e ver um cara me dando um sermão no meio da rua vai ter a possibilidade de chamar atenção....
P: E uma garota olhando fixamente para um poste que estourou dias atrás não vai chamar nadinha de atenção.
M: Mas o sermão no meio da rua chama mais...
Respirei fundo, tentando me acalmar, então soltei um suspiro e perguntei
P: Por que você está aqui, Milena?
M: NÃO. Sua voz falou firmemente em alto tom.
P: O que?
Fiquei mais surpreso com o tom de voz do que com a palavra proferida.
M: Eu não tenho que te dizer, você não me diz nada. Só fica mandando metáforas e aparecendo como louco por aí, se você não me diz ... então eu vou descobrir só.
P: Aqui que você pretende achar respostas? Onde pedaços de vidro de um poste quase furara o seu crânio?
M: Exatamente. Onde mais?!
P: Olha Milena, eu já disse....
M: Eu sei o que você disse, o que não disse é me preocupa. Você vive tentando me fazer acreditar que todo lugar é perigoso, mas aí você sempre aparece nesses lugares e eu tenho a sincera impressão que não devo realmente me preocupar com perigo, não é? Eu quero e vou me arriscar se for preciso para descobrir o que é TUDO isso.
P: Esse assunto é terreno perigoso, Milena. Ela bufou de um jeito teimoso.
Abri a boca para falar mais alguma coisa quando vi seus olhos, brilhavam de raiva e quase transbordavam em lágrimas, inconscientemente dei um passo para trás, não esperava por isso naquele momento.
M: Sabia que Joca tá doente?! Ela continuou como se estivéssemos em uma conversa casual.
M: Ele disse que é uma virose, mas sinceramente não acredito muito nisso, e sabe pior acho que ele também não.
Eu engoli seco, então ela já tinha notado, reprimi o sorriso que vinha aos meus lábios.
P: Não sei o que isso tem a ver comigo. Eu disse calmamente
Ela me encarou por um momento como se fosse dizer alguma coisa mas desistiu, suspirou, limpou a solitária lágrima que tinha caído do seu rosto e balançou a cabeça como se tivesse cansada.
M: Tá, tanto faz, não preciso que você me diga, eu vou descobrir
Sorri internamente, talvez a teimosia dela não fosse de todo ruim.
P: Milena, me escuta só uma vez, vá para casa, já está escurecendo.
Milena me olhou por dois segundos e virou de costas mas antes de começar a andar disse
M: Você tem um problema sério com escuro, né?!
Eu não respondi e ela não se virou.
M: Sem resposta como sempre.
Ela começou a andar e resmungava pra si mesma, revirei os olhos quando ouvi algo sobre aprender uma lição, a acompanhei com os olhos até virar a esquina.
Depois de um suspiro pesado, esfreguei a nuca e lancei o olhar para o telhado de uma das casas ao meu lado direito.
P: Sei que está aí, Agatha.
A: É claro que sabe. Ela respondeu e mesmo sem ver sabia que ela revirava os olhos.
P: O quanto você ouviu?!
A: Cheguei na parte do “vá pra casa, não fique só, lobo mau já vem blá blá blá”
P: Muito engraçado. Eu senti ela pular para o meu lado na calçada.
A: Viu como ela parece já querer desistir? Essa garota não vai durar nem dois dias.
P: Pena que você não pegou a conversa toda, se atrasou pulando de telhado em telhado por aí?!
A: É quase um insulto ouvir isso, sou mais discreta que você, professor. Ela disse a última palavra com deboche.
P: Não é verdade, nem se fosse seria motivo.
A: Primeiro; para de bancar o líder por que a gente tá junto nessa, segundo; eu com certeza sou mais discreta e terceiro; não muda de assunto. Pedro, por favor esquece essa ideia, ainda dá tempo, eles não são a solução, já temos jovens entre nós.
P: Se esses jovens fossem a solução já estaríamos em paz, você acha que estamos? De verdade?
Ela franziu os lábios.
P: Precisamos fazer isso...
Me afastei alguns passou dela, corri rapidamente, peguei impulso em uma árvore próxima e me icei para cima, os pés chegaram primeiro no telhado e o tronco acompanhou o movimento meio segundo depois.
A: E a história de se manter discreto, hein?! Gritou Agatha lá de baixo.
P.D.V. MILENA
De novo na frente de casa, de novo sem saber se entro ou não, suspirei alto enquanto colocava a mão no portão, não queria entrar em casa, não queria sorrir forçadamente e depois encher a cabeça de qualquer matéria, não conseguiria fazer isso. Quase uma hora antes, o pai de Luenne me deixou na porta e foi embora, esperei ele sair de vista para dar meia volta e ir pra rua, sentia que tinha que caminhar ou iria acabar enlouquecendo, acabei parando perto da rua que foi alvo dos meus mais recentes pesadelos, já que estava tão perto fui até lá, Pedro como sempre surgiu do nada por lá e eu sem humor pra lidar com ele acabei falando demais e agora que meu bom senso estava quase todo de volta eu rezava para que ele não se vingasse na minha nota de química. Suspiro.
Abri a porta de uma vez, tranquei e fui rapidamente para meu quarto sem pensar, por sorte ninguém me interceptou no caminho, tomei um banho rápido e me joguei na cama esperando que a dor de cabeça que tinha me inquietado a tarde toda aliviasse um pouco. Devagar meus olhos pesaram e não pude nem quis lutar contra eles.
Não sei por quanto tempo dormi, ou que horas eram quando acordei, só sei que estava escuro e que meus olhos ardiam, os pressionei com minhas mãos mas eles só arderam mais, tentei me levantar e acender a luz mas tropecei no breu e cai de lado no chão, minha cabeça então voltou a doer e latejava, eu a segurei com as duas mãos.
M: Meu Deus, socorro. Sussurrei em desespero.
As pontadas aumentaram, eu suava frio e cada pontada era mais aguda e me fazia tremer, minha respiração estava ofegante, alguns minutos depois a intensidade da dor diminuiu e um som surgiu no fundo da minha mente e aos poucos ela aumentava, pude reconhecer sussurros que se tornaram vozes definidas depois de alguns segundos, vozes que eu conhecia.... Primeiro a da Ray “Você viu o professor novo? Sinistro”, depois ouvi a da Rose “Por que só você e o Joca foram chamados? Nunca saí da linha das boas notas”, gemi quando mais pontadas atingiram minha cabeça acompanhadas da voz de Joca “o que foi isso na sua testa?” e finalmente a voz do Pedro... “Ouvi sua conversa com o Joca sobre coragem”, “Tenho um grupo de estudos”, “Você precisa entender sozinha”. Arfei com a força das lembranças e me encolhi no chão, ouvi então a minha própria voz perguntando “O que te faz pensar que eu faria parte de algo assim?” e de novo a voz segura do Pedro: “seus olhos, Milena”. Meu nome ecoou naquela voz e parou dando fim as alfinetadas de dor na minha cabeça, meus olhos ainda lagrimejavam, ardidos. Continuei deitada no chão, ouvindo o eco das vozes na minha cabeça, eu não entendia direito o que estava acontecendo mas sabia que era importante, lembrei então da última coisa que ouvi, meus olhos...meus olhos... Tenho que vê-los, me arrastei até sentir com as mãos a base do espelho e me apoiei na parede para levantar meu rosto até ele, não consegui ver meu reflexo completo na escuridão que estava o quarto, mas vi duas bolas brilhantes azuis nele, paralisei por um minuto até entender....meus olhos, gritei de susto e voltei ao chão.
Depois disso não lembro de muita coisa, só que o chão parecia confortável o suficiente e que a inconsciência me puxava com força.
***
Escuro... está tudo tão escuro, tão escuro de novo.... Um brilho laranja atravessa rápido, minha visão periférica vê o risco que ele deixa na escuridão, um segundo risco passa pelo meu outro lado, como uma espécie de estrela cadente, me viro várias vezes quando eles começam a me rodear tentando acompanhar o trajeto deles, eles passam cada vez mais rápido até que colidem a minha esquerda formando uma cortina laranja...não…cortina não.... Cabelo...mechas brilhantes de um ruivo bonito dançavam e lentamente, a dona do rosto se virava na minha direção, eu a reconheci na mesma hora, era a menina que apareceu no primeiro dos meus sonhos, o da casa queimada. Ela sorriu brevemente para mim e sua voz melodiosa disse:
— Cuide dos seus olhos, Milena. Esse dom é só seu agora.
Antes que eu pudesse perguntar, seus cabelos brilharam e voltaram a ser riscos laranjas na escuridão, passavam por mim cada vez mais rápidos como faíscas, pararam à minha frente por um segundo e foram de encontro com meu rosto. Gritei no vazio, mãos no alto tentando proteger meu rosto.
Passados alguns segundos, espiei por entre os dedos, estava em meu quarto, as luzes tinham sumido, a única luz vinha da fresta da porta entreaberta, respirei fundo assimilando devagar tudo o que tinha acontecido e senti a umidade na testa, era um pano molhado, tinha acabado de tira-lo quando minha mãe entrou e abriu a porta iluminando o quarto inteiro, ela estava com uma expressão preocupada até que viu meus olhos abertos.
H: Ah, você acordou finalmente. Ela me abraçou apertado e suspirou de alívio.
M: Mãe, o que aconteceu?
H: Não se preocupe querida, o médico disse que logo vai melhorar.
M: Médico? Mas eu...tô doente?
H: Nada demais, o que me assustou foi o jeito que encontrei você, jogada no chão. Mas ele disse que está sendo muito comum esses ataques de virose.
M: VIROSE? Repeti abismada
H: É só temporária, querida. Ela sorriu pra mim
Me joguei de volta nos travesseiros gemendo
No que eu fui me meter?!!
Fale com o autor