Treacherous
3 The Students Of Forks
Notas iniciais
Eu não sabia muito bem como reagir quando estava sendo encarada. Sabia bem que algumas pessoas sentiam-se completamente desconfortáveis e se envergonhavam por isso, enquanto outras adoravam ser o centro dessas fúteis atenções. Não era como se eles estivessem esperando que eu tivesse uma reação quando paravam o que quer que estivessem fazendo apenas para encarar-me com seus curiosos olhares; eu nunca havia visto um olhar ser tão transparente quanto quando alguém estava tentando absorver o máximo de informações sobre você apenas pela aparência. Quem encararia com afinco um estranho se estivesse buscando uma reação? Não, eles não ligavam a mínima para como eu me sentia.
Talvez, apenas talvez, eles nem estivessem me olhando. Era apenas um reflexo natural dos adolescentes olharem quem estava chegando em um novo recinto, ver quem estaria invadindo o seu espaço, porém, eu não conseguiria inventar tamanhas ilusões. Era apenas mórbida curiosidade. E não tinha exatamente como culpá-los, estaria fazendo o mesmo na situação deles.
Repeti mentalmente o que havia dito a Ezra alguns minutos mais cedo. Deveria ser o meu cabelo que chamava tanta atenção, era extremamente incomum estilos diferentes serem percebidos como normais em cidades pequenas, era uma piada recorrente quando se morava em capitais. E reconhecer essas pequenas diferenças de mentalidade era apenas uma das vantagens de estar sempre se mudando; era como estar acima da mentalidade de massa.
Alguns minutos atravessando Forks High School, com Ezra fielmente ao meu lado, eu entendi que teria que simplesmente aceitar que meu irmão estava com a razão — nada de novo sob o sol novamente -. As pessoas de Forks não sabiam como reagir naturalmente a novidade. Comecei a pensar em quando e quem quebraria a barreira da primeira impressão e viria falar comigo ou com Ezra como pessoas civilizadas, ao invés de apenas encarar. Talvez o meu temperamento não aguentasse até o final do dia e eu seria obrigada a começar uma conversa. Estava apostando na última opção. E a risada ao meu lado significava que meu irmão também.
Para uma escola tão pequena, eles certamente tinham corredores infinitos. Ou assim pareceu naquele momento. Nós atravessamos até o outro extremo do prédio para entrar em nossa primeira aula, Inglês, com um professor chamado Senhor Berty. Não era um bom começo, ao menos para mim, não era uma matéria que prendesse a minha atenção ou que me fizesse importar, a não ser que o professor tivesse aptidão para o seu trabalho e me fizesse prestar atenção. Em minha experiência, não era sempre que as duas coisas andavam concomitantemente. Mas eu estava disposta a entrar sem preconceitos, a dar uma chance, foi isso que eu havia prometido a mim mesma ontem à noite, afinal.
— Nós somos o freak show. — Ezra comentou com um sorriso zombeteiro quando chegamos à porta da sala, parando em frente a ela. Alguns alunos passaram por nós e por estarmos tão prontos, os olhares ficavam ainda mais explícitos, mas mesmo assim eles não conseguiam evitar. Os irmãos Kingsleys eram figuras muito atrativas para não serem encarados. Eu pensei em como Nolan e Andy estavam, se o mesmo estava acontecendo com eles e como eles estavam lidando, nenhum era muito propenso a entrar em brigas, mas será? Era a minha própria curiosidade mórbida sendo atiçada.
— Você e seus comentários não requisitados. — Retorqui, mas estava sorrindo também. Era como se estivéssemos compartilhando nossa própria piada interna, rindo da nossa platéia ao mesmo tempo que nos apresentávamos.
Eu fiz sinal para entrarmos de uma vez, e assim o fizemos. A sala era pequena e não havia nada especial ou memorável, o branco era a principal cor, nas paredes, nas bancadas, e não tinha nada que se destacasse, nenhuma inventividade. Atrás da porta tinham alguns ganchos onde as pessoas estavam pendurando seus casacos, Ezra pendurou o seu, mas eu mantive meu cardigã vestido. Não me importava em continuar com ele e sabia que se eu o colocasse ali, era mais provável que eu esquecesse de pegar de volta. Alguns alunos já estavam sentados, ainda nos encarando. E o professor também, um homem miúdo, pálido careca e comum.
Ezra entregou os nossos papéis para ele, que era necessário levar de volta para a secretária ao fim do dia com as assinaturas dos professores e depois fomos nos sentar, eu indiquei as cadeiras do meio da sala e ele revirou os olhos. Antes de começar a aula, entretanto, o Senhor Berty se aproximou de nós.
— Nós já começamos um trabalho sobre um dos clássicos, O Grande Gatsby para quinta, eles tiveram duas semanas para entregar, mas tenho certeza que vocês conseguem nos acompanhar. — Falou, ele tinha uma voz calma mesmo que estivesse nos passando uma atividade completamente injusta. Talvez minha relação com Inglês não melhorasse naquela escola. — Algo simples, uma análise completa da obra. —
Eu imediatamente olhei em pânico para Ezra implorando ajuda e ele riu baixo, mas assentiu, sem precisar que eu expressasse em palavras o que eu estava querendo que ele fizesse. Eu lembraria de no nosso próximo aniversário agradecer por todas as atividades acadêmicas que meu irmão havia feito por mim, era uma outra vantagem de ter um gêmeo.
( ... )
Algumas aulas se passaram na mesma monotonia, eu ainda estava esperando o momento que alguém tivesse coragem o suficiente para iniciar uma conversa e quebrar o meu tédio. No final do terceiro período de aulas entediantes eu já estava cansada de soltar gracinhas sobre Forks com Ezra; e ele já estava também porque me ignorava cada vez mais quando eu tentava chamar a sua atenção durante a aula de Biologia. Estava até me arrependendo de não ter insistido junto à ele na discussão sobre estudar em casa; horas da minha vida poderiam ter sido melhor aproveitadas.
A aula de Trigonometria foi o mais próximo de algo interessante que havia acontecido e mesmo assim foi apenas no começo. Senhor Varner havia sido o único professor com curiosidade — ou crueldade — o suficiente para nos obrigar a fazer uma apresentação antes de começar a aula. Empurrei Ezra na minha frente para que ele fosse primeiro, e não me decepcionou quando fez um discurso rápido, com palavras bonitas, apresentando o básico de si. Ezra Kingsley, 17 anos, artista nas horas vagas e amante de todas as matérias. Eu estava até interessada nisso pois significava gastar minutos preciosos de uma matéria que eu odiava, então quando foi a minha vez, Senhor Varner teve que me interromper e forçar-me a sair da frente da sala antes que eu contasse todos os pontos turísticos americanos que eu já visitei.
Foi apenas no final da aula de Trigonometria, que algo chamou a minha atenção. Alguém derrubou um lápis próximo a mim e o barulho me tirou dos devaneios que eu não deveria estar tendo enquanto o Senhor Varner explicava Lei dos Senos. Uma garota sentada ao meu lado procurava o que ela havia deixado cair, então eu me estiquei, peguei o lápis estampado e coloquei em sua mesa. Poderia ter parado por aí e voltado a fazer nada, mas eu precisava de um pouco de interação.
— Olá, eu sou Diana Kingsley. — Sussurrei, sorrindo educadamente para ela. A garota pareceu um pouco surpresa por eu estar falando com ela, mas também ligeiramente lisonjeada. A garota tinha cabelos loiros bem claros, lisos talvez não naturalmente e bem longos, olhos verdes e estava bem arrumada para os padrões de Forks. Seus brincos grandes de pedras brilharam quando ela virou para falar comigo.
— Eu sei. Todo mundo sabe. Eu sou Lauren Mallory. — Ela respondeu rápido, olhando de soslaio apenas para o quadro e para o Senhor Varner, conferindo se ele ainda tinha sua total atenção na aula que estava dando. Aparentemente, Lauren também não estava muito interessada porque pude ver que ela respondia mensagens de texto em seu celular.
— Eu estou entediada. Como ele consegue fazer cinquenta minutos parecerem cinquenta horas? — Comentei, ainda sussurrando. Detestaria ser pega por aquele professor, conhecia bastante o padrão de rigidez e que ele mal podia esperar para utilizar um aluno como exemplo para toda a turma.
— Um gostinho do Senhor Varner para você. — Ela riu com deboche. — Homem insuportável. —
Eu não podia concordar mais. E havia apenas o aguentado por — olhei o horário no meu celular — exata meia hora. Nesse ano Trigonometria superaria qualquer outra matéria entediante.
— Só para que eu não dê mole. Ele cobra atividade? — Perguntei, de soslaio, observando enquanto a equação se tornava cada vez mais gigantesca e eu cada vez mais desinteressada.
— Muita. Parece até que não tem mais nada para fazer. — Ela bufou, olhando rapidamente algo no celular.
Nós conversamos algumas bobagens aleatórias durante o resto da aula, entre pausas para que Senhor Varner não nos pegasse, nem qualquer colega ao lado reclamasse o suficiente para chamar a sua atenção. Acabei a aula sem nem saber se ele havia requerido alguma atividade, mas julguei que descobriria em casa com Ezra. Ao final da aula, pensei que ela não iria nem se despedir de mim, mas quando Ezra veio ficar ao meu lado, ela rapidamente perguntou se nós gostaríamos de sentar junto com ela e seus amigos no refeitório. Eu tinha suspeitas da motivação por trás desse pedido, mas a acompanhei ainda assim, não tinha outra opção melhor.
( ... )
Depois de pegarmos algumas besteiras para almoçar, Lauren então nos levou para uma mesa no centro do refeitório, onde um pequeno grupo de adolescentes já estavam sentados, conversando animadamente entre si, mas curiosamente eles olhavam para uma outra mesa, todos eles olhando na mesma direção, à distância, não tinha nada em suas aparências para ser analisado. Eram exatamente como eu imaginei que adolescentes de Forks pareceriam, eu até tinha a impressão que algum deles estava em alguma aula minha mais cedo, eu apenas não me importava em lembrar qual era.
— Pessoal, esses são Ezra e Diana Kingsley. — Anunciou quando chegamos, alto o suficiente para todos no canto da mesa escutarem através do barulho usual de um refeitório. Eu não apreciei ser apresentada por último, eu que havia começado a conversar com ela, mas não comentei nada. Ela tinha um sorriso aberto e convencido nos lábios, parecia satisfeita por ser a responsável por nos apresentar ao grupo, iniciar os novatos àquelas pessoas e se desse certo, isto é, se nós nos déssemos bem com a maioria, ela teria o poder de se gabar sobre isso no futuro.
— Esses são Mike, Angela, Jessica, Tyler e Eric. — Ela apontou rapidamente para cada um enquanto anunciava seus nomes, como se não fosse algo que precisássemos nos preocupar com isso.
Eles sorriram simpáticos, alguns até ligeiramente animados demais, e nos aceitaram em sua mesa. E, sorrindo de volta porque não havia motivo para não o fazer, eu sentei no final da mesa, Ezra ao meu lado e Lauren se afastou um pouco, sentando perto do rapaz mais alto, mas ainda mantendo seus olhos verdes afiados em nós. Eu ainda não havia conseguido interpretar corretamente o que ela pensava em nos arrastar debaixo da sua asa, mas novamente, não comentei, ainda. Para a surpresa de ninguém, viramos logo o tema das inquisições. O garoto mais próximo a mim, sentado na ponta foi o primeiro a virar-se quase por completo na minha direção, ele era loiro, tão claro quanto os cabelos de Lauren, olhos claros, mas as suas feições eram infantis demais para serem atraentes, ao menos no meu julgamento.
— Não sei se já fizeram isso, mas, hã…— Ele parou, decidindo o que falar enquanto passava a mão no cabelo subconscientemente. — Bem-vinda, bem-vindos, à Forks. —
Estranhamente não era isso que eu esperava ouvir quando queria conversar com alguém mais cedo. Quase esperei que ele tirasse do bolso algum panfleto turístico da cidade, mas ele não o fez, então eu só assenti, sorrindo um pouco embaraçada, por ele, com a situação.
— Alguns tentaram, eu acho. Mas eles só conseguiam encarar. — Comentei.
— De onde vocês são? — Perguntou a garota sentada exatamente a minha frente. Ela era um pouco baixinha, especialmente porque sua amiga do lado era a mais alta do grupo, com cabelos encaracolados e volumosos e olhos azuis bem largos; embora ninguém os acusaria de serem expressivos como os meus eram. Ela não parecia ríspida de propósito, apenas curiosa.
Olhei para Ezra ao meu lado, perguntando sem palavras se ele gostaria de tomar as rédeas de uma conversa assim, ou deixaria mesmo para mim. Ele apenas deu de ombros, provavelmente a mente ainda focada na equação que deixamos para trás. Algumas frases vieram em minha cabeça e eu mordi o meu sanduíche antes de responder.
— São sempre as mesmas perguntas ‘de onde vocês são’? — Comentei, solenemente, porém na iminência de cair em uma gargalhada que meus novos colegas provavelmente não achariam engraçado também. Ezra entrou na brincadeira.
— 'Por que se mudaram?’ — Estávamos os dois na iminência agora.
— ‘Por que Forks?’ As respostas são: Seattle. Nossos pais gostam de se mudar frequentemente. Forks é um nome bonitinho e nós estávamos no estado. Nada de especial. — Terminei mordendo novamente o meu sanduíche. Nossos colegas ficaram meio hesitantes com as leves provocações, mas eu sorri novamente.
— Eu estava apenas brincando. — Afirmei, encostando meus cotovelos sobre a mesa buscando um apoio. Isso os fez relaxar um pouco.
— Bem, obrigada por nos convidar Lauren. Foi um prazer conhecer todos vocês. — Sempre à minha espreita, Ezra assumiu seu papel de interventor. Ele tinha um tom de voz que fazia as garotas replicarem a mesma expressão de Lauren e funcionou com as outras duas, Angela e Jessica, que dedicaram toda a sua atenção a ele. Eu assenti fielmente, fazendo de suas palavras as minhas.
— Relaxa. Bem, a gente meio que precisava de uma substituta. Você só acrescenta mais que a outra. — Replicou ela, acidez em sua voz. A minha curiosidade só foi atiçada porque não era direcionada à nós, mas à uma terça parte que não estava presente em nossa conversa.
Abri a minha boca para questionar, mas a garota Jessica saiu tão rapidamente de um aparente estupor que seus cachos balançaram quando ela virou-se para Lauren, estava apenas esperando uma deixa para vocalizar seus pensamentos, poderia supor.
— Ainda não sei o que ele quer com ela. Ela simplesmente abandonou a gente. Tarefa de biologia uma merda. — Seu olhar se voltou para algo além de mim e o de todos acompanharam quase como se houvessem sido programados. Lutei por alguns milésimos de segundos com a minha curiosidade, tentando justificar que seria muita audácia eu virar-me 180 graus apenas para saciá-la, mas eventualmente, perdi contra mim mesma e virei o meu tronco, procurando o que eles tanto estavam falando.
Algumas mesas depois, ainda no pequeno e apertado refeitório em que estávamos, dois jovens ocupavam sozinhos uma mesa. Estavam distantes demais para eu poder guardar detalhes de suas feições, mas era uma garota e um garoto. Ele era absurdamente bonito à distância, tinha cabelos arruivados, era pálido e vestia-se bem, pelo que eu conhecia do estilo masculino e poderia julgar, ela era igualmente pálida e tinha cabelos longos e escuros. Eles conversavam sem parar, mas além disso nada saltava ao meu olhar Uma cena completamente ordinária. Eu não entendia o seu contexto escandaloso ou tinha expectativas demais.
— Ele parece estar brigando com ela. Se continuar assim eu vou intervir. — Ao meu lado, Mike falou, mas meu cérebro sequer registrou essa pequena atitude, pois toda a minha atenção estava voltada para outros sujeitos. Sem ter a intenção, eu acabei olhando por toda a cafeteria ainda imersa aos meus pensamentos, até meus olhos se fixarem em outras figuras sentadas do outro lado do refeitório.
Eles estavam sentados tão graciosamente nas desconfortáveis cadeiras de plástico que eu ajeitei a minha própria coluna por instinto. Eram quatro, em uma simetria perfeita. Curiosamente, eles tinham semelhanças, a palidez, o porte, os olhos dourados e singulares. Eram dois garotos e duas garotas. Suas feições eram bem mais nítidas pela proximidade, mas acho que mesmo se não estivessem eu poderia atestar que eles quatro eram injustamente belos. Um dos garotos era grande em todos os sentidos, alto, parrudo, de cabelos castanhos, mas uma face juvenil que combinava muito mais do que combinava com o comum Mike, ao seu lado estava uma loira, igualmente perfeita. Ela era o que meus pais categorizavam como beleza tão pura que se tornava inacreditável e, por consequência indescritível.
As outras duas figuras, por algum motivo, eram mais cativantes. A garota era pequena, proporcional e assemelhava-se a uma fadinha de desenho animado, sua pele clara era um contraste com o cabelo curto, estiloso e repicado, ela era elegante sem sequer se esforçar. O último rapaz era uma rapsódia por si só, e foi nele que meu olhar mais se reteu, não saberia explicar o porquê. Ele estava de perfil, o rosto anguloso e pálido perfeitamente alinhado com seus cabelos cor de mel que iam até a nuca e um físico perfeito, não tão parrudo quanto o seu colega de mesa, não tão magro como Ezra era. Talvez ele ocupasse o lugar da garota loira como a perfeição indescritível.
A garota miúda foi a única que esboçou qualquer reação, ela girou o seu corpo na nossa exata direção, os olhos dourados encravados nos meus, confusos, antes de caírem para a minha esquerda. Ela abriu um brilhante sorriso, um sorriso enigmático, mas não havia sido para mim. Era para aquele diretamente ao meu lado que também havia seguido a linha dos meus olhos e estava encarando os jovens deslumbrantes, Ezra. Não sabia se deveria sentir-me lisonjeada ou importunada por aquela rápida interação; afinal, ela nos pegou encarando quando obviamente deveria ser o contrário.
Não se passou muito tempo até eu decidir que já havia encarado demais depois de todas as minhas divagações mais cedo, seria o cúmulo da ironia continuar com esse comportamento. Ao desviar meu olhar, esbarrei levemente o meu ombro com o de Ezra para que ele fizesse o mesmo. Olhei confusa para eles que ainda estavam discutindo o mesmo tópico, cada um com uma reação antagônica, Jessica notou que eu não estava a par do assunto e tratou logo de saltar para a explicação.
— Ele está falando de Bella Swan. Ela costumava sentar com a gente, mas acho que não somos tão legais quanto Edward Cullen. —Agora assim sua voz refletia sua rispidez. Eu não era especialista em drama feminino de colegial, mal conseguia solucionar os meus próprios, mas poderia jurar que Jessica estava se sentindo trocada, por um ou outro ou por ambos.
— Te avisei que isso ia acontecer. — Adicionou Lauren, um sorrisinho sarcástico em seus lábios beirando o veneno.
Eu tentava ao máximo acompanhar a conversa, indo de uma a outra enquanto elas soltavam as palavras, mas a minha mente continuamente voltava a projetar aquelas figura, em especial, o jovem loiro.
— Ela só está conversando com ele, gente. Não é nada de mais. — Defendeu Angela pela primeira vez, provavelmente a pacificadora do grupo.
Eu devia ter perdido algum momento da conversa ou eram apenas águas que deveriam estar passadas de quando eu sequer estava em Forks porque não fazia sentido algum elas estarem discutindo sobre Bella Swan. Tentei buscar por outros assuntos em um milhão de aleatoriedades, mas o sinal tocou e todos nós nos levantamos, sem discutir Bella dessa vez.
Despedí-me de Ezra porque teríamos uma aula separados, eu História, ele alguma matéria que só ele escolheu, para depois nos juntarmos novamente em artes. Lauren era a minha companhia da vez, então ela guiou-me pelos corredores para a sala correta. Sentamos juntas, mas dessa vez intencionalmente. O professor atrasou-se um pouco corrigindo alguns exercícios anteriores, então tomei esse tempo como uma deixa para esclarecer algumas das minhas impressões a Lauren.
— Certo. Vamos deixar uma coisa bem clara. Eu não vou ser a sua Bella substituta, ou seu amuleto de atenção porque eu sou novata. E ficar falando mal a toa de outra garota não é muito o meu estilo, se quer reclamar da Swan, reclame com outra, eu realmente não me importo. — Expeli tudo de uma vez, baixo o suficiente para não alertar a nenhum intrometido. Meus olhar encravou-se no dela para que nenhuma informação fosse ambígua, eu estava sendo o mais clara possível aos meus olhos. Lauren encarou-me um pouco receosa, eu a havia surpreendido com toda a minha franqueza; era um efeito comum que eu tinha nas pessoas.
— Eu não te chamei ali para substituir a Bella, eu nem gosto dela. — Justificou.
— Eu sei que não foi por isso. Você me chamou porque queria dar em cima do meu irmão. — Ela arregalou novamente os olhos, eles eram ainda mais pálidos quando a luz batia, mas ao ver o meu sorriso, o retornou.
— Gostei de você. —
Eu não poderia me orgulhar abertamente das minhas capacidades em ler pessoas, mas depois de tanto tempo lidando com pessoas novas você acaba aprendendo a reconhecer seus padrões, o que elas deixam transparecer e até um pouco do que escondem rápido. Lauren era alguém particularmente vaidosa, beirando a frívola, com uma necessidade por atenção que beirava o clichê, mas eu sabia que me dava bem com pessoas vaidosas. Suas costumeiras necessidades de alimentar seus próprios egos não incomodavam ou abalavam o meu, nem se fosse a intenção deles e eu sempre as achava cômicas e interessantes ao seu próprio modo. Eu apreciava ter pessoas interessantes ao meu redor, especialmente quando elas eram tão descartáveis. Era um pensamento depressivo que eu não gostaria de ter, mas não era exatamente minha culpa.
Eu sempre tive pouco tempo com as pessoas, era necessário me cercar das que mais me tirassem do tédio. Meus últimos amigos também eram assim, na verdade eu podia apontar várias semelhanças entre Lauren e Gwen, ambas eram loiras e vivazes, mas eu não queria, nem deveria estar pensando sobre isso agora. Havíamos chegado a um nível de simpatia que só era conseguido através da sinceridade de motivações. Eu não me importava que ela tenha me usado para se aproximar do meu irmão, não seria a primeira nem a última, eu também a havia usado para quebrar meu tédio e conseguir uma companhia. Estávamos quites.
Passamos o resto da aula como havíamos passado a aula de Trigonometria, conversando em baixo som sem prestar nem um pouco de atenção. Eu a sondei sobre os outros alunos, demorando para chegar onde eu realmente queria, mas finalmente ela me contou sobre quem eram aqueles garotos do refeitório e porque era tão estranho que Bella Swan e Edward Cullen estivessem conversando. Ela me contou que eles eram adotados pelo médico da cidade, seus nomes, que Emmett e Rosalie estavam namorando mesmo que morassem juntos. Tudo isso com nenhum elogio.
— Eles se acham superiores. — Concluiu, a mesma inveja embutida que Jessica tinha e eu comecei a achar que todos tinham perante aos Cullens. Franzi o cenho, uma onda de desgosto atingindo-me enquanto eu buscava o sentido em suas palavras. Talvez fosse isso mesmo que os Cullens exprimiam, ciência de suas belezas, arrogância ao afastar todos meros mortais por não serem tão incríveis quanto eles; tudo isso eu já havia visto antes. Não explicava, porém, o porquê da garota, Alice, ter sorrido para nós. Ela definitivamente não me parecia alguém cega pela sua própria arrogância.
Eu soltei um suspiro como minha única resposta ao levantar, deixaria meus julgamentos para serem feitos depois e com base apenas no que eu observasse, era uma atitude moral que eu exigia de mim mesma. E se assim eles se provassem, quem se importava, em seis meses eu estaria indo embora novamente.
( ... )
Lauren se despediu de mim com um convite para passar na casa dela, mas eu tive que declinar, ainda não estava com vontade de explorar outras casas antes de passar ao menos um período do dia enfurnada na minha. Haveria outras oportunidade de explorar Forks também então eu retribuiria o convite, andar com alguém que morou a vida toda na redondeza seria melhor que procurar eu mesma algum ponto interessante. Na saída, algumas outras pessoas vieram falar comigo, suas coragens finalmente surgindo provavelmente depois que viram que sentei com Lauren e seus amigos, mas foram assuntos banais e quando eles saíram, eu mal lembrava seus nomes. Esperei Ezra passar por mim e nos reunimos novamente na última aula do dia.
Artes era outra matéria que não chamava nem um pouco a minha atenção, a esse ponto eu já estava julgando que essa seria a norma e desistindo da ideia de alguma classe em Forks ser realmente interessante. Eu não precisava perguntar para saber que o meu gêmeo ao lado estava se sentindo exatamente o contrário. Diferente de Ezra e dos meus pais, eu não possuía nenhum dom plástico, tudo encontrava seu fim em minhas mãos e minha criatividade era tão escassa quanto as técnicas que sabia. Quando eu era mais nova participava de algumas peças de teatro ocasionalmente, mas eu duvidava que Forks tivesse uma comunidade artística muito heterogênea.
E a aula teria transcorrido completamente normal, entretanto, na metade o professor resolveu inovar e movimentar com uma atividade em grupo. Mal tive tempo de reclamar silenciosamente dessa nova decisão e ele já circulava a sala dividindo os alunos. Ele teve a gentileza de permitir que Ezra e eu ficássemos juntos por sermos novatos e irmãos, mas nosso grupo seria completo por Edward e Alice Cullen, que eram do mesmo ano e também tinham essa cadeira. Eu não fiz nenhum movimento para me juntar a eles no canto da sala, mas Ezra impacientemente me forçou.
Meu irmão tomou a iniciativa pela primeira vez no dia e nos apresentou vagamente e Edward respondeu com os deles com uma incrível polidez e a garota Alice apenas sorriu de forma simpática, mas não tão brilhante quanto mais cedo. Sentamos uns de frente para os outros.
Ezra pegou alguns materiais e notei que eles estavam se preparando para ajudá-lo, então interrompi.
— Ah, acho melhor que a gente deixe ele fazer tudo. Vai por mim, vai nos garantir uma nota A. — Afirmei com um sorriso. Normalmente, Ezra fazia as minhas atividades de forma mais indireta, que não ferisse o orgulho que ele achava que eu tinha nem o seu próprio, menos em artes. Quando se tratava de garantir um bom trabalho em uma matéria como essa, nós dois concordamos que a minha interferência só traria prejuízos; qualquer outro que estivesse em nosso grupo apenas fazia o mesmo que eu.
— Não, nós apreciamos a preocupação, mas é melhor fazermos nossa parte. — Edward respondeu, tão polido quanto antes.
— Primeira vez que isso acontece. — Comentou Ezra com um sorrisinho, mas eu lhe enviei um olhar desinteressado em suas piadinhas.
— Temos que fazer maquetes, tem alguma ideia de como começar? — Foi a vez de Alice quebrar o silêncio, com sua voz musical direcionada para o meu irmão. Eu a olhei suspeitosamente, mas nenhum dos dois prestou muita atenção.
— Eu estava pensando em um modelo rudimentar da Estátua da Liberdade, eles têm argila aqui então acho que consigo fazer funcionar. — Ezra respondeu e eles perderam a minha atenção, ficaram envoltos em sua própria bolha discutindo os detalhes do que quer que Ezra havia projetado em sua cabeça. Ele apontava para os materiais que reuniu, explicando para Alice como queria montar, estava além do meu interesse. Edward estava quieto também, apesar da sua fala anterior de que estaria envolvido.
— Então vocês são os Cullens? — Eu perguntei depois de alguns minutos.
— Sabe sobre nós. Pensei que eram novatos. — Ele parecia mais surpreso pela minha pergunta audaciosa do que curioso do porquê ou como eu o conhecia.
— Sim. Eu perguntei por aí. —
— Posso saber o porquê? —
— Vocês são uma família grande. Não existem mais tantas famílias grandes por aí. É curioso. São gêmeos? — Desvencilhei propositalmente de suas insinuações, não haveria nenhum motivo para ele buscar e nada que eu me envergonharia. Era pura curiosidade, como poderia atestar.
— Não. Rosalie e Jasper são. Nós somos todos adotados. — Assenti, apenas porque não havia nada mais a acrescentar. Éramos os dois excluídos do nosso próprio grupo, pois Ezra e Alice continuavam animadamente envolvidos na construção do modelo. Lauren já havia me dito os nomes de todos os Cullens então ele não me oferecera nenhuma informação que eu não já possuísse. Contra a minha vontade, eu permaneci em silêncio o resto da aula e o resto do dia.
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