Notas iniciais
Depois de muito tempo longe das fanfics, estou de volta.

Fevereiro de 1918

O vento levantava a areia do chão. O rapaz caminhava, com uma mochila pesada nas costas e uma garrafa de água quente em sua mão. Ele dava pequenos goles quando a sede era muita. Os cabelos não paravam de crescer, desde a última vez que lhe foram cortados, mas não era nem de longe os longos cabelos que um dia teve. Não que ele estivesse reclamando disso agora. Estava tão quente que ele achava que estava se aproximando quase chegando no Inferno.

O grande casaco vermelho estava pendurado na alça de sua mochila e ele vestia apenas uma regata branca que marcava todos os músculos bem trabalhados e uma calça com uma bota. Havia muito tempo que não passava por uma viva alma e chegou a se questionar se sequer havia alguém por ali e até mesmo se estava indo na direção correta. Não era muito bom com coordenadas, essa era a especialidade de seu irmão mais novo, Alphonse Elric.

O grande terreno desértico se esticava a sua frente e ele já caminhava há alguns dias. Dia e noite no deserto. Contabilizava as noites, mas não sabia de que dia, de que mês. De que ano. Toda noite ele pensava que o dia seguinte seria o dia que ele finalmente alcançaria a pequena cidade de Youswell. Toda noite quando fechava os olhos pensava em Alphonse, o irmão mais novo, que soube estar na guerra. Em seu último contato com Roy Mustang ele disse que Al estava em boas mãos, em um batalhão comandado pela irmã de Louis Armstrong, Olivier. Pensava também na velha Pinako, em sua comida quente e saborosa e em todo cuidado e amor que ela demonstrou ter por ele e seu irmão ao longo dos anos. Por fim, pensava nela. Winry Rockbell. Seu coração doia toda vez que via seu rosto em seus sonhos. Acordava tremendo e muitas vezes chorando. Deus, como sentia falta da textura da pele dela, de seus cabelos macios, do gosto de seus lábios, de seu temperamento, de seu amor. Sentia falta de ama-la e de se sentir amado. Sentia falta dela, de tudo que a definia, de tudo o que detestava, de tudo o que amava.

Havia uma leve inclinação no terreno que o levava para algo que ele esperava não ser um penhasco. Não era. Ao chegar no fim pode avistar, um pouco mais ao longe, uma pequena cidade. "Youswell", pensou aliviado. Enxugou o suor do rosto com a camisa e continuou sua caminhada.

Youswell era pequena e simples. Pessoas trabalhadoras e humildes. Ele atraia muitos olhares. Claro. A roupa e o cabelo indicavam que ele era um soldado e a tatuagem, bem...

"O que cê tá fazendo aqui? Cães do exercito não são bem vindos não, garoto."
"Não, Gustav, por favor. Ele pode transmutar o chão e matar você."
"Deixa de ser medrosa, mulher. Eu não vou arregar pra um cãozinho com ele. Além do mais, ele precisa de mãos para poder fazer isso." — disse puxando um pequeno punhal

Edward respirou irritado.

"Eu espero que você saiba usar isso se você pretende vir para cima de mim. Porque eu sei. Eu não preciso de alquimia pra te fazer em picadinhos, então só me deixe pegar meu trem que ninguém precisa se ferir."

O cara olhou com desdém para ele, porém achou mais sábio guardar a adaga.

"Seu dia de sorte, garoto. Essa cidade não é para aberrações como você. Então, pegue seu trem e se manda."
"Não precisa pedir duas vezes."

Era uma longa viagem de Youswell até Resembool. Pelo menos no trem havia comida e uma cama quente para ele dormir. E seria menos torturante do que as noites frias no deserto. Dormiu quase a viagem toda.

A barba por fazer coçava e incomodava, mas esse era o menor dos seus problemas. A vista de Resembool fez seu coração saltar dentro do peito. Lar, era essa palavra que descrevia o que sentia em relação àquele lugar. Lembrou-se de uma velha canção de soldado, mas achou mais saudável espantar esses pensamentos.

Resembool batia a porta e ele estava doido para simplesmente voltar. Edward pegou suas malas, a estação estava há alguns metros de distancia. Enquanto observava os verdes pastos da zona rural, a porta de seu compartimento foi aberta.

"Eu deveria saber que os rumores eram reais. Afinal de contas, o Fullmetal Alchemist não seria derrotado de uma maneira tão esdrúxula, não é mesmo? De qualquer maneira, fico feliz que esteja vivo."
"O que você está fazendo aqui, Envy?" — o tom de sua voz era de raiva
"Vim te levar de volta."
"Pra guerra?"
"Não, não para guerra. O Fuhrer tem grandes planos para você."
"Eu não quero saber. Eu não vou voltar. Nem que eu precise te matar"


Edward levantou-se e pôs-se em posição de luta. Envy riu.


"Ow, menos, cara. Não vim aqui brigar com você. Mas você sabe, bem no fundo, que não tem escolha. Você pode sair desse trem, encontrar a linda srta. Rockbell, mas esse belo romance vai durar até quando? Ein? Você quer mesmo encarar o Fuhrer? Se for assim, cara, você perdeu mais do que um braço e uma perna nesse seu acidente."

Edward olhou para os automails que estavam em seu corpo. Fechou os olhos. Tentava ignora-los o tempo inteiro, fingindo para si próprio que aquilo não havia acontecido. Pensava em Winry e no que ela pensaria ao vê-lo daquele jeito, pela metade. Tinha medo dela rejeita-lo, de considera-lo um monstro. Sabia que ela estava acostumada com automails, afinal, ela trabalhava com isso. Porém se perguntava se ele não seria menos homem para ela daquele jeito. O suspense lhe matava. Muita coisa havia mudado nele desde que fora para a guerra. Não só os membros de metal. Tinha medo dela odiar o homem que ele havia se tornado. O soldado.

"Vai, salta desse trem. Tenha uma noite de sexo ardente e selvagem com a sua gatinha, até porque, acredite, você está precisando de uma boa trepada e depois me encontre na saída da estrada B amanhã às 7 horas da manhã. Não se atrase, eu odeio esperar."

Assim que Envy fechou a porta do compartimento, Edward sentou-se em sua cama, pôs as mãos no rosto e começou a chorar.

A caminhada até a casa da velha Pinako era curta comparado ao que havia andado no deserto. Ao avistar a casa, seu coração parou. Pensou pela primeira vez se deveria ir até lá. Envy estava certo, ele estaria em perigo e colocaria Pinako e Winry em perigo também. Não queria arriscar a vida de ambas por puro egoísmo. Não se perdoaria se algo lhes acontecesse. Foi com muito pesar que Edward caminhou na direção contrária a da casa das Rockbell.

Às 6 da manhã, quando Envy chegou ao lugar combinado, Edward já estava lá com seu semblante sério e fechado. Envy sorriu para ele. Tudo começaria de novo. E dessa vez seria ainda pior.

Notas finais
Obrigada pela leitura. Até o próximo capítulo. :)