Traveling Soldier
2 Capítulo 1
Janeiro de 1916
Não existia lugar mais pacato do que a pequena cidade de Resembool. Uma cidade praticamente rural, com um pequeno comércio em seu centro; uma farmácia, uma floricultura, um mercadinho, uma loja de ferragens. Um de cada, sem excessos. A grande maioria conseguia seu sustento no campo. Quem quisesse estudar tinha que se mudar para alguma outra cidade, como Cidade do Leste, que possuía uma das poucas grandes universidades do país.
Edward Elric nunca se imaginou numa universidade. Não que fosse um bronco do interior, muito pelo contrário. Era figurinha carimbada na biblioteca local. Se interessava muito por alquimia desde pequeno, provável herança do pai ausente. Levava o irmão mais novo para vê-lo performar seus pequenos truques, enquanto o pequeno Alphonse se impressionava com as conquistas diárias de Ed. Com a morte de sua mãe, apenas duas coisas o fizeram continuar: o amor pela alquimia e o senso de responsabilidade perante Alphonse. Não poderia se deixar abater, tinha que ser forte e cuidar do irmão agora que estariam sozinhos no mundo.
Tudo teria sido muito mais difícil se não fosse pela bondosa Pinako Rockbell, vizinha dos Elric. Com a morte repentina de Trisha, a velha mecânica de automails decidiu cuidar dos garotos que vira crescer e que sempre roubavam frutas de sua propriedade. A filha que não via há anos e a neta que lhe fora proibida de ver eram a única família que sobrara para Pinako e ela se via tão solitária quanto os dois irmãos. Edward tinha apenas treze anos e Alphonse apenas onze quando aconteceu.
Ambos eram imensamente gratos a Pinako por tudo o que ela lhes dera, desde o teto, a comida até o carinho de uma avó. Alphonse demonstrava com muito mais facilidade que Edward, que se tornou mais frio e distante com o passar dos anos. Ao mesmo tempo que Resembool era muito pequeno para personalidade tão expansiva quanto a do rapaz, nada o motiva a sair daquele fim de mundo e ir desbravar o mundo. Pelo menos lá ele era útil. Cuidava de seu irmãozinho e ajudava a velha Pinako em tarefas da casa.
A vida pacata do interior cumpria bem seu papel de dar uma vida estável e sem grandes emoções para Edward. Apenas ele, Pinako e Alphonse e uma vasta propriedade que o afastava de muitas outras pessoas. Era apenas o que ele precisava. E era como pensava que seria sua vida durante muito tempo até o dia em que Pinako recebeu um telefonema.
Pinako não falava com a filha desde que Winry era apenas uma pré-adolescente. Sentia muita falta tanto da filha quanto da neta, mas Sara Rockbell teve a quem puxar. Era teimosa como a própria Pinako e Winry nunca foi muito diferente. "Está no sangue", sempre dizia quando o temperamento de alguma das Rockbell era assunto numa roda de conversa.
A ligação da filha a preocupou. Não conseguia imaginar o porquê dela precisar que Winry ficasse em Resembool por algum tempo. Sabia que não conseguiria arrancar nada de Sara, entretanto não imaginava nenhum motivo bom por trás disso. Sara e Urey, seu genro, sempre foram engajados politicamente e com a guerra recém estourada, não conseguia pensar que uma coisa estava correlacionada a outra.
Suspirou e concordou com a ida de Winry para Resembool. Jamais fecharia as portas para sua única neta, a quem não via há anos e de quem sentia mais saudades do que jamais seria capaz de expressar. Mas pra quem a conhecia bem, ver pequenas demonstração de carinho e amor em suas ações não era difícil. E para os Elric era claro como água o quão ansiosa e feliz ela estava com a ida de Winry para sua casa.
Diferente da velha Rockbell, Edward não estava nenhum pouco ansioso com a chegada da menina. Pra começar que perdera seu quarto para a menina. Já estava sendo um estorvo antes mesmo de chegar. Além disso, a dinâmica entre os três era perfeita. Edward acordava de mau-humor, Alphonse respeitava e Pinako estava sempre lá com uma caneca do café caseiro mais saboroso que ele já havia tomado. Ele também gostava de andar confortável pela casa, o que incluía as vezes ser visto apenas de roupas íntimas. Agora ele teria que ser obrigado a usar roupas em sua própria casa. Tudo isso por causa de uma garota de quem, até onde ele se lembrava, ele sequer gostava. Ela vivia atrás dele quando eram pequenos e ficava chamando-o de nanico.
"Estou muito feliz com a vinda da Winry-chan."
"Claro, não foi você quem perdeu seu quarto por causa dessa inconveniência."
"Não, mas agora tenho que lidar com seu ronco."
"Eu não ronco."
"Ah, não, claro que não. Eu acho que o confundi com meu outro irmão." — Edward fez uma cara irônica para Alphonse que sorriu. "Além do mais, ela está ainda mais bonita do que era quando éramos mais novos."
"Ela é a neta da Pinako. Se for igual a velha, deve ser uma doida. Não há beleza que compense se envolver com uma Rockbell."
"Fácil dizer isso agora, porque até onde eu bem me lembro eu ganhei uma cicatriz porque disse que iria casar com ela."
Edward fechou a cara e se isolou na varanda da casa, seu lugar favorito. Sentiu o cheiro de fumo e olhou para trás esperando já ver a figura de Pinako atrás de si.
"Obrigada por ser compreensivo, Edward."
"Como se eu tivesse escolha."
"Acredite em mim, parte de mim preferia que Winry não estivesse vindo para cá. Pelo menos eu teria certeza que minha filha está segura."
Edward não soube o que dizer e manteve os olhos no nada.
"Essa também é sua casa, você sabe disso. Mas eu peço que não torne esse um ambiente difícil para Winry. Ela não está passando por um bom momento. E eu sei como você sabe ser uma pessoa difícil quando quer. Meus clientes que o digam, principalmente o Russell. Ou aquela cigana."
"Não vou ser, Pinako."
"Bom ouvir isso. Gostaria de pedir que me acompanhasse amanha à estação de trem para buscar minha neta."
"Porque você não leva o Al?"
"Ele vai fazer umas compras pra mim de manhã."
"Eu vou no lugar dele." — Pinako olhou para o rapaz. "Não quero ser guarda costas de ninguém, com todo respeito."
"Tudo bem. Você quem sabe, rapaz." Pinako levantou-se com alguma dificuldade. "Não durma tarde então, amanhã vai ser um dia longo. Boa noite, chibi."
"Boa noite, velhaca."
Ao chegar em seu novo quarto, Edward subiu para a cama de cima da beliche. Alphonse já se encontrava apagado na cama debaixo. Ficou encarando o teto de madeira, com a cabeça apoiada nas mãos. Winry Rockbell. O que lembrava sobre ela? Ela era tímida, chorona, possuía grandes e brilhantes olhos azuis e um cabelo loiro na altura dos ombros. Recusou o pedido de casamento de Alphonse porque dizia que o amava como um irmão e o dele porque era muito baixinho. Pensar nisso o irritava. Pensou no tipo de menina que ela podia ter se tornado. Winry cresceu numa cidade grande, provavelmente cercada de meninas fúteis que só se importavam com namorados e maquiagem. Winry Rockbell. Esse foi seu último pensamento antes de cair nos braços de Morfeu.
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