Tratamento.
1 Tratamento.
Japão, Hospital Psiquiátrico Odachi, 2013.
- Paciente nº 62, sofre de um severo caso de...
- ONDE ESTÃO MEUS NAKAMAS!?
- Calma, eu estou aqui para lhe ajudar, Luffy.
- Eu não confio em vocês, vocês me separaram dos meus nakamas! Onde eles estão!?
- Você fala dos companheiros que velejavam com você, na fantasia criada durante seu coma?
- ELES SÃO REAIS! EU NÃO SOU LOUCO!
- Não disse isso, Luffy, eu disse que você está passando por uma fase conturbada de sua vida, quando pequeno sofreu um acidente do mar, seu tio tentou lhe salvar e acabou morrendo, você entrou em coma e para sobreviver sua mente acabou criando um mundo de fantasia, onde você era um pirata famoso, rodeado de amigos poderosos e lutava contra a autoridade, como toda criança travessa faz, já estamos trabalhando isso durante dois anos, quase todos os dias desde que você acordou.
- É impossível, eles são reais! Lutamos contra várias ameaças, ajudamos reinos inteiros, desafiamos o governo para salvar nossos amigos! Não tem como isso tudo não ser real! VOCÊ MATOU MEU IRMÃO!
- Luffy, antes de tudo você deve saber que não sou seu inimigo, não sou almirante da marinha e tão pouco matei seu irmão, já conversamos sobre isso várias vezes, no seu mundo de fantasia você criou a imagem da autoridade refletida em quem estava tentando tira-lo dele, sua mente estava criando uma proteção contra mim e a minha equipe, por isso você acha que sou um almirante, quando na verdade sou apenas seu médico, Dr. Sakazuki.
- Se você é mesmo um médico, pare de injetar kairouseki em mim, Chopper detestaria você.
- Não lhe damos nenhum kairouseki, Luffy, você nunca foi o homem borracha.
- É mentira! Se eu não fosse o homem borracha não poderia ter lutado ao lado dos meus nakamas como fiz tanta vezes! Não poderia ter estendido a mão ao Usopp quando brigamos e ele pediu desculpas, ele estava muito longe!
- Vamos falar novamente sobre o seu “companheiro” Usopp.
- Era o melhor atirador que eu conheci! Um dos meus melhores amigos, mentiroso e medroso, mas um grande guerreiro.
- Achei que já tivéssemos entrado em acordo sobre Usopp, ele era a parte da sua mente que queria voltar a realidade, ele mostrava como tudo aquilo que você e seus outros amigos faziam era impossível, ele era uma pessoa normal, querendo lhe mostrar que você era o mesmo e devia acordar. Durante seu coma você sussurrava, monitoramos e já lhe mostramos o áudio, quando você dizia “Este barco é seu, faça o que quiser com ele” foi quando você esteve mais perto da morte, piorou muito, assim quando disse “Segure minha mão idiota...” foi quando os medicamentos começaram a fazer efeito.
- Você fala como se sempre soubesse tudo, me lembra a Robin.
- Vamos falar da Robin.
- A Robin era nossa arqueóloga, a pessoa mais inteligente que eu já conheci, também era muito forte, além de me explicar tudo de uma forma que eu pudesse entender.
- Luffy, a Robin nada mais era do que sua mente lhe dando as respostas que você queria ouvir, sobre o pai que você nunca conheceu ser uma pessoa importante no mundo, sobre você salvando um país de uma ameaça, sobre a história do mundo, o seu mundo, contada por meios que somente ela, sua mente fantasiosa, poderia ler.
- Robin me disse que queria viver quando fomos salva-la!
- Era sua mente lhe respondendo a questão mais simples do seu coma, você Luffy, você quer viver, agora que está acordado está na hora de enfrentar o mundo, você tem que viver.
O jovem tentava colocar as ideias no lugar, desde que acordara, a dois anos, sua vida foi um inferno, lembranças de uma vida inteira que jamais havia existido, ele não tinha mais noção de realidade, vivia atormentado com uma vida que todos diziam que ele jamais havia vivido, não lhe restara nada além de lágrimas e desespero.
- Luffy, eu sei que tudo está confuso agora, mas você irá achar a direção correta.
O garoto esboçou um leve sorriso de canto de boca.
- O que houve?
- Me fez lembrar o Zoro, ele nunca achava a direção correta, como pode me dizer que ele não é real, que explicações poderia me dar para ser uma fantasia da minha mente doentia?
-Já falamos sobre ele também, sobre como ele representava a força de vontade, sua perseverança de nunca desistir, assim como Usopp, ele é o responsável por você ter continuado vivo, a força que sua mente atribuiu a ele ia além da física. Assim como Sanji, ele reunia suas paixões, comida e sua vizinha de infância, Nami. Sanji lutava fortemente para que o laço de amizade e amor infantil que você sentia por Nami, uma menina real fosse expressado, todas as mulheres que Sanji se interessava representavam seus puros sentimentos por Nami. A força física colocada nele é equiparável a força de Zoro, em modos iguais você coloca o tenro amor infantil e a vontade e perseverança de viver, nunca quis desistir de ambos.
- VIU SÓ! A NAMI É REAL! VOCÊ MESMO DISSE!
- Sim, Nami, a menina que você brincava na infância, antes do acidente no mar é real, a Nami da sua fantasia é a melhor representação dela que sua mente conseguiu criar, o fato dela roubar piratas quer dizer que ela quer roubar você desta vida de fantasias, a pirataria, a aventura que sua mente criou para lhe manter preso e ter o que se agarrar, se manter vivo, mas você ja está acordado Luffy, não precisa mais da fantasia.
- Você quer que eu esqueça meus amigos? – o pranto era impossível de segurar, por toda sua vida os amigos foram tudo que ele teve.
- Não, eu apenas quero que você melhore, você também quer. Brook é a prova disso, ele foi o ultimo a se juntar ao seu grupo de amigos, tudo que ele queria era cruzar o mundo logo, queria reencontrar sua antiga amiga. Ele queria que tudo acabasse logo, para que ele pudesse voltar a ver quem importa, você queria isso, você queria acordar e reencontrar sua vida, seus familiares e amigos de infância, o que realmente importa.
- Não, não é verdade... Eu tinha amigos que eram tudo pra mim, não vou deixar que o almirante da marinha me faça desacreditar neles! Vamos todos navegar novamente, o Sunny vai chegar ao fim da Grand Line e o sonho do Franky vai ser realizado! – Por traz das lágrimas se podia ver o ódio misturado a tristeza de uma pessoa mentalmente desequilibrada.
- Até mesmo Franky foi incorporado pela sua fantasia como uma importante representação do seu desejo de viver no mundo da fantasia.
- O que quer dizer com isso?
- Franky tentou massacrar o seu lado que queria acordar, o lado normal e humano de toda a fantasia, Usopp, mas logo ele se tornou tão importante para o seu mundo, que até mesmo Usopp o aceitou, o barco que o levava a fantasia estava quase naufragando, mas o desejo de aventura fez uma novo, mais forte do que todos os outros, para continuasse a viver no seu mundo fechado, onde tudo é possível e você é intocável.
- Eu não era intocável! Se eu fosse você não teria matado meu irmão!
- Achei que já tivéssemos feito progresso, você estava melhorando, porque voltou a me ver como um inimigo, eu não sou seu inimigo, sou seu médico.
- Eu tinha um médico, o melhor de todos! Ele ia curar todas as doenças!
- Chopper, a rena falante. Luffy, Chopper era o melhor médico que podia existir, ele sempre encontrava a cura para tudo, sempre lhe mantinha bem e saudável para continuar, além da ingenuidade peculiar, ele era você quando criança, representava toda sua ânsia por aventura, assim como o medo do desconhecido, mas mesmo em fantasia você cresceu, a entrada do desejo de acordar, Brook, foi crucial para bater de frente com os medos da inocência, um visual macabro como a morte foi suficiente para que ele se fixasse cada vez mais na fantasia, sendo um ponto que não podia ser ignorado para sempre, o desejo de voltar estava ali, enraizado junto com os outros.
Luffy não conseguia parar de chorar, ele via o mundo desabando sob seus pés, o Dr. Sakazuki nunca havia falado de tal forma em dois anos de terapia, ele já havia decorado todas as “aventuras” feitas por Luffy, já ouvia ouvido muitas e muitas vezes e soube captar o que era preciso, um choque de realidade tremenda, aparentemente suficiente para pelo menos abalar um pouco a crença na fantasia.
- Como eu faço para recuperar minha vida? Não quero viver num sonho. E-Eu... não aguento mais!
- Fique calmo, você está melhorando, posso ver a cada dia que tudo vai dar certo, você vai voltar para seu quarto agora, vai dormir um pouco e amanha continuamos, vou trazer seu avô para lhe ver, ele vai gostar de ver como você está melhorando e aposto que você também vai gostar de vê-lo.
Não ouve resposta, apenas um aceno leve com a cabeça, enquanto enxugava suas lágrimas.
- Obrigado Dr. – Foram as ultimas palavras que Dr. Sakazuki ouviu de Monkey D. Luffy.
Durante a noite, Luffy só pensava em como seus nakamas deviam estar preocupados, em como era prisioneiro em uma prisão da marinha, ele tinha que fazer algo antes que nunca mais pudesse navegar. Se lembrou do lago que havia do lado do hospital, logo após o muro, mas não teria como chegar lá, a não ser que pulasse o muro, o que era impossível para ele no momento, de alguma forma a marinha tinha feito seus atributos físicos caírem muito, ele parecia uma pessoa normal agora, a solução foi apenas uma.
- LIGUEM O ALARME, O GAROTO ESCAPOU DO QUARTO, TEMOS QUE PEGA-LO ANTES QUE ELE FAÇA ALGUMA BESTEIRA! – Um dos enfermeiros gritava enquanto outro avisava o Dr. Sakazuki por telefone.
Luffy havia conseguido fugir de seu quarto e no caminho havia derrubado um dos vigias que cuidavam do lugar, pegou suas chaves e no momento corria o mais rápido possível subindo as escadas do hospital, tinha que chegar ao terraço, o prédio era relativamente baixo, apenas cinco andares, mas o suficiente para ele poder pular direto no lago, por cima do muro. Ao abrir a porta do terraço ele foi chegando perto da beira, conseguia ver o lago e o muro após ter ido para fora do corrimão de segurança, quando o Dr. Sakazuki irrompeu da porta.
- Luffy, não faça isso! Se você fizer não haverá volta! Você não é um super-herói!
Luffy não disse nada, sabia que mesmo com o suor no rosto e pequenas lágrimas nos cantos dos olhos aquele homem estava apenas manipulando suas ações, ele queria voltar para seus nakamas e essa era a única maneira de fugir, ele provavelmente afundaria no lago, mas como seus poderes haviam sido retirados, talvez também pudesse nadar, aprenderia na marra. Com um leve sorriso ele pulou o mais longe que pode. O mais longe foi suficiente para chegar ao lago, mas não sem antes bater com as pernas no muro e do outro nado com a cabeça, o barulho da água foi alto e acordou muitos pacientes do hospital. Sakazuki ligou para o avô de Luffy para contar do acontecido.
Em algum lugar da Grand Line, sob um tapete de grama o sol ilumina o rosto de um jovem, que ouve de seus amigos:
- Você voltou...
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