Trapped in Nightmares
17 Quatro batidinhas na porta.
Notas iniciais
17
Lembro-me da conversa secreta de Klara e minha mãe, ela estende sua mão direita para uma aperto de mão. Gavril é quem está querendo me internar. Não sorrio, nem a cumprimento. Vou até meu quarto, tranco a porta e minha mãe grita:
— Jeanie, volta aqui! — Eu não respondo, apenas sento no sofá do meu quarto, leio os endereços no papel e amanhã sairei em busca de M. Hermann.
Gostaria de ter o telefone de Klara, mas não tenho, queria contar para ela da visita ilustre de Gavril. Eu estou confiando nela. Aos olhos de Klara, eu sou uma pessoa normal, mas aos olhos da minha mãe e do resto eu sou uma louca suicida. Será que ela inventou isso apenas para me internar e nunca mais falar de Larry para mim? Será que ela quis se encobrir? Quem é a minha mãe, na verdade?
* * *
Três batidinhas na porta. Alguém abre, um homem de uns quarenta anos. Olha para mim tentando me reconhecer, mas percebe que nunca me viu antes.
— Posso ajudar? — Pergunta.
— Boa tarde, o senhor é M. Hermann?
— Sim. Do que você precisa?
— Você escreveu algum livro?
— Não , menina.
— Ah... Peço desculpas pelo incômodo. — O homem acena com a cabeça e fecha a porta. Risco o primeiro endereço e o primeiro M. Hermann da lista. Não é ele.
Quatro M. Hermanns depois, ainda continuo minha busca implacável. Por enquanto visitei um homem de quarenta e poucos anos, uma garota — mais nova até que o livro — de dezoito anos, um casal de velhos os dois são M. Hermanns. Mary e Max Hermann, mas não é nenhum desses dois o autor — ou autora — do livro.
Dou quatro batidinhas na porta dessa vez, enjoei das três. Bati com tanta força a porta de madeira com uns vinte centímetros de grossura que minhas mãos ficaram vermelhas. A maçaneta gira e de dentro sai uma mulher.
— Olá. M. Hermann?
— Sim, sou eu. Se você veio para vender doce ou me cobrar vá embora. — Seus olhos azuis me observam de baixo para cima, os cabelos ruivos com fios brancos.
— Não não. Eu só preciso te fazer uma pergunta.
— Só uma?
— Sim, só uma.
— Vá em frente! Eu não tenho o dia todo.
— Foi a senhora que escreveu Pesadelos?
— Ah, aquele livro? Sim.
— Graças á Deus! Preciso te fazer tantas perguntas!
— Você disse só uma. — Eu rio, mas ela continua séria, com um ar entediado.
— Posso saber pelo menos o seu nome?
— Marinna. Marinna Hermann.
— Oi Marinna. Eu preciso da sua ajuda.
— Para que? Te ensinar a tricotar? Eu sou uma velha inútil.
— Inútil? Por sua causa, eu quase não morri eletrocutada.
— Acho que você está me confundindo com alguém.
— Eu estou presa em pesadelos. — Quando terminei essa frase, ela ficou boquiaberta, assustada.
— Menina cale a boca, não pode dizer essas coisas com tanta tranquilidade! Entre aqui. — Ela me coloca dentro da sua casa, sua sala é linda, cheia da flores, um cheiro muito bom.
— Aqui é...Lindo.
— É sim. Não estou acostumada em colocar qualquer um na minha casa.
— Queria deixar bem claro, eu não sou ''qualquer um'', sou Jeanie. Preciso de você.
— Vamos tomar um chá.
— Eu não vim aqui para tomar um chá.
— Não consigo raciocinar sem comer. Não seja boba, estou te oferecendo comida. — É impossível eu não rir.
Nós entramos na enorme cozinha, com uma janela enorme que dava no jardim.
— Onde estão suas empregadas?
— Eu não tenho empregadas. Faz anos que alguém aparece aqui, eu nunca deixei alguém entrar aqui.
— Você parece ser bem ranzinza a ponto de ninguém querer vir te visitar. — Ela olha para mim séria. Seus olhos azuis parecem armas atirando em mim. — Eu só estava brincando.
— Até que você é engraçada. — Ela diz isso mas não ri.
Me senti um pouco culpada, não devia ter chamado de ranzinza, quanta indelicadeza. Devia guardar mais meus pensamentos para mim. Jeanie, sua burra!
Ela faz o chá com as pétalas de uma flor desconhecida para mim. No quesito flores nãotenho tanto conhecimento, sei no máximo, os nomes das rosas, margaridas, lírios e só.
— Você gosta de flores, não?
— Sim. Por que você acha que a minha casa é praticamente um jardim?
Saio no jardim de fora, é lindo. Não existe uma piscina, mas sim um laguinho cristalino com a areia branca, parece até a imitação de uma prainha. Uma pequena fonte para os passarinhos. Embaixo de uma árvore com folhas rosa-claro — que eu não faço a ideia de como se chama — uma mesinha branca, Marinna senta lá com uma bandeja, com uma das mãos, me convida para sentar á mesa.
Eu sento pego a xícara de porcelana fina e um biscoito. O chá tem um gosto maravilhoso, traz uma calma exorbitante.
— Os biscoitos estão um pouco murchos. — Mordi um pedaço, mas eles não estava nem perto de murchos, estavam ótimos.
— Mas enfim, eu estou presa.
— Por qual motivo você está presa?
— Bom, eu completei vinte anos, e então foi o começo de tudo. Tive um sonho de minha mãe com o meu pai traindo um homem. E pelo que parece, esse homem se matou, e agora ele está provocando todos esses malditos pesadelos.
— Que tipos de pesadelos?
— Uma nuvem de vespas ferroando-me, uma cadeira elétrica, eu estava presa com algemas. E o último, bom... — Fico um tempo em silêncio me recompondo — Bom... Você viu meus cortes, não quero comentar nada sobre isso.
— Sou uma suicida aos olhos dos médicos.
— Muito interessante. — Marinna sorri quase que inperceptívelmente. — Já estive presa em pesadelos.
— Verdade? — Pergunto.
— Sim, duas vezes. Na primeira meus sonhos era bons, bonitos, foi quando meu marido morreu. Na segunda vez porém, foi maligna. Sofri tantas vezes, sofri nas mãos da minha irmã.
— Como você conseguiu escapar?
— Dando á eles o que precisavam para partir.
— Do que Larry precisa para partir?
Ela toma mais um gole do chá, mordisca o biscoito, faz uma careta de que não gostou achando que está murcho.
— Quem é Larry?
— Quem está provocando esses pesadelos.
— Ah, sim. — Ela beberica o chá mais uma vez.
— Do que ele precisa? — Pergunto impaciente.
— E você acha que só porquê eu escrevi o livro, eu consigo ler a mente de almas?
— Almas têm mente?
— Claro que têm, como você acha que eles têm a ideia de te colocar em uma cadeira elétrica?
— Do que seu marido precisava? — Ela vira o pescoço para o outro lado do jardim, uma lágrimas escorre de um de seus olhos. Me sinto uma idiota por perguntar e fazê-la lembrar da morte do marido.
— Precisava partir com a certeza de que eu o amava. — Ela chora ainda, pega em minhas mãos e continua — Você já amou?
— Eu amo.
— Seja lá quem for, ele também te ama, então ame-o, deixe que ele saiba disso, não espere chegar o ''tarde demais''.
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