Trapped in Nightmares
4 ''Não é legal ficar mais velha...''
Notas iniciais
04
— Filha, falta só um dia para o seu aniversário! — Mamãe fala entusiasmada, coloca uma tigela com cereal e eu como pensando em mamãe feliz com o fato de eu estar ficando mais velha, como se ficar mais velha fosse algum mérito. Quando somos crianças, os aniversários são as datas mais esperadas (depois dos feriados), mas quando nos tornamos adultos, isso é diferente. A verdade é que todos nós estamos morrendo. Quando nascemos, já estamos morrendo, crianças não entendem isso, e comemoram. Mas, nós adultos somos realistas, nós sabemos (muito bem) que a nossa morte está mais próxima, a cada aniversário que passa. Fico pensando em que as ‘‘Festas de Aniversário’’ são apenas uma forma de adiar a morte. Velhice agora seria um prêmio por conseguir aguentar o mundo? Ou consequência de se estar morrendo? Talvez uma condenação a ver todos ao nosso redor mortos e nós aqui, vivos (mas morrendo). Alguns não aguentam e morrem cansados. Para outros, o suicídio é a solução. Para mim? Bom, a solução é desconhecida.
— Mãe, não é legal ficar mais velha...
Ela sorri e exclama:
— Querida, quando se chega na casa dos 30 não é legal. Mas quando ainda se tem 20, o certo é comemorar. E muito! — Mesmo querendo ser franca e séria com mamãe ela ainda consegue retirar um sorriso meu.
— Então ta! Eu estou feliz agora. — Dou mais uma colherada no meu cereal.
Consegui uma folga hoje. Para evitar a choradeira da mamãe, quero levá-la para sair, até por que desde que voltei da Filadélfia nunca mais saímos.
— Para onde você quer sair Jeena? — Enfatizo o nome dela como se fosse alguma amiga.
— Quero fazer umas comprinhas! — Ela sorri. As marcas de expressão no rosto de mamãe assustam-me. Ela está ficando velha.
— Vamos fazer uma maquiagem em você. — Digo. Faz tanto tempo que mamãe não se sente uma mulher. Não mostra sua feminilidade, seu lado alegre. Cansei de ver seu lado sombrio.
— Claro que vamos! — Ela sorri de um modo sincero.
Passo a sombra rosa em suas pálpebras, depois o rímel, que deixa seus olhos grandes e verdes maiores ainda. Ela passa o gloss rosa e olha para o espelho satisfeita.
— Sua vez. — Mamãe ainda acha que eu gosto de maquiagem, mas na verdade, odeio. Então pego o gloss nude e passo por toda a minha boca. Mamãe faz uma cara feia para mim, mas não diz nada.
O sol do meio-dia brilhava acima de nós (mas nem tanto quanto os olhos da minha mãe brilhavam). A cidade estava agitada. Cada um fazendo o que deve fazer. Acho que só eu estou de folga hoje.
De loja em loja, minha mãe ficava cada vez mais eufórica. Compramos algumas peças de roupa e depois fomos até a melhor sorveteria da cidade.
— Faz tanto tempo que eu não venho aqui, Jen.
— Mas agora nós estamos aqui, mãe.
Nós ficamos um tempo em silêncio. Até que mamãe pergunta:
— Quando o Klaus vai te pedir em namoro? — Ela se refere a Klaus. Já faz algumas semanas que estamos tendo algum envolvimento um com o outro, estamos saindo indo um na casa do outro ou coisa assim. Mas ninguém citou a palavra ‘‘namoro’’. Fico um tanto quanto envergonhada com a pergunta. Até porque nem pensei em começar um relacionamento agora.
— Mãe, eu não sei.
Ela não fala mais nada. Parece estar envergonhada ou arrependida com o que disse. Terminamos o sorvete e vamos para a casa. Mamãe ficou muito feliz com o nosso passeio, parecia que não ia chorar nunca mais.
Deito na cama, ainda é seis horas. Mas quero muito dormir. Amanhã é o dia em que minha velhice chegará um passo mais perto de mim.
Meia-noite. Eu acordo. Meu celular vibra e quem está me ligando é o Klaus. Primeiramente hesito atender. Mas me lembro de que já é o meu aniversário. Então atendo.
— Oi?
— Oi Jen. Tudo bem?
— Tudo bem.
— Vamos sair?
— Agora? — Pergunto.
— Sim.
— Tudo bem, vou me arrumar e a gente se encontra.
— Vem aqui na praia.
— Ok.
Estranhei. Klaus não falou nada do meu aniversário. Não citou nem me disse sequer um ‘‘parabéns’’. Não sei onde está a lógica, ele me ligou meia-noite, me chamou para ir até a praia. Não vou até o quarto da mamãe, não quero acordá-la. Apenas escrevo um bilhete:
Mãe, eu sai com o Klaus. Não se preocupe.
Mesmo sendo meia-noite, hoje a noite está quente. Coloco um vestidinho solto. Laranja com detalhes brancos. Uma sandália dourada e meu cabelo levemente bagunçado.
Chegando na praia, procuro Klaus por todos os lados. Uma mesa, com muitas velas, ilumina uma parte do perímetro da praia. Aproximo-me lentamente daquela mesa. Vejo rostos familiares. Mas isso deve ser uma consequência de ainda estar dormindo. Chego mais perto da mesa. E agora sinto a quentura das velas, o vento forte ameaçando apagar o fogo. Estou com a cabeça baixa e escuto um grito:
— Surpresa! — Todos batem palma.
É uma festa surpresa para mim. Mamãe está lá, assim como Klaus, Katie e Oliver com suas mães. Não escondo minha cara e nem meu gritinho de surpresa. O bolo com a vela 20 flamejante. Como assim eu já fiz vinte anos? Tenho que me acostumar com tudo isso. Mas nesse momento, não sinto aquele desespero. Estou tão feliz, tão empolgada que até parece que minha alma está brilhando.
Quando todos já estão mais calmos, comendo um pedaço de bolo ou algum salgado ou tomando refrigerante em um copinho descartável azul, Klaus pega em minha mão e me puxa para um canto escuro, pega um pano preto e tampa meus olhos com ele.
— O que você está fazendo? — Pergunto.
— Tenho que te levar para um lugar.
— Onde?
— Surpresa.
Ele guia-me por todo o caminho, subo escadas, tateio por todo o lugar procurando reconhecer o lugar que eu estou, mas não consigo lembrar de lugar nenhum. Nem reconhecer nenhum local.
— Chegamos! — Exclama ele.
— Posso tirar esse raio de lenço?
— Vai com calma garota! Seja mais carinhosa com o lenço.
— Posso tirar essa descarga elétrica do meu rosto? — Klaus não consegue segurar o riso. Eu tiro o lenço impaciente. Olho para o céu, as estrelas estão lindas. Estou no murinho do farol. Depois de um tempo admirando o céu. Sinto um calor no meu pescoço e os braços de Klaus aninhando-me junto a ele. O arrepio é inevitável, mas a sensação é boa. Viro meu rosto e ele inclina o dele, nos beijamos afetuosamente. Ele abraça e eu me aconchego em seu corpo quente.
— Sabe? Ultimamente eu ando apaixonado.
— Sério? Que bom. Quem é ela?
— Como assim? Quem é ela?
— Bom, e quem é ela?
— Ela é você.
— Eu? — Quero pular, sorrir e fazer de tudo, eu acho que o nosso amor é meio tipo que recíproco.
— Sim, você.
— E o que você tem a me dizer?
—Queria saber se você gostaria de ser cortejada por mim?
— Quanta eloquência nesse discurso, caro Klaus.
— Bom, mas você não respondeu a minha pergunta.
— Já não está obvio? Achei que meus olhos já respondiam.
— Sei sua resposta, só queria escutar sua voz.
—Bom, se você quer mesmo escutar minha voz, minha resposta é Sim.
— Sim? — Ele fala num tom mais alto que o normal.
— Sim! — Grito.
— Sim? — Agora ele berra.
— Sim. — Grito tão alto, que, por um momento acho que minhas cordas vocais vão arrebentar.
— Eu amo você. — Ele sussurra em meu ouvido esquerdo.
— Eu também amo você — Berro em resposta.
Todos que estão lá embaixo escutam nossos gritos ecoarem pela praia e eles respondem com alguns gritinhos eufóricos. Todos apontam lanternas para nós no momento em que nos beijamos.
— Por que toda vez que nos beijamos temos que ser iluminados? — Ele pergunta. Eu rio.
Acho que é porque ninguém quer perder nada. — Ele ri e me beija novamente. Todos sobem até o topo do farol e comemoramos a minha festa de aniversário que não foi tão ruim assim. Na verdade, foi ótima. Nunca me esquecerei de hoje. Depois desse aniversário, tive que mudar minha opinião sobre festas de aniversários. Para mim, as festas são uma forma de festejar seu nascimento. De lembrar de você. De comemorar e lembrar que você conseguiu viver mais um ano. De fazer com que nunca nos esquecemos desses pequenos gestos. E fazer com que quando a velhice chegar, quando vermos as fotos de todos esses aniversários, arranque lágrimas de nostalgia e saudade desses velhos tempos.
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