Trapped in Nightmares
2 Adeus Filadélfia e Olá Lindywood!
Notas iniciais
02
2014
Meu último minuto na Filadélfia está chegando ao fim. Observo pela janela do meu avião as nuvens que estão laranjas com a cor do pôr-do-sol. Quando me dou conta meus olhos estão úmidos. Vou sentir falta daqui. O homem que sentou do meu lado dormiu rápido e eu, louca, encosto minha cabeça em seu ombro, e em seguida adormeço. Estou exausta.
Um movimento brusco e eu acordo. O homem ao meu lado acabara de acordar e assustou comigo. Na verdade, não era um homem, era um velhinho. Com os fios de cabelo brancos como a neve.
— Desculpe-me. — Digo.
— Tudo bem, menina.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Não sei como e não tenho explicação para isso, mas eu quero muito falar com o velhinho. Reviro as profundezas do meu cérebro á procura de algum assunto. Baixo minha cabeça, não há nada que eu possa dizer para ele. Observo em sua mão e noto que há uma aliança, de ouro. Brilhando. Parece nova.
— O senhor é casado? — Pergunto parecendo ser muito indelicada. Mas o velhinho não se importa e responde com ternura.
— Eu era, menina. Eu era...
— O que houve.
— Jeanie morreu. — Surpreendo-me com o nome de sua esposa e também no meu jeito tão inconveniente de ser.
— Sinto muito, senhor. Por favor, me desculpe.
— Você não fez nada minha filha, apenas uma pergunta. Por que se humilha tanto?
— Não queria magoá-lo.
— Sabe menina, eu amava muito a Jeanie, na verdade ainda amo. Mas estou conformado com a sua morte. Afinal, todos vamos morrer algum dia. É a única certeza que temos dessa vida, minha filha.
— Vocês ficaram muito tempo casados?
— Sim menina, cinquenta anos. Embora tenha passado tão rápido que eles mais se parecem cinco. Naquele tempo éramos tão felizes, não tínhamos nada para nos preocupar. Éramos tão jovens.
— E o que traz o senhor para Lindywood?
— Eu moro lá menina. Mas não durarei tanto tempo. Agora sou o próximo a morrer.
— Senhor, por que pensa dessa forma?
— Agora que perdi Jeanie não tenho mais ninguém. Nem filho, nem netos. Ela era minha família. Morrerei de tristeza, solidão.
— Senhor, a morte é terrível.
— Menina, a morte é o nosso destino. Imortalidade, um dia teremos, mas aqui neste mundo nossa vida é limitada, incerta. Aceite que a morte virá mais cedo ou mais tarde, não só apenas levando seus entes queridos como também você. — Percebi que, neste momento estava escutando um velho pessimista me dizendo que todo mundo ia morrer. Seja lá o que for, resolvi não dizer mais nada.
Adeus Filadélfia e olá Lindywood! Acabo de chegar em minha cidade. Tudo está tão diferente, mais lojas, mais carros, mais pessoas.
Mamãe me recebe com um abraço, ela chora demais ao me ver chegando. Papai está deitado em sua cama debilitado por causa do câncer. É realmente triste vê-lo neste estado.
— Talvez o velho esteja certo. — Penso. — Que bobagem! Aquele velho deveria estar delirando!— Discordo comigo mesma.
— Filha, anos sem nos vermos, você está linda! — Mamãe exclama chorando.
— Obrigada, mas agora eu quero que você pare de chorar mamãe.
— Meu Deus filha! Que saudade. — Desta vez é papai quem diz.
Nós ficamos um tempo conversando e mamãe traz um chá para tomarmos. Pelo jeito ninguém está se preocupando com a hora. Olho no relógio, uma da manhã, duas.
— Filha, eu acho que você está muito cansada, seu pai também precisa descansar. — Ela da uma pausa e olha para o relógio. — Meus Deus! Já é esta hora?
— Sim mamãe, já vou dormir mesmo. Boa noite pai.
Papai me dá um beijo na testa e mamãe acompanha-me até meu quarto. Ela reformou o quarto, pintou de azul-turquesa (minha cor favorita).
— Eu não concordei muito em pintar dessa cor, mas seu pai insistiu.
Novamente escorrem lágrimas dos olhos da mamãe, ela me abraça por um tempo e sussurra no meu ouvido:
— Bem vinda de volta.
— Obrigada mamãe, Eu te amo.
— Eu te amo mais.
—Eu te amo muito mais. — Repetimos em uníssono. Nós fazíamos isso quando eu tinha dez anos.
Mamãe me deixa sozinha e eu deito na cama. Consegui dormir? Claro que não. Estou tão ansiosa para ver meus amigos. Andar por toda a cidade.
Quatro da manhã. Finalmente adormeço. Mas não profundamente. Mais um dos meus sonhos malucos.
‘‘ — Está próximo! Está próximo! — Um homem me diz.
— O que está próximo? — Pergunto. Mas ele apenas diz:
— Está próximo!
Estamos em uma praia, deito sobre a areia quente e adormeço.’’
Levanto da cama. Onze horas, está escrito no rádio relógio. Abro as cortinas e me deparo com a linda visão do farol da praia de Lindywood, o sol está aquecendo e iluminando toda a cidade. O céu azul com algumas nuvens decorando-o. Eu preciso muito sair lá fora. Mas antes de tudo isso, eu procuro o meu diário dos sonhos, lá eu escrevia todos meus sonho e pesadelos quando tinha meus treze anos. Eu acho dentro da gaveta do meu criado-mudo, pego a caneta e registro o estranho sonho dessa noite.
— Bom dia, querida! — Mamãe está preparando panquecas. O cheiro está exalando toda a cozinha. Sento a mesa e respondo o bom dia dela.
— Mãe, eu preciso muito sair hoje, quero rever meus amigos. Como eles estão?
— Leena está agora estudando em uma universidade. Jack, viajando com o time de futebol, ele passou no teste e agora está em um time profissional da Califórnia. Oliver ainda está aqui, o pai dele morreu e deixou o farol, ninguém o ascende há anos. Katie ainda está aqui também, ela trabalha na quitanda, vejo-a quase todos os dias.
Fico feliz em saber que meus melhores amigos, Katie e Oliver ainda estão aqui.
— E Dylan? — Pergunto ansiosa pela resposta. Terminei o namoro com ele antes de ir para a Filadélfia. Ás vezes, eu sinto tanta saudade dele.
— Ah, filha. O Dylan... — Ela dá uma pausa e engole em seco. — Ele ainda está aqui também, Dylan namora a filha do prefeito. Você não o esqueceu, não é?
— Claro que esqueci, mãe. Só queria saber como ele estava. Bom, acho que vou comer essas panquecas logo! Devem estar deliciosas.
Mamãe coloca um prato e encharca as panquecas com o caramelo, ela sabe até o modo que eu gosto da panqueca.
Em minutos, devoro as panquecas de caramelo. Volto para meu quarto e troco de roupa. Coloco uma calça preta, sapatilhas azul-bebê e uma blusa azul marinho. Olho para a penteadeira e arrumo meu cabelo curto, corte ‘‘Joãozinho’’, como dizem na Filadélfia.
— Mãe, quer que eu compre algo na quitanda para você?
— Sim, traz algumas maçãs.
— Tudo bem. Oliver ainda mora no mesmo lugar?
— Sim, filha.
— Já estou indo, tchau mãe. — Beijo sua bochecha rosada e abro a porta.
Vou até Quitanda, e Katie está lá, no primeiro momento ela não me reconhece e me encara por um tempo. Pego as maçãs e depois vou até o caixa onde ela está. Como Katie está linda, seu cabelo ruivo está enorme. As sardas continuam em seu rosto só que agora elas estão ‘‘apagadas’’.
— Deu três dólares, moça.
— Kat disse: Moça? — Eu digo, agora ela me reconhece, eu sou a única que a chama de Kat. Ela sai do caixa e me abraça.
—Jen. Que saudade de você!
— Você está tão linda menina!
— Você que está!
Nós conversamos por mais alguns minutos e marcamos um reencontro na praia hoje á noite. Agora é a hora de visitar Oliver.
Viro a esquina da Boulevard Avenue e desço até a casinha verde do Oliver aperto a campainha e a Sra. Smith, mãe de Oliver, é quem atende. Ela também não me reconhece.
— Posso ajudar?
— Oi, eu acho que você não lembra de mim. — Ela faz um balança com a cabeça em negativa.
— Eu sou a Jeanie.
— Oh meu Deus como você está diferente Jeanie, está linda!— Ela me abraça.
— Obrigada. Tudo bem com você?
— Está tudo ótimo.
— E Oliver? Onde está.
— Está no quarto dele. Sobe lá, ele ficaria feliz em vê-la.
Eu subo as escadas e lá está o quarto de Oliver. Bato na porta e ele permite que eu entre.
— Oliver?
— Oi? — Mais uma pessoa que não me reconhece.
Ele fica um tempo me observando até que eu falo.
— Nossa! Ninguém lembra de mim! Todo mundo me esqueceu. Esqueceram da Jeanie.
— Jeanie, é você?
— Sim, sou eu.
— Você está diferente.
— Também senti sua falta, Oliver.
— Vamos nos encontrar hoje?
— Sim. Já falei com Katie.
— Aonde?
— Na praia, hoje á noite.
—Tudo bem, está combinado.
Conversamos por mais algum tempo, até que eu vou embora.
Dez da noite, eu e meus amigos nos encontramos na praia, conversamos por muito tempo, molhamos nossos pés na água.
Passam cinco, dez, quinze, vinte e três dias, minha rotina agora é outra, trabalho na livraria da cidade, a noite, encontro com meus amigos. Tudo está tão normal. Apenas pelo fato de papai ser internado no hospital. Até que algo deve estragar. Mesmo assim, todos nós estamos felizes. Mas sempre tem algo para estragar tudo.
Dez da manhã. Estou na livraria, o telefone toca. Atendo e é mamãe que está falando.
— Oi mãe, tudo bem?
— Não muito, Vem para o hospital, filha. Seu pai está mau.
— Mãe, como ele está.
— Ele está mau filha.
— Tudo bem, eu já estou indo.
Falo com o meu chefe, e ele sabe do meu pai, ele deixa-me sair mais cedo e eu corro e pego um ônibus até o hospital.
Chegando lá, peço para a recepcionista:
— Quero ver Phillip Lohmann
— Quem é você?
— Sou a filha dele.
— Ele está no terceiro andar, quarto 311.
Subo as escadas correndo (não gosto de elevadores). Primeiro andar. Não estou cansada, continuo subindo mais um lance de escadas. Segundo andar. Já estou ofegante e começo a suar. Terceiro andar. Corro cansada já não aguentando mais até a porta com o número 311. Hesito em bater na porta. Estou com muito medo do que eu vou ver assim que abrir a porta. Finalmente bato na porta. Abro-a e mamãe está lá, sentada na poltrona. Chorando. O doutor, ao lado dela, consolando-a. Meu Deus! Papai morreu?
— Oi mãe, onde o papai está?
— Naquela maca, filha.
— Jeanie, seu pai tem apenas mais alguns minutos de vida, vá despedir-se dele.
Quando ele diz essas palavras, meu peito dói, sinto um arrepio na espinha, nunca mais poderei ver o papai. Nunca mais. Agora estou chorando. Vou até a maca e lá está ele, magrinho, quase morrendo.
— Papai, eu te amo muito.
— Filha, também te amo. Quero que você tenha juízo, seja uma boa menina, cuide de sua mãe. Ajude-a em casa. Eu não posso mais viver. Eu descansarei em paz, querida.
— Não vá, papai. Por favor.
— Filha, não aguento mais. Estou cansado. Onde está sua mãe?
Imediatamente mamãe levanta da poltrona e vai para perto de nós dois.
— Jeena e Jeanie. Vocês agora estarão sozinhas, por favor, cuide uma da outra. Vocês são as mulheres da minha vida. Eu amo vocês. — Olhos do papai agora estão úmidos. Mamãe e eu também choramos.
— Eu amo você, pai.
— Eu amo você, Phillip. — Mamãe beija a testa dele e depois disso papai parece estar com sono e vai fechando seus olhos lentamente. Agora ele dormiu para sempre. Mamãe cai no chão de joelhos e ela ajoelha perto da maca, eu sento no chão para consolá-la, mas eu acabo chorando mais que ela.
No mesmo dia vamos ao velório da cidade para velar o corpo de papai, muita gente está no enterro, inclusive Katie e Oliver. Percebo que tem outra pessoa sendo velada, vou até a sala e reconheço: É o velhinho do avião. Ninguém está lá, apenas um homem. Seu vizinho que encontrou o corpo.
Oliver e Katie aproximam-se de mim e dizem em uníssono:
— Sinto muito, Jeanie.
— Tudo bem. Sabe o que eu acho, que esses sapatos estão me matando. — Tiro os saltos que estão apertando o meu pé e entrego para Katie. Estou com uma meia calça preta. Mas não me importo, apenas saio correndo sem rumo. Chego a praia, sento na areia e penso em como o velhinho estava certo.
Bom, realmente ele estava certo, a morte é a única certeza que temos dessa vida incerta. Um dia, todos nós morreremos e descansaremos em paz. A morte é o nosso destino.
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