Trapaças do Destino
3 Sinta medo e o enfrente
Notas iniciais
Estou dentro do meu carro, no estacionamento do prédio onde moro. Estou aqui há no mínimo uma hora, mas ainda não tive coragem de sair do veículo e subir para o meu apartamento. Ainda estou com medo, muito medo, do que vou encontrar lá. Ou melhor, de quem eu vou encontrar lá.
Durante o caminho até aqui, vim ensaiando o que dizer quando eu tiver que encarar os olhos frios e intimidadores do desalmado Loki. Uma parte de mim quer simplesmente expulsá-lo do meu apartamento e da minha vida à pontapés, quer mandá-lo para o Inferno, afinal o cara é um monstro, um dissimulado e não merece que eu perca mais um minuto da minha existência com ele.
Mas, esta parte de mim é meio covarde, então eu não sei se conseguirei expulsar o Loki. Pelo menos, não sem gaguejar a cada palavra e talvez ter um infarto de tão apavorada que estou. Por isso, eu tenho um plano B, que consiste, basicamente, em ouvir o meu outro lado. O lado ainda mais covarde que está preocupado apenas com a minha sobrevivência. O lado que quer simplesmente dizer:
Querido Loki, me desculpe por ter te comparado a um gafanhoto. Sua roupa é linda, na verdade. Eu só estava com inveja. Inveja branca, não se preocupe. Me perdoe por tudo o que eu disse. Em troca da sua clemência, pode ficar com o meu apartamento. É todinho seu. Faça bom proveito dele. Por favor, não me mate.
Obviamente, eu não posso me rebaixar a esse nível, muito menos deixar aquele crápula asgardiano se apoderar do meu cafofo. Mas, eu também não posso dizer o que realmente tenho vontade de dizer. Eu não posso desafiá-lo e irritá-lo ainda mais. Eu não posso mandá-lo embora porque, certamente, ele não iria. Não sem antes acabar comigo.
Respiro fundo e tento afastar os meus temores. Repito para mim mesma que se o Loki quisesse me matar, ele já teria feito isso. No entanto, por algum motivo, ele não só não me matou, como pediu a minha ajuda. Pediu não, né? Porque ele não pede nada. Ele simplesmente exigiu a minha ajuda para voltar para Asgard.
— Asgard... — murmuro sozinha no carro, enquanto me lembro de uma coisa. De algo que o Loki disse na noite passada, no meio da chuva, quando ficou olhando para o céu e ignorou minha presença bem diante dele.
O Loki disse o nome do Thor. Gritou, na verdade. Esbravejou. E eu sou inteligente o suficiente para deduzir que, para ele ter ficado tão possesso, foi o Thor que o colocou naquela situação, que o enviou para a Terra. A questão é: por quê?
A missão do Thor, assim como a de todos os Vingadores, não é de proteger nós, reles mortais, de ameaças como o Loki?
E antes de mais nada, como eu pude me esquecer do Thor? Loiro, forte, cabeludo, lindo e dono de um martelo espetacular. O Deus do Trovão não é o tipo de rostinho e corpinho que a gente esqueça tão facilmente.
E ele apareceu muito na televisão e na internet na ocasião do ataque orquestrado pelo Loki em Nova York. Todos os Vingadores apareceram, aliás. Então, como eu pude ser tão burra? Como eu pude esquecer tudo isso? Qual é o meu problema? Deficiência de fósforo? Era isso que tinha afetado a minha memória?
Seja como for, há pouco tempo, o Thor tinha aparecido de novo na Terra. Isso porque, há uns seis meses, um tal elfo do mal muito bizarro havia tentado acabar com o nosso já defasado planeta, trazendo um elemento alienígena que espalhava escuridão e destruição por toda a parte.
Thor o venceu, graças a Deus, e desde então tudo tem estado calmo. Eu não ouvi mais falar dele, de outras ameaças, muito menos da ovelha negra da família, o Loki.
Então, o que será que aconteceu em Asgard para o Thor lançar o seu irmão adotivo e problemático aqui? Bem debaixo dos nossos narizes? Será que os outros Vingadores sabem disso? Será que concordam com isso? O que diabos está acontecendo?
Eu sei que não vou encontrar as respostas que preciso se continuar trancada neste carro. Eu não posso passar o resto da minha vida aqui, acuada e com medo.
Sinta medo e o enfrente, é isso o que a minha avó sempre me diz. E ao pensar nas suas palavras sábias, me encho de coragem e saio do carro decidida.
Em seguida, caminho pelo estacionamento até encontrar o elevador. E é claro que quando eu entro nele, já estou com medo de novo. Tremendo feito vara verde. Minha avó também costuma dizer isso.
Mas agora não tem mais volta, eu vou até o fim. Vou conversar com o mequetrefe do Loki e tentar entender o que está acontecendo. Só então vou pensar e decidir o que fazer. Isso se eu sobreviver à conversa, é claro.
A ideia de chamar a polícia passa pela minha cabeça, mas se dissipa rapidamente. Tenho medo que o Loki machuque pessoas inocentes, se eu fizer isso. Ele já fez estrago mais do que suficiente em sua última passagem pela Terra, é melhor não irritá-lo.
O ideal então seria chamar os Vingadores, mas alguém aí sabe como entrar em contato com eles? Porque eu, honestamente, não faço ideia. Talvez Tony Stark seja o mais acessível de todos eles, afinal o gênio, bilionário, playboy e filantropo teve coragem de olhar para uma câmera e revelar: "Eu sou o Homem de Ferro."
Apesar disso, eu também não sei onde encontrá-lo. Depois que a sua residência, a mansão Stark, foi destruída por um terrorista, o Homem de Ferro prefere não revelar mais a sua localização em rede nacional.
A porta do elevador se abre e minhas pernas congelam. Estou apavorada. Preciso me acalmar. Preciso sair daqui.
Encaro a porta do meu apartamento logo a frente e me lanço para fora do elevador antes que a porta se feche. Hesito novamente, sentindo o meu coração acelerar.
Caminho até a porta do meu apartamento e paro. Engulo em seco e seguro a maçaneta. Lembro que deixei a porta destrancada quando saí às pressas para o trabalho. Então, tudo o que eu tenho que fazer é girar a maldita maçaneta, entrar no meu apartamento e encarar o gafanhoto asgardiano de uma vez.
Meus dedos estão tremendo e eu seguro a maçaneta com mais força. Fecho os olhos, me achando ridícula por estar tão apavorada e repito baixinho até me acalmar:
— Sinta medo e o enfrente. Sinta medo e o enfrente. Vamos lá, Olivia. Você consegue. Sinta medo e... Morra com dignidade.
Abro os olhos e a porta ao mesmo tempo. Praticamente, tropeço para dentro do apartamento e me surpreendo ao perceber que o tormento em forma de deus não está na sala. Sim, agora eu sei que o Loki é um deus — o Deus da Trapaça, mais especificamente — e isso explica muita coisa. Principalmente, a forma como ele me olha, como se ele estivesse em um pedestal e eu fosse o mosquito do cocô do cavalo do bandido. Maldito!
Fecho a porta atrás de mim e olho tudo em volta com atenção. Realmente, não há qualquer sinal do Loki aqui. Nem no meu quarto, na cozinha, nos dois banheiros ou na varanda. Só consigo encontrar uma explicação para isso: ele foi embora.
À princípio, eu não sei se estou feliz. Mas então eu começo a sorrir e percebo que estou exalando felicidade. Estou profundamente aliviada por ter me livrado daquele sociopata. É como se um peso tivesse saído dos meus ombros. Dou risada de mim mesma ao me lembrar de como, há poucos minutos, eu estava apavorada e comemoro sozinha:
— E este foi o dia em que Olivia Mills quase morreu, mas não morreu. Ufa!
Depois de respirar profundamente, dissipando qualquer resquício de tensão ainda presente no meu corpo, eu caminho até a porta e a tranco. O Loki foi embora, isso é um fato, mas no fundo, eu tenho medo que ele se arrependa e volte, então é melhor me precaver.
Estou tão feliz e aliviada por ter me livrado daquele mala sem alça, que ligo o rádio e coloco um CD qualquer para tocar. Então começo a cantarolar pela casa e a dançar de uma forma desengonçada, enquanto me dirijo ao banheiro. Um banho relaxante e bem quentinho me fará muito bem.
Hoje é sexta-feira e, infelizmente, estou muito cansada para sair. Mas, enquanto me livro das minhas roupas e entro no chuveiro, decido que amanhã à noite vou sair para dançar. Sorrio ao pensar nisso.
Quando termino o banho, ainda estou tão feliz, mas tão feliz, que decido acabar com um pote de sorvete de cookies, enquanto assisto meus episódios favoritos de Friends.
Entre uma risada e uma colherada e outra, acabo pegando no sono, no sofá da sala.
XXX
Estou sonhando com algodão doce de novo, quase agarrando uma daquelas nuvens, quando um barulho me desperta. Abro os olhos a tempo de ver alguém vindo da... Minha varanda?!
Estou tão surpresa e chocada com a imagem do Deus do Trovão adentrando minha sala, que arregalo os olhos e tenho a impressão de que eles vão saltar para fora do meu rostinho pálido. Então abro a boca até o limite e exclamo:
— Minha Nossa Senhora Protetora dos Vingadores!
Me impulsiono, tentando me levantar, mas de tão atordoada com aquela ilustre e repentina visita, eu me desequilibro, antes de conseguir me erguer por completo, e caio aos pés do irmão gato do Loki.
Sim, o Thor é bem gato, tenho que dizer. Com todo o respeito a Jane Foster, uma cientista que, de acordo com os tabloides, parece ter ganhado o coração do herói asgardiano. E assim, em carne e osso, ele é ainda mais gato. Um verdadeiro deus mesmo. Tenho que controlar o impulso de assobiar para ele.
Envergonhada por ser tão estabanada, o encaro com um sorriso amarelo. Ele, por sua vez, uni as sobrancelhas, num claro sinal de confusão, como se também não acreditasse que alguém pudesse ser tão desastrada assim que acorda.
Em seguida, ele troca o martelo — ai meu Deus! Ele veio com martelo e tudo! — da mão direita para a esquerda, e então a estende na minha direção, me oferecendo ajuda para levantar, enquanto me cumprimenta de um jeito firme, porém gentil:
— Srta. Mills, é uma honra conhecê-la. E me desculpe, eu não queria assustá-la.
Se ele não queria me assustar, por que não bateu na porta como todo mundo? É o que me pergunto, enquanto seguro a sua mão e me levanto. Mas, pelo visto, os asgardianos gostam mesmo de entradas triunfais. Talvez seja a marca registrada deles, no final das contas.
Ao olhar na direção da varanda do meu cafofo, que fica no último andar do prédio, constato que o Deus do Trovão, assim como o Loki naquela noite no meio da chuva, veio diretamente do céu.
Tenho que confessar, admiro a forma como os asgardianos se transportam, eles nem sequer pegam trânsito. É um povo muito evoluído mesmo. Exceto pelas roupas, que são muito extravagantes, na minha opinião. Ótimas para passar o Carnaval no Brasil, mas bem extravagantes no resto do ano.
Por falar nisso, reparo melhor nas roupas dele e constato que suas cores são ainda mais vivas do que aquilo que as imagens retrataram na televisão. Há uma certa imponência em toda aquela extravagância, que ressalta o seu corpo forte e másculo. Não é qualquer um que fica bem numa fantasia daquelas, mas ela cai muito bem no Thor, tenho que admitir.
Lentamente, eu solto a sua mão, tento controlar a emoção de estar diante de um dos Vingadores, que ainda por cima é um alienígena muito gato, respiro fundo e finalmente digo alguma coisa:
— É uma honra conhecê-lo também. Sua fantasia é muito bonita...
Quase mordo a língua ao perceber o que eu disse, mas para meu alívio, ele ri lisonjeado, aponta para o meu pijama do Zé Colmeia e retribui:
— O seu pijama também.
Pode parecer estranho que os meus pijamas sejam tão infantis, afinal, eu tenho vinte e quatro anos, mas, a maioria deles são presentes da minha avó. E vocês sabem como as avós são, não sabem? Sempre nos tratando como se fôssemos eternas crianças.
Tenho medo que o Thor esteja apenas sendo gentil e que me veja como uma retardada, mas não consigo deixar de sorrir e agradecer:
— Obrigada! — ele assente com um meneio de cabeça e então eu recomeço: — E não me entenda mal, é mesmo uma honra receber o Deus do Trovão em carne, osso e martelo no meu humilde cafofo, mas como você sabe o meu nome e por que está aqui?
— Heimdall. — ele responde como se isso explicasse tudo. Mas diante da minha expressão, de alguém que não entendeu nada, o asgardiano explica melhor: — Ele é o guardião da Ponte Bifröst, uma espécie de sentinela, além de um bravo guerreiro. Ele pode ver qualquer pessoa nos Nove Reinos e tem estado de olho em você, desde que a senhorita encontrou o Loki e lhe ofereceu abrigo.
Procuro não pensar que tem um tarado asgardiano me espionando há dois dias e exclamo:
— Ah! O Loki! Então é isso! Você veio buscar aquela coisa! Bem... Sinto muito, mas eu não sei onde aquele gafanhoto metido está. Ele simplesmente desapareceu, foi embora, para a minha alegria...
Quase mordo a língua de novo, ao perceber que embora o Loki seja um monstro desalmado e que não merece um pingo da minha consideração, ouvir alguém falando mal dele não deve ser muito agradável para o Thor. Independente de qualquer coisa, o Loki ainda é o irmão dele, adotivo e megalomaníaco, mas ainda assim irmão.
Tento desfazer o efeito negativo das minhas palavras, pedindo humildemente:
— Desculpe.
Com uma expressão suave, Thor me tranquiliza:
— Não se preocupe, eu sei muito bem como o Loki pode ser desagradável quando quer. E geralmente, é isso o que ele quer o tempo todo.
Mais relaxada, eu digo em tom divertido:
— Aposto que vocês dois estavam brigando lá em Asgard, puxando o cabelo um do outro, quando sem querer querendo, você chutou o traseiro do infeliz e ele caiu para este lado, não foi?
O Deus do Trovão me encara como se não entendesse por que eu estou fazendo piada sobre esse assunto. Desmancho meu sorriso, mas aparentemente, ele assimilou minhas palavras numa boa, já que sua expressão se suaviza mais uma vez e ele explica:
— Na verdade, eu sabia exatamente o que estava fazendo quando mandei o Loki para cá. E é sobre isso que nós precisamos conversar, Srta. Mills.
O que foi que aquele top model asgardiano disse mesmo? Ele sabia o que estava fazendo? Ele mandou o sociopata do Loki para cá de livre e espontânea vontade? Para a cidade que o Loki quase destruiu um dia? Para o planeta que ele quis dominar como o deus manipulador e excêntrico que ele é?
Eu já desconfiava que o Thor era o responsável por aquilo, mas ter a confirmação, e principalmente diante da naturalidade com que ele disse aquilo, me deixa surpresa. Então, despenco para trás e caio sentada no sofá.
Thor me observa por algum tempo, antes de caminhar até a poltrona ao meu lado e se acomodar nela. Ele coloca o martelo sobre uma mesinha ao lado dela e, por um momento, eu me esqueço de tudo.
Aquele martelo é ainda mais lindo do que eu pensava. Não me orgulho de dizer isso, mas sinto uma vontade tentadora de roubá-lo e sair correndo dali. Claro que eu não conseguiria, afinal, apenas aquele que é digno do poder daquele martelo maravilhoso, consegue erguê-lo. E, com certeza, apenas por ter tido esse pensamento infame, eu sei que não sou digna de coisa alguma. Mesmo assim, não consigo deixar de esboçar um leve sorriso ao imaginar como aquele martelo ficaria lindo na estante do meu quarto, bem do ladinho do meu boneco do Mestre Yoda.
— Eu sei o que você está pensando. — a voz do Thor me desperta desses pensamentos e o encaro assustada.
— Eu não ia roubar! Eu juro! — trato logo de me defender, mas pela sua expressão, deduzo que não era ao martelo que ele estava se referindo.
Me xingo mentalmente por ser tão burra e espero ele continuar:
— Eu estava falando sobre o Loki. — e depois de uma breve pausa, ele acrescenta: — Eu sei que você não deve estar entendendo por que eu o mandei para cá, mas acredite, eu posso explicar.
Não sei como ele vai me convencer a parar de achar aquilo uma loucura, mas, quando um Vingador gato como aquele aparece na sua sala, dizendo que pode explicar uma loucura, o mínimo que você deve fazer é dizer:
— Tudo bem, eu estou ouvindo.
Tenho vontade de rir, quando o Thor se mexe um pouco e constato que a poltrona é pequena demais para o seu corpo musculoso, mas me contenho e o ouço atentamente:
— Um dia, meu pai Odin, o Pai de Todos e Rei de Asgard, me mandou para Midgard. É assim que nós chamamos o seu Reino, Srta. Mills. — tenho vontade de rir de novo. Reino? Esse planetinha bagunçado e atrasado? Me contenho mais uma vez. — Eu estava tomado pelo orgulho, pela soberba e cometi alguns erros. Meu pai quis me ensinar uma lição e por isso me baniu para cá. E, modéstia a parte, — ele pega o martelo — eu acho que aprendi a lição, já que me tornei digno do Mjölnir. — depois de colocar o martelo no mesmo lugar, ele prossegue: — Então, eu decidi fazer o mesmo com o Loki, porque também quero lhe ensinar algo.
— Boas maneiras? — eu arrisco, sem conseguir conter um sorriso, ao me lembrar de como o Loki é insuportavelmente mal educado e presunçoso.
— Algo assim. — Thor responde, me deixando pensativa.
Instantes depois, me inclino um pouco em sua direção e questiono:
— E o que aquele gafanhoto metido aprontou desta vez para te levar a tomar uma atitude assim tão drástica?
Thor hesita um pouco e noto raiva em seu semblante, como se relembrar aquilo o deixasse profundamente incomodado. Então ele aperta as mãos uma na outra, se acalma e responde:
— Ele me fez acreditar que estava morto e usurpou o trono de Asgard, fazendo-se passar pelo nosso pai.
Abro a boca até o limite pela segunda vez naquela manhã e exclamo indignada:
— Mais que filho da... — paro, ao perceber que Thor estreitou o seu olhar na minha direção. Engulo o palavrão que quase disse e desconverso envergonhada: — Nada não, esquece. Continue, por favor.
Após um breve momento de silêncio, ele prossegue:
— Eu sei que você está preocupada com o que o Loki pode fazer, mas acredite, agora ele é praticamente inofensivo. Eu não sei se você reparou, mas ele está usando um bracelete no pulso direito. Foi a nossa mãe, Frigga, que o fez, usando magia. Ela me disse, pouco antes de um atentado que tirou a sua vida, para que eu só o usasse em último caso. O fato é que aquele bracelete inibe os poderes do Loki e é impossível de ser retirado manualmente, a não ser que... Ele se torne digno.
— Ou seja, ele vai morrer com aquela bijuteria no pulso. — digo sem pensar e rindo um pouco, já que para mim, é impossível imaginar aquele deus trapaceiro e sem coração se tornando 1% digno algum dia. Mas, quando percebo que Thor ficou triste com o meu comentário, eu tento consertar minha gafe: — Ou talvez ele consiga se livrar do bracelete algum dia, não é? Quem sabe? Todo mundo pode mudar.
Vejo um leve sorriso surgindo naquele rostinho lindo e ouço a sua pergunta:
— Você acredita mesmo nisso, Srta. Mills?
Claro que eu não acredito. Ou melhor, sim, eu acredito que qualquer pessoa pode mudar, exceto o Loki e sociopatas como ele.
— Sim! Absolutamente! Acredito sim! Na verdade, eu acho até que o Loki já mudou um pouquinho desde que me conheceu. — minto na maior cara de pau.
O sorriso do Deus do Trovão se alarga em seu belo rosto, quando ele levanta com um impulso, pega o seu martelo e diz:
— Ótimo! Então, continue fazendo o seu trabalho e ajudando o meu irmão a encontrar o caminho para a dignidade.
Ignorando minha cara de interrogação, Thor começa a se afastar.
Confusa, levanto e o sigo na direção da varanda, enquanto questiono:
— Ei! Ei! Como assim?
Thor se vira na minha direção e responde tranquilamente:
— Desde que eu mandei o Loki para cá, você foi a única pessoa em quem ele confiou para se aproximar e pedir ajuda.
— Eu fui a primeira pessoa que o Loki viu e ele não pediu a minha ajuda, ele praticamente exigiu isso. — esclareço.
— Não importa. Se ele exigiu a sua ajuda, então o ajude. — o asgardiano pede, me encarando com aqueles olhinhos azuis tão meigos. — Por favor. — ele insiste ao perceber minha hesitação. — Por mim. — completa, derrubando minhas defesas.
Como negar algo para aquele deus lindo, educado e que só está tentando ajudar o seu irmão maquiavélico, enquanto te olha com uma carinha de cachorro que caiu do caminhão de mudança?
Acabo sorrindo em concordância, porém, em seguida me lembro de algo e digo:
— Mas eu nem sei onde ele está. Eu não estava brincando quando disse que o Loki foi embora.
— Eu sei disso. O Heimdall viu tudo. — Thor diz, enquanto volta a caminhar. O sigo. — E pelo o que ele viu até agora, algo me diz, que o meu irmão vai voltar em breve.
Thor para no meio da varanda e eu tento disfarçar minha cara de pânico. O Loki está pensando em voltar para o meu cafofo?! Então eu preciso colocar mais trancas na porta antes que esta tragédia aconteça!
— Srta. Mills? — ouço a voz do Deus do Trovão me chamando e olho em sua direção ainda atônita.
Tudo o que consigo fazer é mentir mais uma vez:
— Que ótimo! Nossa... Que bom que ele vai voltar! Eu estou tão feliz em saber disso que não sei nem o que dizer... Talvez eu deva preparar alguma coisa para o Loki comer. A propósito, qual é o prato favorito dele em Asgard? Talvez eu possa fazer uma versão midgardiana.
Thor me examina atentamente, antes de dizer:
— Não precisa fingir que está feliz com isso. Eu sei como o Loki é desagradável e sei que você está com medo. Mas não se preocupe, ele está sem os poderes e mesmo que tente te machucar de outra forma, não vai conseguir. O Heimdall está observando tudo e ao menor sinal de perigo, eu estarei aqui.
Não quero demonstrar como sou medrosa, mas como imagino que isso deve estar estampado na minha cara, não resisto e pergunto:
— E se você não chegar a tempo?
— Eu vou chegar. — ele me assegura, porém não surte qualquer efeito em mim. Thor pode ser forte e destemido, mas o Loki, mesmo sem os seus poderes, ainda é o Loki e, sim, eu morro de medo daquele gafanhoto.
Por isso, percebo que estou encolhendo os ombros quando pergunto hesitante:
— Mas e se... Por acaso... Você não chegar a tempo?
Thor me encara e me sinto ainda pior por estar com tanto medo. Sinta medo e o enfrente. Por que é tão difícil seguir o conselho da minha avó?
Chego a pensar que ofendi o deus asgardiano, mas então ele indica a varanda e me chama com um meneio de cabeça. O sigo mais uma vez e me apoio no parapeito junto com ele.
— Eu acho que nós podemos chamar isso de plano B. — Thor anuncia e eu o fito sem entender mais nada. Então ele indica algo lá embaixo, numa lanchonete do outro lado da rua e eu sigo o seu dedo. — Está vendo aquele homem sentado naquela mesa na calçada?
— Estou. — respondo ao ver o tal homem, de cabelos negros e folheando um jornal, quando de repente ele para, olha na direção da minha varanda e faz outra coisa. — Por que ele está acenando para a gente? — questiono, antes de me virar na direção do Thor e constatar que ele está fazendo a mesma coisa, enquanto sorri. — E por que você está acenando de volta, cara pálida? — estranho a sua atitude.
Então ele interrompe o gesto, olha para mim e responde:
— Porque eu o conheço. Aquele homem lá embaixo é o Dr. Bruce Banner, mas eu acredito que você o conheça como... Hulk. — sinto que arregalo os olhos e que devo estar com uma cara muito engraçada. — Então, se alguma coisa acontecer e eu não chegar a tempo, ele certamente chegará.
Finalmente saio daquele estado de torpor e questiono:
— Então eu devo ficar mais tranquila por que tem um tarado asgardiano me espionando e uma fera me seguindo? Desculpe, Thor, mas isso só está me deixando com mais medo.
Gentilmente, ele coloca a sua mão em meu ombro e assegura:
— Não há o que temer, Srta. Mills. Isso tudo são apenas precauções. Se o Loki quisesse te ferir, ele já teria feito isso, mesmo sem os poderes.
É o que eu penso também, mas mesmo assim, quem garante que aquele energúmeno não vai mudar de ideia em algum momento e torcer o meu pobre e desprezível pescocinho midgardiano?
Ainda me questiono sobre isso, quando outra pergunta sai da minha garganta:
— Os outros Vingadores sabem que o Loki está aqui?
— Sim. E eles estão por perto também. — ele responde, e quando eu arregalo os olhos mais uma vez, percebendo a dimensão da confusão na qual me meti, tudo porque eu queria ajudar um cosplay suicida e mentalmente abalado, Thor aperta seus dedos contra meu ombro e afirma: — Mas eu não acredito que eles precisarão intervir, Srta. Mills. São apenas mais precauções.
Procuro acreditar em suas palavras e digo com a voz um tanto falha:
— Me chame de Olivia.
Thor sorri e pergunta:
— Então, eu posso confiar em você, Olivia? Você vai me ajudar?
Procuro me agarrar na confiança que o Deus do Trovão transmite, me lembro das suas palavras, dos seus argumentos e do seu otimismo. Então, sem perceber, estou balançando a cabeça afirmativamente repetidas vezes.
— Obrigado. — ele diz antes de se afastar, dando alguns passos para trás. — Heimdall, quando você estiver pronto. — fala, olhando para cima.
Só então me lembro de algo elementar e pergunto às pressas:
— Espera! Mas como eu vou ajudar o caso perdido do Loki?
— Apenas continue sendo você mesma e não deixe ele saber que eu te procurei. Nem que o Bruce e os outros estão por perto. — Thor orienta e, em seguida, é envolvido por uma luz forte, cheia de matizes de diversas tonalidades e desaparece segundos depois junto com ela.
Sozinha, com o coração acelerado e o medo reverberando por cada célula do meu corpo, olho na direção do homem do outro lado da rua. Percebo que ele está me encarando e aceno discretamente.
Longos segundos se passam, até que ele finalmente acena de volta, de uma forma muito discreta, e volta a "ler" o seu jornal.
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