Trapaças do Coração
24 O inevitável
Notas iniciais
Eu poderia estar chateada por ter ficado de fora da missão a Seul para recuperar o Berço Regenerador e libertar a Dra. Cho do controle de Ultron, porém, para minha própria surpresa, não estou.
Claro que é frustrante, mas tentei ver as coisas pelo ângulo de Phil Coulson e dos Vingadores. E a verdade é que eu realmente preciso me preparar melhor para um embate direto com Ultron. Principalmente, no que diz respeito a minha super força alienígena. Preciso entender e controlá-la melhor.
Apesar disso, juro que se da próxima vez me deixarem chupando dedo novamente, Olivia Mills vai rodar a baiana a la Vera Verão. Ah, se vai!
Estou pensando nisso enquanto esmurro repetidamente o saco de areia pendurado por ganchos metálicos diante de mim, em uma sala de treinamento da Torre.
Clint esteve aqui mais cedo e me colocou a par da situação em Seul. Saber que tivemos uma importante vitória e que em breve o trapaceiro irresistível estará de volta me ajuda a manter o foco e a determinação.
Com esse espírito, procuro me concentrar ainda mais em cada golpe, aumentando a intensidade gradativamente. O saco de areia se move cada vez mais para longe do meu rosto à medida que deposito mais força nas mãos protegidas por luvas especiais — desenvolvidas pela S.H.I.E.L.D. para preservarem minhas articulações.
Quando o saco finalmente chega ao limite de distância e altura, giro o corpo com agilidade e dou um salto não muito alto, só para elevar e esticar a perna direita, acertando-o em cheio com o máximo de força que consigo convergir e centralizar.
Fecho os olhos e ouço o baque dele caindo alguns metros a frente, depois de ter sido varrido dos ganchos e espalhado areia pelo caminho.
Por fim, observo com satisfação e orgulho mais um saco estourado com sucesso, fazendo companhia aos seus amigos que jazem junto à parede.
Limpo o suor da testa com o dorso da mão e ouço meu estômago roncar vergonhosamente, fazendo-me levar as mãos à barriga por instinto.
— Arre-égua!
Estou treinando há horas, sendo que este foi o segundo bloco de maratona pesada do dia. Preciso repor as energias se ainda quiser correr um pouco na esteira a fim de melhorar meu condicionamento físico e fôlego em campo.
Então deixo a sala de treinamento e sigo pelo corredor, determinada a filar a boia na cozinha e causar uma baixa considerável no estoque de guloseimas de Tony Stark. Rá!
Detenho o passo quando uma gritaria inflamada chama minha atenção. Ao perceber que as vozes vêm do laboratório de Bruce, sou obrigada a adiar meu plano de comilança e mudo de direção.
À medida que me aproximo da entrada, consigo distinguir algumas vozes, entre elas a do próprio Bruce dizendo que poderia torcer o pescoço de alguém sem nem ficar verde. Agressividade é a cara do Hulk, mas não combina com seu alter ego fofíneo. Algo incomum e grave está acontecendo por aqui.
A todo momento, Steve ordena que algo seja desligado, e Tony o ignora magistralmente, retrucando vez ou outra.
Ao reconhecer as vozes de Clint e Natasha no meio da confusão entre eles, e também a de duas pessoas que esperava não ver nunca mais ou pelo menos não por aqui, paro sorrateiramente na entrada do laboratório e observo a cena como um todo.
Atônita, vejo os gêmeos Maximoff a alguns metros, Tony e Bruce próximos ao Berço Regenerador, o restante da equipe do outro lado da enorme e vítrea sala. Nem sinal do gafanhoto. Meu coração fica apertado.
Em dado momento, o Capitão América insiste com veemência para que Tony e Bruce parem o que estão prestes a fazer, mas os dois parecem relutantes e determinados a prosseguirem com o que quer que seja.
Então, eu olho na direção do Berço e juro que, por um milésimo de segundo, algo se move sutilmente lá dentro. Ainda mais perplexa, constato que é o corpo sintezoíde que recuperamos de Ultron. O que Bruce e Tony estão fazendo com ele, eu não sei, mas para Steve se opor desse jeito, boa coisa não é.
Estou quase entrando de vez e disparando uma série de perguntas que se acumulam dentro de mim — entre elas: onde diabos está o gafanhoto? —, quando o Papa-Léguas se movimenta do seu jeito Papa-Léguas de ser e puxa um cabo de energia até então conectado ao Berço, resolvendo o problema de desligar tudo e interromper os planos de Banner e do Homem de Ferro.
— Muito bem, continuem — a criatura ligeira ironiza, referindo-se ao impasse anterior.
Neste momento, enxergo uma oportunidade e tanto de revidar o tombo antológico que levei em Sokovia quando Pietro me derrubou no meio da neve. Sem pensar duas vezes, tiro um dos meus tênis especiais — mais rígidos e resistentes do que calçados comuns —, concentro pouca força nele e o arremesso contra o infeliz, acertando em cheio sua cabeça de vento platinada.
— Au! — o Papa-Léguas grita de dor e surpresa, caindo de joelhos no chão, meio zonzo, e pressionando a cachola enquanto olha para trás à procuro de quem o atacou.
— Pietro! — A Bruxa Má do Oeste faz menção de correr até o irmãozinho querido, visivelmente preocupada com sua integridade física.
Passo por ele como uma diva, passos de gazela a la Gisele Bündchen feat. Paola Bracho, lanço-lhe um olhar cínico e digo:
— O que foi? Você não viu isso chegando?
Pego meu tênis de volta, mas não tenho tempo de calçar novamente. Antes disso, Stark tenta religar o equipamento e finalizar algo, e o Capitão América responde lançando seu poderoso escudo na direção de um computador atrás dele. O frisbee de vibranium percorre todo o lsboratório, desligando tudo pelo caminho e frustrando ainda mais o plano misterioso de Stark, do qual Bruce parece mesmo ser conivente.
No instante seguinte, o Homem de Ferro veste parte da sua armadura e acerta alguns raios propulsores em Steve, que é lançado para trás e cai sentado, rente à parede.
Nesse meio tempo, Bruce surpreende Wanda antes que ela consiga alcançar o irmão, segurando-a por trás e a desafiando:
— Vamos lá, me irrite de novo.
Como resposta, ela contorce levemente as mãos, fazendo seu poder emanar por entre os dedos e o atinge com a feitiçaria esquisita. Bruce se afasta com passos trôpegos, esboçando uma careta de dor, mas não parece ser grave. Wanda apenas se defendeu, não parece querer machucá-lo de verdade. O que é estranho.
Enquanto o Papa-Léguas se levanta e eu tento entender o que diabos está acontecendo aqui e de que lado estou — Team Stark ou Team Cap? —, a confusão prossegue.
Clint, que parece ter sido colocado a par da situação pela Dona Aranha, tenta, junto com ela, impedir Tony de religar tudo. Bruce, ainda possesso por ter sido manipulado pela Bruxa Má do Oeste e tocado o terror como Hulk, caminha até ela mais uma vez. O Papa-Léguas afasta a irmã bem a tempo, levando-a consigo quando se move rapidamente até o Capitão, já de pé e com seu escudo a postos.
É então que de repente, não mais que de repente, Thor adentra o laboratório em grande estilo, cabelos lindos e esvoaçantes como um comercial da L’Oréal, e sem explicar o seu retorno, pula em cima do Berço com destreza. Imediatamente, todos ficam estagnados olhando para ele.
Então, o top model asgardiano ergue seu martelo divo para o alto, o que faz uma série de raios fluir em volta dele, e acerta o Berço em cheio, ocasionando um pico de energia que religa o equipamento no ato.
No instante seguinte, a estrutura é rompida de dentro para fora e meu cunhadinho querido é arremessado alguns metros a frente por algo que emerge do Berço. Algo não, alguém. O sujeito avermelhado com nuances metálicas se ergue lentamente, fitando cada um de nós com seus olhos inumanos.
— Ai meu Deus! Ele está pelado! — exclamo chocada, tampando o rosto com as mãos. — Alguém dá uma roupa para o pobrezinho — peço pela situação embaraçosa, apesar dele não parecer um homem comum.
Por falar nisso, eu nem consegui reparar direito se o sujeito tem os documentos de praxe ou não. Tomada pela curiosidade, deixo a vergonha de lado e afasto os dedos lentamente. Não consigo ver nada, pois ele salta na direção de Thor antes que meus olhinhos de noite serena alcancem sua intimidade.
O top model asgardiano se defende rápido, com força e agilidade, desviando a criatura no ar e lançando o dito cujo rumo ao mezanino. Uma parede de vidro é estilhaçada com o impacto, mas o Relâmpago McQueen versão humanoíde não parece se ferir e segue caminho.
Planando com elegância, ele para como uma pluma na enorme parede de vidro seguinte, que lhe dá uma visão arrebatadora da noturna Manhattan. E assim ele fica pelos momentos seguintes, observando o cenário diante dos seus olhos, no mais completo silêncio e ignorando todos nós.
De repente, sem mais nem menos, uma espécie de roupa num tom grafite começa a cobrir parte do seu corpo, como se não fosse tecido, mas sim parte dele, algo que está criando nesse exato instante.
Parece que agora eu nunca vou saber se o sujeito tem playground ou não. Seria indiscreto da minha parte perguntar? Na inocência e na amizade, é claro.
Esqueço-me disso quando, um a um, os Vingadores se aproximam dele, pulando de forma silenciosa para o mezanino. Faço o mesmo, ignorando certo medo de altura e confiando nos meus predicados alienígenas, além do que aprendi treinando com a Viúva Negra.
Steve faz menção de atirar o seu escudo no sintezoíde, mas o top model asgardiano lhe pede calma com um gesto de mão. Depois, sem fazer muito barulho, coloca o Mjölnir numa mesa ao lado.
Finalmente, o Relâmpago McQueen se vira para nós, plana até pousar na nossa frente e diz:
— Desculpem, isso foi estranho. Obrigado... — Ele analisa o Deus do Trovão, concentrando-se por tempo demais em sua capa feita com uma cortina asgardiana. — Thor.
Como mágica e com certo recalque, uma capa imponente surge aos poucos nas costas da criatura. Num tom de amarelo que combina com um tipo de piercing estranho no meio de sua testa. Mas tudo isso perde a importância quando repasso sua voz familiar em minha mente e chego a uma terrível e assombrosa conclusão:
— Virgem Santa! Ele engoliu o J.A.R.V.I.S.!
Tony troca um rápido olhar com Bruce e me corrige:
— Nós reconfiguramos a matriz do J.A.R.V.I.S. para construir algo novo.
Diante da sua explicação, penso por alguns instantes e digo:
— Bem, acho que isso muda um pouco o conceito de reencarnação, mas eu vou assimilar. Acho.
Logo depois, o Capitão América volta-se para o Deus do Trovão e faz a pergunta cuja resposta todos nós queremos entender:
— Você ajudou a criar isso?
Prontamente, meu cunhadinho se explica:
— Eu tive uma visão. Um redemoinho que suga a vida e no centro está aquilo.
Ele aponta para o ponto amarelo reluzente na testa do sintezoíde e eu busco confirmar:
— O piercing?
— A gema? — Bruce emenda.
— É a Joia da Mente — Thor corrige nós dois. — É uma das seis Joias do Infinito, as maiores forças do universo. Estava dentro do Cetro antes de Ultron extraí-la. Seu poder destrutivo é incomparável.
— Então por que você trouxe...? — Steve começa a perguntar.
O deus trovejante o interrompe e se justifica:
— Porque Stark está certo. Os Vingadores não podem derrotar Ultron sozinhos. Mesmo com Loki do nosso lado, nós vamos precisar disso.
Há um breve momento de silêncio enquanto todos absorvem os argumentos de Thor. Por fim, Wanda dá um passo na direção do Relâmpago McQueen de duas pernas e diz:
— Eu olhei na sua mente antes e vi aniquilação.
— Olhe de novo — ele a desafia de um jeito sereno, e juro que sinto um climinha entre os dois.
Começo a entender o que ela e seu irmão platinado estão fazendo aqui. Acho que, de alguma forma, eles descobriram as verdadeiras intenções do Robocop megalomaníaco e debandaram.
— O selo de aprovação dela não significa nada pra mim — Barton diz, despertando-me dessa conclusão. Em seguida, vira-se para a recente criação de Tony e inquere: — Você está do nosso lado? Sim ou não?
— Acho que não é tão simples — o ser responde calmamente.
— É melhor ficar bem simples logo — a Dona Aranha aconselha, meio desconfiada, bem como a maioria de nós, presumo.
Percebendo que precisa ser mais claro, o sujeito avermelhado argumenta:
— Eu estou do lado da vida. Ultron não está. Ele quer acabar com tudo.
— O que ele está esperando? — Tony pergunta.
— Vocês.
— Onde? — Steve indaga.
Desta vez, é o Robin Hood que toma a palavra ao responder com precisão:
— Sokovia. É lá que Loki foi parar. Eu acabei de localizá-lo.
Surpresa com a revelação e sentindo um frio no estômago, questiono:
— O quê?! O que o gafanhoto está fazendo em Sokovia com Ultron?
Deixando claro que esqueceu de me contar alguns detalhes da missão a Seul, Clint simplesmente responde:
— Ele ainda tinha o rastreador e uma forma de ficar oculto para Ultron, então... resolveu se infiltrar e segui-lo.
O filme se repete. Assim como aceitou servir de isca para descobrir a localização do Barão Von Spaghett, o Deus da Trapaça resolveu seguir Ultron até o seu covil, que aparentemente é no mesmo lugar.
Sabe, às vezes, eu sinto falta da época em que Loki relutava diante da ideia de se envolver assim. Mas parece que ele mudou mesmo de opinião. Claro que vai jogar tudo isso na cara dos Vingadores pelo resto da eternidade, e claro que vai perguntar mil vezes o quão grata eu estou por ele ter ajudado a salvar o meu planeta, mas o fato é que o danado está fazendo a diferença e provando o seu valor. Eu estou orgulhosa. E grata, sim.
Apesar disso, fico um pouco chateada com Clint por ter me deixado às cegas e questiono:
— E você não me disse patavinas disso por que...?
Antes que ele se explique, sua girl magia assume a culpa:
— Eu pedi que ele não te contasse. Você ia ficar preocupada à toa, Olivia. Loki sabe muito bem se virar sozinho.
Esboço um meio sorriso para dizer que compreendi, embora no fundo não tenha gostado da mentirinha inocente.
Natasha então se volta para a reencarnação de J.A.R.V.I.S. e o induz a ser mais claro sobre suas intenções:
— Quanto a você... O que nós podemos esperar afinal?
Entendendo a mensagem dela — que, no fundo, é o que todos queremos saber —, ele diz pausadamente enquanto desfila entre nós:
— Eu não quero matar Ultron. Ele é único e está sofrendo. Mas esse sofrimento vai tragar a Terra. Então ele deve ser destruído. Cada forma que construiu e cada traço dele na internet. Temos que agir agora. E nenhum de nós pode fazer isso sem o outro.
— Hum, estou começando a gostar de você — admito, sentindo-me incluída no balaio. — Isso significa que desta vez eu não vou ficar de fora. — Lanço um olhar torto para os Maximoff, cruzo os braços e resmungo: — Infelizmente, isso também significa que eu vou ter que me misturar com certas gentalhas. Gentalhas, gentalhas, prrr...
Juro que quando olho para o Relâmpago McQueen de novo, ele parece sorrir discretamente para mim. Sorrio de volta e faço um joinha com a mão. Estou mesmo começando a gostar desse cara. É esquisitão, mas parece bem intencionado.
Ainda estou refletindo sobre isso, quando ele analisa a própria aparência e retoma meio introspectivo:
— Talvez eu seja um monstro. Acho que eu não saberia se fosse. Não sou o que vocês são ou o que planejaram. E sei que eu não tenho como fazê-los confiar em mim, mas... — Ele pega o Mjölnir sobre a mesa e o estende na direção de Thor. — Nós precisamos ir.
Há um longo e embaraçoso momento de silêncio enquanto todos observam a cena atípica com surpresa e perplexidade. Ninguém reage ou diz qualquer coisa porque ninguém está acreditando que outra pessoa — ou outro ser — conseguiu erguer o martelo mágico que, para todos os efeitos, pertence única e exclusivamente a Thor.
Só quando este outro ser — indiscutivelmente digno —, se afasta e o top model asardiano dá uns tapinhas tímidos no Mjölnir, uma risada sonora e irresistível escapa da minha garganta. Então o provoco:
— Thor, mon amour, acho que você acabou de perder o direito de governar Asgard. Ou pelo menos tem um concorrente e tanto. O gafanhoto ia adorar a sua cara de pastel agora.
Passado na manteiga e bem sem graça, ele toca Stark no ombro e, antes de deixar o laboratório também, o parabeniza pela nova criação:
— Bom trabalho.
Algumas horas depois...
Se alguém me dissesse que eu voltaria para Sokovia tão rápido e nessas circunstâncias, provavelmente eu não acreditaria. Mas aqui estou eu e aqui estamos todos nós. De volta ao começo da missão inicialmente contra a Hydra, mas que tomou proporções desastrosas quando um próprio membro dos Vingadores, tentando fazer algo certo para proteger o mundo, errou e o tiro saiu pela culatra.
Ultron acredita que todos nós somos monstros. Chegou o momento de provar que ele está errado. Por isso, assim que chegamos aqui, nos concentramos na prioridade: proteger os civis acima de qualquer coisa.
Tony foi atrás de Ultron, a fim de ganhar tempo para que Sokovia possa ser evacuada em segurança. Thor está nas galerias subterrâneas da cidade, uma vez que há uma forte suspeita de que o Robocop do mal esteja construindo algo sob os nossos pés. Wanda — que no final das contas não é tão Bruxa Má do Oeste assim —, manipulou as mentes dos moradores para que eles deixassem suas casas e partissem para o mais longe possível sem olhar para trás, tipo sebo nas canelas! Seu irmão, Papa-Léguas, deu um jeito de avisar a polícia local sobre a necessidade de protegerem os civis enquanto eles deixam a cidade. Já o concorrente de Thor ao Mjölnir ficou encarregado de desconectar Ultron da internet, para que assim ele não possa fugir novamente. Bruce, ao invés de ter permanecido no Quinjet aguardando o código verde, está com Steve, Clint e Natasha, acompanhando o fluxo de pessoas rumo à saída de Sokovia. Caso seja necessário, ele irá se afastar dos civis e ficar verde.
Eu também estou fazendo minha parte. Indicando moradores que ainda precisam ser manipulados por Wanda e apressando os mais lentos. Vez ou outra, tenho que empurrar algumas famílias sutilmente pelas vielas da cidade enquanto digo “Continuem a nadar” e depois “Molto bene! Agora dirijam com segurança, chuchus da minha horta e não olhem para trás.”
Infelizmente, a evacuação de Sokovia segue num ritmo perigosamente lento e o fluxo de trânsito está cada vez mais congestionado.
Paro por um momento e observo o cenário caótico a minha volta. E sou completamente surpreendida quando alguém puxa meu braço, arrastando-me para um beco escuro.
— Mas que marmota é essa?
Estou prestes a estapear o tarado, mas então encontro seus olhos verdes e penetrantes. Fico estagnada por um momento. Reconheço sua cara de limão azedo e toco suas madeixas negras e levemente repicadas com a ponta dos dedos.
Eu, que já estava a ponto de enlouquecer de tanto me perguntar onde diabos ele estava, não consigo esconder o alívio por reencontrá-lo, nem a sensação instigante de déjà vu que se abate sobre mim ao me lembrar de uma situação semelhante a esta, quando o danadinho teve a cara de pau de se passar pelo Capitão América e me agarrou em um beco escuro de Nova York.
De repente, esqueço-me de onde estou e do porquê estou, e simplesmente meço Loki da cabeça aos pés com um sorriso travesso e um olhar que certamente o deixaria nu em pelo, se eu tivesse esse poder. Adoraria ter esse poder, aliás.
Seria um crime despi-lo de tanta elegância, é verdade, já que o Deus da Trapaça está vestido com uma ilusão de traje alinhado e formal que lhe cai muito bem — terno, colete, gravata, camisa, calça, tudo em preto, Ave Maria! —, mas crime maior seria deixar esse momento passar em branco — aquela carinha.
Sei que não posso livrá-lo das roupas aqui e agora, mas posso tirar uma boa casquinha, na inocência e na amizade, sim. Rá!
Sentindo um calor se alastrar pelo meu corpo feito rastilho de pólvora, jogo os braços em volta do seu pescoço, abro um largo sorriso e insinuo:
— Oi, eu tenho interesse sim.
Apesar de compreender muito bem meu tom sugestivo, Loki não parece gostar de me encontrar no meio de Sokovia e se mantém firme. Com certeza, está pensando no embate inevitável com Ultron e em como queria que eu estivesse segura na Torre dos Vingadores ou ao menos no Quinjet.
Provando que estou certa sobre o que ele está sentindo, o dito cujo questiona:
— O que você está fazendo aqui, tormento?
Reviro os olhos e, torcendo para que isso seja o suficiente, respondo de um jeito direto:
— O mesmo que você, gafanhoto, tentando salvar o mundo.
Não lhe dou chance de continuar esta conversa. Está mais do que na hora do deus trapaceiro aceitar que eu quero fazer a diferença. Mas antes, preciso fazer outra coisa, é claro. Sendo assim, decido ir direto ao que interessa no momento e deslizo os dedos por sua gravata. Seguro-a com força e inverto nossas posições devagar enquanto digo:
— Agora vem cá, hora da minha revanche.
Encosto Loki contra a parede e encaixo minha boquinha na sua. Alcanço sua nuca, agarro-me a ela e pressiono meu corpo no seu, enquanto exploro seus lábios como se eles fossem realmente feitos de algodão doce.
O sabor é tão irresistível e viciante. Quanto mais o beijo, mais o quero. Eitcha lelê!
A resposta de Loki é imediata, sinto suas mãos na base das minhas costas e seus dedos me apertam como se quisessem arrancar um pedaço de mim. O danadinho corresponde ao beijo de um jeito mais lascivo e profundo, arrancando-me um gemido involuntário e roubando-me o fôlego pouco a pouco.
Ao invés de me afastar e dar uma respirada básica, entrego-me de vez à sensação de calor que deixa minhas pernas trêmulas e as borboletas em revoada no meu estômago. Juro que ainda estou ouvindo sinos quando finalmente o solto. Não porque eu queria soltá-lo, mas apenas porque lembro que o trabalho em Sokovia ainda não terminou.
Loki me encara com o olhar em chamas e, claramente, faz um esforço para se recompor e não demonstrar o quanto gostou do meu ataque de piriguetismo a ponto de me puxar de volta. Ao invés disso, ele engole em seco e revela:
— Ultron construiu algo sob a cidade.
Antes que eu pergunte mais sobre isso, uma voz conhecida ecoa pelo ponto de comunicação preso ao meu uniforme na altura do ombro:
— Conte algo novo, Homem Rena. Olá, agente Mills.
— Stark? — Meu rosto queima instantaneamente. — Você estava... ouvindo?
— Infelizmente, sim. Eu sei que é constrangedor, mas é bom você saber que toda a equipe ouviu também. Canal de comunicação compartilhado, lembra? Acho que você o acionou sem querer enquanto dava uns amassos nesse aí — ele confirma, para meu desespero. — Folgo em saber que Loki está bem, aliás. Quando isso acabar, por favor, procurem um quarto. Mas até lá, mantenham o foco na missão.
Meu rosto fica ainda mais quente e percebo o quanto isso foi inadequado. Num futuro, acho que será melhor manter a vida de agente separada da vida pessoal porque é realmente difícil resistir ao Deus da Trapaça no meio de campo.
Por falar nele, Loki simplesmente sorri displicente e ergue as mãos na altura do peito, eximindo-se de qualquer culpa enquanto me encara de um jeito sonso e convencido.
Diacho de macumba poderosa!
Ainda estou me recriminando quando Tony volta a se manifestar:
— Atenção para as atualizações, Vingadores, trapaceiros e... piriguetes de plantão. Ultron foi desconectado da internet com sucesso, mas ele realmente construiu algo sob Sokovia. Eu ainda não sei o que é, mas o núcleo fica embaixo da antiga igreja e...
O Homem de Ferro para de falar no mesmo instante em que sinto um tremor intenso sob meus pés. As paredes ao redor do beco também estremecem e uma tênue nuvem de poeira se ergue no ar, enquanto gritos de surpresa e medo surgem por toda a parte.
Olho para Loki e ele não está mais sorrindo. Confuso, assim como eu, reflete:
— Eu gostaria muito, mas algo me diz que isso não foi um mero terremoto, midgardiana.
Antes que o Homem de Ferro atualize a situação, um novo e mais intenso abalo acontece. E se estende em um longo e estranho tremor que parece estar partindo a cidade ao meio. Ou algo assim.
Saio do beco e o Deus da Trapaça vem no meu encalço. Seu disfarce se vai, dando lugar ao clássico traje de cosplay de gafanhoto. Tenho certeza que, assim como eu, ele não está acreditando nos próprios olhinhos de noite serena.
O cenário é mesmo caótico e surreal. Enquanto os moradores correm por toda a parte e tentam entender o que está acontecendo, as ruas do entorno começam a rachar abruptamente. Das profundezas da terra, um exército de Ultrons emerge e se espalha como uma praga de insetos.
O tremor ainda mais violento faz as fendas do solo se abrirem cada vez mais. Apoio-me em Loki quando tenho a estranha sensação de que algo está levantando embaixo de mim. Perplexa, constato que é o pedaço de Sokovia onde estamos.
Enquanto os civis assistem à cidade se erguendo pouco a pouco, e os Vingadores próximos do meu alcance de visão destroem o exército de armaduras possuídas como podem, um Ultron maior que os outros se eleva na direção do céu, observa todos nós de um jeito superior e discursa friamente:
— Estão vendo a beleza disso? O inevitável. Vocês se erguem apenas para caírem depois. Vocês, Vingadores, são o meu meteoro. Minha espada certeira e terrível. E a Terra irá rachar com o peso da vossa derrota. Expurguem-me de seus computadores, usem meu próprio sangue contra mim, não significa nada. Quando a poeira baixar, a única coisa viva neste mundo será de metal.
Engulo em seco e balbucio:
— Tony?
Após uma pausa e com uma tensão tangível na voz, ele resume:
— Sokovia vai dar um passeio.
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