Transmutado

4 Risco de Desintegração


Notas iniciais
Atrasada de novo? Sim, infelizmente haha. Mesmo sem nenhum comentário no último capítulo eu não parei de escrever. Pois é, ainda estou andando com a história. Mas, se você estiver lendo isso e estiver gostando também, deixe um comentário! Valeu! Boa leitura.

Capítulo 4

Alec sentiu seu mundo girar, assim como o almoço ruim que os guardas o deram mais cedo. Fechou os olhos com força e sentiu um corpo o abraçando, que reconheceu sendo de Iz.

— Não me largue, precisamos ficar juntos! — ela gritou.

Ele abriu os olhos e viu o chão se aproximando. Ou melhor, a água se aproximando, pois um rio estreito se formava em sua visão enquanto eles caiam mais e mais.

Por último, seu mundo deu a volta mais uma vez. A agente tinha invertido as posições, usando seu corpo robótico como proteção para a queda. O baque na água foi tão forte que desnorteou Alec por vários segundos, até se dar conta que só um aperto de mão – aquele pouco antes dela o puxar para baixo – o impedia de se separar de Iz. Entrou em desespero e ignorou o incomodo que a água fazia em seus olhos e começou a buscar por Iz. Sua mão perdeu o contato com a mão dela, pois parecia que algo puxava a morena sempre para baixo, cada vez mais, e ele cerrou os punhos de raiva com as bolhas que não o deixavam enxergar nada.

Alec nadou em direção ao fundo, que não ficava muito mais abaixo, e assistiu quando corpo da jovem de cabelos negros bateu ferozmente contra o solo rígido e coberto de rochas. Nadou mais ainda temendo ficar sem ar antes que conseguisse alcançá-la. Abraçou sua cintura assim como ela havia feito com ele instantes atrás e impulsionou o nado para cima. O corpo dela era fácil de carregar, mas nadando contra a corrente da água o peso duplicava. Os músculos dele já reclamavam, beirando a exaustão. Rangeu os dentes, já sem ar, quando atingiu a superfície e arfou ruidosamente á procura de oxigênio.

Alec se lembrava de tudo, a todo segundo. Suas veias ainda pulsavam o sangue batizado de adrenalina e desespero. Afinal, a cena não parava de se repetir em sua cabeça.

De repente um pensamento o atingiu: nós precisamos chegar até a cidade, ok? A voz dela veio para lembrá-lo de que não estavam salvos. Não ainda.

Olhou para o lado, onde Iz estava escorada em uma árvore. Depois que conseguiu tirá-la da água e encontrar um lugar para recuperar as forças por uns minutos, percebeu que ela ainda não havia acordado. Realmente, olhando agora para ela, seu corpo não parecia muito bem. Sua tatuagem de código de barras agora formava um relevo na pele da agente, e a coloração mudara: estava vermelha ao invés de preta.

Suspirou e foi até Iz, apoiando os cabelos molhados dela em seu colo.

— Eu preciso que você acorde o mais rápido que puder. Por favor...

Observou melhor sua vida ali, enquanto esperava um sinal de vida de Iz. Passou seus anos de existência tentando agradar um pai miserável e aos poucos foi perdendo a esperança de uma vida livre. Ele achou não ter escolha para nada, sempre obedecendo e seguindo ordens, e tudo isso soa pior quando pensa nunca ter conhecido a mãe. Não verdadeiramente, já que sua morte é um mistério para ele. Simplesmente acordou um dia e nunca mais a viu, tendo como resposta de seu pai um “só fica quieto e não reclama garoto”.

Agora ele sentia seu pulso se contrair de raiva. Queria o controle de sua vida de novo, e ele lutaria por isso. Não importava para ele se isso custaria sua herança na empresa, sentiu que não precisava mais da aprovação de ninguém para fazer o que queria e o que achava certo.

Ele só se deu conta dos olhos já abertos de Iz quando uma mão gelada tocou seu braço.

— Nos tire daqui agora, Alec.

Contrariando seu estado frágil, a voz dela saiu no habitual tom grave e confiante.

Alec sorriu e os levantou, pegando-a no colo e começando a correr por entre as árvores e a terra seca.

Afinal, havia chegado o momento de fazer a diferença.

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Alec e Iz causaram uma grande confusão. Toda Milano estava acordada e disposta a descobrir se eles estavam vivos ou mortos depois de pularem do precipício. Eles nunca esperavam que pulassem, afinal.

Enquanto o chefe gritava e pedia respostas, um funcionário veio com uma informação que o fez arquear as sobrancelhas. Um vídeo de uma das câmeras flagrou o filho de Dooman carregando a agente de preto para fora do rio.

Estavam vivos. Como sobreviveram?

O grito do chefe barbudo aumentou duas oitavas ao ordenar a próxima atividade do dia para a sala lotada de pessoas em computadores, telefones e equipamentos de rastreamento.

— Quero saber o que essa agente tem de especial! Quero agora!

As pupilas dilatadas e a voz furiosa dele fizeram todos tremerem e irem procurar por respostas. Descobririam o que aquela agente tinha de especial e finalmente poderiam ir á caça.

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Ele correu por mais de dez minutos, a maior parte deles passou só em silencio enquanto se concentrava em onde iria pisar – ordens de Iz, segundo ela poderiam haver armadilhas no solo. Alec se sentia estranhamente confortável recebendo ordens dela, pelo menos nas vezes em que não gritava algum insulto. Ele estava percebendo uma alteração de humor incrível na agente, mas decidiu permanecer calado.

A visão de Alec já tinha se ajustado ao escuro, mas de repente tudo pareceu mais claro. Parou de correr e olhou para trás, fitando o nascer do sol. Aquilo tudo não parecia tão encantador quanto em alguns contos que lia na biblioteca de sua casa. O fato de estar sendo caçado por agentes altamente treinados tirava um pouco da magia. Ignorou a paisagem. Eles estavam perto de algum lugar, só não sabia exatamente onde. Praguejou lembrando que não podia mais correr por causa do barulho dos pés – e também já estava muito cansado para isso, além de constatar que Iz ainda estava desacordada, o que dificultava tudo. Ela havia desmaiado depois de uma sessão de tortura para os ouvidos de Alec, pois ela não parava de dizer coisas sem sentido e jogar toda a culpa nele.

Ela realmente precisa de uns ajustes nesses parafusos.

Deixando de lado os pensamentos e o pessimismo, ele os arrastou até uma parte mais livre de vegetação. Estreitou os olhos quando viu que uma estrada se formava metros á frente.

Ele não sabia o que fazer, estava perdido.

— Ei, não vai amarelar agora.

A voz dela saiu tão engraçada que Alec mal pôde acreditar.

— Não tem essa de amarelar. De onde tirou um palavreado desses?

Ele não se lembrava de ninguém que houvesse usado aquela expressão antes. Seria outra consequência da queda? Ótimo, tudo o que precisava agora era de uma Iz desorientada falando frases de outro século.

— Esquece — disse olhando para frente. Metros abaixo ele viu uma fileira de carros e sem sinal de guardas por perto. Sorriu e se levantou, pondo um braço de Iz por cima de seu ombro para ajudá-la a caminhar.

— Do que está rindo, babaca?

Alec revirou os olhos e ignorou o xingamento sem deixar de lado a expressão de felicidade.

— Estou vendo nosso passaporte pra longe desse lugar.

Começaram a andar com cuidado para mais perto dos carros, e quando finalmente estavam á sua frente eles atravessaram a rua o mais rápido possível, pois poderiam haver câmeras ali.

Iz fez um gesto engraçado com o braço livre, indicando que ele escolhesse qualquer um. Havia pelo menos dez carros ali, variando as cores embora os modelos fossem parecidos. Dois deles em especial chamavam muita atenção, pois possuíam viagem por magnetização ou rolamento*, cada um com duas portas e curvas que deixavam qualquer carroceria maravilhosa.

— Vejo que temos um vencedor!

Alec tirou sua atenção dos carros e olhou para Iz, que tinha um sorriso maroto nos lábios e parecia estar com um bom humor muito suspeito. Mesmo não podendo andar muito bem ela os arrastou para perto dos carros exuberantes enquanto Alec ria.

Inacreditável, aonde aquela Iz maneira estava o tempo todo?

A agente desfez a segurança do carro azul marinho em poucos segundos, e se virou para o loiro.

— Você está me devendo uma. — ela falou rindo da expressão boba no rosto dele.

Alec assentiu e colocou-a no banco ao lado do seu, e logo deram partida. Ele checou os níveis de combustível e energia do veículo para não ter nenhum imprevisto – já estava cheio deles.

Os minutos se passaram e de vez em quando ele olhava para Iz. Alec sempre a pegava com uma expressão dolorida e nostálgica. Apertou seus dedos no volante e perguntou:

— Quando nós pulamos... — começou, ganhando a atenção dela. Decidiu voltar a visão para a estrada antes de continuar — digo, foi a queda que te deixou assim, certo?

Ela assentiu, esperando mais. Embora ele quase não desviasse a atenção do volante, a agente continuava o olhando.

— Isso foi estranho, pois achei que você fosse á prova de tudo.

Iz deu um riso seco e se remexeu no banco antes de responder.

— Minha transmutação está só nos 60%, isso não me salva de danos. Eu ativei uma coisa chamada Risco de Desintegração, mais conhecida como RD, que está instalada no sistema que utilizo. — Alec parecia muito interessado no assunto, principalmente agora que o humor dela havia ido embora, dando espaço para a velha Iz de sempre. — Eu preciso te dizer, Alec, que isso não é só uma arma que pode ser usada para vencer os inimigos, pois se você fizer algo como eu fiz, ela se torna uma arma para si mesmo. — ela suspirou, finalmente se voltando para a janela — Esse é o ponto, nunca achei que chegaria a ter que me sacrificar tanto e ter que ativar o RD tão cedo, muito menos por outra pessoa que não fosse eu mesma.

Ele poderia até começar a se sentir culpado pela situação dela se Iz não se mostrasse tão á vontade com o que aconteceu. Alec achou isso estranho, desde quando Iz era gentil com ele? Suspeitou que ela só tivesse feito pelo bem da missão, afinal a agente não gostava dele – embora ele até torcesse que ela tivesse se sacrificado por gostar dele.

Ignorou os pensamentos bobos e foi crítico pela primeira vez.

Alec franziu as sobrancelhas. Certo, ela não é imune a tudo, isso ele já deveria saber, mas e todas as outras coisas que ela disse? Não esperava que ainda houvesse tantos segredos em volta daquele projeto. Ele prestou mais atenção na última frase dita por ela.

— O que esse RD faz?

Ele não podia mais ver o rosto dela, pois Iz estava virada para o outro lado, mas ele tinha quase certeza que ela fechara os olhos.

— Ele faz o que o próprio nome sugere. Se a Iz recebe um impacto maior do que pode suportar seu usuário fica comprometido. Isso inclui perda de mobilidade e recursos, mudanças de humor e, em alguns casos afeta a saúde da parte ainda humana. — ela rolou a cabeça e abriu os olhos — Em resumo, se o usuário não respeitar os limites que a RD trás, ela te leva ao nível de desintegração total.

Deixou de lado as regras de etiqueta e ficou exasperado com a notícia. Seu pai tinha que ser mais do que louco para aprovar um projeto daqueles, e ainda por cima tendo algum tipo de autodestruição – pois foi o que o RD pareceu para Alec.

— O que? — ele finalmente desviou o olhar da direção e se fixou no mar translúcido dos olhos de Iz que também o fitavam. — Então o mesmo sistema que te permite viver pode também te matar?

Ela só balançou a cabeça, acenando que sim.

— Então você não pode lutar! E se —

— Shiu! — ela o silenciou de uma forma engraçada — Nós vamos dar um jeito, Alec. — e sorriu.

Certo, até que essas trocas de humor podiam ser divertidas, ele pensou.

Notas finais
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