Transcendental
1 Eu vos declaro...
TRANSCENDENTAL
by cookiemonster&stonexparker
Eu vos declaro...
Flashback
A famosa rede de hotéis Hilton tinha, há dois anos, estabelecido mais um hotel e, dessa vez, Burlington finalmente poderia contar com mais um hotel cinco estrelas na cidade. A oportunidade foi mais do que apropriada para que alguém como Eric Cartman fizesse absolutamente questão de casar-se no salão de festas do local. Por mais que não pareça se tratar de uma ideia muito difícil de ser convencida a quem quer que fosse, Kyle Broflovski não estava lá muito feliz com a situação, mas depois de estar ao lado de um homem como Cartman, sabia com precisão quais brigas deveria comprar e tinha certeza de que poucas valiam a pena. Resignou-se, ninguém melhor do que ele para saber que Cartman jamais, em qualquer vida, toparia fazer um evento simples, íntimo, apenas para as pessoas que realmente importavam pra eles.
Segundo o próprio Eric, para quê fazer algo simplório para seus amigos quando pode dar a eles uma noite memorável?
Para o judeu ruivo de olhos verdes era realmente inútil e uma perda de tempo absurda que se tentasse explicar para Eric Cartman que casamento era uma comemoração particular e intimista, porque para Cartman aquilo se tratava de mostrar ao mundo o tamanho de sua satisfação — e de seu ego — diante de pessoas que ele, literalmente, passou a vida tentando impressionar.
Mas ao ver as mesas impecavelmente montadas com seus arranjos e toalhas bordadas, as cortinas brancas cobrindo as enormes janelas da cobertura do hotel, Kyle cedeu por algumas horas e admitiu que aquilo era absolutamente deslumbrante. O tapete vermelho se estendia até o altar montado com lírios e castiçais de prata. O salão parecia ter o equilíbrio perfeito entre um clima de luz baixa romântico e uma distribuição magnífica de velas e luminárias que criassem um ambiente — não havia outra palavra na mente de Kyle para descrever — mágico. Havia lustres de cristal imensos, com lâmpadas pequenas e fracas, ao longo de todo o salão. A luz das luminárias refletia nos cristais, que reluziam nas cores do arco-íris. A única exigência de Kyle diante daquilo tudo foram as flores; E prontamente, Cartman acatou com a escolha de gardênias para embelezar todas as mesas, contrastando com a entonação de dourado champanhe das toalhas. Os arranjos eram trabalhados em buquês fartos de gardênias brancas mescladas com folhas verdes em dois tons, claro e escuro, além de pequenos brotos de rosa champanhe. Quase tudo era branco e dourado. além dos detalhes sutis de prata e o verde das folhas que acompanhavam todos os arranjos de flores distribuidos pelo salão, em diferentes formas e tamanhos, harmonizando a decoração.
Kyle soltou uma gargalhada quando viu pela primeira vez o bolo exageradamente alto, coberto por glacê em forma de pequenas rosas, um trabalho artesanal de cair o queixo. O bolo tinha quatro andares, era desnecessariamente imponente naquela travessa de cristal sobre uma bandeja prateada no centro da mesa de doces. Atrás do bolo, havia dois castiçais de prata com velas amarelas, um de cada lado, altas e elegantes. Nas laterais da mesa comprida, os arranjos de flores em vasos dourados que combinavam com as pequenas cestinhas espalhadas pela mesa, cheias de docinhos envoltos em papel com desenho rendado. As cores dos papeis que embrulhavam os doces variavam em amarelo para os de chocolate branco e bordô para os de chocolate preto. Eles também eram distribuídos em bandejas prateadas em forma de torre e outras quadradas menores. Eram tantos detalhes minúsculos em cada canto que o ruivo não sabia para onde olhar quando deu de cara com a decoração. Em outra mesa, pequena e coberta completamente por uma toalha branca bordada, estavam pequenas caixinhas de vidro em forma de presente, e dentro havia várias amêndoas com chocolate português que Kyle jamais experimentou. Havia também dois vasos redondos com água para comportar as flores amarelas e lilás mescladas. Ele se lembrou do casamento que pensou que queria ter, um casamento que envolvesse um gramado enorme, cadeiras de plástico e girassóis, um arco no jardim, um bolo de chocolate simples, flores de todas as cores sem combinação e garrafas de vidro coloridas no lugar de vasos. Kyle sempre pensou que quisesse uma cerimônia simples, com poucas pessoas. Diante da grandeza daquele salão, ele sorriu pela certeza inabalável de que não poderia ter um casamento menos extravagante ao escolher Eric Cartman como seu marido. Foi ali que o ruivo percebeu que estava vivenciando o casamento que quis a vida inteira.
Eric estava mais nervoso do que admitiria em voz alta, mas Kenny McCormick não precisava de muita clareza para perceber certas coisas, especialmente porque o conhecia desde que se percebeu no mundo. Ele estava do lado de fora do salão e fazendo qualquer negócio por uma dose de uísque. Ele usava um terno preto, sapatos lustros da mesma cor, camisa branca e uma gravata azul marinho num tom metálico. Tinha um cravo branco dado por Karen na lapela, sinônimo grego antigo da fidelidade matrimonial. Os cabelos castanhos estavam extremamente alinhados e bem penteados, ele passou a língua pelos lábios e, em seguida tocou o próprio queixo, como se procurasse por eventuais falhas por ter se barbeado.
– Você sabe que ele já está aqui, não é? — Kenny dizia sabendo que a insegurança de Cartman definitivamente se devia ao fato dele estar com medo que o próprio Kyle estivesse tendo lá suas dúvidas.
– Sei. — O moreno alto respondeu olhando novamente o próprio reflexo no vidro, de repente deu-se conta da insegurança que estava deixando transparecer. — Mas eu estou bem. — Mentiu ele sentindo as mãos úmidas de suor.
– É incrível como você me chama para ser seu padrinho e não consegue admitir nem pra mim que está louco por uma dose. — Kenny respondeu levantando-se da enorme poltrona onde estava. Ele se aproximou do noivo tocando seu ombro, fazendo com que ele virasse de frente.
O loiro quase da altura de Cartman passou as mãos pelos ombros dele, ajeitando o terno, checando a gravata e não conteve o sorriso. Era realmente inacreditável e ao mesmo tempo totalmente previsível pra ele que aquilo estivesse acontecendo. Eric respirava fundo a cada trinta segundos e, por mais que estivesse explodindo de felicidade pelos mais diferentes motivos que não envolviam apenas firmar o que ele sempre sentiu por Kyle, ele queria mais é que aquela espera terminasse logo.
– Onde estão seus votos? — Kenny perguntou afastando-se um pouco do outro.
– No bolso interno. — Cartman apontou para o bolso no terno. — Mas também nem sei se preciso ler, repassei tanto aquilo que decorei. — Ele sorriu de canto, o sorriso do padrinho foi mais largo.
– Vou buscar um bebida pra você. — Kenny disse afastando-se devagar.
– Até que enfim você vai fazer alguma coisa direito como padrinho. — Cartman sorriu aberto sentando-se na enorme poltrona preta. Cruzou as pernas pondo o tornozelo direito em cima do joelho esquerdo. Batia o pé esquerdo no chão com pressa, indicando a extrema ansiedade que sentia. Respirou uma, duas vezes e sorriu para si mesmo. Nem acreditava que estava fazendo aquilo.
~*~
Do lado oposto onde Cartman estava, numa sala mais clara, do lado de fora dos olhos dos convidados que socializavam pouco antes da cerimônia, estava Kyle Broflovski acompanhado de sua mãe e Stan que, sem surpresas, era seu padrinho. Ele vestia um terno cor pérola bem cortado feito sob medida, acompanhado de uma camisa branca e gravata bege. Os sapatos também eram brancos, destoando apenas na alstroemeria que usava na lapela, que tinha tons de rosa e púrpura. A flor era símbolo de amizade e lealdade, fora dada por Shelly Marsh logo antes dele chegar.
– Precisa de algo? — Stan tinha as mãos nos bolsos enquanto assistia ao melhor amigo olhar-se no espelho de forma a deixar claro que aquilo não se tratava apenas de checar se suas roupas estavam perfeitas. Ele olha a si mesmo como se tentasse se convencer que sim, aquilo era real, e ele não estava sonhando.
– Preciso. — Kyle respondeu suspirando e andando alguns passos na direção do amigo. — Uma garrafa de Henri Jayer Richebourg Grand Cru, por favor. — Kyle disse com naturalidade mas Stan sabia que aquilo deveria ser algum vinho caro.
– Padrinho não faz milagre. — Marsh disse tocando o ombro do amigo, olhando pra ele dos pés a cabeça como se custasse a acreditar por um segundo.
Havia algo de extraordinariamente carinhoso nos olhos azuis de Stan, algo tão puro, tão genuíno, que se casava perfeitamente com o sorriso tímido esboçado nos lábios. A mão continuava posta sobre o ombro magro do outro, apertando de leve, quase como o próprio pai de Kyle costumava fazer com o mesmo semblante de admiração. O ruivo se encolheu um pouco, oferecendo um sorriso tímido enquanto abaixava o rosto, deslizando a mão pelo próprio braço como um menino inseguro.
– O que foi?
– Nada. — Stan respondeu, como se despertasse de um transe. Abaixou a mão e chacoalhou a cabeça de leve. — Você está lindo, só isso.
Kyle riu exatamente da forma que Stan imaginou que faria, porque era a única reação possível para alguém como ele, que nunca levava a sério tal tipo de elogio. Mesmo assim, era uma das coisas mais honestas que Stan Marsh já dissera em toda a sua vida. Ele estava, sem sombra de dúvida, mais bonito do que nunca. A vestimenta formal combinava perfeitamente com o rosto fino e os trejeitos delicados do ruivo. O terno abraçava seu corpo como se este lhe pertencesse. Mas tamanha beleza não se limitava às roupas que ele vestia, — ainda que Cartman não tivesse poupado um centavo sequer naquele terno, coisa que Kyle não podia compreender — tratava-se também de algo mais íntimo: aquela beleza vinha de dentro e refletia no brilho de esmeralda dos seus olhos e no rubor da sua pele. Kyle sorria com o corpo inteiro naquele dia. Emanava uma tranquilidade única e Stan não soube dizer se era porque estava tão em paz com aquela decisão ou se o ruivo precisou se forçar a manter a calma porque o homem na sala ao lado não conseguiria.
Sheila Broflovski, ao contrário, contrabalanceava aquela energia serena com sua feição completamente fechada. Permanecia em silêncio, o que era muito raro para uma mulher como ela, sentava no pequeno pufe cor de creme no canto da sala, com as pernas cruzadas como uma dama e apoiando o queixo arredondado na palma da mão. Os diamantes dos brincos enormes reluziam conforme ela mexia a cabeça e bufava por vez ou outra. Kyle fazia um trabalho exemplar ao ignorá-la. Seu vestido longo de cetim azul marinho — quase preto — parecia tão apertado que ela mal podia respirar, envolvendo sua voluptuosa figura. Os cabelos, tão vermelhos quanto os do seu filho, continuavam domados por um coque alto e elegante. Havia blush demais em suas bochechas avantajadas e sombra demais em seus olhos. Tratava-se de uma presença tão marcante que Stan tinha dificuldade em agir como se ela não estivesse ali, a poucos metros, observando-os como se estivessem prestes a fazer algo de errado. Houve uma parte de Stan que sempre se intimidou com aquela mulher e isso não havia mudado depois que se tornou um homem feito.
Diferente dele, Kyle não parecia sequer prestar atenção ao visível olhar de desaprovação no rosto de sua mãe. Era como se estivesse plenamente acostumado com aquilo.
De repente, uma sequência de toques na porta chamou a atenção dos três. Kyle ainda desviou o olhar para o espelho durante alguns segundos, abotoando o terno como se quisesse experimentar o que lhe parecia melhor. O rosto sorridente de Kenny apareceu na pequena fresta que abriu na porta, passando a mão pelos cabelos grudentos pelo gel ao qual ele não estava acostumado. A primeira coisa que o loiro fez foi dar uma boa olhada no noivo e assobiar, mantendo a feição iluminada pelo indispensável sorriso de cafajeste. Stan soltou uma gargalhada, assim como Kyle, e se virou para o loiro enquanto guardava as mãos nos bolsos da calça. Sheila permaneceu séria, com a boca enrugada de tal forma que a fazia parecer mais velha do que de fato era.
– Cara. — Kenny anunciou, deslizando para dentro do cômodo sorrateiramente, como se não devesse estar ali. — Se você quiser fugir, ainda dá tempo. Eu posso dar na cabeça do Cartman com um vaso, o Stan me ajuda a prender ele no banheiro.
O moreno confirmou enfaticamente com a cabeça, assegurando:
– Ah, sim, sem problema nenhum.
Kyle levou as mãos ao peito, lisonjeado.
– Gente. Essa foi a coisa mais bonita que alguém já me disse. Eu não sei o que eu faria sem vocês. — Respondeu, rindo. — Mas isso não adiantaria. Ele daria um jeito de me achar.
O loiro se aproximou dele, erguendo um dos braços para envolvê-lo nos ombros de Kyle, puxando-o contra o seu corpo sem muito cuidado. Kenny sempre era grosseiro nos movimentos, foi assim a vida inteira. Teria bagunçado o cabelo de Kyle se não estivesse meticulosamente penteado para a cerimônia. Conhecia muito bem como aqueles cachos se rebelavam com facilidade. Kyle abriu um sorriso sem graça, encolhido como um irmão mais novo.
– Então, Broflovski, você vai ter que se tornar uma senhora de respeito. Meus pêsames. — Kenny disse com uma piscadinha maliciosa.
Enquanto o ruivo agradecia e o empurrava, gargalhando, Stan riu com a certeza absoluta de que Kenny, enquanto padrinho de Cartman, já havia cumprido muito bem o papel de arrumar e compartilhar com ele uma dose forte de qualquer coisa que lhe ardesse a garganta.
Os três homens não tiveram muito tempo para deleitar de todas as possíveis piadas sobre aquele dia impossível que havia, enfim, chegado; pois Sheila se ergueu de forma barulhenta e com ares de quem toma uma decisão importante. Tal decisão era que havia acabado o tempo deles juntos, mergulhados na leveza e na alegria do momento pelo qual esperavam há anos. Aquilo parecia ser tão importante para Kenny e Stan quanto era para Kyle e Eric. Mas não havia nada de leve para Sheila Broflovski, nada de alegre. Os risos daqueles rapazes a atormentavam.
– Muito bem, meninos. Vão lá pra fora um instante, me deixem falar com o Kyle, sim? A sós. — A última parte veio em um tom mais agressivo.
Stan lançou um olhar preocupado ao melhor amigo, depois encontrou a careta impressionada de Kenny, que nunca foi muito bom em disfarçar emoções. Marsh conhecia aquela mulher por sua vida inteira, não era uma surpresa que sua teimosia lhe concedesse uma última tentativa de dizer ao filho todas as coisas que ele já sabia de cor e estava exausto de ouvir. Levou uma mão amiga ao braço de Kyle para um afago breve antes de sorrir para Sheila e assentir com a cabeça. Kenny tirou um chapéu imaginário em cumprimento antes de seguir Stan para fora do cômodo, mais apressado do que gostaria.
Assim que a porta da sala se fechou, Kyle se permitiu lançar um olhar à sua mãe que usou pouquíssimas vezes na vida, e todas elas eram relativas a Eric Cartman. Não crescera com muito espaço para questioná-la e continuava não gostando de fazê-lo, visto que Sheila era barulhenta, autoritária e superprotetora além dos limites do saudável. Mas após mais de uma década tendo seu relacionamento insultado incessantemente, o ruivo se viu sem escolha.
– É sério? Você vai fazer isso hoje?
A mulher ergueu as duas mãos em defensiva, intencionando se mostrar desarmada. Suas unhas longas estavam pintadas de um vermelho cor de sangue. O bracelete de ouro escorregou pelo seu braço.
– Sabe que só quero o melhor pra você, Kyle. — Ela sempre havia tentado todas as facetas agressivas, mas chantagem emocional era realmente a arte milenar que ela dominava. — Qualquer um aqui sabe que está tudo bem desistir na última hora, isso é muito normal em casamentos. — Seu tom de voz era calmo, mais maternal que o normal e por isso Kyle achava absolutamente perturbador que ela tratasse de um assunto como aquele num nível de normalidade que o ruivo certamente desaprovava.
– Eu não sei se fico ofendido com o que você diz ou se pelo tom casual que usa pra sugerir que eu abandone o homem que eu amo no altar. — Kyle estava atônito pelo que ouvira e para com ele mesmo, que ainda conseguia se surpreender com a inconveniência de Sheila Broflovski somente por ela não apenas cogitar, mas de fato dizer, algo como aquilo ao seu próprio filho em pleno dia do casamento. — Eu posso estar nervoso, posso estar com receio de que algo dê errado como tropeçar no tapete, esquecer meus votos, o som estragar, a banda não aparecer…
Ele fez uma pausa imaginando todas as circunstâncias possíveis que poderiam de certa forma impedir que a noite fosse perfeita. Ele gesticulava com uma das mãos, querendo mostrar o quanto mais coisas poderiam existir na sua expressão “dar errado” e nenhuma delas se referia ao seu futuro marido.
– Mas nada disso tem coisa alguma a ver com insegurança em relação aos meus sentimentos. — Ele disse firme, olhando nos olhos dela como se esperasse que, por algum milagre, aquele dia ela ao menos percebesse o quanto tinha certeza do que estava por fazer e do quanto esperou por aquele dia que, em vários momentos, achou que jamais aconteceria. — Quantas vezes mais vou precisar dizer que eu o amo absurdamente? Mãe… — Ele chegou mais perto dela, tocando seus ombros. — Eu o amo com todas as minhas forças e não tenho dúvida nenhuma de que quero passar o resto da vida com aquele homem.
Para qualquer pessoa, aquela poderia ser uma das declarações de amor mais lindas que alguém poderia fazer. Não pelas palavras bonitas, mas pelo sorriso quase brilhante de Kyle ao dizer aquilo, pela certeza em seus olhos, pela calma que transparecia diante de uma decisão tão importante quanto aquela. Mas isso não se aplicara à Sheila Broflovski, que não conseguia sentir nada além de uma amargura profunda e muita pena do próprio filho. Como se soubesse, adivinhasse, que aquilo não funcionaria. Ela tinha tanta certeza que chegava a ser assustador.
Ela suspirou quase conformada, como se tivesse perdido o filho para algum tipo de abismo escuro e tinha medo que nunca mais o recuperaria. Ela sentia as mãos de Kyle sobre seus ombros, sabendo que ele queria desesperadamente passar pra ela de alguma forma tudo o que sentia, mas não conseguiu. Não que aquilo fosse exatamente uma novidade, já há tantos anos tentava convencê-la que a natureza de Eric Cartman era sim complexa mas nem de longe aquilo era o que mais importava para Kyle. O ruivo jamais ignorou os defeitos de seu noivo, pelo contrário, os abraçava juntamente com as qualidades que infelizmente sua mãe insistia em dizer que não existiam.
– Então hoje… — Kyle tomava a palavra novamente antes de dar qualquer chance à mãe para que continuasse. — Só hoje… Não tente me convencer de coisa alguma, certo? Só quero que seja a mãe de um dos noivos. — Ele concluiu respirando fundo repetindo para si mesmo algum tipo de mantra em sua cabeça que dizia “Kyle, hoje é o dia mais feliz da sua vida”.
– Tudo bem, Kyle. — Ela respondeu fingindo uma certa resignação. Baixou os olhos não apenas querendo dizer que tinha se dado por vencida, mas não escondendo que aquilo se tratava de uma grande decepção para ela. — Quando conseguir enxergar o que aquele homem de fato é, vai entender que eu apenas queria o melhor pra você. — Ela concluiu não dando tempo para Kyle responder, já dirigia-se à porta de saída. Não que Kyle exatamente fosse responder.
O ruivo novamente olhou para o próprio reflexo no espelho e, por mais que tentasse não se abalar, já era difícil ouvir aquelas coisas de sua própria mãe no dia-a-dia, toda hora, em qualquer oportunidade que ela encontrasse, mas sentiu-se ingênuo por um momento, quando realmente acreditava que, ao menos naquela noite, ela iria guardar as próprias opiniões.
Doía estar errado num nível como aquele.
A verdade é que Sheila Broflovski nunca havia se incomodado com a sexualidade do filho. Não que ela não tivesse se chocado por alguns momentos, mas no fundo ela sempre soube — porque mãe sempre sabe. Ela o apoiou, o amou incondicionalmente, mas nem por isso deixou de desaprovar toda e qualquer escolha que achava imprudente — porque ela sempre sabia das coisas melhor que qualquer um de seus filhos.
Kyle nunca gostou de tais atitudes, mas sua maneira de contornar o que sua mãe pensava, achava, palpitava, era sagaz. O problema realmente não foi o fato dele trazer um homem pra dentro de casa e sua família, o problema era único e exclusivamente relativo àquele homem ser Eric Cartman: aquela criança odiosa, problemática, psicótica a quem Sheila sentia nada mas profundo desprezo. E não fazia absolutamente nenhuma questão de disfarçar, esconder ou colocar de lado nem que fosse num jantar em família. Aquele homem era tudo que Kyle não precisava: genioso, temperamental, megalomaníaco, egocêntrico, narcisista e dono de uma vaidade que mal lhe cabia. Era tudo que ela não queria para a vida de seu primogênito, criado para ter o mínimo de classe e etiqueta que Eric Cartman jamais teria.
Ela andava a passos menos apressados do que gostaria devido aos sapatos e ao vestido, rumo à outra sala, sabendo quem estaria lá, provavelmente cheirando à bebida. Ela começava e depois se arrependia. Ela puxava para si a responsabilidade de espantar Eric Cartman, mas nesses dez anos em que aquele homem terrível tinha se transformado em algo mais que o nêmesis de Kyle, ela nunca mais teve uma noite de sono com o mesmo nível de tranquilidade. Aquele homem a incomodava tanto que ela seria incapaz de descrever o fato de que simplesmente não conseguia ficar calada.
Duas batidas na porta e um Eric Cartman gritando que estava aberta não a surpreendeu. Era bem típico dele esperar que as pessoas fizessem coisas pra ele e não o contrário. Ele não iria parar o que estava fazendo para abrir a porta.
Assim que virou-se para ver de quem se tratava, abriu um sorriso que obviamente não foi retribuído. Ele fechou o terno que estava aberto e colocou o copo vazio de uísque sob uma mesa redonda, pequena e com tampo de vidro. Instintivamente arrumou a gravata e, sem tirar a expressão de total e completa satisfação do rosto, aproximou-se de sua sogra que parecia arquitetar o que estava prestes a dizer. Os sapatos do homem faziam mais barulho do que ela havia calculado ao pisar no chão marmoreado em preto.
– Veio me parabenizar? — Ele disse mantendo o sorriso aberto, quase rindo, sabendo que aquilo à irritaria a níveis estratosféricos. Ele tinha os dentes brancos, alinhados, o queixo quadrado e ela observou que alguém havia lhe feito as sobrancelhas.
– Parabenizar por você arrastar meu filho pra essa sandice? — Ela disse como se aquilo fosse óbvio, mas Eric apenas mordeu o lábio inferior divertindo-se. Ele continuava sorrindo e dessa vez era porque estava achando graça no desespero daquela mulher sempre tão grosseira em sua presença.
– Sheila, você precisa parar com isso. Sério. — Ele disse dando as costas à mulher que permanecia parada numa posição engraçada, segurando as mãos em frente ao corpo e a cabeça levemente levantada, como se tentasse parecer superior. — Eu não estou com a menor vontade de ter qualquer tipo de conversa com você, ambos sabemos onde nossos assuntos sempre acabam.
– Mas é claro. — Ela riu irônica. — Um homem como você não sabe ter qualquer tipo de postura para manter uma conversa decente. — Ela disse em meio a sorrisos sarcásticos. Gostava de atingi-lo, sentia um certo prazer. O problema é que Eric Cartman sempre teria uma resposta.
A garrafa de uísque já estava nas mãos de Eric como se ele dissesse que precisava daquilo para manter os pés no chão e sua mente focada apenas em um Kyle Broflovski, que deveria estar radiante, lindo, absolutamente feliz, decidido a passar o resto da vida com ele. Ele serviu-se de mais uma dose, para a total desaprovação de Sheila, que assistia balançando a cabeça negativamente.
Como se soubesse que aquilo não poderia ser mais apropriado, Eric ouviu ao fundo, vindo do salão de festas, a banda tocando como num ensaio para entreter os convidados, uma música que talvez ele usasse para explicar a si mesmo, quando lembrou que Sinatra o tinha praticamente descrito ao cantar “My Way”. Ele bebeu a dose de uma vez sentindo a bebida esquentar seu rosto, seu peito ao mesmo tempo que relaxava seus braços, pernas e até meus seu raciocínio — não precisaria tanto dele naquele momento em que tudo parecia óbvio demais para ele. Era claro que Sheila Broflovski estaria ali, num ato de total desespero tentando fazer tudo para parecer casual, pois Cartman sabia só de olhar pra ela que era seu último suspiro para tentar espalhar o caos, já que as probabilidades dela ter ido falar com Kyle antes para convencê-lo de algo eram altas.
– Olhe à sua volta. — Eric disse, calmo, certo sobre seus argumentos naquilo. Ele pôs o copo vazio de volta à mesa e, com a desenvoltura de um homem que há anos lutava contra seus instintos de jogar o copo na cabeça naquela mulher, abriu os braços circulando o ambiente, que mostrava uma mesa ao fundo, perto da porta, cheia de presentes, duas camisas brancas reserva penduradas num pequeno armário com cabides e extremamente bem passadas. Sem se dar conta, foi exatamente isso que ela fez: olhou a sua volta.
Cartman se aproximou dela sabendo que tinha todas as vantagens naquela noite e nada — nada mesmo — iria fazer ele voltar atrás no que quer que fosse. Talvez justamente o fato de Sheila estar ali só lhe dava ainda mais certeza que iria em frente com aquilo nem que fosse a última coisa que faria na vida. Ele permanecia á uma distância não muito segura daquela mulher que não desviava o olhar e tinha qualquer coisa menos medo daquele homem muito mais alto que ela
– Quero que preste o máximo de atenção no que eu vou dizer agora. — Ele franziu o cenho olhando pra ela que, sem perceber como a maioria dos seres humanos, espelhou a mesma expressão. — Eu vou casar com o seu filho em alguns minutos e não há absolutamente nada nesse mundo que você ou qualquer outra pessoa possa fazer. — Cartman dizia pausadamente como se estivesse aproveitando cada momento ao dizer aquilo. Especialmente que ela o encarava de volta com tanto ódio que potencializava pra ele o fato de estar absolutamente certo.
– Eric, querido… — Ela ironizou suspirando impaciente. — Você pensa que essa é algum tipo de prova de amor… Você não perceber que Kyle se desgasta nessa relação, você não o faz feliz. Pode ser que ele esteja feliz agora, porque sempre sonhou se casar, mas acredite: cedo ou tarde ele vai perceber que você não é nem de longe a pessoa certa pra ele. — Ela falava rápido, tentava fingir um tom de voz calmo, como se nada daquilo a impressionasse. — Não deveria se vangloriar por causa de uma noite que consegue fazê-lo feliz. — Ela disse abrindo um sorriso mórbido em seguida.
Cartman, que já era conhecido dela e de qualquer um outro à sua volta, como um homem de um pavio extremamente curto e que geralmente falava e depois pensava — especialmente quando provocado — abriu um sorriso maior do que anterior, e quase riu do jeito dela.
– Não que seja da sua conta, mas fiz seu filho feliz em muitas noites na minha cama. — Eric respondeu com a típica petulância adolescente vendo aquela mulher a sua frente ferver de ódio, ruborizada. Se tinha coisa que Eric gostava mais do que tirá-la do sério, era a desconcertar completamente.
Ela não tinha nem pensado numa boa resposta ainda enquanto olhava para aquele sorriso nada contido de um Eric Cartman se divertindo mais do que deveria, quando alguém entrou porta adentro sem bater.
– Eric, querido. — Liane Cartman e sua voz característica haviam acabado de bater a porta atrás de si. — Sheila, como está?
– Oi mãe. — Eric respondeu ao que viu a figura esbelta e bonita de Liane se aproximar dele. Ela vestia um longo vermelho com sapatos da mesma cor. O vestido favorecia seu colo e não era vulgar, ela o usava acompanhado de uma echarpe da mesma cor, feita de voile de cachemire — presentes do filho.
– Sheila, está na hora. — Liane disse sorrindo sincera, mas a mulher de Gerald Broflovski não compartilhava da mesma empolgação. — Kyle a está esperando. — Ela concluiu e Sheila agradeceu sutilmente retirando-se ao que Kenny McCormick voltava a sala segurando a porta para ela. O loiro trocou olhares cúmplices com Eric quando Liane limitou-se a olhar-se no espelho.
– Sei que perguntei várias vezes, mas preciso ter certeza. — Kenny disse abrindo o sorriso largo e colocando as mãos nos bolsos se maneira despojada. — Está pronto?
Eric respirou fundo sentindo-se mais relaxado por causa da bebida. Encarou o loiro de olhos azuis que tinha escolhido como padrinho e sorriu, dizendo sim com a cabeça. Ele realmente estava mais do que pronto para aquilo.
– Você tem certeza que Kyle vai aparecer, não é? — Eric perguntou quando Kenny abriu a porta para sair, rindo.
– Se está tentando voltar atrás nessa, fatass, pode esquecer. — Kenny respondeu quase gargalhando. — O Kyle está aqui sim e ele não vai a lugar nenhum até que você coloque uma aliança no dedo dele. — Kenny ria fazendo Eric igualmente rir e, por mais que Cartman jamais esperasse um dia sentir aquilo, estava genuinamente feliz em ouvir aquelas palavras. — Estamos esperando. — Kenny saiu deixando a porta aberta.
O loiro andou pelo tapete vermelho até o altar da maneira mais discreta que conseguia. Ficou ao lado direito do altar, lado oposto onde estava seu amigo Stan, e ambos trocaram olhares por alguns segundos, como se segurassem o riso, nem acreditando em onde estavam e nem porquê. Era difícil associar que aquilo não se tratava simplesmente de um casamento, mas sim, do casamento de Cartman e Kyle. Atrás de Kenny, na fila dos grooms de Cartman, podiam-se ver Butters, Craig, Token e Clyde. Do lado esquerdo, atrás de Stan, os grooms de Kyle eram Ike, Brad, Tweek e seu pai, Gerald.
Tanto Kenny quanto Stan observavam os convidados tomarem seus lugares nas cadeiras enfileiradas à frente do altar. Os dois em pé seguravam as alianças que seus respectivos amigos dariam um ao outro. Kenny colocou a aliança no dedo mindinho — o único em que cabia — apenas para ter certeza de que não a perderia. Stan segurava a aliança que seria de Cartman no bolso da calça. A banda posicionou-se apenas aguardando o “ok” de uma das organizadoras do evento indicando que Cartman já estaria pronto, pois entraria primeiro acompanhado da mãe.
Não demorou mais que alguns minutos para que a banda começasse a tocar a suave melodia de Clarins de Roma, do compositor de óperas, Giuseppe Verdi, num tom mais suave do que a música original. Cartman, de braços dados com a mãe, que não poderia estar mais feliz e orgulhosa naquele momento, andava devagar trocando olhares com convidados pelo pequeno corredor até o altar, onde o juiz de paz aguardava os noivos. Ele respirou fundo, sentia um misto de emoções absurdas, como uma vontade enorme de começar a gargalhar, de sair correndo e de ouvir alguém dizer que aquilo tudo era uma pegadinha. Olhou para um Stan Marsh com olhos azuis brilhantes e um Kenny McCormick com um sorriso quase maior que seu rosto. Era indescrítivel a segurança que sentia apenas de ter aqueles dois rostos tão parte da sua vida presentes naquele momento.
Ao chegar no altar, a música cessou quase imperceptivelmente e ele abraçou a mãe, que agora tinha lágrimas nos olhos e reclamava baixinho sobre estar estragando a maquiagem quando o evento mal tinha começado. Ele a beijou na testa murmurando um “obrigado” que significava muito mais do que levá-lo até o altar; era quase um agradecimento pela vida inteira dedicada a torná-lo um homem digno de estar ao lado de Kyle e, por aquilo, Eric sabia que não haveriam “obrigados” o suficiente. Por uma fração de segundo, realmente lhe passou pela cabeça a pergunta clássica do “o que seria de mim sem essa mulher?” enquanto ela posicionava-se ao lado de Kenny, que tocou seu ombro como se a consolasse.
Eric sorria, mas estava nervoso olhando para o lado oposto do altar de onde estava, apenas esperando para ver se Kyle aparecia. Ele tinha as mãos em frente ao corpo e as segurava percebendo que estavam absurdamente geladas. Ele tirou os olhos do fim do corredor e agora encarava Stan, como se perguntasse onde Kyle estava, mas o amigo apenas tentava tranquilizá-lo com o olhar.
– Onde ele está, Kenny? — Cartman perguntou de canto, num sussurro para seu padrinho.
– Cartman, fica tranquilo. — Kenny sorria despreocupado, falando perto do ouvido do amigo. — Sabe muito bem que aquela bicha ruiva vai bancar a noiva atrasada pra fazer charme. — Ele concluiu segurando o riso recebendo o olhar mais tranquilo de Cartman, sabendo que aquilo era provavelmente verdade.
Era um fato que Kyle lidava muito bem com pressão e funcionava melhor sob estresse do que em circunstâncias normais. Ao contrário de Cartman, ele havia fechado suas abotoaduras com tranquilidade, arrumado a gravata e o cabelo como se nada houvesse, até mesmo lidado com sua mãe, tudo isso sem que uma ruga de preocupação se formasse em seu rosto. O dia do seu casamento, ele dissera a si mesmo na noite anterior, não seria dramático ou estressante. O ruivo sempre teve suas certezas como preto no branco, sem qualquer sombra de dúvida, certeiro e radicalista. Casar-se com Eric Cartman era a coisa que ele mais havia desejado desde que foram morar juntos quatro anos antes. Não havia sido difícil para ele até o último instante antes de pisar naquele tapete vermelho, mas ao se perceber de frente para a porta de entrada, toda a sua tranquilidade cuidadosamente construída ruiu como um castelo de cartas. Sentiu seu estômago contrair, o coração batendo tão forte que parecia querer sair pela boca. Todas as inseguranças do mundo invadiram seu crânio ao mesmo tempo; lembrou-se de cada briga, de todas as diferenças entre eles, de absolutamente tudo que poderia dar errado na vida a dois. Kyle apertou o braço de sua mãe por instinto, sem perceber, ouvindo a voz dela ecoar nos seus ouvidos, as acusações, as críticas, a desaprovação.
Tudo isso não durou mais do que dois segundos. Então, Kyle avistou o homem com quem passaria o resto da sua vida, por um breve momento antes da música começar a tocar. Naquela fração mínima de tempo, Cartman não olhava pra ele ainda. Encarava o chão, pensativo, ansioso, o que trouxe um sorriso tão simples aos lábios do ruivo, sentindo cada mísera preocupação desaparecer. Aos olhos dele, Cartman parecia o homem mais belo que já pisara na terra.
Assim que a banda começou a tocar Adágio em C Minor, do compositor e tecladista grego, Yanni, Cartman virou-se em direção ao fim do tapete vermelho, assim como todos no recinto. Alguns revezavam o olhar entre Kyle vestido de branco acompanhado da mãe e observar a expressão atônita, perplexa e maravilhada de um Eric Cartman que mal podia acreditar em seus olhos e em como seria possível que aquele homem conseguisse, naquele dia, estar ainda mais bonito e deslumbrante do que já era.
Quando Kyle sorriu de longe pra ele, Cartman sentiu uma certeza tão descomunal quanto à decisão de casar-se com aquele homem, que sentia que mal podia esperar pra dizer “sim”.
Kyle estava de braço dado com a mãe e feliz demais olhando para os convidados e seu futuro marido, que ignorou solenemente as feições de uma Sheila Broflovski que parecia estar levando o filho para a forca. Ele tentava olhar para todos os presentes, como se agradecesse por estarem lá, mas estava difícil tirar os olhos de Cartman — diria a ele mais tarde que, no que dependesse do judeu, Cartman nunca mais tiraria aquele terno. Ele estava ridiculamente lindo.
Kyle demorou mais para chegar ao altar, o que já era esperado, mas a música cessou assim que sua mãe o abraçou demorado, lhe dando um beijo no rosto e, mesmo não querendo admitir, sussurrou para o filho que ele estava lindo. Ela não olhou para Cartman e isso não o incomodou, ele provavelmente sequer perceberia, estava com os olhos grudados em Kyle e seu terno branco que custou a voltar a atenção para o juiz de paz enquanto Sheila dirigia-se para perto do marido e do filho caçula.
A cerimônia deu início e o silêncio rondava sem interrupções. Liane chorou durante praticamente todo o processo e Sheila mantinha a cara de velório com maestria, ao contrário de Gerald e Ike, que permaneciam com os sorrisos quase intactos, prestando atenção e percebendo que nunca antes haviam visto Kyle tão feliz.
– Os noivos optaram por escreverem seus próprio votos, é isso mesmo? — O juiz disse querendo confirmar a informação, e os dois apenas indicaram com a cabeça que sim. — Senhor Cartman, por gentileza. — Ele disse apontando o moreno alto começasse.
Eric, que até aquele momento mantinha moderada calma, tinha agora todos os pares de olhos do local sobre si e o nervosismo estava começando a voltar. Ele tirou o papel amassado do bolso apenas porque sabia que teria um branco a qualquer momento no que queria falar. Kyle tinha uma expectativa quase desumana naquela hora.
– Kyle… — Cartman começou sorrindo, segurando o papel com uma mão e o microfone com a outra. Kenny murmurou algo como “ok, começamos bem, ele acertou o nome”. Não tinha pretensão de ser ouvido por todos, mas diante do silêncio, todos riram do comentário, inclusive os noivos, o que deu a Eric um pouco mais de calma antes que ele prosseguisse. — Eu sempre quis alguém que me trouxesse paz, conforto e principalmente, que me aceitasse exatamente assim como eu sou. — Ele fez uma pausa para olhar Kyle sorrindo carinhoso para ele. — Aí eu conheci você… — Kyle abriu o sorriso ainda maior. — E você não era nada disso. — Kyle fechou os olhos rindo acompanhado dos convidados e do próprio Cartman. — No lugar de paz, você trouxe um monte de outras coisas novas na minha vida. Ao invés de conforto, você me mostrou que devo pensar “fora da caixa”, me traz todos os dias um jeito novo de olhar para a mesma coisa. Ao invés de você me aceitar como eu sou, você me fez descobrir que eu poderia ser um homem muito melhor. — Ele dobrou o papel percebendo que não precisaria mais daquilo. — Você era tudo que estava faltando na minha vida, Kyle. Normalmente eu diria pra você nunca mudar e continuar sendo esse homem que eu tanto amo. Mas prefiro dizer que continue mudando… — Ele se aproximou mais do ruivo meio que instintivamente ao vê-lo com lágrimas nos olhos. — Porque assim você continuará mudando a minha vida. Eu te amo, todos os dias mais e todos os dias de um jeito diferente. — Ele concluiu igualmente emocionado, baixou os olhos quando sentiu a visão embaçada e uma lágrima caiu em seu terno antes que ele pudesse secá-la.
Kyle não queria arruinar o protocolo e beijá-lo, abraçá-lo ali mesmo, mas limitou-se em segurar a mão de Cartman, percebendo que estava fria. Eric devolveu o microfone para o juiz sentindo o toque de Kenny em seu ombro numa clara forma de apoio.
O ruivo ainda precisou de um momento, cobrindo os olhos úmidos e soltando uma risada baixa, sacudindo a cabeça por um segundo antes de alcançar por dentro do terno o próprio papel cuidadosamente dobrado, escrito com uma caligrafia exemplar. Ele respirou fundo, fungando ao mesmo tempo, sorrindo tímido para o homem à sua frente que esfregava as mãos e entrelaçava os dedos, ansioso. Os olhos de Kyle pareciam ainda mais verdes sob aquela camada de lágrimas não derramadas que os tornava ainda mais brilhantes. Quando tomou o microfone, abaixou o rosto e encarou o papel durante alguns segundos em que o ambiente se mantinha em silêncio completo. Na primeira fileira, sentada ao lado de Liane, Sheila chorava baixinho.
–Eric Cartman… — A voz saiu trêmula enquanto ele erguia a cabeça, com as próximas frases gravadas em seu cérebro, sem qualquer necessidade de lê-las. — É de conhecimento geral que você não é o homem mais fácil desse mundo de se lidar. — Agora, a fala veio tão simples e honesta que quase todos presentes, muitos conhecendo Cartman desde a infância, precisaram rir daquelas palavras. O próprio Eric assentiu com a cabeça em concessão, sorrindo quase com orgulho. — Tanto que… Não foram poucas as vezes que eu ouvi a pergunta “mas o que você vê nele?”. Eu entendo que ninguém mais te veja da forma que eu vejo, porque eu sei que você não se expõe pra mais ninguém, não se fragiliza pra mais ninguém, não quer que as pessoas saibam do homem gentil, honesto, bondoso, forte, verdadeiro que você é. — Agora, ele voltava a ler o papel, esboçando um sorriso delicado. — Quando você começou a desconstruir as suas defesas pra mim, eu vi a coisa mais bonita que existe nesse mundo. Eu vi… Aquilo que todo ser humano busca, alguns a vida inteira sem encontrar. Vi a minha alma gêmea, a pessoa mais oposta de mim que podia existir, que me completava em todos os defeitos e qualidades. Eu vi um cúmplice, um melhor amigo, um irmão, alguém que não teria medo de me chacoalhar quando eu estivesse errado, que enfrentaria qualquer um por nós dois, que me desafiaria a questionar tudo que eu sou e a crescer todos os dias da minha vida. Alguém que jamais soltaria a minha mão. — Kyle voltou a encarar seu noivo com uma expressão séria, a respiração irregular, as mãos trêmulas. Cartman umedeceu os lábios, tomado por um desejo arrebatador de tocá-lo, mas permaneceu em seu lugar. — É isso que eu vejo todos os dias quando olho pra você. A pessoa mais forte, mais corajosa que eu já conheci. O homem mais bonito que já viveu. E eu prometo amar cada mísero defeito seu todo dia, cada pequena coisa que eu odeio em você, eu vou amar tudo isso e agradecer diariamente por você também ter visto alguma coisa em mim.
Assim que o sorriso choroso voltou a iluminar o rosto de Kyle, ele se virou para entregar o microfone ao juiz e fez menção de guardar o papel novamente, papel este em que estavam escritos votos muito mais curtos e simples do que os que ele havia dito no momento. Não chegou a ter tempo de alcançar o bolso do terno quando Cartman segurou seu rosto com suas duas mãos fortes, puxando-o contra si mesmo e encaixando seus lábios quentes em um beijo que poderia ter durado uma vida inteira, desobedecendo toda a etiqueta de casamento que Eric cuidadosamente tentou decorar para a cerimônia. Kyle alargou o sorriso contra a boca dele, retribuindo com uma risadinha curta nos lábios do outro, sentindo seu rosto ruborizado e úmido contra o de Cartman, levando uma das mãos aos seus cabelos castanhos e apertando um punhado entre os dedos, pressionando um selinho longo, lento, amassando o nariz na bochecha dele.
–Caralho. — Kenny disse no seu tom mais espontâneo, como se a palavra literalmente lhe tivesse fugido da boca. — Ainda não, cara.
Não se sabe se foi pela seriedade na voz de Kenny enquanto puxava o braço de Cartman, como e estivesse genuinamente preocupado, ou se talvez foi aquele ar contagiante de felicidade que transbordava dos noivos, como se o resto do salão tivesse desaparecido, mas fato é que uma nova onda leve de risos tomou conta de cada um dos convidados, até mesmo do juiz. A única pessoa que não se deu ao trabalho de esboçar um sorriso sequer foi, naturalmente, a gorda mulher ruiva que borrava o rímel com suas lágrimas, tentando secá-las com um lencinho de seda, encarando o nada como se não estivesse absorvendo o que se passava em torno dela. Havia uma amargura sendo construída no peito de Sheila, uma amargura que parecia prestes a eclodir. Nem mesmo o enorme sorriso radiante de Kyle foi capaz de aliviar o aperto que ela sentia na garganta.
– As alianças. — O juiz prosseguiu ao ter o microfone de volta. Ela sorria ainda quando Kenny levantou o dedo mindinho e Cartman tirou a aliança. Stan cuidadosamente entregou a aliança a Kyle. — Eric Cartman, o senhor aceita Kyle Broflovski como seu legítimo esposo?
– Aceito, aceito. — Eric quase o interrompeu, tinha pressa. Kyle sorriu aberto e Eric correspondeu. No fundo, entendeu que aquilo eram apenas formalidades, estava certo de que aquele era o homem que ele passaria o resto da vida. Kyle ofereceu a mão esquerda um pouco trêmula para que Eric colocasse a aliança em seu dedo.
– Kyle Broflovski, o senhor aceita Eric Cartman como seu legítimo esposo? — O juiz virou-se na direção de Kyle assim como todo o restante do grupo.
– Aceito. — Kyle, ao contrário do agora marido, tinha a serenidade que tanto buscou durante a cerimônia toda. Uma certeza capaz de transbordar pelo jeito que ele olhava Eric e pelo sorriso de quem mal podia esperar para sair dali e ficar sozinho com ele. Ele segurou a mão esquerda gigante de um Eric Cartman suando frio colocando a aliança no dedo anelar sem dificuldades.
– Pelos poderes investidos a mim e de acordo com as leis do estado de Vermont, eu vos declaro casados. — O juiz dizia sorrindo, olhando de um para outro, vendo que eles não tiravam os olhos um do outro e os sorrisos estavam praticamente colados. — E agora sim… Podem beijar. — Ele concluiu rindo fazendo os convidados e os noivos rirem também.
Dessa vez o beijo foi menos apressado, mas a paixão foi a mesma. Eric segurou Kyle pela cintura e pela nuca, girando o corpo dele e jogando para o lado, fazendo-o segurar-se em seu pescoço com o susto e continuou beijando-o por vários segundos, seguidos de aplausos, risos e até um Kenny McCormick assoviando agudo com dois dedos na boca.
Cartman pôs o marido no mesmo lugar e viu um Kyle sem graça, quase gargalhando abraçando-se a ele e escondendo o rosto no ombro do moreno alto. Os dois permanceram no altar por alguns segundos e então passaram a andar pelo corredor para receber cumprimentos dos amigos e familiares. Liane abraçou Kyle e Cartman ao mesmo tempo, segurando-se nos ombos dos dois homens que apenas sorriam e tentavam lidar com tantas mãos estendidas para cumprimentá-los. Gerald abraçou Cartman por vários segundos, apertado, dizendo perto do ouvido dele que estava feliz por ter colocado seu filho das mãos de um homem que o amava tanto. Era um daqueles raros momentos que Eric realmente não encontrava palavras para se expressar à altura.
Um barulho vindo de uma distância não muito longa chamou atenção da multidão. Tratava-se de Kenny e Stan segurando um champanhe que haviam acabado de estourar, fazendo uma espuma considerável na garrafa, nas mãos de ambos os padrinhos e no chão — mas quem se importava com aquilo naquela hora? Taças eram trazidas pelos garçons assim como mais garrafas de bebidas, os noivos se aproximaram de seus padrinhos para serem servidos em uma taça especial e beberem com os braços enroscados como qualquer casamento típico onde os noivos faziam a pose clássica para a foto, onde a própria fotógrafa tentava encontrar o melhor ângulo diante de tantos celulares apontados para eles.
Stan Marsh abraçou seu melhor amigo lhe dando um carinhoso beijo na testa e, mesmo diante de todo o barulho começado pela música da banda que tocava na festa, Kyle pode ler perfeitamente nos lábios de Stan quando ele segurou seu rosto para dizer “você vai ser muito feliz” voltando a abraçá-lo como um irmão. Kenny tirava várias fotos abraçado com Cartman, os dois riam como se já tivessem bebido muito mas estavam apenas começando. Kenny sabia fazer festa como ninguém. Quando os quatro se juntaram abraçados, a fotógrafa conseguiu captar um dos momentos mais bonitos da noite, amizade explícita de tantos anos materializada naqueles sorrisos divertidos e cúmplices.
– Vem comigo. — Cartman sussurrou no ouvido de Kyle assim que todos começaram a se dispesar aos poucos formando grupos de conversas, danças e rumando para a mesa de doces.
Kyle seguiu o marido segurando a taça de champanhe e Eric pediu para que ele ficasse num lugar específico no meio do salão, perto do palco onde a banda estava. O ruivo estreitou os olhos em desconfiança e estranheza, ainda rindo, querendo perguntar a ele o que estava prestes a aprontar, mas não teve tempo. Cartman então subiu ao palco, falou algo para o vocalista e então Kyle percebeu que Cartman já estava com o microfone nas mãos, olhando para a multidão com um sorriso jocoso.
– Atenção, atenção por favor. — Cartman disse alto no microfone chamando a atenção de todos na festa que interromperam o que faziam para prestar atenção no homem alto e forte em cima do palco segurando o riso. Kyle sorriu olhando de canto, desconfiado. — Esta é uma mensagem para todos vocês aí que acabaram de terminar um relacionamento. — Kyle riu alto cobrindo o rosto com as mãos, conhecia bem aquele discurso. Kenny quase cuspiu o que bebia mal controlando o riso e Stan sorriu balançando a cabeça negativamente perguntando a si mesmo se aquilo estava mesmo acontecendo. — Às vezes, o amor é difícil… — Eric continuou mal conseguindo falar pois sentia uma vontade imensa de rir.
Ele conseguia ler nos lábios de Kyle perfeitamente quando o ruivo dizia “pare com isso!” ou “eu não acredito que você está fazendo isso agora”, mas nada o impediria de fazer aquilo. Estava feliz demais, estava amando justamente naquele nível em que realmente passamos a agir do jeito mais ridículo possível para demonstrar o que sentimos e para que aquela emoção chegue a outra pessoa. Cartman não iria a lugar nenhum.
– Mas você não pode fugir dele! — Eric continuava arrancando risos dos amigos que sabiam perfeitamente o que viria a seguir. Kyle cobria a boca enquanto ria e já sentia as bochechas esquentando. — Quando você encontra algo especial, precisa lutar por aquilo. — Eric agora desceu do pequeno palco indo de encontro ao marido. — Mesmo quando parecer que o mundo está contra você… — Ele discretamente olhou para Sheila Broflovski por um segundo quando disse a frase. — Você precisa segurar firme. Com as duas mãos.
Era lógico que os amigos lembravam de quando Cartman fez aquilo quando era criança, especialmente Token e Nichole que, a propósito, continuavam juntos. Ela gargalhava alto, entrelaçando os dedos nos de seu marido e piscando pra ele. Token sacudia a cabeça como se tentasse evitar o riso, mas era impossível. Eric chegou perto de Kyle finalmente e ficou a poucos centímetros de distância dele.
– Não deixe a sociedade ditar com quem você pode ou não ficar! — Ele segurou a mão de Kyle que ainda pedia por favor para que ele parasse, mas sentia-se cada vez mais apaixonado por aquele homem à sua frente. — Kahl, I love you babe.– Ele falava sério, mas ainda rindo e Kenny McCormick jogou-se em uma cadeira por não conseguir mais ficar em pé de tanto que sua barriga doía pelos risos. — Você pode fugir o quanto quiser, fingir que gosta de garotas, but when we kiss there’s magic! Não desiste, Kyle! — Cartman sentiu o ruivo o abraçar forte porque estava absolutamente envergonhado, escondendo o rosto no seu peito. — I want to hold you every morning and love you every night, Kyle.– E o moreno alto o abraçou de volta por alguns minutos enquanto todos prestavam atenção na cena que tinha um misto perfeito do mais puro romantismo inocente e sorrisos que iluminavam o lugar. — Eu prometo, nada além de amor e felicidade.
No momento que Kyle achou que ele não iria além daquilo, pois Cartman poderia ser ruim em muitas coisas, mas realmente cantar era algo que ele não poderia ser pior, abraçados, Cartman não tinha planos de parar por ali. Ele segurava o microfone com uma mão e abraçava Kyle pela cintura com a outra, cantando quase perto do ouvido dele.
– I swear…– E nesse momento a banda começou a tocar a música tão conhecida do All 4 One. — By the moon and the stars and the sky… I’ll be there, Kahl…
– Eu vou te matar dolorosa e vagarosamente, fatass. — Kyle dizia em meio a risos abraçando ele ainda mais forte e beijando seu pescoço, enquanto balançavam devagar ao som da música.
– I swear!– Ao ouvir aquilo, Cartman cantava ainda mais alto e tentando permanecer ainda sério, num tom muito acima do que a música pedia. — Like the shadows that’s by your side… Kahl, I swear to God I’ll be there… For better or worse, ‘til death do us part, I love you with every gay beat of my heart… I swear Kyle.– Cartman tirou o microfone da boca e em meio a risos e aplausos, a banda continuou a tocar a música de forma apropriada e com um vocalista muito melhor do que Eric, enquanto Kyle apenas permanecia escondido no peito de Cartman, rindo e dançando com ele.
Os noivos dançaram a música no centro por alguns minutos sozinhos e então os convidados os acompanharam. A festa, a partir dali, seguia-se sem nenhuma nova surpresa embaraçosa por parte de Eric Cartman para total alívio de Kyle, que mesmo tendo um relacionamento de dez anos com o homem o qual não soltava do braço para praticamente nada, não conseguia medir o que sentia naquele dia tão especial. Por vezes, Cartman se perguntou porque demorou tanto para fazer aquilo, mesmo alguns dias antes do casamento mal esperava para chamar aquele homem oficialmente de seu marido, porque aquilo significava muito: o casamento de ambos era a pura expressão não apenas só do amor e da felicidade que ambos sentiam por compartilhar suas vidas, mas era também o momento de celebrar a parceira de anos, a cumplicidade e a lealdade que tinham um pelo outro, apesar de tantos problemas, brigas, discussões e contratempos. Apesar de uma Sheila Broflovski no caminho tentando, de todas as formas que podia e em todas as oportunidades que aparecia, boicotar o relacionamento dos dois por nunca se conformar com o papel que Eric Cartman ocupava na vida de seu filho. Ela nunca acreditaria que o moreno alto, bem maior que seu filho e mesmo estando extremamente bem vestido, seria bom o suficiente para Kyle. Ela costumeiramente referia-se a Cartman como um homem de “alma feia”.
Os olhos de Stan Marsh, assim como o de muitos ali presentes, estava concentrado num canto específico da festa onde os noivos conversavam com alguns outros convidados. Ele sorria ao ver o tamanho do sorriso de Kyle ao mesmo tempo que sentia-se seguro ao ver uma ds mãos de Cartman firmes sobre o ombro do ruivo — a proteção de Eric sempre foi um dos motivos pelo qual Stan apoiou o relacionamento desde o começo. Não que Kyle fosse frágil, mas Eric Cartman era um constante escudo desejando que nunca nada de mal tocasse Broflovski. Stan achava graça no fato de que, apesar de ser o casamento dos dois, a firmação de votos e sentimentos, Eric parecia agir como um verdadeiro cão de guarda ao lado do judeu bem educado, que segurava sua taça de champanhe de um jeito tão naturalmente correto que, até mesmo diante daqueles gestos, mostrava a enorme diferença entre os dois, já que Cartman segurava seu copo de uísque sem o menor cuidado.
O padrinho de Kyle Broflovski levantou-se calmamente de sua cadeira, pegou sua taça com água e, com uma colher, sutilmente bateu no vidro pedindo a atenção de todos.
– Boa noite. — Ele disse cordial enquanto o silêncio aos poucos ia se tornando absoluto e os olhos de todos ficavam voltados para o homem de cabelos escuros que era o único com olhos fixos nos noivos. Algum membro da organização do casamento lhe alcançou um microfone e sua voz agora tomava o lugar da música. — Kyle, primeiramente obrigado. — Ele disse sorrindo para o melhor amigo. — Obrigado não somente pelo convite de ter a honra de ser seu padrinho, mas por todos esses anos de amizade, pelas palavras tão sábias em tantas horas necessárias, pelas experiências que tivemos e por continuar depositando toda sua confiança em mim… Irmão. — Ele fez uma pausa e todos olhavam a expressão de Kyle que estava profundamente emocionado, com a visão turva pelas lágrimas nascendo nos olhos. — Cartman… — Stan continuou abrindo um sorriso ainda maior, quase rindo, como se não encontrasse palavras para se dirigir àquele homem que demorou para cessar sua construção de muros em torno de si para passar a construir pontes. — Estou orgulhoso de quem se tornou e de como foi capaz de permitir-se ser feliz porque, ao contrário do que você mesmo pensa às vezes, você merece sim. — Ele concluiu erguendo a taça de leve e Cartman sorriu aberto entendendo naquele momento que Stan era mais seu amigo do que ele mesmo pensava.
Era fácil para Stan falar de Kyle, era sua alma-gêmea, sua extensão, seu coração fora do corpo. A relação deles era perfeita demais para ser romantizada e Marsh sabia que ocupava igualmente um lugar único no coração de Kyle, um lugar completamente diferente de qualquer outra pessoa. A amizade deles quase dispensava comunicação verbal, seus corpos falavam, suas mentes mantinham conversas longas e interessantíssimas. As vezes em que falavam juntos sobre o mesmo assunto depois de deixar apenas seus silêncios trocarem ideias, Broflovski e Marsh tinham o costume de dizer que tinham superpoderes e conseguiam ler a mente um do outro com a facilidade de quem abre um livro. Até as brigas se tornavam mais fáceis uma vez que um sempre respondia de forma a conhecer os argumentos do outro.
Cartman sempre achou que era desafiador falar dele, as pessoas raramente o sentiam, raramente o percebiam e tinha certeza que sua admiração velada por Stan Marsh se devia ao fato de que ele, Kenny e Kyle, sabiam mais sobre Eric do que ele próprio. E isso não era lisonjeiro, era assustador. Eric perdeu a conta das conversas que fugiu de ter com Stan por saber que ele diria exatamente as coisas certas e, consequentemente, as coisas que ele não queria ouvir. Chegava a ficar irritado consigo mesmo quando, mesmo não demonstrando, Stan Marsh estava lá, com aquela mesma postura de quem tem todas as respostas, menos as respostas para resolver os próprios problemas. Cartman o admirava por isso e Stan sabia.
– Vi que nesse casamento não há padres, pastores ou rabinos. — Stan continuou tentando disfarçar a pouca familiaridade que tinha de segurar um microfone. Ele pôs uma das mãos no bolso da calça social e, com o terno já aberto, olhava os convidados mais a vontade, apenas prestando atenção no que ele tinha pra dizer. Mesmo que sem querer, notou que tinha interrompido na hora certa. — Já ouvi muita gente falando sobre o quanto acha bonito os rituais de casamento. — Ele fez uma pausa lembrando do seu próprio. — “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando até que a morte os separe?” Quem é casado sabe que isso é um simplista demais e um pouco fora da realidade. — Ele concluiu e alguns convidados, incluindo os noivos, riram baixinho antes dele prosseguir. — Se trouxéssemos isso para a vida real, tenho alguma sugestões de sermões.
Ele pegou um papel do bolso, parecia ser algo que ele rabiscou de cabeça há poucos minutos antes da cerimônia começar. Ele fixou seus olhos em Eric Cartman após ler a primeira frase.
– Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade? — Ele fez uma pausa e então parecia ouvir o eco de sua própria voz diante do silêncio que havia tomado conta do lugar por completo. Ele leu a segunda frase e então seus olhos imediatamente encontraram os de Kyle. — Promete saber ser amigo e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena um e outro, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica? — O brinde era para ser aos noivos, mas algumas pessoas certamente estavam tomando aquilo como algo para a própria vida. Ele voltou a encarar um Eric Cartman que parecia fazer um certo esforço para não desviar o olhar. — Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela? — Kyle sorriu olhando para os próprios pés antes de voltar a encarar seu padrinho que agora olhava pra ele. — Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor? — Stan viu o que já esperava, que eram as lágrimas teimosas de Kyle escorrendo por seu rosto. Ele olhou firme para Cartman. — Promete se deixar conhecer?
Até mesmo Sheila Broflovski havia mudado de expressão conforme ouvia as palavras daquele homem que, aos olhos dela, ainda parecia o mesmo menino de oito anos que vivia em sua casa ao redor de seu filho. Especialmente porque agora Stan voltava a olhar Kyle.
– Promete que fará sexo sem pudores, que terá filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? — Ele voltou seus olhos para o papel de anotações e também estava emocionado ao olhar um Eric Cartman com lágrimas nos olhos. — Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina? — Stan suspirou antes de continuar e olhava de um para outro tentando manter o próprio controle, pois estava igualmente emocionado pela reação dos dois. — Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de dizer ‘sim’? — Ele fez uma pausa guardando de volta o papel de anotações no bolso antes de concluir. — Sendo assim, declaro-os muito mais que casados: declaro-os maduros. — Taças erguidas em forma de brinde e alguns aplausos tomaram o salão por alguns segundos prestigiando as palavras do homem inteligente que era Stan Marsh.
Kenny puxou o rosto de Stan para perto do seu e pressionou um beijo úmido na bochecha do moreno enquanto tomava o microfone de sua mão, sem dar a mínima para a gargalhada tímida de Stan enquanto voltava ao seu assento. Era evidente que ser o foco de todas as atenções do salão o perturbava, mas com o loiro, era exatamente o oposto. Kenny fungou no microfone, levando a mão livre ao rosto para escorregar as costas do dedo indicador por baixo da pálpebra, limpando um acúmulo de lágrimas com o sorriso mais aberto estampado em seu rosto. Fez menção de começar a falar, mas tudo que saiu foi uma risadinha sem graça que contagiou o ambiente. Usou a mão sobre os olhos para fazer sombra na luz forte que o cegava, olhando diretamente para os noivos por um momento, observando como Kyle levava a mão ao braço de Eric para um carinho despretensioso, ainda anestesiado e absorvendo tudo o que acabara de ouvir do melhor amigo.
– Eu acho melhor eu desistir logo. — Kenny começou, segurando o microfone com as duas mãos. — Porque nem fodendo eu posso competir com isso. Deviam ter me botado pra falar primeiro, mas que porra.
Novamente, o clima de emoção que tomava conta dos convidados foi substituído por uma leveza tranquila, praticamente todos sucetíveis a uma risada fácil enquanto permaneciam dominados pelo êxtase de uma cena deslumbrante. Aos poucos, retomavam o foco no loiro que limpava a garganta, preparando-se para falar.
– Bom. Quando esse adorável casal... – Ele prosseguiu, voltando-se aos noivos, esticando o braço em direção a eles. — ...Me pediu pra apadrinhar a união deles, eu perguntei o que eu tinha que fazer. Porque na minha família, o padrinho só serve pra arrumar as strippers pra despedida de solteiro do noivo. Coisa que eu fiz com maestria, não fiz, Eric?
Enquanto a maioria das pessoas gargalhava, houve uma troca de olhares entre os noivos que agravou o efeito das risadas ecoando pelo salão. Kyle ergueu as sobrancelhas em questiomento, tentando conter o sorriso teimoso que insistia em aparecer nos lábios, enquanto Cartman erguia a palma para ele e se encolhia, com o sorriso mais sacana no rosto, como se prevesse um tapa que nunca chegou. Kyle apenas chacoalhou a cabeça, rindo, empurrando-o tão de leve que Eric, tão maior do que ele, sequer se mexeu. Quando o salão voltou a ficar em silêncio, Kenny foi em frente:
– Então me disseram que eu teria que fazer um discurso. Um deles me disse: “É só contar história de sacanagem, deixa a viadagem pro Stan.” O outro me disse: “Vai estar cheio de judeu conservador, Kenny, olha lá o que você vai falar.” Breaking news: os dois não conseguem concordar em absolutamente nada. Longe de mim desrespeitar a linda família da noiva, mas eu já aprendi que o papel de um padrinho é ser o fiel escudeiro do noivo até o fim. Eu precisei escolher uma história imunda pra compartilhar com vocês sobre Cartman e Kyle.
Kenny soltou uma gargalhada espontânea ao ver o ruivo escorregar para baixo na cadeira e cobrir a testa, exatamente ao mesmo tempo em que Cartman batia com força na mesa e tremia os talheres, rindo alto. Kyle balançava a cabeça negativamente bem devagar.
– Foi difícil escolher, sabe, com vinte e cinco anos de amizade e envolvendo duas pessoas com tanta história pra contar. Eu pensei em falar sobre quantas vezes eu fui acordado de madrugada pelo Cartman me chantageando pra levar camisinha do meu estoque infinito pra ele, quando a gente era adolescente e os hormônios não facilitavam. Vocês não fazem ideia de quantas vezes eu tive que trepar na árvore em frente à janela do quarto dele pra que esses dois pudessem se divertir. Eu abençoei esse amor desde o início, desde que era só uma maneira deles não se matarem, de tanto que brigavam. Mas enfim, eu não vou falar disso, seria inapropriado demais. — Ele acrescentou ao final com uma voz inocente, encolhendo os ombros, transparecendo o sorriso malicioso que era especialmente divertido para os amigos que conheceram Kyle e Cartman naquela época e se lembravam bem da fase em que não se desgrudavam. — Eu também pensei em falar no quanto eles mentiam descaradamente pra nós no começo, sendo que a porcaria da cidade inteira sabia que eles iriam se pegar uma hora ou outra. Eu e o Stan organizamos um bolão na época, pra ver quanto tempo demoraria pra eles contarem. O Craig ganhou. Eu devo dinheiro a ele até hoje.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Kyle tinha dificuldade em manter uma expressão ofendida com Eric gargalhando ao seu lado, envolvendo o braço em seus ombros e puxando-o para perto, brusco e sem medir força, como era de costume. O ruivo deitou a cabeça no ombro dele e se permitiu rir do absurdo, sabendo que quase não havia exagero no que o loiro contava: a história era legítima. Seu olhar de desaprovação era carregado de carinho, de emoção, lembrando-se tão bem do apoio incondicional de Kenny e Stan – os únicos que realmente importavam – quando tudo começou. Sentiu-se idiota por ter passado tanto tempo temendo a reação deles.
– O nosso bolão era famoso, cara. A escola inteira participava. Tanto que nós fizemos um, depois que eles começaram a namorar, pra ver quanto tempo duraria essa merda. Eu fui o único que disse que daria em casamento. Vocês não pensem que eu esqueci. As informações da minha conta bancária serão fornecidas junto com a lembrancinha dos noivos. — Kenny fazia um esforço tremendo para manter uma expressão séria, tentando passar credibilidade no seu discurso. — Mas de qualquer forma, eu escolhi voltar uns anos antes e contar uma história de quando nós ainda éramos crianças e Cartman era tão rolha de poço que a gente escondia as asinhas de frango frito dele embaixo da cama do Stan.
– Ei! — Cartman gritou, ainda sorrindo, dando mais um murro na mesa. — Que porra é essa?
Mas não havia qualquer ofensa real na sua voz, abafada pelo eco das reações escandalosas pelo salão. O riso era quase tão contagiante quando o choro havia sido poucos momentos antes, ambos ainda mesclados numa sensação entorpecente de alegria que não permitia a nenhum deles qualquer sentimento ruim.
– Nós tínhamos uns seis anos, não muito mais do que isso. — O loiro disse em um tom mais sério, umedecendo os lábios. — E não pensem que os dois ainda não implicavam um com o outro só porque eram pequenininhos, eles já tinham discussões catastróficas, xingamentos e roubavam lápis de cor um do outro. Sabem por quê? Porque o senhor Eric Cartman já era arriado pelo Kyle e sabia que tava querendo muita areia pro caminhãozinho dele. O Kyle sempre foi muito esquisito, sabe? Diabético, ruivo, aquele afro vermelho e aquelas sardas, todo torto e mirradinho, ele era um alvo fácil. Se ele tivesse crescido no gueto, como eu, teria aprendido a se defender. Mas não, era um filhinho de papai, com a lancheira do Ursinho Pooh... O que explica muita coisa, eu acho que o Sr. e a Sra. Broflovski sonhavam com um filho bicha pra não ter que pagar festa de casamento cara. Ó a ironia da vida, né?
Do seu assento, logo ao lado da esposa, Gerald Broflovski cobria a boca para conter a gargalhada que eventualmente chegou de qualquer forma, perturbando ainda mais a expressão carrancuda de Sheila. O homem tentou não se incomodar com sua esposa, conformado com a ideia de que não havia como ela se irritar mais do que já estava naquele momento. Sheila bufava. Ela tinha certeza absoluta de que não havia fornecido um centavo sequer para aquele casamento, pois Gerald escreveu um cheque ao seu filho e convenientemente fez questão de manter em segredo, pedindo para que aceitasse como presente pela união. Kyle não protestou, prevendo muito bem a reação de sua mãe. Ao pensar nisso, Gerald demostrava um sorriso satisfeito na boca. Estava orgulhoso.
– Eu me lembro direitinho... Veio esse menino de oito anos, ele chegou no parquinho na hora do recreio e jogou a lancheira do Kyle na neve, chamando ele de viadinho. O desgraçado roubou o sanduíche de manteiga de amendoim com geleia da mão do Kyle. Eu e o Stan ficamos com o cu na mão, aquele garoto de oito anos parecia a maior criatura do mundo naquela hora. O Kyle começou a chorar. Daqui a pouco surge aquela criança pequena ali. – Kenny apontou na direção de Cartman. — Ele era grandinho pra idade dele, eu nem preciso falar, mas o que fez com que o Cartman destruísse a cara do pobre menino foi esse instinto selvagem, animalesco, quase retardado que ele tem de proteger o Kyle de todo e qualquer mal desse mundo. Ele derrubou o menino na neve e deu-lhe uma surra que, olha, eu não acho que ele tenha feito bullying com mais ninguém na vida. Pelo menos não com o judeuzinho do Cartman. Ele tentou justificar dizendo que o moleque era um imbecil e que alguém tinha que dar uma lição nele, mas a mim ele não enganou. Naquele momento, eu tive a plena certeza de que um dia eu estaria aqui, nesse casamento que pode ter feito o inferno congelar. É por isso que eu ganhei o bolão e não vocês.
Em algum momento no meio da história, tomado pela nostalgia, Kyle levou os dedos leves pelo cabelo do seu noivo e os ajeitou atrás da orelha, esticando o pescoço para beijar seu maxilar, sussurrando-lhe algo que Kenny, de onde estava, não pôde entender, mas fez com que Cartman olhasse para ele durante alguns instantes da forma mais amorosa que Kenny já vira. “Meu herói”, foi o que o ruivo disse.
– Kyle. Cartman. Eu não entendo nada sobre casamentos pra dizer a vocês o que devem fazer daqui pra frente. — Kenny se inclinou para pegar a taça esquecida de champanhe, erguendo-a na direção dos dois amigos. — Eu sei que vocês ainda vão brigar muito, vão envelhecer pentelhos e encher demais o saco um do outro. E também sei que vão ser louquinhos um pelo outro durante todo o processo. Conforme a gente crescia, eu tinha cada vez mais certeza de que das duas uma: ou vocês acabariam se matando, ou vocês trepariam muito e acabariam casados. Vocês fizeram a escolha certa.
Quase que imediatamente, uma sequência alucinada de aplausos começou, e ali se pode ver que, apesar de tudo, Kenny McCormick era um homem tímido para falar em público. Os convidados aplaudiam com vontade não somente aqueles dois discursos, como também aquela amizade entre os quatro homens que parecia ser completamente imune ao tempo e a qualquer afastamento da vida adulta. Era simplesmente inspirador. Kyle tinha lágrimas escorrendo dos olhos desde que Stan começou a falar e elas não pareciam ter qualquer intenção de parar de escorrer. Cartman aproximou os lábios do topo da cabeça dele para deixar um beijo demorado, sentindo o cheiro delicioso de shampoo, sorrindo contra os cachos ruivos. Kenny continuou parado de pé com o microfone em mãos, umedecendo os lábios. Quando o salão ficou em silêncio, ele disse com sua voz mais séria:
–E… O Batmóvel tá lá fora. Sério, gente, é o Batmóvel, eu juro.
Ninguém gargalhou mais alto do que Eric Cartman.
Passadas as formalidades do brinde, o corte do bolo imenso — que rendeu uma belíssima foto de Cartman pegando um pedaço cheio com a mão para esfregar na boca de Kyle, sujando o nariz e o queixo e outra do beijo que roubou enquanto o ruivo tentava gritar com ele — e o próprio jantar, a verdadeira festa teve início. A grande maioria dos convidados já havia começado a beber durante o jantar; estavam soltos e relaxados o suficiente para dançar como se não houvesse ninguém olhando. Cartman gastou uns bons vinte minutos dando risada de dois tios bêbados de Kyle que dançavam da forma mais peculiar, esbravejando a quem quisesse ouvir que judeus não tinham ritmo. O ruivo estava extasiado demais para retrucar com algo além de um beijo demorado na boca. Chegava ao ponto da noite em que as gravatas começavam a ser afrouxadas, os ternos começavam a ser abertos e os salto altos eram chutados para debaixo da mesa. Bebe Stevens ainda dançava com Kyle enquanto segurava um sapato em cada mão, com os braços jogados para cima e um sorriso imenso que mostrava seus dentes de pérola, absolutamente deslumbrante com o vestido sereia de um roxo provocante, mesmo que o batom já tivesse desaparecido da boca e ela estivesse começando a suar. Ela pulava, jogava o quadril de um lado ao outro, e Kyle a puxou pelo braço com gentileza e abraçou por trás, rindo alto sob o som abafado de Abba — uma música atrás da outra -, os dois ainda balançando no ritmo da música. Clyde Donovan já não sabia mais onde tinha deixado seu terno, usava só a camisa branca com as mangas enroladas até os cotovelos, mas mantinha a gravata em torno do pescoço, dançando empolgando com Nicole enquanto Token procurava um garçom para trazer mais bebida, junto com Cartman. Kenny tinha a gravata amarrada na testa como uma faixa de guerra, com os braços para o alto gritando a letra de Dancing Queen na cara de Stan, que ria demais para conseguir de fato dançar. Quando bebia, Stan perdia quase que por completo a compostura sensata de costume.
Craig Tucker surgiu no meio de um grupo de amigos antigos da faculdade de Cartman, empurrando-os sem pedir muita licença, segurando dois copos de vodka misturada com refrigerante e gelo, erguendo-os no alto como se tentasse evitar derramar uma gota sequer. Ele dançava, mas não propriamente, não como todo mundo. Batia o pé e balançava o tronco, mas o quadril continuava imóvel, pois independente da quantidade de álcool ingerido, dançar continuava sendo algo um tanto absurdo para ele. Só não havia condição de ficar parado com a sequência de hinos gays que tocava há vinte minutos. Craig ainda vestia o terno cinza, agora aberto, mas não usava gravata alguma simplesmente porque não foi ao casamento usando gravata. Fez sinal para que Clyde se aproximasse, entregou a bebida a ele e o chamou para fora, para que se juntassem a Henrietta e a uma tia gorda de Cartman na área dos fumantes. Quando os dois passavam em direção à porta, em meio à troca de música, Kenny esbarrou neles correndo para o lado oposto, derrubando um pouco da vodka no chão. Ninguém pareceu se importar muito. Kyle agora dançava I want to break free com sua sogra, que ainda tinha a energia de uma mulher jovem e não descia do salto por coisa alguma. Ela sabia a letra de cor. Kenny agarrou o ruivo por trás de surpresa e o girou no ar três vezes, o suficiente para que Kyle começasse a xingá-lo às gargalhadas pela tontura. Liane ria com a mão no colo, sem parar de dançar um momento sequer, olhando os dois homens como se ainda fossem as crianças das quais ela se lembrava tão bem.
Eric voltou à pista de dança como um rei, poucos segundos depois de começar Don’t stop me now, segurando uma meia garrafa de Jack Daniel’s que conseguiu passando uma conversa mansa no garçom, impaciente para as pequenas doses, dominado por uma felicidade radiante que simplesmente exigia beber direto da garrafa. Levou a mão livre aos cachos de Kyle, e havia reconhecido já de longe aquela cabecinha ruiva, puxando-o com gentileza contra o seu peito e colando a boca no ouvido dele, encaixando o corpo por trás do seu, deixando-se levar pelo mesmo ritmo. Kenny dançava com Liane, ainda que sem colocar as mãos nela, mas foi o suficiente para Cartman fazer um gesto de “estou de olho em você, viado” que fez Kenny gargalhar, sacana como sempre. Logo, a atenção de Eric era novamente de Kyle, que levava a mão por trás da cabeça dele para acariciar seus cabelos, encostando as costas no peito forte dele, sorrindo com o toque.
– Você tem noção do quanto eu vou te fazer feliz? — Cartman disse ao ouvido dele, precisando gritar sob o som estridente da música.
Kyle virou o rosto para encará-lo, quase esquecendo de dançar por um segundo, com o sorriso mais ridiculamente largo que Cartman já vira naquele rosto. A resposta foi um beijo ansioso, mal encaixado, faminto. Kyle sabia.
O decorrer da noite foi embriagado, para dizer o mínimo. Alguns familiares de mais idade não passaram muito das duas da manhã, com exceção especial das tias de Cartman que dançavam mais empolgadas do que qualquer um dos jovens adultos, mesmo sem ingerir uma gota sequer de álcool. Stan já tinha dançado o suficiente para os pés latejarem — definitivamente sentia que não tinha mais idade para aquilo — então permanecia sentado e engajado numa conversa filosófica com Wendy e Karen, com os pés descalços apoiados numa cadeira vazia, bêbado demais para controlar o som da própria voz que era abafada pela música alta. Ele pensava constantemente em Penelope, sua filha de um ano e três meses que passaria aquela noite na casa dos pais de Stan. Ele sempre carregava consigo duas fotos dela na carteira, revelando os olhos imensos, de um azul escuro idêntico ao dos olhos do pai. Pensava também na mãe de Penelope, Susan, a mulher mais bela que Stan já conheceu em toda a sua vida. Susan sempre dizia, ao longo dos quatro breve anos que passaram juntos, como esperava pelo dia em que Kyle e Eric finalmente se casassem. Segundo ela, um amor genuíno como o deles era quase impossível de se encontrar. Mas ela nunca chegaria a ver aquele casamento se concretizando; a gravidez de Penelope fora complicada do início ao fim. Susan não sobreviveu ao parto, nem mesmo chegou a ver os olhos de sua filha. Ainda havia uma melancolia que tomava conta de Stan, em especial quando bebia. Cartman passou por ele dando-lhe um tapa forte nas costas e apertando seu ombro em um cumprimento grosseiro, chamando-o de velho com uma risadinha de deboche. Eric conhecia muito bem aquele olhar distante de quem não estava pensando em coisas boas, então houve apoio naquela mão breve no ombro de Stan.
Foi um alívio sair do salão abafado e cheio de gente. Eric respirou fundo e ajeitou o cabelo suado, desfeito, percebendo que a cara de fim de festa começava a se formar quando passou pelo espelho de moldura dourada que estava pendurado no curto e largo corredor que levava aos banheiros. Rolou as mangas para um pouco acima do cotovelo novamente, pois elas insistiam em escorregar. Não levou muitos passos em direção ao banheiro para que Cartman ouvisse o barulho estrondoso das portas duplas do salão se abrindo. Não foi qualquer surpresa a figura volumosa de Sheila Broflovski com um punho comicamente cerrado e a outra mão segurando sem qualquer graça uma taça de martini com a azeitona espetada balançando de um lado ao outro conforme ela marchava pelo longo tapete azul royal na direção do seu genro. Andava como se estivesse com um calo terrível no calcanhar.
Cartman precisou rir. Não era a mesma risada meticulosamente calculada para provocar sua sogra; era uma gargalhada genuína de quem estava vendo uma cena ridícula e não podia se controlar.
– Por que você não compra sapatos do seu tamanho? — Ele perguntou com toda honestidade, referindo-se à maneira com que os pés de Sheila pareciam espremidos dentro do scarpin.
– Escute aqui, seu doente. — Ela esbravejou com o rosto vermelho, pelo álcool e pela raiva, gesticulando com a mão que segurava o drinque, que por milagre não derramou. — Você deve estar amando isso, não é? Pra você, isso tudo é um joguinho e você acha que ganhou.
– Ah! Sim, Sheila! — Cartman bateu uma palma com um enorme sorriso sarcástico. — Eu morei quatro anos com o Kyle, assinei uma caralhada de papel, fiz união de bens com ele e dei essa porra dessa festa que custou mais do que o meu carro só pra poder te irritar. Você é, ó, um gênio.
– E você é um monstro. — Ela apontou o dedo indicador contra o peito dele, perigosamente perto. — Eu não consigo entender… O que eu posso ter feito de tão errado para ter criado um filho que não se importa com a moralidade de quem ele escolhe para passar a vida dele. Ele sempre te detestou, sempre! Ele sempre soube o que era certo e errado. Você fez algo com ele e agora ele nem mesmo me respeita mais.
– Ele não te respeita porque ele não te obedeceu quando você infernizou a cabeça dele pra não se casar comigo? Você é que não tem merda de respeito nenhum por ele, é um homem adulto, Sheila. Eu não poderia estar cagando mais por que você pensa de mim, pode voltar andando pra South Park com esses seus pés gordos agora mesmo se você quiser, foda-se. Me deixa mijar em paz.
– É claro que o meu Kyle está cego ao lado de uma criatura desprezível como você, a rameira da sua mãe não te deu um pingo de educação. — Nesse momento, Cartman, que já virava as costas para andar em direção à porta do banheiro masculino, parou e se virou lentamente com uma expressão quase doentia no rosto. Sheila não teria proferido aquelas palavras caso estivesse completamente sóbria, mas não estava e sua cabeça latejava demais desde que acordara aquela manhã.
Antes mesmo que ela pudesse continuar, com o peito estufado de ódio e de orgulho, Cartman trotou na direção dela com a mão erguida no ar de forma quase ameaçadora, deixando bem claro na posição do seu corpo que ela se arrependeria de qualquer palavra que saísse de sua boca em seguida.
– Quer saber, Sheila? Foi a “rameira” da minha mãe que chorou abraçada no seu filho e disse a ele tudo que qualquer um quer ouvir da própria mãe num dia como hoje. Foi a “puta” da minha mãe que bebeu e dançou e comemorou com ele como você, sua porca desnaturada, deveria estar fazendo.
Sheila já estava com o rímel borrado, mas era plenamente visível que seus olhos se enchiam de lágrima novamente, bem como Cartman havia antecipado. Ele podia estar bêbado, mas não o bastante para se esquecer de pegar onde doía. Não tinha qualquer interesse naquele diálogo, em ferir aquela mulher sobre a qual ele só conseguia sentir pena. Tudo o que Eric Cartman queria realmente era aliviar a bexiga, jogar um pouco de água na cara e voltar para o seu marido. Sua sogra, ao contrário, não se mostrava disposta a recuar.
– Como é fácil me exigir isso agora. A sua mãe sabe, Eric, que você não vai encontrar ninguém melhor nessa vida. Que ninguém mais vai te amar. Eu não, eu sou uma mãe que sabe que o filho está jogando a vida fora… Ao se unir a uma pessoa desprezível, grosseira, sem educação, sem amor. Nenhuma mãe no meu lugar teria o que comemorar hoje.
Eric revirou os olhos, sem um pingo de paciência para a entonação trágica dela.
– Foda-se! Cacete, mulher, será que por um segundo você consegue enfiar a sua insatisfação no rabo e ficar feliz pelo seu filho?! Ninguém te pediu pra aprovar, mas o mínimo que você faz é calar a sua boca só essa noite, será que dá pra você fazer isso?
– Você não tem filhos. Você… — Ela deu um gole longo no Martini que esvaziou o copo, secando as lágrimas que insistiam em escorrer, sem muita elegância no gesto. — O dia em que você tiver filhos, talvez você crie uma alma e entenda. Não existe nada mais importante nesse mundo para mim do que a felicidade dos meus meninos. Eu não vou ficar quieta porque eu não tenho uma sombra de dúvida de que você e o meu filho vão acabar esse casamento se odiando. Ele vai enxergar exatamente como você é, ele vai ser tão infeliz do seu lado e vai se arrepender todos os dias de não ter me escutado quando era tempo.
Cartman não teve tempo de responder porque, de onde estava parado em pé, enxergou o exato instante em que Kyle parou na porta entreaberta, alguns passos atrás de sua mãe que permanecia de costas. O ruivo segurou o ar nos pulmões e ergueu o queixo lentamente, com os olhos estreitos, transparecendo uma dor tão antiga que ele já deveria estar acostumado. Cartman sabia de cor que aquela expressão e a linguagem corporal de Kyle significavam o quanto ele tinha vergonha por aquela mulher, embora não fosse dizer isso em voz alta. Quando ela se calou, ele finalmente encontrou uma força de reagir, deixando o ar escapar pelas narinas em um riso curto e amargo, sacudindo a cabeça negativamente.
– Uau, mãe.
Sheila se virou na direção daquela voz trêmula, franzindo as sobrancelhas, abaixando a mão que segurava a taça vazia. O palito com a azeitona caiu sobre o tapete. Ela separou os lábios para dizer algo, e pela primeira vez naquela noite, pareceu verdadeiramente desarmada, como se não fizesse qualquer ideia de como justificar aquilo que acabara de dizer. Não chegava a ser uma surpresa. Cartman bufou e passou por ela em passos firmes, sem olhá-la, levando uma mão protetora ao braço de Kyle, aproximando a boca do ouvido dele para chamá-lo para entrar novamente. Esqueceu-se completamente que precisava usar o banheiro, nada mais parecia ter importância. O ruivo continuava com os olhos aguados fixos em sua mãe, a boca em uma linha reta, o corpo hesitando para obedecer enquanto Cartman o empurrava gentilmente, ansioso para tirá-lo dali. Por fim, Kyle cedeu, dando as costas para Sheila.
– Meu amor. — Ela chamou, confusa, mas não genuinamente carinhosa.
Mas a porta se fechou sem que houvesse resposta.
Não que a festa fosse durar muito mais tempo apesar da hora, mas certamente estava longe de ser o final que os noivos queriam. Kyle estava arrasado, embora Cartman insistisse pra que não pensasse naquilo e não deixasse que uma coisa ruim estragasse com todo o restante da noite, que havia sido perfeita.
Se tinha coisa que Eric, com os anos, havia se acostumado, era com a grosseria gratuita de Sheila Broflovski em relação a ele, mas ele jamais queria que aquilo afetasse Kyle, por isso milhares de vezes preferiu engolir as próprias palavras sabendo que certamente incomodariam o marido. Na maioria das vezes, era verdade que Cartman não conseguia se conter, mas ainda tinha esperança que aquela mulher simplesmente se cansasse. Àquela altura ele nem preocupava-se mais em se provar ou esperar algum tipo de aceitação por parte da sogra, ele estava se contentando apenas se ela simplesmente se cansasse de discutir e de encher a cabeça de Kyle com ideias maldosas não percebendo o quanto isso o magoava.
Claro que nada daquilo era exatamente uma surpresa para o ruivo, mas ele achou que não seria pedir demais que sua mãe tentasse encontrar o mínimo de tolerância apenas naquele dia e só aquele dia que fosse. Estava magoado, profundamente, mesmo sabendo que o álcool era um potencializador poderoso quando se tratava de dizer coisas que só deveriam apenas ter sido pensadas.
Assim que chegaram ao quarto hotel, quase de manhã, Cartman fechou a porta tirando a gravata como se aquilo o tivesse incomodando mais agora do que durante a festa. Ele tirou o terno e fez o mesmo com Kyle, puxando o casaco branco com cuidado pelas costas do ruivo. O moreno alto jogou o terno branco do marido sob uma pequena poltrona e, apesar do silêncio quase total de Kyle depois do que havia acontecido com sua mãe, ele suspirou olhando a imensa janela da suíte presidencial do mesmo hotel em que haviam feito a festa. Ele olhava o dia nascendo, com o sol braseando as barras do horizonte quando sentiu Cartman o abraçar pela cintura apoiando o queixo sobre seu ombro, mas não se moveu. Kyle não era um homem que derramava lágrimas com facilidade. Seus olhos estavam secos, vazios, o maxilar tenso e os dentes rangendo como se ele tentasse segurar algo imenso em sua garganta, um nó terrível do qual ele jamais poderia se livrar. Queria chorar como uma criança que se agarra à barra da saia de sua mãe, mas já tinha gastado todas as suas lágrimas naquele dia e todas foram de felicidade. A raiva quase era forte o bastante para sobrepôr a dor, pois Kyle não estava tão indignado com sua mãe quanto estava consigo mesmo por se deixar abater no dia mais importante de sua vida.
As palavras de Sheila ecoavam no seu crânio. “Ele vai ser tão infeliz do seu lado e vai se arrepender todos os dias.” Ela falara aquilo com tanta propriedade, tanta certeza, tanto desejo de estar certa, mesmo que aquilo significasse que todos os sonhos que Kyle teve no dia de seu casamento fossem destruídos. Ele mal podia respirar, rolando os lábios por dentro da boca e franzindo o nariz, o mínimo de dor esboçado na sua expressão, enquanto lhe ocorria que aquele era o começo mais concreto de sua vida ao lado da pessoa que — sem a menor dúvida — mais amava no mundo inteiro. Cartman o tocava como se sentisse sua dor em cada poro, com o peito apertado por se sentir impotente. Tudo o que Cartman queria era arrancar aquele sentimento obscuro dele usando as próprias mãos.
– Vai dar tudo certo. — Ele sussurrou para o outro que sorriu fraco. — Vamos ser muito felizes. Vamos fazer um ao outro muito feliz. — Cartman concluiu o abraçando ainda mais pra perto, beijando sua nuca logo atrás da orelha. — Você acredita?
– Acredito. — E Kyle acreditava mesmo.
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