Transcendental
23 Fall Into The Sky
Notas iniciais
–Suponho também que eles não sejam seus bichinhos de estimação – Sussurrei ao ouvido de Kaio, que negou com a cabeça. Eu estava um pouco apreensivo, porque, na boa... um bando de criaturas sombrias de olhos brilhantes cercando você nunca é bom sinal.
De repente, veio-me uma epifania. A clareira estava estranhamente iluminada... demais para essa hora. Olhei pra cima, e pude ver o astro pálido acima de mim, chamando minha atenção como um ponto preto numa folha branca. Me veio uma ideia na cabeça, mas eu realmente rezava pra estar errado.
–Licantropos? – Perguntei num tom tão baixo, que era como se apenas a pronuncia de palavras pudesse tornar aquilo mais real.
–Provavelmente... – Ele sussurrou de volta.
–Estamos Encrencados? – Perguntei
–Com certeza – Curto e direto. Pelo menos ele sabe que não deve enrolar.
–Alguma chance de escapar? – Eu tinha que montar um plano, e rápido.
–Depende do que, ou de quem eles estão atrás.
–Dá para fugir correndo? – Eu tinha que tentar algo
–Não pra muito longe... A não ser que... – Ele se interrompeu
–A não ser que? – Perguntei curioso
–A não ser que um de nós sirva como isca – Ele disse
–O quanto você corre?
–Muito mais do que você pode imaginar.
–Acha que consegue ir atrás de ajuda? – Perguntei
–Não irei deixar você aqui com eles – Ele me repreendeu
–Não sou tão inútil quanto pareço – Me senti até um pouco ofendido
–Mesmo assim, com essa quantidade de lobisomens, você não teria a menor chance, Seria suicídio – Ele explicou
–Lembre-se que eu sou meio mago, aprendi a criar projeções de luz, algo como hologramas. Posso distrai-los por algum tempo, mas terá que ser rápido do mesmo jeito, não consigo segurar por tanto tempo – Eu expliquei – Cinco segundos, se prepare.
–Você é louco? Quer se matar? – Ele estava perplexo.
–Você vai entender que eu tenho muitos impulsos suicidas, agora vá.
Me concentrei o suficiente para liberar a Projeção Astral, e uma cópia fiel de Kaio apareceu no lugar de onde ele sumiu. Nos meus treinamentos, o máximo de tempo que eu consegui segurar essa projeção foi de trinta segundos.
Mas quem disse que algo dá certo quando tudo tem que dar errado?
Bastou apenas um milésimo de segundo, um galho se parte quando uma das criaturas se move, eu perco minha concentração e minha farsa escorre pelo ralo.
Os lobos começam a rosnar pra mim. Penso rápido. Ainda posso invocar minha arma, mas vou precisar de tempo. E como tempo não é uma coisa que eu vá conseguir aqui... Tenho que correr
–Desculpa gente, mas não pretendo virar picadinho hoje – Disse aos lobos e sai correndo a toda velocidade.
Foi por pouco, mas deu tempo. Eu fiz da minha unha uma garra, furei a palma da mão, desenhando o símbolo de invocação da espada. Um pulso de luz brilhou e eu estava transformado com a espada embainhada. Como ainda não aprendi a voar, não materializei as asas, elas só iriam me atrapalhar na luta. Mas as roupas brancas eram folgadas o suficiente para me dar liberdade de movimento. Desembainhei a espada e senti o poder gigantesco que eu portava. Estava preparado para lutar até com um exército se fosse necessário.
Mas isso não foi necessário.
Quando eu empunhei a espada todos pararam instantaneamente. Foi como apetar o botão pause. Houve o choque estampado no olho deles. Como se em vez de uma espada eu tivesse invocado Lúcifer em pessoa.
Passado o choque, veio a realização. Todos os lobos recuaram, se alinharam e baixaram a cabeça em reverência. Dizer que eu estava confuso era puro eufemismo, Eu estava mais perdido do que bote salva-vidas no meio do Triângulo das Bermudas!
O maior Licantropo de todos, o de olhos vermelhos, se aproximou cautelosamente, um passo de cada vez, cabisbaixo. Ótimo, o que foi que eu fiz agora?
Quando ele chegou a meio metro de mim, pude notar o quanto o lobo de pelos pretos era grande –o topo da cabeça dele chegava quase na altura do meu peito, o que seria aproximadamente um metro e meio– e majestoso. Os músculos do animal deixavam transparecer sua força, e sua altura –Maior do que os outros– Deixava aparente seu nível no comando: Um Alpha.
Ele se transformou em humano, e pra minha surpresa ele estava ajoelhado diante de mim. Na boa, isso foi uma cena pra lá de surreal, porque, veja bem: Um cara enorme (talvez 1,90), super musculoso, sem absolutamente NADA fora do lugar, de uns trinta anos, com a aparência de um comandante veterano do exército ajoelhado em frente a um adolescente de 17 anos, pele parda meio pálida, de 1,75 não é uma cena que você vai ver... tipo... NUNCA! Desculpe, mas eu tenho o direito d estar chocado.
–Desculpe-me... mais o que você está fazendo? – Perguntei um pouco descrente.
–Prestando minhas reverências a ti senhor. – Ele respondeu num tom normal. Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
–Eu entendi essa parte, mas quero saber exatamente porque você está fazendo. Sem ofensas, mas não estou entendendo nada – Beleza, não era pra estar ocorrendo uma batalha sangrenta agora?
–Estais a portar a espada da lua, ti és a encarnação da deusa da lua, o que irá nos libertar da maldição que nos atormenta. – Ótimo! Agora quem viajou na maionese fui eu.
–Ok...mas pra continuarmos essa conversa, por favor, fique de pé – Exigi.
Bem... ele ficou de pé. Mas como eu já podia imaginar, ele estava nu. Eu, particularmente, poderia dar uma espiadinha, mas eu decidi ser respeitoso. Fixei meu olhar no rosto do homem, Mas estava envergonhado do mesmo jeito. Já ele, tratava com a maior naturalidade do universo.
–Agora, por favor, diga: quem é você? – Questionei delicadamente.
–Perdoe-me senhor, meu nome é Ephraim Auster, Alpha dessa matilha.
–Ok, Ephraim, de acordo com você, eu serei o salvador da tua espécie, mas vou salva-la de que? E porque tem tanta certeza que eu sou esse tal? – Perguntei
–Estou me referindo a maldição da lua, a qual nós somos obrigados a estar confinados a forma do nosso lobo durante o período da lua cheia. A maioria de nós viram selvagens. E minha certeza está nessa simples conversa. Eu não poderia estar na forma humana durante a lua cheia. Até a lua reconhece a ti e me permitiu estar assim. Exatamente como diz a profecia “A Criança da lua, terá a seu lado o espelho que permite refletir a forma original do amaldiçoado”. – Ele me explicou
–Ok, se é o que me diz, eu não vejo motivo para mentir. Acredito em você. Mas dadas as circunstâncias a qual nós fomos apresentados, você deve estar ciente que um batalhão logo vai estar aqui a tua caça, não é?
–Sim, eu entendo. Mas só gostaria de passar mais um tempo contigo, senhor. – Ele confessou.
–Acredite em mim quando eu digo que até eu queria continuar essa conversa, mas não quero que ninguém se machuque essa noite, nem você, nem ninguém do seu bando. Isso não é um adeus, eu vejo que é mais como um até logo. Sou novato nesse assunto de mundo sobrenatural mas tenho a impressão que nós ainda vamos nos ver novamente. – Falei serenamente
–Como quiser, senhor – Ele se afastou e pude vê-lo se transformar de volta. Não resisti ao impulso de passar minha mão pelo seu denso pelo negro feito a noite. Quando me dei conta do que estava fazendo, puxei minha mão e murmurei um “Me Desculpe”. Ele balançou a cabeça como que se dissesse que não foi grande coisa. Ele correu para junto da sua matilha e eles desapareceram.
Minhas pernas cederam ao peso do meu corpo. Me destransformei e mandei a espada junto. Fiquei sentado no chão da floresta sozinho, até ouvir os passos do meu socorro chegando. Luke estava com eles, quando me viu, me abraçou forte. Me confortou. Mas o pensamento de que aquele gesto que não foi nada era, na verdade, algo enorme, não saia da minha cabeça.
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