Traiçoeiro

27 Capítulo 27


Notas iniciais
Hey meus amores, olhem só quem está aqui com um capítulo novo! (eu sei que nem sentiram minha falta,nem deu tempo para isso, mas tô aqui do mesmo jeito). E eu sei, eu sei que hoje é quinta, mas decidi adiantar um dia porque também não poderei postar nesse fim de semana, e já deixei vocês sem capítulo na semana passada. Para verem o quanto amo vocês. Espero que gostem do capítulo e boa leitura.

Eu ouvia um murmúrio distante, quase como se fosse um lamento. Meu corpo estava entorpecido, e mesmo que meu cérebro mandasse ações para ele, até o simples abrir dos olhos parecia demais.

Fui envolvida por um cheiro familiar de mar, mesmo que estivesse fraco, sendo o suor predominante. Não me incomodei com isso, apenas fiquei contente em poder inspirar a sensação de conforto.

A dor ainda estava presente em minha mão, como se eu ainda continuasse a descer a lâmina da espada diversas vezes sobre onde ficava meu dedo. E mesmo com ela ali, insuportável, eu ainda não conseguia acreditar que havia feito aquilo.

Impulsiva.

Forcei minhas pálpebras se abrirem, minha visão totalmente desfocada por longos minutos, até que consegui enxergar o rosto de Jones, me fitando com ansiedade.

E me segurando como se eu fosse uma criança... Ou algo muito precioso.

Killian soltou um suspiro de alivio, beijando minha testa.

–Você está bem. – murmurou contra minha pele, não sei se tentando me convencer ou se convencer. – Eu fiquei com tanto medo, Emma.

–O que aconteceu? – indaguei com a voz rouca, tentando me sentar.

–Você desmaiou de dor, depois de gritar muito. Tudo bem aconteceu comigo também. Desmaiei tamanha era a dor. – ele abriu um sorriso mínimo, me ajeitando para que pudesse ver meu rosto.

–Você estava chorando, Killian? – questionei, erguendo com muito esforço minha mão boa para tocar seu rosto e o sentindo úmido.

Jones segurou minha mão, beijando a ponta de cada dedo, para então beijar a palma e voltar a olhar para mim.

–Eu estava... Estava assustado e preocupado. – admitiu.

Pisquei surpresa ao ouvir sua resposta simples, vendo a verdade no fundo daqueles olhos azuis e tão límpidos, brilhantes ainda por conta das lagrimas.

–Eu tentei detê-la, Emma. Tentei chegar até você, mas fiquei paralisado, não de medo, era mais como se eu estivesse congelado... Acredito que aquela coisa fez alguma coisa para que eu não a impedisse. Me perdoe.

–Foi uma escolha minha Jones. Não há motivos para pedir perdão. Você felizmente estava aqui para me ajudar.

Killian pareceu incerto ao me olhar, contudo acabou aquiescendo.

–Posso beijá-la? – indagou de repente.

Estudei seu rosto cuidadosamente ao ouvir seu pedido. Ele estava me pedindo permissão, diferente das outras vezes.

Deslizei minha mão para sua nuca e a puxei fracamente, levando meus lábios até os de Killian. Ele ficou imóvel por alguns segundos, mas por fim me beijou com cuidado, me pressionando ainda mais contra seu corpo, quase como se a qualquer momento eu pudesse quebrar, ou fosse desaparecer e estivesse com medo que isso acontecesse.

Quando recuei precisando de ar, Jones me ergueu até esconder meu rosto em seu pescoço, acariciando minhas costas, pousando seus lábios em minha bochecha, os deixando ali, sem parecer estar disposto a tirá-los tão cedo. Sua barba me pinicava, mas não de um jeito incômodo, sua respiração aquecia minha pele e eu me concentrava nessas sensações boas para tentar esquecer a dor que não parecia passar nunca.

Depositei um beijo em seu pescoço, sentindo sua pele se arrepiar e respirei fundo para guardar o cheiro de Killian. Apesar de não gostar do mar, seu cheiro sempre foi algo que achei reconfortante. Quantas vezes fui, caminhar na praia de meu condado apenas para sentir o cheiro que a brisa trazia? Jones tinha esse cheiro, misturado com algo a mais, que eu ainda não sabia identificar, poderia ser uma essência adquirida de viajar para tantos lugares exóticos, criando assim um cheiro só dele, mas era agradável e reconfortante, sendo assim, eu queria guardar comigo.

– Temos que ir. – murmurei. – Temos que achar a cabeça.

–Você está bem para continuar? – questionou com a voz baixa, me afastando para olhar meu rosto.

Forcei uma risada.

–Se formos esperar eu estar bem para continuar não sairemos daqui.

–Não esperava dizer isso, mas não me importo. Estou bem aqui. – comentou me ajeitando em seu colo.

–Imagino que sim. – concordei com sarcasmo. – O frasco que o duende lhe deu...? – indaguei ansiosa.

Jones olhou para o lado, pegando o frasquinho do chão.

–Tem certeza que vai tomar?

Aquiesci, segurando para que ele pudesse abrir para mim.

–Foi um trato. Ele não pode ter trapaceado. – afirmei, virando todo o conteúdo em minha boca. – Você descansou Jones?

Ele me lançou um olhar como que não acreditasse que eu estava realmente fazendo aquela pergunta.

–Quer descansar um pouco agora? – quis saber, tentando me levantar, porém Killian me segurou.

–Não. Quero apenas sair o mais rápido possível daqui... Antes que você aceite arrancar sua cabeça também. – falou em tom de repreensão.

–Pelo menos assim eu pararia de fazer perguntas o tempo todo.

–Vendo por esse lado... – Jones fingiu considerar a ideia e me libertou, deixando que eu saísse de seus braços. – Como está se sentindo?

Parei por um momento analisando como estava me sentindo. A dor eu sabia que não passaria tão cedo, principalmente porque eu tinha a sensação de que continuava a queimar sem cessar, contudo a chiadeira de meu peito parecia ter sumido. Respirei fundo algumas vezes, não ouvindo aquele barulho irritante como se algo dentro de mim estivesse prestes a estragar para sempre.

Forcei a tosse e para o meu alívio, dessa vez não senti o gosto metálico de sangue. Levei a mão até meu rosto, o sentindo na temperatura normal.

–Funcionou. Além da dor como se eu estivesse arrancando meu dedo infinitamente e tacando fogo logo em seguida, não me sinto mais doente. Poderemos continuar sem nos preocuparmos.

–Você continuará com essa sensação por um bom tempo. Na verdade, irá sentir como se seu dedo estivesse ainda aí. Às vezes eu ainda sinto minha mão e tento usá-la... É estranho. – soltou uma risada, parecendo envergonhado, sem me encarar. — E quando formos embora? – quis saber.

–Quando formos embora lidaremos com as conseqüências. Agora nós temos que continuar. – me abaixei pegando minha espada do chão e meu estômago fez um barulho, fazendo-me corar.

–Acho que está com fome.

–Eu também acho, mas isso é o de menos. – estiquei minha mão boa para ele. – Pronto?

Jones pegou minha mão entrelaçando nossos dedos. Demos uma ultima olhada ao redor antes de nos enfiarmos na mata escura.

Caminhamos por um bom tempo em silêncio, apenas prestando atenção nos sons a nossa volta. A luz ali era praticamente escassa, sendo assim, por mais que fosse estranha a luz vermelha brilhante que vinha do meu colar, ela foi boa, nos ajudando durante o trajeto.

–Como sabia o que fazer para cauterizar? – Killian perguntou quando fizemos uma pequena pausa, para analisarmos o ambiente. Decidimos seguir reto o caminho que havíamos pego, já que não tinha um mapa a ser seguidos.

Tudo o que sabíamos era que tínhamos que continuar andando até chegar à floresta de ferro.

–O que você acha que eu tanto converso com o Landon? – instiguei.

Jones deu de ombros.

–Sobre meus lindos olhos azuis, ou como sou o melhor e mais lindo capitão que já tiveram o prazer de conhecer?

Não consegui segurar o riso que escapou.

–E eu aqui achando que não era mais convencido.

–Mas eu não sou. Estou apenas colocando em palavras a verdade.

Aquiesci me virando de costas para ele. Eu sabia que ele estava brincando sobre “colocar em palavras a verdade”, mas algo estava me incomodando.

–Jones... Posso lhe fazer uma pergunta?

–Sempre pode Swan. Apenas não lhe dou garantias de que irei respondê-la.

–O duende o chamou de traiçoeiro... E comentou algo sobre um pagamento. O que exatamente ele estava dizendo? – olhei para ele.

Killian me deu um sorriso esquivo tentando, me tranquilizar.

–Sou um pirata, o que mais esperava que eu fosse? – questionou abrindo os braços. – E sobre o pagamento é de algo que aconteceu no passado amor. Fiz muitas coisas que... Podem me fazer perder pessoas importantes para mim.

–Achei que não tivesse alguém importante desde que perdeu Milah. – comentei.

–Eu também achei. – murmurou, recomeçando a andar sem me avisar.

Percebi que ele não iria continuar aquele assunto, então me contentei a segui-lo sem dizer mais nada, apenas tomando cuidado, cada vez que parecia que a escuridão se tornava mais densa.

Apertava minha mão esquerda contra meu corpo, praticamente correndo para permanecer perto de Killian. A mata parecia ter se tornado mais fechada, sem falar que estava ficando cada vez mais fria.

–Jones. Jones. – o chamei, tropeçando. – Vá mais devagar ou acabarei me perdendo de você. Não consigo nem enxergá-lo. – resmunguei apressando o passo e acabando por trombar nele.

–Guarde seu colar. – instruiu, apertando meu braço.

–O que? Por que?

–Não está sentindo? – instigou. – Aqui já está mais frio. Não consigo enxergar um palmo a minha frente.

–Devemos estar perto.

–Sim. E se pelo o que me contou o que os anões disseram para você for verdade, há feras aqui. Não queremos atraí-las.

–Mas Killian... Se não tivermos nem essa luz como enxergaremos algo? Como passaremos pela floresta de ferro?

–Não se preocupe. – Jones tirou o colar do meu pescoço. – Não estou roubando. – avisou em um tom brincalhão.

–Se estivesse teria usado o gancho para puxá-lo e rasgar minha roupa. – retruquei me lembrando daquele dia em que ele invadira minha carruagem, achando estranho o fato de que agora estávamos ali, um ajudando o outro.

E bem... Eu apaixonada por ele. Por vezes eu esquecia que nosso primeiro encontro fora daquele jeito.

–Ainda continuo achando-os muito bonito. – garantiu guardando o colar no bolso, fazendo algo afundar dentro de mim.

–Obrigada, Killian. – lhe dei um sorriso enviesado, mesmo sabendo que ele não podia ver sentindo meu rosto esquentar.

Procurei a sua mão e voltamos a caminhar, com cada vez mais cuidado e com o dobro da atenção. A impressão que eu tinha era que estávamos andando no nada, como se estivéssemos preso na escuridão e por mais que andássemos, continuávamos no mesmo lugar.

Era como estar preso no inconsciente mesmo estando acordado.

Apertei mais a mão de Killian, tendo a impressão de estar sendo vigiada e me sentindo agoniada com o fato de não enxergar. Eu estava vulnerável sem minha visão.

Fraca.

–Swan se acalme. – Jones pediu, parando.

–Eu estou calma.

–Estou ouvindo você morder todo o interior de sua boca, sem falar que está esmagando meus dedos, sua respiração está alta demais. E está exalando medo.

–Como sabe disso tudo?

–Aprendi a não depender apenas da visão. Todos os seus sentidos têm que estar em alerta, caso passe por uma situação como essa. Você está se sentindo vulnerável sem sua visão, sei disso, afinal a senhorita é do tipo “ver para crer”.

Assenti, lembrando que era inútil.

–Apenas confie em mim, amor.

–Eu confio, Jones. Confio em você. – afirmei. – Vou tentar usar os outros sentidos.

Posso jurar que Killian estava abrindo um sorriso enquanto voltava a segurar minha mão. Fechei os olhos, apenas para me concentrar mais, e pelo fato que enquanto estivesse com os olhos fechados eu podia imaginar que estava claro, podia criar um caminho e assim me sentir mais segura enquanto andava.

Mesmo que minha mão esquerda ainda estivesse latejando, estiquei-a tocando e sentindo os troncos úmidos e que na minha cabeça tinham a aparência enegrecida, como se estivessem apodrecidos. Quanto aos sons, não conseguia diferenciar nada de diferente, tudo estava perturbadoramente em silêncio, como se não houvesse vida naquela parte.

Comecei a cantarolar uma música em minha cabeça, para quebrar aquilo.

Não sei por quanto tempo andamos, mas não foi pouco. Fizemos algumas pausas para tomar fôlego e trocar algumas palavras para saber como estávamos nos sentindo, então Killian dava a desculpa de querer ver se eu estava bem, tocando meu rosto, pescoço, braços e mãos, e não adiantava garantir que nada havia acontecido comigo desde a última vez que fizera a inspeção, ele sempre me ignorava.

Minha garganta arranhava e meus lábios ardiam por estarem ressecados e eu com sede. Eu estava louca por água, uma gota que fosse para tentar matar a sede e me dar algum ânimos de continuar. A cada passo, mais vontade eu tinha de me sentar e mandar Jones continuar sem mim, que eu queria descansar, que já estava sem forças.

Se tivesse que definir o momento que percebi que alguma coisa havia mudado eu não saberia dizer. Apenas sei que estávamos quase fazendo outra pausa, elas haviam se tornado mais frequentes, e nós dois já tínhamos chegado ao nosso limite. A sede quase nos vencendo, assim como a fome e a exaustão.

Foi quando os pelos de minha nuca se eriçaram e eu parei bruscamente, virando a cabeça para todos os lados, tentando descobrir qual lado havia me causado aquela sensação. Jones não se atreveu a questionar, embora eu soubesse que ele também estava em alerta, procurando a mesma coisa que eu.

Um leve farfalhar de folhas e todos meus pelos se eriçaram para avisar sobre o perigo que eu sabia que estava perto.

Soltei da mão de Killian, me agachando e começando a tatear o chão, sentindo as folhas em decomposição, não encontrando nada de diferente.

Levantei a cabeça, olhando para frente, quando me deparei com um par de olhos vermelhos, não brilhante, mas opacos, como se estivessem perdendo a cor.

Tentando não “exalar medo”, virei para trás, encontrando outro par de olhos nos encarando, divertidos.

Voltei a ficar de pé, abraçando Jones e ficando na ponta dos pés.

–Os lobos. – sussurrei em seu ouvido. – Eles estão nos espreitando.

Killian não respondeu de imediato, contudo senti seus músculos se tornando rijos ao meu redor.

–Como sabe? – murmurou.

–Vi seus olhos quando me agachei. Estão em posição de ataque, como se estivessem prontos para caçar. – expliquei, me soltando dele.

Jones não disse mais nada, apenas pegou em minha mão e me puxou para a direita, se arriscando a pegar outro caminho, quando ele soltou um grunhindo de dor.

–O que foi Killian? – questionei alarmada.

–Algo entrou no meu pé. Merda isso dói. – reclamou.

–Me dê o colar. E antes que diga não, quero ver se enxergamos onde estamos os lobos já sabem de nós de qualquer maneira.

Killian relutantemente puxou meu colar de seu bolso e a luz vermelha brilhante iluminou seu rosto pálido. Toquei sua bochecha e ele estava gelado, a respiração entrecortada.

Me coloquei de joelhos, iluminando os pés de Jones, apertando os lábios ao encontrar uma folha de ferro perfurando bem o meio de seu pé.

–Você é um homem forte, Jones. Eu já teria morrido se fosse comigo... Estou quase desmaiando agora só de ver para dizer a verdade.

–Já senti dores piores. – garantiu resfolegante.

Segurei na folha, tentando imaginar um jeito que não lhe causasse dor no processo de arrancá-la dali.

Apertei meus olhos e puxei com toda força, tentando ser rápida, sabendo que mesmo que eu ficasse horas imaginando um jeito de tirar, Jones ainda ia sentir uma dor horrível.

E não tínhamos horas.

Killian soltou um berro, seguido de xingamentos que eu nunca tinha ouvido e ouso dizer que alguns em outras línguas.

–Me desculpe, não tinha outro jeito de conseguir tirar. Fique parado que vou amarrar algo para estancar o sangramento.

Usei minha espada para rasgar um pedaço da minha blusa. Estava prestes a mandá-lo me dar seu pé, quando ele tirou o pano da minha mão, parecendo um pouco mais calmo, respirando fundo.

–Pode deixar que eu, faço. Fique de vigia, para caso dos lobos decidirem nos atacar. – me levantei, limpando a mão na calça, sentindo o sangue quente de Killian ainda ali, grudando em minha pele.

–E o que eu poderei fazer?

–Não sei. Você lidou muito bem com uma serpente monstruosa, certamente vai dar um jeito em uns cachorrinhos.

–Tive sua ajuda, Killian. Não fiz nada sozinha. E os lobos são filhos de Fenrir, estão bem longe de serem apenas cachorrinhos.

Jones fez um som de pouco caso com a língua, começando a amarrar o pano em seu pé. Dei uns passos me afastando dele e erguendo o colar para conseguir enxergar.

–Será que você pode parar de resmungar? – questionei, sem me virar para ele. – Ótimo jeito de não chamar atenção.

–Bem, um pedaço de ferro perfurou meu pé. Tenho esse direito.

–E eu amputei meu dedo e passei por uma cauterização, e ambas as coisas ainda estão doendo para caramba, nem por conta disso estou blasfemando.

Killian optou por me ignorar, voltando a cuidar de seu pé. Revirei os olhos, voltando a andar para estudar o lugar, tentando descobrir alguma coisa. Se aquela folha de ferro estava ali, isso queria dizer que estávamos perto da floresta de ferro, e perto do nosso objetivo.

Apenas tínhamos que passar pela floresta de ferro, com os lobos monstruosos que já estavam nos espreitando e vencer o monstro do reflexo para então, encontrarmos a deusa.

Apenas isso.

–Killian você acha... Killian? – me virei para onde o havia deixado, não o encontrando. – Jones, para de graça! – atalhei brava, voltando para procurá-lo.

–Emma!- o ouvi gritando, parecendo distante, mas sua voz não dava indícios que estava machucado.

–Jones! Onde você está? – berrei.

–Swan! — Killian me chamou novamente, sua voz parecendo levemente alterada dessa vez, como se estivesse desesperado.

Comecei a andar novamente, com mais rapidez, quase correndo. Eu devia ter me afastado demais e nem percebi isso, e agora estava perdida ali.

Foi quando uma sombra grande pulou na minha frente e eu ouvi o rosnado raivoso.

“Apenas aquele com o coração cheio de culpa terá coragem de adentrar...” recordei, petrificando no lugar, encarando os olhos sádicos da fera parada bem a minha frente.

–Olá lobinho. – soltei sem pensar, dando passadas trêmulas para trás, soltando um grito agudo quando algo enfiou em meu braço e senti um corte sendo feito de fora a fora em minha bochecha, um rasgo profundo.

–Emma! – a voz de Jones surgiu mais alta, agora totalmente tomada pelo pavor.

Não me preocupei em responder, porque estava agora cara a cara com a fera e seus dentes, seu hálito quente e pútrido batendo em meu rosto.

E nesse momento fiz a coisa mais estúpida que poderia ter cogitado a fazer na hora do desespero.

Virei e corri, me arrependendo disso no segundo que o lobo abocanhou minha perna, me derrubando e começando a me arrastar pelo chão, da floresta, enquanto os galhos e folhas perfuravam meu corpo, me fazendo gritar em agonia e chorar implorando que parasse até minha voz sumir e meu corpo se tornar dormente, sentindo meu próprio sangue molhar minha pele, morno, como gotas de uma chuva de verão no meio da tarde, quando o sol as aquece.

O lobo então parou e soltou minha perna, ou o que deveria ter sobrado dela e começou a me cutucar com o focinho, me fazendo gemer de dor.

–Por favor, por favor, pare. – supliquei em um arquejo, minha visão embaçada por conta das lágrimas. Vi o contorno do animal me estudando, como se estivesse me entendendo. — Se for me matar, apenas faça isso logo.

E apenas para provar que ele estava sim me entendo, o animal fechou dentes em minha barriga, me abocanhando. Senti a pele se furando e meus olhos reviraram minha visão se tornando branca, para pontos escuros surgirem.

O lobo me levantou do chão, me chacoalhando e então segurando minha perna direita, a mesma que ele havia abocanhado, no chão, cravando suas garras, cada vez mais fundo até que ouvi o som de ossos se quebrando.

Ele havia me entendido, mas preferia me torturar, me matando aos poucos. Brincando com sua presa.

Já estava cansada de ficar lutando, estava quase abraçando a escuridão que queria me envolver e me deixar ser levada por ela. Se eu desistisse logo, a dor acabaria em um instante.

Com esse ultimo pensamento, limpei minha mente, deixando que o inconsciente começasse a tomar conta, quando a fera me largou no chão e soltou um ganido insuportável de dor. Escutei alguns sons de luta, rosnado raivosos, com ganidos até que tudo ficou em um completo silêncio, que eu pensei com felicidade, ser a morte.

Mas se eu havia morrido, por que ainda continuava a sentir dor?

–Ah não. Não, não, não. Abra os olhos, Emma. – a voz de Killian implorou. – O que foi que eu lhe fiz? – sussurrou, então senti seu rosto sendo pressionado em meu peito.

Eu ainda estava viva. Ou entre as duas coisas.

Tentei falar, contudo o sangue em minha boca me impediu, e não tinha forças para fazer movimento algum.

Jones me pegou nos braços, com o maior cuidado possível, mas eu estava tão machucada que ma dor a mais não faria diferença porque, era como se não fosse comigo, ou como se eu tivesse deixado o receptáculo machucado demais e agora observava de fora. Eu ainda respirava, mas não estava mais conectada com meu corpo.

Ou pelo menos era essa a impressão que eu tinha.

Sabia que Killian estava machucado, ele mancava e sempre gemia quando pisava no chão, e seus braços estavam tremendo como se me carregar exigisse muita força.

O que na situação que nos encontrávamos era verdade. Ele estava fraco.

Queria dizer para me deixar para trás, continuar sem mim, já que eu não tinha esperança de sair dali viva, não com a quantidade de machucados profundos que eu havia adquirido e o sangue que havia perdido. Tinha certeza que ainda estava com as folhas e galhos de ferro perfurando meu corpo, fora as mordidas do lobo.

Por fim, deixei minha cabeça pender para trás, desistindo de permanecer naquele estado e deixando que Jones se livrasse do peso.

[...]

Eu ouvia gritos, lamúrias, pedidos de socorro, promessas para se tornar uma pessoa melhor, choro, vindo de vozes diferentes. De crianças, homens, mulheres, idosos. Todas falando ao mesmo tempo, umas se sobressaindo mais que as outras. Até que se misturavam em ecos, que tornava o som da agonia ainda mais intenso e aterrorizante.

Gostaria de saber se eu fazia parte daquela confusão ou estava alheia a tudo.

Então fui atingida por uma dor mortal, a dor que nos acostumamos a sentir enquanto vivos, quando nosso corpo ainda pertence a nós e está machucado, sangrando e você sente, sem poder fazer nada para anestesiar a dor, a não ser aceitá-la e comprimir os lábios para sua voz não ser mais uma no rio de lamentos. Esperar que uma hora a dor passe, como tudo uma hora eventualmente vai embora.

Virei à cabeça minimamente para o lado, abrindo os olhos e me surpreendendo por haver luz ali, depois de estar tanto tempo no escuro. Killian estava sentado longe de mim, joelhos erguidos, cabeça abaixada, a mão enfiada nos cabelos.

–Jo... – comecei, mas minha voz falhou. – Jones. – chamei novamente, mas não passava de um sussurro. Tentei me sentar, mas meu corpo parecia mole, como se não existisse mais ossos para me sustentar. Respirei fundo e tentei de novo. – Jones!

Não havia sido muito mais alto que o anterior, mas dessa vez ele foi capaz de ouvir. Killian ergueu a cabeça parecendo surpreso e olhou em minha direção, sua expressão se tornando incrédula.

–Emma. – ele soltou meu nome, se levantando e andando até mim, para se ajoelhar ao meu lado afagando minha bochecha. – Emma. – Jones sorriu parecendo emocionado e se inclinou, depositando um beijo rápido nos meus lábios.

Olhei com curiosidade para ele, fazendo milhões de perguntas e esperando que as identificasse em meu olhar, já que apenas pensar em tentar falar de novo me deixava cansada.

–“Apenas o coração cheio de culpa, terá coragem de nela adentrar...”- citou se sentou, me pegando com cuidado do chão e me ajeitando em seus braços. – Você sumiu em um segundo, então um dos lobos apareceu, foi quando ouvi seu grito vindo da floresta de ferro. Eles a usaram como isca, porque sabiam que eu ficaria evitando a floresta para sempre, eu não iria entrar, porque... Eu tenho o coração cheio de culpa. O animal não me atacou, apenas ficou olhando de mim para a floresta, enquanto seus gritos e pedido de socorro invadiam o ar e chegavam até meus ouvidos. Eu sabia que tinha que ir atrás de você, porque é por minha causa você veio parar nesse lugar. Tudo de ruim que vem acontecendo com você é minha culpa... Então quando fui entrar, o lobo me atacou, mas eu estava tão desesperado que lutei com ele, com tanta raiva... Acredito que não o matei, mas o machuquei o suficiente para que me deixasse passar, mas você havia ficado quieta... Meu Deus. – murmurou, seus olhos percorrendo meu rosto, corpo para então fitar meus olhos. – Eu lhe causei isso, Emma, todos esses machucados que não sei como fechar. Não sei por quanto tempo corri por aquela floresta, não me importando com os machucados causados pelas folhas e galhos, eu precisava encontrá-la. Foi quando ouvi sua suplica para que ele terminasse logo. Nunca mais peça uma coisa dessas, Swan. – atalhou nervoso. – Nunca mais desista dessa forma. Eu... Lutei com ele também, não sei como, mas consegui fazê-lo recuar.

Estiquei os lábios em um sorriso, querendo mostrar que estava tudo bem, mesmo que não estivesse.

–Eu estava muito machucado, ainda estou, não como você, porém é desconfortável os cortes. Peguei-a no colo e vaguei pela floresta, tentando achar a saída. Foram horas e mais horas e não havia como fazer uma pausa para descanso, eu sentia seu sangue escorrendo de seu corpo... Quando você simplesmente amoleceu nos meus braços. Tive certeza que havia morrido e pensei em desistir... Não me olhe assim. – pediu, quando o encarei com reprovação. – Finalmente consegui sair neste lugar, estamos aqui faz dois dias.

Arqueie as sobrancelhas. Eu havia ficado desacordada durante dois dias inteiros?

–Eu queria ter como ajudá-la, Emma... Não sei o que faço agora. – admitiu.

–Continue. – falei tão baixo que mais pareceu um suspiro.

–E deixá-la aqui?

Fechei os olhos, cansada. Tentando reunir forças para ter aquela conversa com ele.

–Ainda estarei quando voltar. – garanti. – Vá atrás do que veio procurar.

Killian negou com a cabeça.

–Vamos continuar juntos, nem que eu tenha que lhe carregar. Descanse mais um pouco, já que perdeu muito sangue. Fiz o melhor que pude para conter os sangramentos. Eu ainda estarei aqui. – prometeu.

Assenti minimamente, aceitando a sugestão dele para que eu dormisse mais um pouco.

Ao menos pretendia fazer isso quando o solo começou a tremer, nos chacoalhando e uma mulher enorme, surgiu, vindo em nossa direção, atravessando a ponte do rio.

Os ecos... Aquele era o rio Gjoll, a ponte era... Provação e aquela, vindo era a giganta, Mordgud, que guardava as portas do reino de Hel.

Nós havíamos conseguido... Ou quase isso.

Agora tínhamos que mostrar que éramos dignos de entrar no mundo da deusa.

–Última etapa. – sussurrei para Killian que encarava a giganta parecendo apavorado. – O monstro do reflexo, para mostrar que somos dignos de entrar.

–Quem são vocês e o que querem? – a giganta falou em um grunhido, mais parecendo um animal tentando falar.

–Estamos aqui para entrar no mundo de Hel. – Jones informou, me apertando um pouco forte demais. – Estamos atrás da cabeça que contém a resposta para a maior dúvida em si.

Mordgud nos avaliou por longos instantes e diferente de Killian eu estava calma. Nós não tínhamos que temer ela, a giganta apenas estava cumprindo ordens, deveríamos ficar nervosos com o que teríamos que fazer para vencer o monstro do reflexo.

Ela fixou seus olhos em mim, por mais tempo que o necessário e deu um passo para trás.

–Muito bem, mas primeiro precisam provar que são dignos para isso.

–O que teremos que fazer? – instigou Jones.

–Solte-a. – ordenou. – Coloque uma grande distancia entre vocês. Não questione, apenas faça. – falou com severidade, não dando chances para Killian interrompê-la.

–Faça isso. Eu vou ficar bem... Nós dois vamos.

Killian suspirou, parecendo contrariado, mas acabou me colocando deitada no chão como eu estava antes e saiu andando lentamente na direção oposta. Eu não fazia à mínima ideia de como iria derrotar alguma coisa no estado que eu estava, sendo que nem conseguia sentar sem ajuda.

–Você está no lugar errado. — Morgmud se virou para mim.

Hesitei por um momento.

–Bem... Diga onde eu deveria ficar.

Ela me olhou com curiosidade e balançou a cabeça.

–Esteja preparada... E tenha boa sorte. — desejou com seu vozeirão débil e saiu andando em direção de onde havia vindo.

Me forcei a erguer o tronco para poder observar a cena que iria se seguir. Jones a uns dez metros de distância de mim me fitava de um jeito estranho... Morgmud parou no meio da ponte e bateu as mãos com força algumas vezes, parecendo concentrada.

Então as águas do rio se levantaram, invadindo onde eu estava e enquanto eu fechava os olhos esperando o impacto que iria acontecer, os ecos e lamúrias se tornaram mais ensurdecedores.

–Olha só para você... Tão patética toda destruída desse jeito e por causa de um homem. – uma voz sarcástica falou comigo com desdém.

Abri os olhos encontrando uma parede espessa criada pela água do rio, onde luzes nadavam com rapidez, emitindo os sons do sofrimento que eu tanto ouvia.

Do outro lado Killian estava de pé, encarando... Ele mesmo?

–Vou confessar que esperava que pelo menos nesse momento você deixasse de ser tão tola. – olhei para uma versão de mim, que parecia forte e destemida.

–Sim, sim. Eu sei. Você o ama... Mas sinceramente? Acredita que seja recíproco em algum momento? Sabe o que eu vejo? Você destruída, largada assim que ele conseguir o que quer. Ninguém quer uma mercadoria usada e é isso que você irá nos tornar. Uma vagabunda.

Fechei os olhos tentando ignorar minhas palavras.

–Não tem nada a dizer? Vamos, estou esperando uma reação. Não quero que seja tão fácil de te vencer assim... Se bem que não poderia esperar nada diferente. Você é fraca e é horrível ter que conviver com você todos os dias e não poder tomar o controle.

Continuei a ignorar, para o meu próprio bem.

–Sabe… — continuou, andando até mim e se agachando. — Não estou sendo completamente justa, você tem feito coisas horríveis de fato.

–O que eu tenho feito além de tentar ajudar os outros? — indaguei estupefata.

–Uma reação. Bom. — ela agarrou meu pescoço me colocando sentada. — Como se sente sendo responsável por tantas mortes? Vamos. Eu sou você, sei que lá no fundo você sabe que é a culpada. Eu vejo tudo o que se passa em sua mente. Quanto tempo até você matar alguém por prazer… Como seu amado capitão Jones?

–Eu nunca faria isso.

–É claro que não. — ela me empurrou com força de volta ao chão. — Bem eu faria… Então por que não poupamos nós duas e acabamos logo com isso?

–Eu não vou me render a você. Eu sei quem eu sou e nunca iria fazer isso.

Ela me olhou com pena, me rodeando, parecendo irritada.

–Certo… Oh, veja! Seu capitão está sendo mais cooperativo com sua outra metade. — comentou olhando através da parede de água. Segui seu olhar e vi Jones parecendo discutir com o outro ele. — Sem dúvida o trabalho dele está sendo mais fácil que o meu. Você foi criada para ser boa e virar o rosto sempre que a maldade está a lhe tentar, ele não. Ele já tem aquilo e aceita à maldade dentro dele… Falando em tentação… — ela se virou para mim novamente, um sorriso malicioso nos lábios, se sentando no chão. — Vamos comentar sobre seus sonhos com o capitão ali.

Senti meu rosto esquentando de vergonha.

–Não há nada para ser dito sobre esse assunto. Nem mesmo comigo mesma.- decretei a vendo piscar, como se fosse inocente. — Qual o objetivo disso tudo?

–Não sei. Lhe mostrar que não é tão boa assim… Sabe o que me lembrei agora? Como você meio que esqueceu nossa mãe nesse tempo. Isso é horrível da sua parte, aceitar esse tipo de falsa felicidade que está vivendo com ele, e esquecer seu verdadeiro objetivo.

–Eu não esqueci. Estou atrás de respostas… Apenas não estou me prendendo à só a isso. Estou pela primeira vez vivendo — falei, me forçando a sentar, cansada de ter aquela conversa de um jeito tão vergonhoso como aquele.

–Emma, está se referindo a Ilha dos Mouros? Aquilo não foi nada comparado ao que você pode fazer... Maldito Baelfire quando decidiu nos tirar da água.

–Fique quieta.

Ela abriu a boca se fingindo de surpresa.

–Tudo bem... — cantarolou, voltando a caminhar ao meu redor. — Quanto tempo até você ir parar na cama dele? Última pergunta se prometer ser sincera.

–Eu não vou parar na cama de ninguém.

–Resposta errada. — soltou um assobio. — Estou cansada de conversar, você é entediante.

–Pelo menos uma coisa que podemos concordar. — atalhei com cinismo.

Ela voltou a olhar para o outro lado como se estivesse triste. Forcei meu corpo para cima, para poder ver a mesma coisa que a outra eu podia ver e não poderia ter ficado mais horrorizada com a cena.

Killian, não o outro, aquele que eu conhecia ou pelo menos achava que sim, socava com raiva sua outra parte. Ele parecia desvairado ao mesmo tempo em que parecia sentir prazer ao descer o punho, repetidas vezes na face do outro.

–Você está vendo? — indagou com a voz doce. — Eu queria que você fosse mais como ele. Seu capitão já é a pior parte dele mesmo e não pode suportar outra… Ele é um monstro.

–Ele é um homem bom. — discordei.

Ela me olhou descrente e revirou os olhos, puxando a espada que carregava na cintura.

–O que ele precisa fazer para que pare de defender ele? Ele está mentindo para nós duas, pelo amor de tudo! E você continua como um cachorrinho indefeso, acatando as ordens dele e suas palavras. Voltando balançando o rabinho e a língua de fora, se esquecendo de tudo o que ele já lhe fez até agora. Talvez quando ele estiver a forçando na cama, e depois a tirar um filho, você pare de vê-lo como um homem bom.

Pisquei, me sentindo desconfortável em como suas últimas palavras tomaram um rumo mais pesado.

E sentindo uma dor em meu peito insuportável.

–Não irá retrucar? Não importa… Estou determinada a tomar posse disso antes que seu capitão mate a outra parte dele. Não irei deixá-la sair daqui se eu não tiver o controle sobre sua mente, já que conversas não resolvem… Talvez uma luta sim. Mas é claro que você pode evitar isso se me derrotar. – jogou uma espada aos meus pés.

Me abaixei pegando a espada, tombando para frente por conta da minha perna direita, tendo que usar as duas mãos para segurá-la por ser pesada demais. Meu Deus como eu ainda estava conseguindo fazer qualquer movimento?

Estudei a outra eu, de pé, balançando a espada casualmente, enquanto esperava com uma expressão de desdém no rosto. Agora seria um bom momento para atacá-la, ela estava distraída.

Avancei para ela, erguendo a espada pronta para acertá-la no braço, apenas para machucar, não matar, mas acabou que a outra eu era mais rápida e ágil, bloqueando assim o golpe, me derrubando de cara no chão, o rasgo em minha bochecha latejando.

Como se já não estivesse caindo sozinha.

–Faça melhor que isso. – pediu, me chutando para que eu virasse para lhe encarar, com a ponta de sua espada apontada para o meu pescoço, me dando uma piscadela. – Não seja mole só porque está um pouco machucada e suas ataduras estão abrindo, e provavelmente você tem muitos ossos quebrados... Me diga, se eu fizer isso. – ela pisou em minha perna, me fazendo gritar. – Sim, dói não é mesmo? Talvez eu continue fazendo e termine o trabalho que o lobo não fez e quando tiver acabado com você existirá apenas eu.

Mexi a boca desesperada, tentando alcançar seu pé para tirá-lo de minha perna.

–Desculpe, não estou conseguindo entender. – falou com ironia, fincando a espada em minha coxa.

Respirei fundo, fechando os olhos, mordendo minha língua para não soltar outro grito, tateando o chão, até sentir minha espada, aquela que eu havia ganho de Killian e que eu conseguia erguer.

Sem pensar muito a levei de encontro à panturrilha de minha pior parte, que gritou xingando, ao cair sentada, para então começar a rir.

–Muito bem. Agora venha e termine o que começou. Mostre do que é capaz. – incitou retirando a espada e a jogando para mim. – Mostre que não é uma patética garota, burra e que não precisa de mim para se defender.

–Eu não preciso de você para me defender. – afirmei, segurando em minha perna a sentindo mole. – Sei me defender muito bem desse jeito. Sou capaz de me proteger.

–Então venha e me mostre. – desafiou.

Me arrastei até ela, puxando minha perna junto, pronta para enfiar a espada nela e acabar com aquilo de uma vez por todas.

Até que olhei em seus olhos e percebi que era isso que ela queria. Minha outra parte estava ansiando pelo o momento que eu me tornasse ela, porque quando a matasse, seria exatamente isso que iria acontecer.

–Eu não irei fazer isso. — rosnei a encarando. — Eu sei o que está tentando fazer. Está tentando me deixar irritada para que eu reaja e a ataque, dessa forma eu me transformo em você. Você não quer tomar posse, quer mostrar que isso já está dentro de mim. Se eu derrotá-la eu me torno a pior parte de mim. Se lhe derrotar você irá vencer. Você não perde, eu sim. Mas se eu deixá-la ganhar a luta, eu continuo eu mesma. — concluí largando a espada no chão e me virando para olhar Killian.

O encontrei com a espada apontada para o peito do outro ele, o fazendo encaixar o gancho em seu suporte, um sorriso de divertimento em seu rosto, enquanto observava o outro indefeso, acatando suas ordens.

Então lentamente eu o vi enfiar a espada, perfurando o corpo do outro ele, que já havia desistido de lutar.

–KILLIAN! — o berrei, não sabendo de onde arranquei força para aquilo. — Jones pare, pare que é exatamente isso que ele quer. Recue enquanto ainda há tempo… — andei em direção à parede de água determinada a atravessá-la e impedir Jones de matar a si mesmo. — Não Killian! — gritei ao ver o gancho sendo enfiado na garganta do outro, espirrando sangue em seu rosto que sorria abertamente, vitorioso e com olhos ensandecidos.

Fui impulsionada para trás, como se uma força me puxasse, uma luz forte e quente explodindo e me cegando.

–Espero que tenha visto quem seu homem bom realmente é. — ouvi minha própria voz, antes de ficar tudo em um absoluto silêncio, a visão de Killian matando a si mesmo e parecendo satisfeito com isso se repetindo em minha mente.

Pisquei algumas vezes para recuperar a visão, gemendo de dor.

Assim que consegui focar, uma mulher, que seria a mais linda que eu já tinha visto na vida, se não fosse pelo fato de que metade dela era uma mulher normal e a outra… Era como um cadáver, em estado avançado de putrefação, estava de pé, me encarando.

Ela usava um vestido longo, uma parte branco e parecendo novo, e o outro apenas trapos, rasgados e encardidos pelo tempo.

Luz e escuridão em uma só.

–Olá princesa. — me cumprimentou com um sorriso doce.

Me sentei para então ficar de pé, me sentindo atordoada.

–Deusa. — murmurei atônita, fazendo uma mesura, para então olhá-la de novo. -Hel.

Notas finais
Foi isso gente, espero que tenha gostado. Um agradecimento mais que especial para minha querida e amada amiga Gabriela, por estar me ajudando com o lance da mitologia nórdica. Obrigada por tirar minhas dúvidas, aturar minhas neuras, explicar sobre o assunto e pelo cházinho da tarde ao som de Blank Space enquanto lê os capítulos que te mando para saber sua opinião. E me desculpe por ter contado o fim da história, foi necessário para que eu conseguisse concluir a trama, fico feliz que tenha gostado. Percebi que não coloquei uma coisa que queria nas notas passadas sobre o colar da Emma,então irei deixar aqui, se caso se interessarem: O colar Brisingamen (o signficado da palavra Brisingamen é flamejante, brilhante) pertence a deusa Freyja, deusa do amor. Existe o mito de que Loki o roubou (não vou contar aqui, porque vai ficar muito grande, mas é uma das minhas preferidas.) É considerado o símbolo dos poderes de fertilidade, sexualidade e magia da deusa.O colar portanto representa o poder de manifestação de Freyja, que ultrapassa o nível meramente sexual, ele abra as portas mútuas para despertar do amor e florescimento da abundancia. Freyja era regente da paixão, seja amorosa, seja pela plena realização na vida e ensina como ter coragem, força e fé para alcançar objetivos e desfrutar o prazer. A notas vão ficar só um pouquinho grandes, mas não é necessário que leiam essa parte: sobre a falta de capítulo na semana passada, eu tinha um prova muito importante para fazer e era o fim de semana do meu aniversário, por conta de umas coisas chatas que aconteceram comigo no ano anterior, quis guardar a semana para mim e minha família(principalmente minha mãe que ficou comigo o tempo todo). Peço que me perdoem, não costumo deixar algo pessoal me atrapalhar desse jeito. Acho que foi isso, espero que tenham gostado do capítulo, se ficaram com dúvida em alguma coisa, por favor, não hesitem em questionar. Muito obrigada por lerem. Beijos.