Ochako estava exausta. Havia acabado de chegar do treino, quando foi interceptada por Mina. A garota estava um pouco relutante com o andamento de seu relacionamento com Kirishima — os dois eram muito amigos e estavam sempre juntos, mas ela não tinha certeza se ele a via da mesma maneira que ela o via. A morena passou um bom tempo no quarto da amiga ouvindo suas inseguranças, sem saber ao certo como lidar com aquilo. Estava sentindo falta de Momo, ela era sempre cabeça no lugar e saberia o que fazer... Mas logo a alienígena chegou à conclusão sozinha de que deveria dar mais sinais ao amigo de quais eram suas intenções.

A morena suspirou aliviada quando saiu do quarto da amiga e finalmente pisou de volta no seu. Tomou um banho relaxante, colocou um pijama confortável e se jogou na cama. Havia sido estranho o treino de hoje. Uraraka tinha certeza de que Bakugou estava ainda mais na defensiva e determinado a não deixá-la o tocar, mas lógico que não conseguiu arrancar nada dele. Riu sozinha ao lembrar o escândalo que ele fez quando ela perguntou se estava tudo bem.

Precisava admitir para si mesma: Bakugou tinha as reações mais engraçadas — e claro que o seu grupo de amigos também sabia disso e se aproveitavam. Uraraka sentia-se mais leve quando estava com todos eles. Havia passado a tarde do dia anterior com o grupo e voltou para o quarto com as bochechas doendo de tanto rir, com certeza Kaminari era profissional em tirar Bakugou do sério e causar risadas nos outros.

Ligou o celular na tomada e conferiu se o alarme estava configurado corretamente, pois havia combinado de ir correr com Bakugou na manhã seguinte. Não demorou muito e pegou um sono pesado, recheado de sonhos doces onde conseguia uma declaração de Midoriya.

Acordou com o despertador, o xingando mentalmente por terminar seu sonho bem na parte em que Deku a beijaria. Saiu resmungando pelo quarto enquanto se trocava e fazia sua higiene matinal, chegando ainda um pouco emburrada na sala comum, mas abriu um sorriso ao ver Kirishima junto com Bakugou.

— Bom dia!

— E aí, Uraraka! Vou correr com vocês hoje, se não se importa — Kirishima comentou.

Bakugou resumiu a soltar um resmungo, que a morena já compreendia ser o cumprimento dele.

— Claro que não! — ela respondeu feliz. Gostava da companhia do novo amigo. Ele era fácil de conviver e conversar.

— Vamos logo. — O loiro explosivo saiu, sendo seguido pelos outros dois.

O trio correu lado a lado todo o percurso: foram até o ginásio, deram as cinco voltas de sempre e agora estavam voltando aos dormitórios. Uraraka e Kirishima conversavam o tempo todo, o que estava era fodidamente irritante, na opinião de Bakugou, e tudo que ele menos precisava era já perder a paciência logo cedo. Acelerou um pouco o passo, na tentativa de deixar os dois pra trás.

A morena percebeu o garoto tentando deixá-los e acelerou o passo também. Não sabia o que acontecia consigo, mas seu lado competitivo aflorava muito mais com a presença do loiro explosivo. Bakugou viu de rabo de olho que a garota estava emparelhando ao seu lado e acelerou. Resultado? Uraraka inflou as bochechas com raiva e ativou sua individualidade, o alcançando e passando com facilidade. Virou o rosto e lhe mostrou a língua, numa provocação infantil que foi recebida como a maior ofensa de todas. Bakugou esticou os braços para trás e começou a soltar explosões, aumentando sua velocidade também.

— Ei, vocês dois! Não era suposto ser uma caminhada de aquecimento pré-aula? EI! — Kirishima gritava os chamando, mas os dois estavam muito absortos em sua própria corrida particular. O ruivo bufou e se limitou a continuar correndo de volta aos dormitórios. Quando chegou, os dois discutiam na sala, o que fez o ruivo revirar os olhos.

— Não seja idiota, cara redonda estúpida! — o loiro falava alto. — É óbvio que eu ganhei!

— Não foi! — ela retrucou com uma cara de brava que fazia Kirishima ter que segurar a risada. — Eu cheguei primeiro!

— Fui eu, caralho!

— Não foi!

— Não podemos declarar empate? — Kirishima decidiu intervir naquela discussão infantil.

— Não! — Os dois se viraram para ele, gritando ao mesmo tempo.

— Desculpa aí. — Ele levantou as mãos em rendição.

— Quer saber? — a morena disse, começando a se exaltar. — Vamos ver no treino de hoje à noite! Vamos apostar uma corrida e ver quem vai vencer hoje!

— Por mim tá ótimo, Bochechuda — Bakugou respondeu com um sorriso maquiavélico. — É bem óbvio quem vai ganhar mesmo.

— Eu! — Ela sorriu.

— Lógico que não, garota estúpida!

— Vocês sabem que vamos acabar nos atrasando se continuarem assim, né? — Kirishima, que havia sentado no sofá pra assistir à discussão, se pronunciou com a mão levantada.

Para sua sorte, sabia que Bakugou não era dos maiores exemplos de comportamento, mas o garoto era rígido com a escola e os horários. O loiro bufou alto, resmungando um “tá” e indo em direção à ala masculina com o amigo. Uraraka só pôde bufar também e sair batendo o pé para o seu quarto. Quem esse loiro explosivo pensava que era? Tava na cara quem era o vencedor: ela!

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O treino da noite foi adiado, afinal ambos precisavam terminar a atividade de inglês que deveria ser entregue no dia seguinte. Decidiram fazê-la primeiro e depois sairiam para treinar, se não estivesse muito próximo do toque de recolher, claro.

Uraraka estava reunida com seu grupo na sala comum. Estava feliz de estar fazendo com o seu squad: Midoriya, Iida, Tsuyu e Todoroki. A maior parte da atividade eram questões de múltipla escolha, então o grupo achou que seria melhor cada um responder o seu e depois irem discutindo as respostas, para chegarem à resposta final.

— Estamos quase acabando, kero. Sobre a questão 8 agora.

— Eu coloquei a alternativa c — Iida se pronunciou, dando uma breve explicação de porquê achava ser aquela a alternativa correta.

— Eu também — o esverdeado comentou sorrindo. Se havia colocado a mesma alternativa do amigo de óculos, com certeza havia acertado.

— Eu coloquei b — a morena murmurou, apagando a resposta errada. — Cacete...

Os quatro amigos a olharam instantaneamente. Uraraka era uma das pessoas mais doces que conheciam, nunca a ouviram pronunciar um palavrão antes. A morena percebeu que a atenção estava toda em si e levantou a cabeça.

— Que foi?

— Está tudo bem, Uraraka-san? — perguntou o amigo de cabelos verdes.

— Sim, por quê?

— Você acaba de soltar um “cacete”. — Todoroki a olhou com a sobrancelha arqueada.

— Oh, me desculpem! — Arregalou os olhos. — Desculpem mesmo, eu nem percebi.

— Não é adequado falar dessa maneira — o amigo disse, ajeitando os óculos na face. — Mas não se preocupe, Uraraka-san. Temos certeza de que foi um pequeno deslize causado pelo cansaço. Todos esses treinos com o Bakugou-san são bem rigorosos.

— Ah, são mesmo. Mas estou conseguindo me acostumar.

Os quatro se entreolharam, o que não passou despercebido pela morena. Todoroki fez um sinal com os olhos para Midoriya, como se estivesse apontando para ela. Deku só arregalou os olhos e negou discretamente com a cabeça, direcionando seu olhar à Iida.

— Tá... tudo bem? — a morena perguntou arqueando uma sobrancelha.

— Nós... só estamos preocupados com você, Uraraka-san. — Iida começou. Parecia estar nervoso com o assunto que estava prestes a trazer à tona. — Nós percebemos como está nas aulas.

A morena tombou a cabeça para o lado confusa. Do que eles estavam falando e por que começaram esse assunto aleatório do nada?

— Percebemos como tem estado mais cansada e, por vezes, com alguns hematomas — ele prosseguiu.

— Achamos que poderia ter pedido ajuda para nós, se achava que precisava, kero.

— Nós tomaríamos cuidado para não te deixar desse jeito e te atrapalhar — Deku continuou. — Kacchan não sabe quando parar e pegar leve.

— Não se preocupem. — Ela sorriu gentil, apesar de estar estranhando o rumo dessa conversa. — Eu agradeço a consideração que vocês têm por mim, mas acho que estou indo muito bem nesses treinamentos.

— Não estamos duvidando de você, Uraraka-san. — O garoto de óculos se manifestou novamente. — Só estamos preocupados com o que pode te acontecer.

— Se não se importam, gostaria de focar e terminar logo essa atividade. — Uraraka estava muito incomodada, mas tentava não deixar transparecer. — Finalizamos a questão 8 com a alternativa c. Questão 9 agora...

— Nós só não queremos que você se machuque, Uraraka-chan... — Deku insistiu no assunto.

As palavras de Bakugou no primeiro dia que treinaram juntos voltaram como um estalo em sua cabeça.

“- Não, Bakugou-kun. O Deku só...

— Te subestima – o garoto a completou, arqueando a sobrancelha.”

Abaixou o olhar de volta para a mesa. Os amigos acompanhavam as reações dela, esperando que ela pudesse compreender a preocupação deles.

— Se não estão duvidando de mim... Estão fazendo o quê, então?

— Nos preocupando com você — o meio a meio se pronunciou pela primeira vez. — Sabemos como Bakugou é mal-educado, explosivo e sem limites. Como um animal não domesticado.

— E vocês só assumem que ele é sempre assim e que eu não dou conta disso? — Sua expressão estava irritada. Confiava em seus amigos, mas achava que eles estavam passando dos limites de cuidado.

— Sim — Todoroki respondeu, objetivo e sincero como sempre.

Uraraka os olhou perplexa. Iida, Midoriya e Tsuyu estavam tensos, já que Todoroki havia sido muito mais direto do que eles gostariam, o que claramente não causou uma boa reação na amiga.

— Uraraka-san, por favor, entenda...

— Eu estou tentando, Iida — ela respondeu ríspida. Estava impressionando até a si mesma com essas reações. — Mas tudo que consigo ver são amigos que não confiam em minha capacidade.

Kero, não é isso, Ochako-chan.

— Ah, não? — Seu tom de voz aumentou levemente, o que chamou a atenção de alguns colegas que estavam no sofá. A morena nunca era de falar alto e causar alvoroço, mas estava prestes a começar um e causou estranheza nos que estavam por ali. — Então me diga, Tsuyu-chan, o que seria? Porque tudo que eu vejo são aqueles que eu confio mais que tudo me dizendo que eu não tenho a capacidade de me virar sozinha!

— Ahn... Uraraka-san... — o garoto de cabelos verdes sussurrou apreensivo. — Você está falando alto.

— Eu posso gritar, se eu quiser. — E assim a garota o fez, batendo os dois punhos fechados na mesa. — Querem saber? Eu vou pro meu treino. Por favor, não se levantem — disse recolhendo seus pertences e se levantando. — Podem continuar sentados. E não se preocupem, vou tentar não morrer.

A morena saiu batendo os pés com raiva, mas voltou alguns segundos depois. Os amigos acharam que ela havia se acalmado e percebido que estava tendo uma reação que eles consideravam exagerada, mas se enganaram.

— E tá aqui a folha com as minhas respostas, se quiserem usar. Não sei se confiariam que eu consegui responder certo. — Ela jogou a folha de qualquer jeito na mesa, voltando a marchar em direção ao seu quarto para guardar suas coisas.

Uraraka jogou as coisas de qualquer jeito em sua escrivaninha e mandou mensagem para Bakugou, avisando que já estava livre para o treino.

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— Achei que tinha dito que ia me vencer hoje. — Ele sorriu presunçoso, assim que chegaram ao ginásio.

Os dois haviam mesmo apostado a corrida e Bakugou acabou vencendo. Uraraka havia ativado sua individualidade em si mesma, mas havia ficado muito enjoada facilmente, então achou melhorar desativar. A garota mal conseguia ouvir o que ele dizia, só resmungou alguma coisa inaudível e continuou andando pra dentro do ginásio.

Não fazia muito tempo que os dois conviviam, mas o loiro não era burro, ele percebeu que havia algo de estranho com a garota, porém preferiu ficar calado. Ele não fazia o tipo que demonstrava preocupação, então se limitou a apenas seguí-la.

A primeira luta havia começado com uma certa vantagem para Uraraka, conseguindo acertar um chute nas costelas de seu oponente, que quase caiu. Ela tentou lhe tocar e o fazer flutuar, mas ele era rápido e desviou, devolvendo o chute. A morena ativou sua individualidade em si mesma para ganhar agilidade e voltou com tudo para cima dele. Bakugou usou sua individualidade para se lançar no ar e passar por cima da garota, pronto para lhe dar um soco certeiro. Uraraka conseguiu desviar do soco e estava prestes a lhe puxar pelo braço, mas sentiu seu estômago embrulhar ainda mais. Saiu correndo em direção ao banheiro sem nem olhar para trás, colocando toda sua janta pra fora.

Bakugou já estava se vendo flutuar por conta de um descuido, mas se assustou ao ver que a garota saiu. Arqueou uma sobrancelha e sentou-se no chão, esperando que ela voltasse. A morena estava prestes a ganhar essa luta, por que raios havia saído correndo assim do nada?

Ela voltou cerca de dez minutos depois. Estava com o rosto mais pálido que o normal e ele percebeu um leve tremor em suas mãos. Uraraka fechou os punhos com força tentando controlar a tremedeira que havia se instalado em si. Fechou os olhos e os abriu, respirando fundo e tentando focar no rosto de Bakugou.

— Podemos voltar — ela disse sem emoção.

O loiro estranhou e continuou sentado. Não era assim que ela agia normalmente. Onde estava aquele sorriso estúpido? Aquela determinação fodida que ela claramente tentava imitar do nerd maldito? Mas claro que a dela era melhor, porque ela nem se dava conta, mas conseguia ser muito forte e determinada por si só.

Uraraka franziu o cenho ao perceber que Bakugou continuava sentado e a encarando com uma expressão indecifrável. Era preocupação? Não, ele não sentia isso por ela. Receio? Não, não parecia muito. Curiosidade? É, nunca o viu muito curioso, poderia ser...

— Que porra foi essa? — ele perguntou autoritário.

A garota se assustou com a pergunta repentina. Abaixou os olhos e coçou a nuca, envergonhada.

— Eu estou mais enjoada que o normal hoje. — Ela tentou sorrir. — Acho que foi porque... Bom, eu descobri que você estava certo.

— Passou mal porque eu estava certo? — Ele arqueou a sobrancelha, confuso com a situação. — Deve passar mal todos os dias, então — concluiu, rindo sarcástico.

— Não. — Ela revirou os olhos e sentou-se ao lado dele, abraçando as próprias pernas. — Sobre o Deku. Ele me subestima. Ele e todos os meus... amigos. — Ela respirou fundo e contou ao garoto loiro o que havia acontecido.

Bakugou não era seu melhor amigo nem nada, mas ele a ouviu como se fossem amigos há anos. E ela se sentia muito confortável de sentar assim com o garoto e conversar, foi até estranha a maneira que ele a ouviu sem reclamar nem a interromper. A morena se sentiu aliviada quando conseguiu botar pra fora tudo o que sentia.

— E... Foi isso. — Ela sorriu sem ânimo.

— Você ainda os considera amigos?

— Pois não?

— Eles são uns cuzões que não te percebem como você é, isso sim. — Ele revirou os olhos. — Eu sempre soube que o Deku e o meio a meio eram dois babacas, mas me impressionei com a estupidez do presida e da menina sapo.

— Eu... — A garota não conseguia nem formular uma frase direito. Ele havia a elogiado? Soou como um elogio, mas era tudo tão confuso com Bakugou.

— Convenhamos que você não é nenhuma princesa indefesa. Você fez aquela porra de buraco ali com o Kirishima sábado! — Ele apontou para um ponto remendado do chão.

— Bom, sim...

— E se não tivesse saído correndo pra botar as tripas pra fora, teria feito o mesmo comigo, não é? — ele a interrompeu.

— Ah, bem... Sim...

— Então acho que está precisando de amigos melhores. — Ele assentiu com a cabeça, reafirmando o que falava e a interrompendo de novo. — Até eu que não sou um exemplo de amizade tenho um grupo melhor que o teu!

— Eu não...

— É o seguinte, Cara Redonda... — A garota estava perdida de tanto que era interrompida. — Você pode remoer isso tudo aí e ficar vomitando a cada vez que usa sua individualidade. Ou você pode deixar isso de lado e perceber que pode mais.

— Obrigada. — Ela sorriu, dessa vez como sempre, com aquela gentileza que só ela tinha.

O garoto deu de ombros e se levantou, sendo seguido pela garota. Voltaram andando lado a lado para o dormitório. Bakugou se perguntava de onde tinha vindo tudo aquilo que havia soltado e se xingava mentalmente. Uraraka tagarelava sobre um assunto aleatório, claramente já estava melhorando.

Os dois estavam muito ocupados e não perceberam uma sombra se movendo nos arbustos ali perto. A pessoa sorriu diabolicamente, pensando em como seria divertido ter um alvo novo para o plano.