Training days

6 Eu te ensino direito


Ochako perdeu pelo que parecia ser a milésima vez naquela segunda-feira. Bufou alto e se levantou, batendo as mãos na roupa. Estava ficando muito irritada com o treino desse dia. Já perdeu as contas de quantas vezes Bakugou havia soltado explosões que a fizeram literalmente voar pra trás.

— E aí, cara redonda, vem ou não?

— Tô indo — ela resmungou.

Correu em direção ao garoto, que já estava em posição de ataque. Uraraka conseguiu desviar de um chute, mas antes que pudesse pegar na perna dele, Bakugou já havia a abaixado e vinha com um soco de direita. Conseguiu desviar dele com perfeição também e se abaixou, acertando uma cotovelada nas costelas do loiro.

A morena comemorou internamente por alguns segundos, o suficiente para Bakugou dar alguns passos para trás, para longe dela. Ele sorriu macabramente e voltou com tudo para cima da garota. Acertou uma explosão no chão do lado direito, o que a distraiu, e desferiu um soco na barriga da garota. Ochako caiu no chão novamente, ainda mais irritada que antes. Rosnou alto e se levantou rapidamente. Correu de volta para a luta e ativou sua individualidade em si mesma.

— Morra! — a morena gritou, ficando em posição de chute e liberando, o que a fez cair com força no chão, onde segundos antes Bakugou estava.

Mas o garoto não veio na direção dela. Ficou parado a observando, um olhar irritadiço.

— Tá tirando uma comigo, bochechuda maldita?

— Quê? — A garota abaixou a guarda, o olhando serena. — Não. Por que estaria?

— Tá me imitando? — Ele se aproximou ameaçador.

— Não, não é isso! Juro que não! — Ela riu sem graça. — Acho que é a convivência me afetando.

Bakugou estreitou os olhos para ela. Não via motivos para que ela estivesse mentindo, mas achava estranho ela estar pegando sua mania. Kirishima estava sempre com ele, mas não falava como ele. Nem nenhum dos outros do grupo. A não ser quando o imitavam para o deixar irritado — e talvez por isso ele tenha achado que ela havia feito no intuito de o irritar.

— Eu só... Não sei, acho que estava tentando ser um pouco como você... — Ela abaixou a cabeça. Não estava com vergonha, mas se sentia um pouco idiota depois de expressar em voz alta o que estava pensando.

— Comigo? — Ele não acreditava no que ouvia.

— Você sabe... Forte, destemido e audacioso.

Agora ele havia ouvido errado. Ela estava brincando com a cara dele, agora estava mesmo. Olhou atentamente para o rosto da garota, mas não viu traços de que ela estava mentindo – de novo. Ela parecia chateada com alguma coisa, isso sim. Bufou alto e revirou os olhos. Pior do que aceitar treinar com ela, seria o que estava prestes a falar, mas sabia que não haveria arrependimentos, pois tinha noção que Uraraka era uma boa heroína e tinha potencial.

— Tá bom, Cara de Lua, eu te ensino direito essa porra.

— Me ensinar o quê? — Ela levantou a cabeça abruptamente, o olhando confusa.

— Cozinhar — ele respondeu sarcástico. — O que você acha, idiota? A lutar!

— Mas achei que já estivéssemos...

— Não, vamos fazer direito. — Bakugou foi para o lado da garota, se colocando em posição de ataque. — Os seus braços estão errados, faz direito essa merda. Me copia.

O loiro foi fazendo os movimentos, com uma Ochako atenta o copiando quase perfeitamente. Tinha que admitir que a garota era mesmo uma boa aluna e conseguia o acompanhar. Era muito diferente do que ter que lidar com Kirishima ou Kaminari, pois ela ouvia atentamente ao que ele dizia. Como se ele fosse um maldito professor.

— Não, idiota! — Ele deu um tapa na parte de trás da cabeça dela. — Presta atenção!

— Sim, senhor! — Ela arrumou a posição instantaneamente.

Nessa hora ela descobriu porquê Kirishima obedecia Bakugou tão facilmente, quando os via estudando. E também descobriu o porquê Kirishima continuava com Bakugou mesmo sendo xingado e acertado. Apesar do jeito explosivo e estridente, ele com certeza sabia das coisas. Não era à toa que sempre ficava no top 3 da classe.

— Tá, agora tenta aplicar tudo isso. E faz essa merda direito, eu acabei de te explicar a porra toda! — ele disse, voltando a ficar na frente da garota para lutarem.

— Vou dar o meu melhor! — Ela sorriu determinada e ficou na posição recém-ensinada.

Bakugou desferiu uma série de socos na garota, que desviou de todos. Ela tentou lhe dar uma cotovelada novamente, mas ele foi mais rápido e lhe acertou um chute nas costelas, que a fez cambalear para trás e cair sentada no chão. Ela sorriu e se levantou rápido, indo na direção dele novamente.

Ela havia discretamente tocado algumas pedrinhas que estava no chão, as fazendo flutuar. Jogou as pedrinhas nele, que as explodiu de uma só vez — e Uraraka sorriu ainda mais ao perceber que tudo fluía conforme ela queria. Com a explosão, a morena ativou a individualidade em suas roupas e tênis, ficando mais fácil de se locomover. Se aproximou com uma velocidade acima do normal, aproveitando para lhe dar uma rasteira.

O loiro havia acabado de terminar de explodir o que a morena havia lhe jogado, quando sentiu-se cair. Ficou alguns segundos processando o que havia acontecido, até ouvir um gritinho histérico e ver uma morena saltitando ao redor dele.

— Eu consegui! Eu consegui!

Ele sentou-se e bufou alto, irritado. Havia acabado de lhe ensinar alguns movimentos mais efetivos e ela já estava usando um nele. Maldita Cara Redonda. Um sorriso sinistro tomou conta de sua face quando ela passou ao seu lado e Bakugou esticou a perna, lhe dando uma rasteira também e fazendo a garota cair de cara no chão.

— Idiota — ela murmurou, fazendo beicinho. — Não sabe perder?

— Óbvio que não. — Ele revirou os olhos.

— Ei, Bakugou-kun...

A morena ainda estava deitada de barriga para baixo e apoiou a cabeça nas mãos, balançando as pernas — uma pose bem infantil, se alguém perguntasse ao loiro. Bakugou ainda estava ao lado dela. Ambos estavam cansados e continuaram naquela posição confortável alguns minutos.

— Você sabe cozinhar mesmo?

— Que pergunta maldita é essa?

— É só que você ajudou bastante no acampamento do ano passado. E você falou que ia me ensinar a cozinhar.

— Conhece sarcasmo, Cara Redonda?

— Sim, eu entendi. — Ela revirou os olhos, novamente o imitando sem nem perceber. — Só fiquei curiosa pra saber se sabe mesmo cozinhar.

— Não que isso seja da sua maldita conta... Mas eu sei me virar. — Ele deu de ombros.

— E o que mais você sabe fazer? — Ela o olhava atenta.

— Bateu a cabeça com força quando eu te derrubei?

— Não bati a cabeça — ela rebateu. — Você mesmo disse que eu não sei sobre você.

— E deduziu na sua cabeça desmiolada que isso foi um convite?

— Eu sei que não foi. Mas eu sou curiosa e estou usando isso de desculpa. — Ela sorriu divertida. — Eu te digo alguma coisa sobre mim! Você parece muito afim de querer saber algo!

O loiro arqueou uma sobrancelha e a olhou como se ela fosse louca. Aquela garota com certeza não batia bem da cabeça. Ele abriu a boca para rebater, mas ela foi mais rápida.

— Eu sei que não está. Conhece sarcasmo? — Ela devolveu a pergunta, rindo marota.

— Você é bem petulante. — Ele franziu o cenho. Estava ficando irritado com aquele falatório todo.

— Eu sei. Tá, eu vou ser justa e deixar essa resposta que sabe cozinhar valer uma curiosidade sobre mim.

— Tô super animado. — ele revirou os olhos, sendo sarcástico de novo.

— Deixa eu ver... — ela o ignorou e colocou o dedo no queixo, pensativa. — Ah, já sei! Eu gosto de ler mangás!

O garoto virou-se tão rapidamente que não soube como o pescoço não estralou. Havia realmente se impressionado com a tal informação. A Cara Redonda não tinha cara de que gostava desse tipo de coisa.

— Quais? — ele inquiriu.

— Você também gosta? — ela perguntou sorrindo, percebendo o súbito interesse dele. — Não acho que faça seu estilo... Eu leio shoujo na maior parte do tempo.

— Isso nem conta! Achei que lia histórias de verdade, com muita ação, lutas e sangue.

— Com certeza não faz muito meu tipo. Mas olha só, já descobri qual o seu!

— Vamos voltar logo pra essa merda de dormitório. — Ele levantou sem nem a esperar, fechando a cara.

A morena se levantou e se espreguiçou, correndo para pegar seus pertences e o alcançar.

— Quer apostar uma corrida e perder de novo? — ela perguntou brincalhona.

— Nos seus sonhos, vagabunda — ele rosnou.

Ambos se colocaram em posição e começaram mais uma corrida. Bakugou estava realmente se concentrando para vencer. Não podia abaixar sua guarda e deixá-la vencer de novo.

Uraraka só pôde rir, afinal o garoto havia soltado mais uma informação sobre ele sem nem perceber.