Training days

13 Eu não fico doente


Inferno. Era nisso que ele havia acordado naquela segunda-feira. Já não bastasse toda aquela dor de cabeça do dia anterior, agora sentia seu corpo pegando fogo, ao mesmo tempo que sentia muito frio. Suas pálpebras estavam pesadas, mas precisava levantar e ir pra aula.

Com muito esforço, Bakugou conseguiu sair da cama e ir até o banheiro se arrumar. Levou mais tempo que o de costume, o que já o deixou irritado logo bem cedo. Desceu para a cozinha tentando focar no caminho e não fechar os olhos, mas parecia que não conseguia nem processar corretamente tudo que via. Sentou em uma mesa qualquer, pedindo à todas as entidades religiosas que pudesse ficar sozinho. E aparentemente nenhuma atendeu.

A cozinha estava vazia, coisa que o loiro não havia nem percebido, mas havia duas pessoas na sala, apenas esperando que ele descesse. Uraraka e Kirishima viram quando o loiro saiu do elevador se arrastando, com a feição pior do que estava no dia anterior. E então era hora de colocar o plano em ação.

— Bom dia, Bakugou-kun! — Uma voz animada soou à sua frente e ele nem se deu ao trabalho de levantar a cabeça, só enfiou outra colher de comida na boca.

— O que você quer, Cara Redonda?

— Ver se está melhor. Ontem você parecia mal — ela respondeu, sentando na cadeira. — E pelo jeito, piorou. Sua cara está péssima.

— Vai se foder, veio até aqui ficar me ofendendo? — O loiro levantou a cabeça e tentou soar ofensivo, mas sua voz rouca o impossibilitou. O movimento brusco também o deixou meio tonto, fazendo com que precisasse apoiar a cabeça em uma das mãos, fechando os olhos com força. Essa merda tava irritando já.

— Não estou te ofendendo. Só disse que está com uma cara péssima. Está gripado por causa da chuva, não é?

— Não estou gripado. Eu não fico doente. — Ele emburrou, como uma criança.

— Sei. E eu não fico levantando o dedo mindinho pra evitar que as coisas flutuem.

O garoto nem respondeu, apenas revirou os olhos e voltou a comer. Ou ao menos tentou, porque Uraraka o encarava firmemente enquanto ele comia.

— Caralho, tem mais o que fazer, não?

— Na verdade, não — ela respondeu com um sorriso.

— Pois eu tenho aula. — Ele se levantou, levando sua louça suja para a pia, sendo seguido de perto pela garota. — Cacete, vai começar a me seguir?

— Bom, sim. Eu estou aqui para te impedir de ir pra aula nesse estado.

— Há! — Aquela garota que devia estar doente e alucinando, pra falar umas doideiras dessas. — Quero ver tentar.

— Não seja por isso. —Ela ergueu a mão, o que o fez ir com o corpo para trás por instinto.

Seus movimentos estavam lentos e ela poderia ter facilmente o tocado e o feito flutuar, mas ela ficou com a mão pra cima. E ele não esperava que aquele erguer de mão fosse um código para chamar outro idiota. Sentiu braços duros envolverem seus braços, o impossibilitando de se mexer. A mão de Uraraka abaixou, dessa vez sim o tocando e o fazendo flutuar.

— Me põe no chão! Que porra é essa?

— É pro seu bem, bro — Kirishima respondeu com uma expressão preocupada.

— Eu vou te matar quando descer daqui! — Ele tentava bancar o durão, mas Uraraka e Kirishima viam claramente que ele não estava nem lutando para tentar descer.

Os dois foram em direção à ala masculina, com Uraraka segurando o loiro pelo pulso como se fosse uma bexiga. Bakugou se sentia tonto e um pouco enjoado, mas colocaria a culpa na individualidade da morena.

— É esse aqui — Kirishima disse, abrindo a porta do quarto do loiro quando chegaram.

Uraraka o posicionou em cima da cama e murmurou um liberar, fazendo com que Bakugou caísse. Ele bem tentou levantar rápido e furioso para brigar com os dois, mas só conseguiu levantar se arrastando e quase caindo da cama.

— Bakugou-kun, escute meu pedido de amiga — a morena começou, tentando jogar no emocional. O garoto apenas a observava, esperando que ela terminasse. — Fique aqui e descanse. Tome um remédio, durma bastante... Eu trago a matéria de hoje pra você mais tarde.

— Nem fodendo. Primeiro, não somos amigos.

— Eu achei que “não ser tão mal” pudesse ser considerado como uma amizade. — Ela riu zombeteira e o garoto quis a matar.

— Ah, mas com certeza pode. — Kirishima riu também.

— Vão se foder, os dois! — ele tentou gritar, mas sua voz saiu falhada e sua cabeça doeu. Merda. — Segundo, eu não vou ficar aqui e perder aula.

— Ótimo! — Uraraka respondeu cruzando os braços, percebendo que ele iria começar a andar para sair do quarto. — Então vai pra enfermaria com a Recovery Girl. Ela te cura em dois segundos.

— Não vou pra enfermaria por causa de um gripinha!

— Então admite que está gripado.

Bakugou quis se matar ao ver o sorriso presunçoso da morena. Ele havia caído na dela. Ela jogou um verde e ele caiu. Havia sido uma boa jogada, teria de admitir.

— Que se foda. Eu fico.

— Ótimo. Agora deite e descanse. — A morena começou a empurrar Bakugou de volta para a cama e tentar o cobrir, mas o loiro deu um tapa em sua mão.

— Eu ainda tenho braços, caralho — ele resmungou.

— Eu achei esse remédio no seu banheiro, bro — Kirishima se pronunciou de repente, andando até eles. — Talvez deva tomar.

— Isso depende. — Uraraka pegou a cartela da mão do amigo, a analisando. — Você já tomou?

— Ontem a noite — o loiro respondeu contrariado. Não queria dar o braço a torcer que estava realmente doente desde o dia anterior, mas percebeu que não conseguiria esconder nada desses dois.

— Que horas?

— Caralho, Cara Redonda, tá querendo saber demais!

— Não, não estou. — Ela desviou o olhar da cartela e o olhou. — Só pode tomar a cada oito horas.

— Eu tomei antes de dormir. E eu durmo cedo pra caralho, então só me dá logo essa cartela maldita.

A menina estreitou os olhos na direção dele, como se estivesse decidindo se ele estava falando a verdade ou não. Era sério aquilo? Bakugou ficaria ofendido se fosse realmente isso que ela estivesse pensando.

Uraraka tirou um comprimido e deu na mão do amigo. Olhou ao redor e viu um copo de água na escrivaninha ali perto, o pegando e dando para o garoto.

— Pode tomar agora. — O tom de voz da garota saiu bem mais imperativo do que ele costumava ouvir. E talvez por isso Bakugou tenha simplesmente enfiado o comprido na boca e tomado a água.

— Pronto, agora saiam logo daqui, antes que alguém veja a Bochechuda por aqui e dê merda pra mim também.

— Ninguém vai me ver aqui.

— Bro, já tá todo mundo na aula. A gente ficou pra te impedir só.

— Vocês tão perdendo a merda da matéria que vão me passar?[

— A gente ia pegar com o Kaminari depois. — Kirishima tentou se defender, mas a cara irritada de Bakugou o fez perceber que não foi uma boa defesa.

— Relaxa, Bakugou-kun, a gente pega com o Iida ou a Momo. Agora deita direito, descansa e melhora. Nos vemos de noite!

Os amigos lhe deram um último sorriso gentil e saíram. Apesar da vontade de bater nos dois, que estavam perdendo a matéria que o passariam depois, não pôde deixar de sentir seu coração se aquecer. Tinha bons amigos e isso não poderia negar. Até a Cara Redonda, que havia acabado de chegar no grupo, já o tratava e o considerava como se fossem amigos de longa data.

Virou pro outro lado e se cobriu melhor. Talvez fosse o remédio, mas sentia que estar deitado era o melhor para si nesse momento. Teria que concordar com Uraraka dessa vez, ele realmente estava doente e precisava desse descanso. E teria que concordar novamente com o que havia dito pra ela um tempo atrás: ela realmente não era tão ruim assim. Chegava a pensar que ela seria boa até demais.

E com esses pensamentos, caiu em sono profundo.

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Apesar da bronca, Kirishima e Uraraka acharam que valeu a pena ter perdido a primeira aula. Explicaram ao professor que estavam ajudando Bakugou, que estava doente e não queria ir até a enfermaria, e por isso não receberam nenhuma advertência escrita, apenas um aviso para que não se atrasassem mais.

O resto do dia passou rápido. Uraraka anotava tudo que podia em uma velocidade alucinante. Não poderia perder uma única palavra nas aulas, ou não conseguiria passar direito para Bakugou e ele a mataria. Com certeza a mataria.

O sinal do fim das aulas soou e Uraraka não demorou em enfiar tudo na mochila e sair apressada. Por mais que estivesse se aproximando apenas agora de Bakugou, já o considerava um bom amigo, ainda mais por ele estar sendo bem gentil em a ajudar com os treinos e por todo o apoio que ele deu quando brigou com os amigos.

Ochako não se deu nem ao trabalho de ir trocar de roupa, só correu pra ala masculina antes que alguém chegasse e a visse. Subiu ao quarto andar e procurou pela porta certa. Deu duas batidas leves, mas não obteve resposta.

— Bakugou-kun? — ela chamou e bateu novamente na porta. Sem resposta. Ouviu o elevador apitar e descer. Merda, alguém havia chamado ele no térreo. Teria que entrar logo, antes que alguém a visse ali. — Bakugou-kun, estou entrando! — ela sussurrou desesperada e girou a maçaneta, dando graças a Deus que estava destrancada.

Uraraka entrou e rapidamente fechou a porta atrás de si, a trancando em seguida. Olhou ao redor do quarto e percebeu o motivo da porta estar destrancada: Bakugou dormia um sono profundo em sua cama. A morena se aproximou devagar e o cutucou no braço. O loiro resmungou um palavrão, fazendo a morena rir.

— Bakugou-kun, acorda — ela sussurrou perto dele e o cutucou de novo. — Sou eu, trouxe a matéria pra você.

O garoto abriu os olhos devagar e deu de cara com grandes orbes castanhos o encarando de perto.

— Que porra é essa? — Ele afastou a cabeça rápido, a olhando sem entender nada do que acontecia. O que essa doida tava fazendo ali com a cara quase grudada na dele?

— Desculpa! Eu só estava querendo te acordar. Trouxe sua matéria do dia.

Uraraka se afasta também e vai em direção à escrivaninha, apoiando sua mochila e começando a retirar seus cadernos. Bakugou esfregou a mãos pelo rosto e sentou devagar. A dor de cabeça havia passado, mas ainda se sentia um pouco estranho. Se espreguiçou e saiu da cama, indo até a amiga.

— Eu anotei o máximo de coisas que eu pude das aulas — ela começou a falar quando percebeu que ele havia parado ao seu lado. — Ah, e eu copiei a aula que perdi do caderno do Iida na hora do almoço, então não se preocupe que a fonte é confiável.

— Certo... Valeu.

O garoto fez menção de se sentar à escrivaninha, mas parou quando a morena pegou alguns cadernos e foi em direção ao meio do quarto, se sentando no grande tapete que havia ali e apoiando os cadernos na cama como se fosse uma mesa.

— Que porra?

— Achei que aqui ficaria melhor pra estudarmos juntos.

— E eu achei que você iria embora, antes que alguém percebesse que você está aqui. — Ele arqueou a sobrancelha.

— Não se preocupe. — Ela fez um aceno com a mão. — Só o Kirishima poderia me descobrir aqui e eu já avisei pra ele que ia trazer a matéria pra você. E sabemos que ele não vai contar pra ninguém, então... — Ela deu dois tapinhas no chão à sua frente, indicando para o loiro se sentar ali.

O garoto foi meio a contragosto, mas sentou-se na frente dela. Uraraka começou a abrir os cadernos e tagarelar sobre como havia se esforçado bastante pra conseguir anotar tudo pra ele. Bakugou apenas acenava com a cabeça, tentando conter a vergonha, que claramente era por ser ajudado, não por ela falar que havia se esforçado pra fazer algo por ele. Óbvio.

— Aliás, você tá melhor? — Ela esticou a mão em direção à testa dele, certificando-se de que não havia mais febre. — Não está mais quente, acho que já vai poder voltar amanhã.

Ele pensou que a febre estava voltando de repente, então, pois estava sentindo seu rosto inteiro pegar fogo.

— Tá, foda-se. — Ele tentou disfarçar, forçando uma tosse no final. — Só me fala logo a matéria pra acabar logo.

Os dois começaram a estudar, com Ochako explicando para ele tudo que havia sido passado naquele dia. Bakugou teria que admitir que a garota era inteligente e sabia explicar, o que o fez questionar o motivo dela ter pedido ajuda outro dia. Talvez ela só quisesse companhia, afinal ela tem essa necessidade estranha de estar sempre com amigos. Se é que dava para chamar aquele bando dela de amigos. Bakugou só pensava neles como um bando de cuzões e nada mudaria sua opinião.

E então seus pensamentos foram cortados por um barulho alto que vinha da amiga à sua frente. Uraraka colocou a mão na barriga e sorriu constrangida.

— Acho que estou com fome.

— Eu tenho é certeza. — Ele arqueou a sobrancelha. — Fica aí que eu já volto.

— Aonde você vai?

— Aonde você acha, Cara Redonda?

E então o loiro saiu. Uraraka ficou um tempo parada olhando para a porta e depois começou a observar ao seu redor. Havia entrado ali de manhã e estava estudando ali há um tempinho, mas não tinha parado para reparar no quarto. Bakugou foi o único garoto que não participou do Rei dos Dormitórios, então seu quarto era uma incógnita até então — e Uraraka admitiria que era curiosa para saber como era.

Havia alguns pôsteres do All Might na parede que estava encostada a cama, mas não eram tantos quanto no quarto do Deku. O quarto estava bem organizado, apesar dos cadernos espalhados pelo tapete. Havia dois porta retratos em cima da escrivaninha e Uraraka se levantou para vê-los melhor. Em um estava o que parecia ser uma figurinha do All Might, talvez algo raro de colecionador. No outro, estava uma foto dos Bakugou, com Katsuki no meio e seus pais sorrindo ao seu lado. Apesar de não estar exibindo o maior sorriso do mundo, era perceptível que o loiro estava feliz naquela foto e Uraraka achou engraçada a ideia de Katsuki sorrir verdadeiramente, sem sarcasmos. Sem perceber, a morena começou a sorrir também.

A porta se abriu de repente e Uraraka deu um pulo no lugar. O garoto entrou com uma bandeja em mãos, com dois pedaços generosos de bolo e duas xícaras de chá.

— Que merda você tá fazendo, sua fuxiqueira? — Ele fechou a porta com um chute e foi até a cama apoiar a bandeja.

— Nada!

— Tá estampado na sua cara que tava fazendo alguma coisa. — Ele sentou no chão de novo e ficou a encarando.

— Bom, eu... Tava olhando sua foto. — Ela coçou a nuca sem graça, se aproximando dele e voltando a sentar-se ao seu lado. — E sua figurinha do All Might. É de colecionador?

— Pode apostar que sim, e é rara também — ele respondeu convencido. — Agora come logo essa merda de bolo pra gente terminar isso logo.

A morena comeu rapidamente seu bolo e bebeu seu chá, voltando às explicações das matérias do dia. Para sua sorte, Bakugou era um ótimo aluno e pouco tempo depois conseguiram terminar. Uraraka se espreguiçou e começou a recolher seus cadernos com a ajuda do loiro.

Foi para a janela do quarto, afinal não poderia simplesmente sair pela porta. Se alguém a visse saindo da ala masculina uma hora dessas, estava frita. Teria que flutuar até seu quarto pelo lado de fora e torcer para não ter ninguém na varanda do seu andar.

— Bom, te vejo amanhã, Bakugou-kun! — Ela sorriu, mas logo parou e se aproximou. Levantou o dedão e passou na bochecha esquerda do amigo, limpando uma sujeirinha de bolo que havia decidido ficar ali. Sorriu novamente ao ver que havia conseguido limpar e o encarou nos olhos. — Pronto. Bem melhor! Até amanhã!

Uraraka saiu flutuando janela afora, deixando um Bakugou confuso e com o rosto pegando fogo de novo para trás.

Que merda foi tudo isso que acaba de acontecer?

Notas finais
Espero que tenham gostado, hihi. A amizade deles agora vai só crescer! Mas lembrando que Uraraka ainda gosta do Deku, eu só tô ignorando ele por enquanto, HAIUESHAIUSAHUHA.