Training days
16 Caça-bandeira
O resto da noite de Bakugou foi basicamente ele brigando com os próprios pensamentos. Que porra de pegadinha escrota era aquela que seu próprio cérebro estava pregando em si? Depois do sonho perturbador, cada vez que ele fechava os olhos a cena lhe vinha na cabeça de novo. E de novo. E de novo. E de novo. E, caralho, de novo! O loiro, que já não era paciente, estava completamente puto. Até o ponto que ele simplesmente tacou o foda-se e se deixou levar, porque estava cansado demais e precisava dormir. E entre sonhos com a Uraraka e seus sonhos de costume, a noite passou e chegou a hora de ir pra aula.
Levantou devagar e foi se arrumar. Não estava afim de correr nesse dia, então fez tudo com calma e ainda ficou pronto cedo. Bateu na porta do Kirishima para o acordar e desceu após ouvir um resmungo lá de dentro.
Uma manhã tranquila, sem interrupções e sem aquele bando de idiotas. Eis um dos prazeres de ficar pronto cedo. Mas havia as suas desvantagens também, como quem você gostaria de evitar também acordar cedo e os dois acabarem sozinhos.
Assim que começou a comer seu café da manhã, Bakugou ouviu o elevador da ala feminina apitar. E claro que a sorte não estava ao seu lado e quem saiu de lá de dentro foi a morena que havia dominado seus sonhos. Ela vinha toda feliz e distraída, cantarolando qualquer merda que ele não reconhecia, até que o avistou e abriu um sorriso enorme. Ele quis se enfiar dentro da xícara de chá, pois a cena do seu sonho veio com intensidade total e dominou seus pensamentos.
— Bom dia, Bakugou-kun! — Uraraka passou por ele e foi pegar o próprio café da manhã.
Ele apenas assentiu com a cabeça, até porque era o que costumava fazer mesmo. Ela voltou pouco tempo depois e se sentou na frente dele.
— Não tem outro lugar pra você sentar, não? — ele resmungou, tentando disfarçar seu desconforto. — Tá tudo vazio, caralho!
— Não. — Ela deu de ombros. — Não quero sentar sozinha, gosto de ter companhia.
— Claro. — Ele revirou os olhos e voltou a focar no que comia, numa tentativa de afastar os pensamentos que lhe assombravam.
— O que faz aqui tão cedo?
— Tentando comer em paz.
— Além disso, eu quero dizer.
— Tentando não te explodir.
— Alguém acordou com o pé esquerdo hoje, ein. — Ela riu e ele tentou ignorar como soava irritante a risada dela logo pela manhã.
— Que seja. — Bakugou se levantou e foi para a pia deixar sua louça suja.
— Você já vai sair? Espera que eu vou com você! — E antes que ele pudesse protestar, Uraraka já estava correndo para a pia da cozinha e voltando. — Pronto!
A vontade de Bakugou era explodir aquele prédio todinho, de tanta raiva que já estava passando logo cedo. Garota grudenta, não se tocava que ele não queria companhia. Desde o primeiro dia que começaram a treinar que ela tá assim com ele. E ainda vai o caminho todo conversando, tentando criar um diálogo amigável.
E se já não fosse ruim suficiente, ele não se incomoda.
— E aí eu tava pensando em aprimorar meus golpes especiais, tipo aquele que eu usei na aula prática, sabe? Queria tentar alguns novos também.
Bakugou apenas assente com a cabeça, querendo dizer que está a ouvindo. Uraraka já está tão acostumada ao jeito dele que apenas continua a falar.
— Ainda mais porque nós vamos ter outra aula prática essa semana, né, então eu queria estar preparada. Acha que pode me ajudar com isso no treino de hoje? Quem sabe eu te faço flutuar de novo — Ela ri e se vira na direção dele, apenas para vê-lo acenando com a cabeça novamente. Uraraka franze o cenho, incomodada. — Não vai falar que vou te fazer flutuar o caralho?
— Não queria esmagar suas expectativas logo cedo.
— Nossa, engraçadão. — Ela revira os olhos, um hábito que ele havia reparado que havia sido aprendido com ele. — Mas e aí, me ajuda?
— E que caralhos eu tenho feito esse tempo todo?
— Me ajudado. — Ela se virou para ele e sorriu gentil. — Obrigada por tudo, aliás. Você tem me ajudado muito, Bakugou-kun.
— Que seja. — Ele deu de ombros, tentando evitar aquele sorriso estúpido naquela cara redonda estúpida.
Os dois logo chegaram na sala e se acomodaram em seus lugares, ficando em um silêncio confortável enquanto esperavam os outros chegarem.
A manhã passou rápido e logo a hora do almoço chegou. Uraraka estava animada em almoçar com seus amigos, então guardou suas coisas rapidamente e saiu com eles em direção à lanchonete da escola.
Não muito longe de onde a morena havia sentado, o bakusquad almoçava e conversava banalidades.
— Achei que a Uraraka não conversava mais com eles. — Kaminari olhava curioso.
— Mano, você não presta o mínimo de atenção em nada — Sero reclamou, começando a explicar que a morena havia feito as pazes com os amigos.
Bakugou olhou na direção que o outro loiro olhava e ali fixou sua atenção, sem nem ao menos se dar conta. Uraraka sorria de orelha a orelha enquanto conversava animada com os amigos. Era irritante a ver sorrindo e sendo amigável com todos aqueles imbecis, principalmente o nerd inútil. O loiro se irritava mais a cada segundo por ver que ela havia perdoado tão fácil aqueles babacas e agora sorria encantadoramente para eles. Ela ficava até corada só de ter o Deku a olhando e ele... parecia corar também. Pff, os dois se mereciam.
— Isso é pimenta, Uraraka? — Ele ouviu o meio a meio perguntando com um semblante curioso.
— Ah, sim! Acho que peguei esse hábito do Bakugou-kun. — Ela sorriu sem graça ao que seus amigos apenas a observavam incrédulos. — Ele me disse uma vez que tudo ficava melhor com pimenta e eu comecei a colocar em algumas comidas. E agora sou obrigada a concordar com ele, porque realmente fica ótimo!
— Acho que temos mais uma mania que pegou dele, né — Midoriya comentou com uma risada forçada, claramente tentando disfarçar alguma coisa.
O grupo mudou de assunto e Bakugou não conseguia captar direito o que eles falavam. Ouviu algumas partes aleatórias, como “pessoal novo", “muita ajuda", “Bakugou-kun” e “sem preocupações”. Apesar de estarem em mesas relativamente próximas, ainda não era o suficiente para conseguir ouvir a tudo com muita clareza. Se impressionava de ter conseguido ouvir parte da conversa da pimenta.
— Bro? — Bakugou foi tirado de seus pensamentos por dedos estalando na frente do seu rosto. Ele virou-se para o lado e viu Kirishima o olhando com o cenho franzido. — Você me ouviu?
— Fala logo, caralho.
— Eu, ein... Tá todo estranhão olhando pro nada. — O ruivo se vira na direção que Bakugou olhava antes e por um minuto seu cérebro trava. Ele volta seu olhar ao amigo, com uma expressão que dizia que ele gostaria de perguntar muitas coisas, mas ficaria quieto por enquanto. — Enfim... Eu estava falando sobre a aula dessa semana...
E então o ruivo começa a tagarelar sobre algumas dúvidas e um pedido de ajuda para treinar para a aula. A vontade de Bakugou era dizer não, porque já teria que treinar a bochechuda. Não que Kirishima fosse atrapalhar alguma coisa, até porque nem tinha o que ser atrapalhado, mas o loiro sentia que seria desgastante ter que ajudar os dois. Era apenas por essa razão, óbvio. Não tinha nenhuma outra razão. Não tinha porque ter outra.
xxx
A sexta-feira finalmente chega e com ela o dia da aula prática.
Uraraka estava ansiosa, pois havia dado duro a semana inteira nos treinos para aprimorar ainda mais o golpe que havia usado no Aoyama na outra aula. Kirishima havia treinado com ela e Bakugou todos esses dias, o que havia sido ótimo para os golpes da morena, afinal ela se sentia mais confortável em arremessar alguém que não se machucaria. Mas quem parecia não ter apreciado era o loiro explosivo. A garota havia até comentado com o ruivo sobre como o amigo estava ainda mais irritado naquela semana, mas os dois acabaram achando que talvez fosse pela aula prática, pois era o único motivo que conseguiram pensar.
A turma estava toda concentrada no campo de treinamento que imitava um bairro residencial, se dividindo em grupos para a realização do exercício. Basicamente, segundo as instruções de Aizawa e All Might, era como a brincadeira de caça-bandeira. Dividiram-se em quatro grupos de cinco pessoas e depois sortearam vilões e heróis. Os heróis tinham como objetivo conseguir encontrar e pegar as cinco bandeiras espalhadas pelo campo — seguindo um mapa, obviamente para não perderem tempo entrando de casa em casa —, as levando de volta para o ponto de partida. Os vilões tinham que impedir os heróis de conseguir pegar as bandeiras.
Como dessa vez eles podiam escolher seus times, Uraraka estava junto com Todoroki, Iida, Deku e Tsuyu. Bakugou estava com Kirishima, Sero, Kaminari e Ashido. E, claro, para completar a maré de sorte que estava sendo a semana do loiro, os dois grupos foram os primeiros sorteados para começarem, sendo o da morena dos vilões e o do loiro o dos heróis.
— Muito bem — Aizawa começou a falar com um tom de voz entediado. — Vocês têm trinta minutos.
As duas equipes, que estavam alinhadas em entradas diferentes, saíram correndo para dentro assim que o sinal tocou. Óbvio que Bakugou simplesmente saiu correndo sozinho, pensando em pegar o maior número de bandeiras sem ajuda.
— Vamos ter que nos espalhar também, para impedi-los — Deku falava enquanto o grupo corria.
— Certo! — os outros responderam em uníssono, seguindo cada um para um lado.
Uraraka havia encontrado a casa onde uma das bandeiras estava e agora andava cautelosamente pelo quintal, prestando atenção nos mínimos sons, tentando perceber se alguém se aproximava. Estava tudo estranhamente em silêncio, mas ela decidiu continuar montando guarda ali, para caso algum dos heróis aparecesse.
Foi então que ouviu passos do outro lado do muro. Uraraka ficou em alerta, pronta para algum ataque. A pessoa que estava do outro lado havia ouvido passos também e estava bolando qual seria seu melhor plano de ação, até decidir só ir pra cima mesmo. Ashido jogou seu ácido, corroendo o muro e tornando possível que ela passasse por ali e pegasse seu oponente de surpresa. A morena deu um passo para trás quando o muro à sua frente simplesmente derreteu.
— Ah, é você, Ochako-chan! — A garota cor de rosa sorriu. — Acho que você está cuidando de algo que eu quero.
— E pode apostar que isso será resolvido logo. — A controladora da gravidade se colocou em posição de luta.
Mina começou a atirar seguidamente pequenos jatos de ácido, que estavam sendo difíceis de Uraraka desviar. A morena se concentrava em conseguir evitar os tiros e chegar perto da amiga, pois sabia que ela não treinava muita luta corpo a corpo, afinal sua habilidade lhe permitia ataques a longa distância com facilidade. Ela só não contava que seria tão difícil desviar de todo aquele ácido. Um dos jatos acabou passando de raspão por seu braço, queimando um pedaço do seu uniforme e deixando uma marca de queimadura. Aquilo iria doer pra caramba depois, com certeza.
Agora precisava se concentrar. Mina podia não ser a melhor nas aulas teóricas ou práticas, mas ela tinha uma noção muito boa de suas habilidades. E com todo aquele negócio do ano passado de treinar golpes especiais, ela tinha ficado melhor em atirar seu ácido a longa distância. Mas graças aos treinos com Bakugou, a morena estava muito boa em ler os movimentos dos oponentes. Tinha que ter uma brecha, sempre tem uma... E lá está ela! Por mais que conseguisse atirar seguidamente, a alienígena acabava dando uma pausa de alguns segundos, talvez porque fosse cansativo jogar tanto ácido assim. Uraraka com certeza usaria essa brecha e já ativou sua individualidade em seu uniforme, para adiantar.
Quando Mina parou para respirar, a morena só precisou correr o mais rápido que podia — o que era bastante, considerando ter tirado todo o peso de suas roupas. Desviou com facilidade de um soco que a amiga tentou dar e segurou em seu braço, a fazendo começar a flutuar. A ideia era jogar seus oponentes contra alguma parede ou o chão, mas Uraraka não quis fazer isso com a amiga. Então ela apenas a jogou para cima, fazendo com que Ashido flutuasse ainda mais rápido e mais alto.
— Não! — a alien tentou gritar e se agarrar à morena, mas obviamente não deu certo.
Na altura que Ashido estava, quem estivesse correndo pela rua ao lado era capaz de lhe ver — e talvez todo o campo também, considerando que havia subido com rapidez. E para a sua sorte, Bakugou estava nas ruas ali perto. O loiro logo percebeu quem a companheira de time havia encontrado e correu na direção delas.
Mina, que não percebeu a movimentação do loiro, continuava a atirar descontroladamente para tentar acertar Ochako, mesmo flutuando daquela altura. A morena teve que se esconder atrás de um muro, mas sabia que não adiantaria, porque afinal era ácido que estava sendo atirado contra si. A controladora da gravidade espiou pela lateral, para ver se a amiga ainda atirava, mas qual não foi sua surpresa ao ver um loiro explosivo correndo desde a esquina a toda velocidade para onde elas estavam.
Bakugou usava suas explosões para chegar mais rápido e a morena só conseguiu pensar em sair dali antes que ele a alcançasse. Ela respirou fundo e saiu correndo em direção à casa, procurando refúgio em uma das pilastras da varanda. Tinha que bolar um plano e tinha que ser rápido.
Ashido percebeu que o garoto estava por perto e começou a atirar ácido freneticamente onde Uraraka estava, numa tentativa de acertar algum ponto perto dela, não para a machucar, apenas para criar algum buraco no chão para ela cair ou algum tipo de distração para Bakugou a vencer. Só que atirar ácido com os pés no chão era moleza, atirar enquanto flutuava era difícil. A cada tiro que dava, seu corpo acabava dando cambalhotas no ar, o que dificultava demais a sua mira. Por conta disso, um dos seus tiros de ácido acertou a pilastra ao lado de onde Uraraka estava. Não seria nada tão grave, porque não acertou a amiga, mas a pilastra cedeu, começando a levar o teto e o restante da parte de cima da casa consigo.
A morena teve o pensamento rápido e logo tocou no teto, que já estava a centímetros de sua cabeça, fazendo com que ele começasse a flutuar também. Ok, estava a salvo por enquanto. Ou ao menos imaginava que sim.
Talvez fosse por ainda estar mantendo Ashido flutuando enquanto corria para se esconder, somado ao fato de agora estar levitando uma casa, mas Uraraka começou a sentir que o estômago estava embrulhando. Mas ela só precisava aguentar um pouquinho mais, só até impedir Bakugou de pegar a bandeira. Só um pouquinho mais.
Que a morena era teimosa e não aceitava derrota com facilidade todos sabiam, mas ninguém imaginava que ela iria realmente tentar peitar o loiro explosivo enquanto segurava uma casa e uma pessoa flutuando. Ela olhou na direção dele e Bakugou pôde jurar que havia se arrepiado com a determinação no olhar dela. Era disso que ele gostava!
Uraraka saiu correndo de onde estava, indo diretamente na direção de Bakugou. Mas algo estava estranho, seu corpo não parecia estar conseguindo correr com tanta velocidade quanto antes, claramente cansado. Seus olhos estavam pesando? Não, não poderiam! Ela tinha que continuar!
No entanto, nem sempre as coisas acontecem conforme planejamos. A morena não correu mais do que dez passos quando seu corpo decidiu que estava cansado demais para isso. Uraraka sentiu suas pernas cederem e caiu de joelhos, sentindo todo o seu corpo pesar e seus olhos querendo fechar sem sua permissão. Bakugou, que havia parado de correr, voltou a ir na direção da morena, pois ele sabia exatamente o que aconteceria se ela desmaiasse: tudo que estava flutuando, cairia.
Dito e feito. A controladora da gravidade não chegou a desmaiar, mas sua exaustão física e mental foi o suficiente para fazer com que Ashido começasse a descer, juntamente com a casa ali perto. A garota cor de rosa não sabia se tentava correr para ajudar ou se jogava ácido para derreter a casa, pois afinal havia risco de acabar escorrendo na amiga.
Para a sorte de Uraraka, Bakugou era veloz e já estava perto quando ela começou a cair, então pôde ser amparada por ele. A garota sentiu um braço a segurar firme e ouviu uma explosão forte, que com certeza pôde ser ouvida por todo o campo.
O garoto se virou para ela assim que percebeu que a casa havia virado pó e Uraraka não corria mais perigo de ser esmagada, mas sua expressão não era a irritada de sempre. A morena jurava que ele estava preocupado, mas ela não conseguiu analisar direito, porque logo caiu inconsciente nos braços dele.
— Gente, tá tudo bem? — Mina os alcançou, claramente preocupada também.
Bakugou não respondeu, apenas continuou encarando aquela cara redonda.
O sinal ecoou pelo campo, sinalizando o fim do exercício. Em pouco tempo, Aizawa e All Might chegaram com ajuda até onde eles estavam. Uraraka foi colocada em uma maca e retirada do local, indo para a enfermaria para ser cuidada pela Recovery Girl.
— Por que toda vez que vocês estão envolvidos alguém sai desmaiado e vai direto pra enfermaria? — Aizawa esfregava as mãos no rosto.
Obviamente o professor não esperava uma resposta, apenas bufou e fez todos voltarem a seus lugares para continuarem com a aula. Ele anunciou que o time de Bakugou havia ganhado com a captura de três bandeiras, mas o loiro não pareceu ter ligado muito, apenas sentou num canto e ficou quieto enquanto os outros participavam da aula e observavam como estava sendo a segunda rodada.
Tudo que ele conseguia pensar era que não via a hora daquela aula acabar logo.
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