Notas iniciais
N/A: Hey, people! Ah, seus lindos, amei os comentários de vocês no cap passado, sério... Muito obrigada pelo carinho de vocês *aperta*
E esse cap aguarda... hoho'
Mas antes de degustá-lo, coloquem para carregar:
-> http://www.youtube.com/watch?v=YX5ZAF21IDc
-> http://www.youtube.com/watch?v=lWdG8NoFXY0
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3 – Infiltrada

Os olhares conectados pareciam ter vontade própria e nenhum dos dois sequer se atreveu a quebrar aquela magia que os envolvia. Não havia nada ao redor... Era como se uma bolha invisível os envolvesse, fazendo-os esquecer que estavam simplesmente no meio de uma floresta desconhecida, com uma guerra estourando há algumas milhas.

Alexia sentia seu peito se mover descompassado, mas ela não sabia distinguir se o motivo era a corrida constante a que fora submetida ou se era o efeito das esmeraldas incontestáveis que a fitavam com tanto furor.

– Vai hesitar, soldado? – perguntou um tanto insolente, e a voz levemente rouca com tons de sino arrepiaram os pelos do americano – Vamos, me mate...

O sotaque alemão era quase imperceptível no inglês fluente da garota – consequência do método que seus pais usaram de John sempre conversar com ela em inglês e Scarlet, em alemão durante seus primeiros anos de vida. Deste modo, Alexia já era fluente em ambos os idiomas antes dos cinco anos de idade.

Ethan, no entanto, esquecera até mesmo de seu propósito ali, mas, ao ouvir as palavras ameaçadoras da garota, se viu completamente dependente. E sentiu que não conseguiria terminar o que havia começado.

Sem ao menos entender a si mesmo, ele se levantou devagar, ignorando o olhar dourado e confuso que a alemã lhe lançava. Sua mente girava, incapaz de racionar como sempre fora treinado, e aquilo mais o deixou com raiva do que intrigado. Ele não entendia a porra do que estava fazendo ao ceder a vida a um inimigo.

– Eu não vou fazer isso... – murmurou quase que pra si mesmo, virando-se de costas.

Lexi, no entanto, se levantou com força, sentindo uma estranha raiva daquele militar covarde.

– Que soldado de merda é você que vai deixar uma nazista fugir? – Ela riu ao insinuar, incrédula, embora não admitisse o alívio que sentia – Tem medo de perder pra uma mulher?

Foi inevitável não perceber o tom malicioso em sua voz, o que fez Ethan voltar a encará-la com intensidade.

– Não brinque comigo – disse somente, voltando a sentir aquela sensação estranha enquanto fitava os olhos tão misteriosos.

– Por quê? Por acaso vai mudar de ideia e, então, decidir me matar? – Alexia perguntou, arqueando uma de suas delineadas sobrancelhas. E ela não entendia porque não conseguia parar de brincar com a sorte e fugir logo dali, mas sabia que tinha a ver com algum sentimento de ego estúpido. – Vamos, lute, soldado!

E, dizendo isso, ela o empurrou com ambas as mãos, fazendo Ethan cambalear. E foi como se toda a racionalidade retornasse a sua mente.

– Você ficou louca, garota? – Esbravejou ao retomar seu equilíbrio – Se eu fosse você fugia logo daqui, antes que eu mude mesmo de ideia e me arrependa de poupar sua vida.

Alexia não sabia o que se passava em sua mente naquele momento. A raiva disputava lugar com o ódio e o orgulho ferido, mas ela não era boba em procurar uma briga aonde ela sabia que iria perder, por melhor que fosse ao que fora treinada. Assim, com um último olhar àquele estranho americano, a jovem correu o mais rápido que pôde para longe dali.

O capitão da Força Aérea, no entanto, tentava decodificar os motivos que o levaram a fazer aquilo, e apenas meneou a cabeça em repreensão a si mesmo, perdendo a bela garota de pele alva de vista.

– Inferno! – praguejou em um turbilhão de sensações que perpassaram em seu peito, pegando a primeira coisa que vira por perto – provavelmente algum pedaço de tronco de árvore – e o jogando longe. O barulho que ecoou pela floresta assustou o próprio homem enraivecido, mas chegou como um simples estalar aos ouvidos da nazista, já há metros de distância.

Os galhos assimétricos das coníferas que preenchiam a floresta batiam em seu rosto, provocando arranhões que, tamanha adrenalina que tomava suas veias, ela nem ao menos sentia. Seu coração palpitava dentro do peito e seus pulmões já protestavam, mas Alexia não queria parar de correr... Ela nem ao menos sabia qual seria o seu destino.

Sua mente martelava, tentando encontrar alguma razão idiota que fez o militar poupar sua vida – e ele fazia parte da alta patente provavelmente, devido às insígnias que preenchiam sua farda azul escura. Mas ela não podia negar o que aqueles olhos tão penetrantes, e de um verde tão vivo quanto a mais rara das esmeraldas, a fizeram sentir. Era um misto de quente e frio, de bom e ruim, de certo e errado... E era uma merda não saber por que ela sentia aquilo. E era uma merda maior ainda não saber controlar esse sentimento.

Dane-se essa porra, pensou com raiva, meneando a cabeça e percebendo que havia corrido demais.A jovem não sabia dizer por quanto tempo estivera correndo... Possivelmente horas, já que o céu estava claro em seus primeiros raios de luz da manhã, embora continuasse coberto por nuvens que anunciavam chuva. Mas em algum momento, ao longe, um soar de vozes chamou sua atenção. Ela parou instantaneamente, escondendo-se atrás de alguma árvore ao passo em que, cuidadosamente, andava rumo às palavras que ouvia.

– Foi um ataque e tanto pelo que parece. – Um homem disse e Alexia, o mais cautelosa possível, avistou-o juntamente de outro, ambos de vestimentas brancas e com o desenho da suástica¹ no braço do uniforme.

Ela soltou um suspiro de alívio e um sorriso tímido moldou-se nos cheios e avermelhados lábios da garota enquanto ela avistava a ambulância camuflada há alguns metros, numa estrada de terra.

– Nem me fale! Estão todos dizendo que o Führer se enganou sobre o local que seria atacado... Ele estava esperando esses malditos americanos bombardearem outra ilha e não Normandia – O outro paramédico disse e, estreitando-se um pouco mais no tronco da árvore, Lexi viu que eles enchiam o pneu do furgão. Provavelmente havia furado durante o trajeto cheio de pedregulhos percorrido.

– Pronto, finalmente! – O homem mais alto pronunciou, guardando uma ferramenta qualquer na parte de trás do veículo. – Vamos logo à Normandia, os outros já devem ter chegado lá pra socorrer os feridos.

Feridos... Em seu íntimo, Alexia rezava para que Jessie não fosse um deles. E, então, uma ideia nada mal para a situação começou a surgir na mente da garota. Ela sabia que aqueles paramédicos, enfermeiros, sejam lá o quê da cruz vermelha alemã, não ficariam satisfeitos por ter uma mulher importunando o trabalho deles. Deste modo, quando vislumbrou os dois homens entrarem de volta na ambulância, correu até a mesma – com a suavidade de um cisne e a rapidez de um lobo, lembrou-se do que seu pai sempre a dizia.

Sem sequer ser notada, a bela garota abriu cuidadosamente a porta do furgão, adentrando em um átimo e escondendo-se por entre alguns panos claros que ali havia. Foi uma jogada de sorte, constatou com um sorriso vitorioso no rosto, sentindo o automóvel começar a se movimentar rumo ao litoral, junto de um trovão que invadiu os céus.

– Vem um temporal por aí – O Tenente Kevin Walker comentou ao ouvir o soar violento do trovejar, olhando para cima apenas para avistar um relâmpago ao longe, junto de outro estalar.

– Que se foda essa merda de tempo... – Ethan rosnou, entrando em sua tenda no secreto quartel general improvisado, há milhas de onde houvera o ataque da madrugada.

Em outros tempos, Kevin provocaria Ethan, dizendo que ele estava precisando é de uma boa transa para dissipar todo aquele mau humor, mas dessa vez se contentou em apenas olhá-lo divertidamente. Ele conhecia seu amigo de longa data melhor que ninguém e, por mais que o Capitão chegara dizendo ter ganhado a aposta por ter atacado o avião alemão, mais cedo, o Tenente sabia que havia algo de errado ali. Mas agora não era hora de se preocupar. Ainda não.

Enquanto isso, Alexia sentiu a ambulância parar e, antes de ser descoberta pelos dois homens que ocupavam a cabine anterior, saiu dali a cuidadosos passos. E ela não pode esconder a expressão de espanto ao visualizar o lugar em que esteve, há algumas horas, totalmente destruído.

A chuva que começava a cair fez a menina-mulher estremecer de frio pelo vento que a acompanhava, andando vagarosamente pelo destroçado solo e afundando seus pés na lama que era formada com o contato da água que caía. Os pingos deslizavam por sua pele tão branca quanto a neve, e seus olhos de águia acompanhavam os tantos homens caídos por todo lado. Muitos ali eram conhecidos seus e o aperto em seu coração apenas se intensificava, com medo de seu Jessie estar entre eles.

Em algumas partes do imenso campo sem qualquer energia positiva, estavam diversos homens e mulheres de branco resgatando os feridos, levando-os em macas até as ambulâncias – e só então notou que não estava sozinha ali, e que os enfermeiros pouco se importavam realmente com sua presença intrusa. Todos estavam preocupados com seus trabalhos, ajudando àqueles combatentes que deram suas vidas por um bem em comum.

Bem, Alexia pensou consigo mesma em ironia. Aquela porra de guerra não fazia bem a ninguém exceto pelos líderes de tantos países que se vangloriavam, imunes a qualquer bomba ou armas apontadas para eles. Malditos germânicos, malditos soviéticos, americanos e ingleses! Maldito mundo. E só de pensar que ela fazia parte daquilo, seu estômago se revirava.

Para ouvir: John Mayer – Comfortable

http://www.youtube.com/watch?v=YX5ZAF21IDc

No entanto, um amontoado de curtos cabelos loiros em uma maca ao longe alertou a jovem, fazendo-a correr, sem se importar no quê ou em quem estivesse pisando. Ela somente enxergava a pessoa que lhe dera tudo – sobretudo força – deitado ali.

– Jessie! – gritou em um misto de alívio e temor. Ela o encontrou, mas sabe-se lá Deus qual seria seu estado. – Jessie...

Alexia caiu de joelhos, vendo seu namorado gemer de dor enquanto ela, carinhosamente, espanava os finos pingos de chuva que molhavam o belo rosto de traços fortes, embora delicados, que tanto já contemplara.

– Jes, amor... O que fizeram com você? – O sussurro quebradiço foi inevitável quando a jovem viu os estragos no corpo de quem tanto aprendera a amar. Arranhões tomavam conta de grande parte das maçãs do rosto de Jessie, bem como o dorso de sua mão e, embora a calça grossa e escura cobrisse suas pernas, era possível ver a mancha de sangue brilhando na região, indicando o terrível machucado que deveria estar escondido ali.

– Lexi? – murmurou, a voz fraca e difícil de sair. A leve dor que Jessie sentiu na garganta fora perceptível, mas era sua Alexia ali... A garota que tanto amava e que tanto o ensinou durante todos os anos de amizade que carregavam.

– Shh... Sou eu, amor – A voz suave da namorada o acalmou, enquanto a mesma acariciava seus cabelos de um modo tão terno que o fez fechar os olhos novamente em proveito. – Estou aqui agora, você vai ficar bem...

– Não... – Jessie sussurrou, tentando encontrar sua voz que parecia estar perdida em algum lugar que não fossem suas cordas vocais. – Eu não vou ficar e...

– Jes! – A morena o repreendeu, interrompendo-o. Ele não sabia o que estava dizendo... Era óbvio que ele ficaria bem!

– Alexia, me escute... – prosseguiu com firmeza – Eu não vou ficar, eu sinto... E preciso que você continue lutando.

– O que... O que você quer dizer com isso? – Alexia franziu o cenho, fitando os olhos amendoados de Jessie e enxergando algo além da determinação. – Você não está falando coisa com coisa. Precisa descansar, amor...

– Lexi, me ouça... Esse ataque... – Respirou fundo, embora lentamente; parecia que o oxigênio não conseguia encontrar o caminho correto até seus pulmões. – Esse ataque foi premeditado... Führer sabia que seríamos atacados... Por isso nos mandou para cá, como isca.

– Jes, onde você ouviu isso? Pelo amor de Deus, descanse... Eu vou chamar os paramédicos pra te levarem a uma ambulância... – Murmurou levantando-se, preocupada com as palavras do garoto, mas foi interrompida pelas mãos geladas dele segurando seu pulso.

– Por favor, Lexi, me ouça pelo menos uma vez na vida! – suspirou, cansado e reencontrando o ar – Alguns soldados que estavam com a gente, noite passada, me disseram... Eles sabiam que era tudo parte do plano de Führer, mas juraram servir à Alemanha – disse numa voz baixa e contida, olhando nos olhos dourados e sérios da garota – Você sabe o que o Mein Kampf² diz, temos que proteger a pátria acima de qualquer coisa...

– Mas... Isso é errado! Führer jamais nos deixaria morrer dessa forma... – Alexia raciocinou, meneando a cabeça, a confusão fervilhando em seus neurônios. – Ele é leal com seu povo e, se isso realmente aconteceu... Foi ele quem desrespeitou os próprios ideias nazistas!

– É exatamente aí que quero chegar, amor... – falou calmamente, escondendo um gemido de dor – Você precisa provar que isso aconteceu... Precisa acabar com essa desigualdade, essa violência! Se ele realmente traiu o próprio povo, não é certo fazer o que fazemos, Lexi... – suspirou, retomando o ar que se esvaía aos poucos – Nós dois sempre pensamos assim, e agora temos a certeza de que nunca pensamos errado sobre tudo isso.

– Você está certo... – Os olhos caramelo fitaram o chão coberto pela lama formada pelos pingos da teimosa chuva, ainda fraca. – Nós vamos fazer isso juntos, Jes. É só o tempo de você ficar bom pra...

– Não, Lexi... – Ele engoliu em seco, sentindo a garganta protestar novamente e seus olhos lacrimejarem. – Você terá que fazer isso sozinha.

– Não! Jessie, por favor, você está perdendo os sentidos e...

– Seja forte, amor, por favor... – A mão machucada, ainda presa no pulso da garota, foi para o rosto suave e feminino com pequenos arranhões.

– Jes... – sussurrou, os olhos embaçados e a voz embargada – Eu vou chamar alguma enfermeira agora e você será tratado... Vai ficar bom logo, você vai ver...

Antes de o loiro deixá-la partir, mesmo que por alguns segundos, atrás de um dos muitos assistentes da cruz vermelha que ali havia, ele sussurrou um “eu te amo” calmamente. E Alexia pode ouvir a frase quebrada, embora sincera, de seu namorado, olhando intensamente, antes de se levantar, nos olhos pequenos e intensos que a encaravam com saudade.

– Eu também te amo. Muito. – E, então, um singelo sorriso preencheu os lábios de ambos, e a moça logo tratou de procurar alguém que pudesse cuidar de seu garoto.

Alexia, no entanto, não conseguiu esconder uma estranha lágrima que deslizou pela maçã de seu rosto enquanto via Jessie ser carregado na maca e levado para dentro de uma das ambulâncias, levemente entorpecido – a morfina fazendo efeito em seu organismo. E ela não sabia, porém, que os machucados superficiais do jovem não eram nem metade dos escondidos por trás do escuro casaco que vestia. No peito de Jessie continha o estrago feito por uma M1 Garrand³ americana.

Do outro lado do extenso campo onde jaziam os feridos do bombardeio, estava localizado o quartel general secreto dos soldados americanos – uma forma de estabelecer uma forte base a fim de aumentar o desempenho para a retomada da França do poder nazista.

– Olha só que enfermeiras gatas, irmão! – O Tenente Walker brincou com o Capitão Price, que apenas revirou os olhos, enquanto caminhavam para a pequena confraternização de seus companheiros, rodeados por uma fogueira, ao som de algum blues.

Para ouvir: U2 – One

http://www.youtube.com/watch?v=lWdG8NoFXY0

Era noite e fazia frio em Normandia, mas os dois militares pouco pareciam se importar quando andaram, aos olhares cobiçosos de algumas enfermeiras, rumo ao simplório bar. Foi inevitável o olhar de Kevin sobre a pequenina, embora atraente e delicada, garota vestida de branco e com cabelos curtos e tão escuros quanto o Mar Negro. Ela conversava distraidamente com algum soldado da armada aérea, o que deu ao Tenente uma careta em seu belo rosto angular.

– E depois fica falando de mim, não é Walker? – Ethan empurrou o amigo, notando seus olhares sobre Candice Greene, a enfermeira mais educada e divertida, segundo o próprio.

– O quê? – Kevin voltou sua atenção para o capitão de cabelos levemente claros, que riu, entregando um copo repleto de uísque para o rapaz de cabelos cor de mel enquanto se acomodavam ao redor da fogueira.

– Quando você vai criar coragem pra falar com a Candice? – perguntou descrente, tomando sua dose da bebida em um único gole.

– Sei lá, cara... – Os olhos verde limão se encontraram com os de Ethan após fixá-los mais uma vez na jovem há alguns metros. – Ela é Candice, entende? Ela não é qualquer uma... É importante pra mim.

– Se eu fosse você teria chegado na baixinha quando a conhecemos após o ataque à base de Pearl Harbor! – Aconselhou, olhando para o estrelado céu francês. – Vocês se conhecem há tanto tempo e, cá entre nós, você sempre foi apaixonado por ela, Kev.

– Olha quem fala! – O Tenente desconversou, sorrindo maldosamente para o amigo de infância. – Não fui eu quem demorou cinco anos pra dizer à Amy Scott que era apaixonado por ela!

– Eu tinha catorze anos, Kevin! – falou em ultraje, bufando enquanto esmurrava o ombro do loiro – E foi um erro e tanto... Aquela garota era um pé no saco!

– O que duas semanas de namoro não fazem, hein? – Ele riu, pegando logo uma garrafa de vodka, enchendo o seu copo e, em seguida, o de Ethan. – Mas, então... Alguma gata pra noite? – questionou, apontando para as belas enfermeiras que dançavam ou simplesmente conversavam, desatentas aos dois garotos. Ou não.

– Tanto faz... – deu de ombros, fazendo uma careta quando sentiu a queimação do álcool deslizando por sua garganta – Mas se for pra transar com alguma enfermeira gostosa, que essa noite seja loira... Ou ruiva!

Kevin somente riu, movimentando a cabeça no ritmo de alguma música de Robert Johnson que tocava ao fundo, enquanto virava com tudo mais uma dose de vodka. Ethan, no entanto, sabia do peso da suas palavras, lembrando-se da bela morena que tropeçara em seu caminho naquela manhã. Os cabelos cor de mogno ainda tomavam sua vista ao se recordar dos motivos que o fizeram pensar naquela mulher durante o dia todo. E nada. Ele simplesmente se perdia ao lembrar dos olhos dourados que o encararam com tanto furor.

A alemã o pegara de jeito. E ele se odiava por ter sido tão fraco a ponto de deixar um inimigo vivo. O capitão só esperava não se arrepender de sua escolha, ou não-escolha, tanto faz. Toda aquela porra de sentimentos só ficava cada vez mais confusa pra ele, que tentava, a qualquer custo, tirar a mulher de cabelos castanhos de sua mente. E foi com esse objetivo que se engraçou com uma loira qualquer, mais tarde naquela noite.

– Bom dia, alemães! Está um dia lindo hoje, embora as notícias não têm sido muito proveitosas devido à frente anglo-americana em solo francês...

Alexia suspirou enquanto grunhia, atravessando a sala de estar em um átimo para desligar aquele rádio de merda. Tudo conspirava para seu estresse desde que retornara de Normandia, há poucos dias, e, sinceramente, ela estava cheia daquilo tudo. A garota ainda não havia conseguido ver Jessie – o estado do jovem não era dos melhores e ele não podia receber visitas, eram as palavras da insuportável recepcionista do hospital principal de Paris.

Para ouvir: Switchfoot – On Fire

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A preocupação acumulada ao nervosismo não ajudava em sua busca por calma. A mente de Lexi tentava trabalhar em algum meio de colocar o plano de Jessie em ação! Ela concordava e acreditava nas palavras do namorado, mas não fazia ideia de como procurar provas o bastante para incriminar Hitler. E, mesmo sabendo que seria um esforço com resultado praticamente nulo, ela tinha que tentar. Tornara-se uma questão de honra desde tudo aquilo ocasionara no estado de saúde de Jessie e tantos companheiros – maioria morta.

Respirando fundo e colocando numa mesa a caneca em que bebericava um café, a morena andou vagarosamente até a varanda do apartamento que herdara de seus pais, onde morava há um ano – ao ser escalada pelos nazistas a ficar na França, após sua tomada pelo impetuoso Império Alemão.

A Torre Eiffel, iluminada pela luz do sol, tomava sua visão logo após atravessar as portas duplas e, encostando-se ao parapeito da cobertura do imenso prédio, Alexia retornou aos seus pensamentos de maneira estranhamente calma.

As pessoas que andavam por Paris pareciam tão pequeninas dali de cima, fazendo a jovem Foltz sorrir minimamente, lembrando-se de quando visitava a cidade com seus pais e eles a deixavam correr divertidamente pelas praças repletas de pombos brancos. E o sorriso da garota apenas aumentou ao se lembrar dos passeios pelos museus, enquanto sua mãe lhe contava a história de cada obra de arte que avistavam.

E uma risada nostálgica saiu dos lábios de Alexia, enquanto fechava os olhos, com a imagem dela implorando para ir ao seu bistrô favorito apenas para comer o doce que mais gostava e, em seguida, passar na livraria que havia ao lado dele. Seu pai costumava sentá-la em seu colo para ler um simples livro de contos de fada para sua única garotinha.

O bolo que instalou em sua garganta fez a jovem menear a cabeça para afastar aqueles momentos que não voltariam mais. Já havia sido difícil o bastante superar a estranha morte de seus pais, há tantos anos – ela não precisava trazer à tona memórias que somente a machucariam mais. Era impossível se lembrar do passado sem desejar, com todas as suas forças, que aquele tempo voltasse.

– Eu só queria ter o colo de vocês pra me amparar... – sussurrou para o vento, imaginando se ele levaria suas palavras a seus pais.

Engolindo em seco, ela seguiu para seu quarto a fim de se trocar para ir ao mercado comprar alguns ingredientes para o café da manhã. Contudo, ao adentrar o closet de cores claras, logo avistou sua antiga farda – a qual sempre trajava durante os treinamentos quando ainda residia na base alemã. Ela era parecida com a que os seguranças do Estado, inclusive os de Führer, usavam. E, com um sorriso travesso tomando seus lábios cheios e avermelhados, Alexia teve uma ideia para, finalmente, iniciar sua vingança.

O sol já havia se posto quando a alemã decidira que era hora de pôr seu plano em ação. Um sobretudo preto a protegia do frio que assolava a noite parisiense e, após alguns minutos de caminhada, apenas ajeitou a delicada boina que prendia seus cabelos ao avistar a entrada secreta para o escritório de Hitler, no subterrâneo. Pelo menos um lado positivo em ser uma nazista – saber o esconderijo do líder quando este visitava um dos países de seu domínio.

Não foi difícil desacordar um dos seguranças fardados – somente um chute certeiro quando o notou distraído e, então, um belo soco na cara. E ali estava a linda moça, disfarçada de homem enquanto usava uma farda alemã. Ela sorriu vitoriosa ao ver o local praticamente vazio – um soldado aqui e ali, mas nada que pudesse dar fim a seus objetivos como infiltrada para aquela noite.

E fora menos difícil ainda encontrar a sala que tanto queria, vendo o singelo “Führer” escrito em letras garrafais na porta de madeira. A jovem franziu o cenho pela imensa facilidade, mas logo deu de ombros. Problema de seu inimigo ser tão óbvio. Bom pra ela, no final das contas.

Alexia adentrou o cômodo calmamente, não sem antes checar se estava vazio, mas, ao constatar que sim, não hesitou em começar a procurar pelas tantas gavetas e armários os papeis com a prova de que Hitler sempre soube dos ataques à Normandia. Pelo que ouvira, tratava-se de um plano dos Aliados para tirar a França do poder alemão e, para tal, bombardeamentos ingleses e americanos ocorreram em várias praias da região litorânea.

– Vamos, Lexi... – sussurrou para si mesma, passando rapidamente os dedos por entre os arquivos de uma das gavetas da grande cômoda, perto da mesa de Führer. Seus olhos vagavam com precisão e rapidez por entre os títulos dos documentos, até que um em especial tomou sua atenção por completo.

– Arquivo Foltz? – Alexia leu um dos títulos, totalmente estarrecida, embora confusa. E logo tratou de puxar o papel a fim de saber do que se tratava. – Mas que porra é essa? – indagou curiosa.

Entretanto, antes que pudesse abrir a pasta e se certificar o que era aquilo, o barulho de passos soaram, vindos do corredor. A respiração de Alexia travou e ela tratou de fechar a gaveta rapidamente, dobrando o documento que continha o sobrenome de sua família até ficar em um tamanho que caberiam no coturno que calçava. E os passos se tornaram mais altos e, para o temor da garota, ela percebeu que eram dois homens que conversavam entre si.

Sem escapatória, seus olhos dourados varreram cada canto do gabinete de Führer até que ela avistou uma porta ao lado de uma escrivaninha. E, por mais clichê que poderia ser, ela correu cuidadosamente até a mesma, abrindo a porta numa velocidade sem igual enquanto adentrava o pequeno espaço. E xingando-se mentalmente, percebeu que ali era o armário de casacos.

Apenas alguns segundos se passaram até que ela ouviu a porta de entrada do cômodo ser aberta. Os dois homens conversavam em um alemão rápido e Alexia congelou ao reconhecer uma das vozes. Era Hitler.

– Eu te disse para reforçar nossas tropas em Normandia, mas você teimou em afirmar que havia o feito! – Ele pronunciou em um tom cortante, fazendo a própria jovem escondida no armário engolir em seco.

– Eu mandei os reforços, mas eles não foram suficientes para o ataque anglo-americano. – O outro homem discordou de forma vagamente insolente. – Mas se você já desconfiava do bombardeio, por que mandou nossos alemães para uma reunião naquele lugar?

– Agora eu preciso dar satisfações a você, Stuelpnagel? – Führer riu ironicamente, e Alexia quase soltou um “Oh!” em entendimento da discussão.

Carl Stuelpnagel era o comandante da parte da França que estava sob poder dos alemães. Pelo jeito, ele não vinha cumprindo com seus deveres.

– Não foi isso que quis dizer, Führer...

– Pois bem, eu precisava de uns homens para ocupar os americanos durante o ataque e estávamos com mulheres demais em nossa armada, precisávamos filtrar um pouco! – riu calmamente, e pode-se ouvir o som dele se sentando numa poltrona e acendendo um charuto – Aceita?

– Não... – O comandante falou. – Você estava insano... Sabe no que resultou esse seu ato? Sabe quantos homens perdemos?

– O quê? Agora você se importa com isso, Stuelpnagel?

– Na verdade, eu me importo! – ele declarou, batendo as mãos contra a mesa, raivosamente – Perdemos todos os homens que estavam lá! Acabaram de me informar que os dois últimos sobreviventes morreram essa tarde... Só restaram duas mulheres.

– Menos mal... – Hitler soou despreocupadamente ao mesmo tempo em que Alexia sentiu os pelos de seu corpo se arrepiarem.

“Perdemos todos os homens que estavam lá! Acabaram de me informar que os dois últimos sobreviventes morreram essa tarde...”. A frase do comandante ficara impregnada em sua mente, e ela sentiu seu queixo tremer enquanto sua vista ficou embaçada, as lágrimas se acumulando em seus olhos.

– Jessie... – A jovem sussurrou, o ar sumindo de repente. Ela só não sabia que, através da porta que a protegia, os dois homens no outro cômodo a ouviram, colocando-se em alertas.

Alexia arfou ao notar que havia entregado a si mesma ao não ouvir nada além do silêncio vindo do outro ambiente. Ela tinha duas alternativas: lutar ou... lutar. Hitler, olhando para a porta branca na parede a sua direita, fez um gesto de silêncio para Stuelpnagel, inclinando a cabeça para que este cuidasse do meliante.

No entanto, Lexi não conseguiu fazer nada. A porta fora aberta num rompante e, antes que pudesse sequer pensar em agir, as grandes mãos do comandante puxaram os cabelos da garota e logo seus braços se colocaram sobre o suave corpo feminino, como se estivesse a enforcando.

– Me solta! – gritou raivosa, movimentando-se bruscamente em uma tentativa infrutífera de se ver livre.

– Ora, ora, veja que preciosidade temos aqui... – A voz de Führer alertou a morena, fazendo-a se aquietar e encará-lo enojada. – A que devo à presença de Alexia Foltz?

A jovem não se surpreendeu com o fato de ele saber seu nome – Lexi se lembrava com vivacidade do dia em que ela, ainda criança, e sua mãe o encontraram durante uma festividade. Ele parecia conhecer sua família na época e, além do mais, sempre visitava o campo de treinamento alemão, então era esperado que ele se recordasse dos olhos dourados tão expressivos que ela carregava.

Esta, porém, não respondeu ao questionamento do homem tanto quanto baixo e de cabelos e olhos escuros, embora a pele pertencesse a um tom alvo indagador. Führer riu consigo mesmo, andando tranquilamente até o corredor e retornando, cinco segundos depois, com dois homens fardados ao seu lado.

– Tiram-na daqui. – murmurou em um tom seco aos militares que trouxera consigo – E não esqueçam de ensiná-la bons modos.

Alexia franziu o cenho, gritando nervosa com os homens que agarraram seus braços e começaram a arrastá-la para fora da sala.

– Me larguem, seus filhos da puta! – rosnava furiosa, tentando se soltar a todo custo do aperto de ferro dos militares irredutíveis e indiferentes. Ela só não esperava que um deles a soltasse para, em seguida, bater com força em seu rosto.

– Cale a boca, sua vadia!

Grunhindo com a dor, embora levemente absorta, a garota sentiu o frio a abraçar com força assim que eles alcançaram a superfície, em um beco escuro. E, então, um dos homens prendeu seus braços atrás do corpo e, com um grito estrangulado, ela sentiu o outro homem socar com força seu estômago. Ainda tentando se lembrar de como respirar, um murro em sua mandíbula a fez revirar os olhos de dor enquanto notava parte de seu cabelo caindo em seus olhos.

– Seus filhos da mãe... – sussurrou, sentindo o sangue deslizar por sua gengiva até os dentes simétricos e perfeitamente brancos.

E a ira foi lançada. O homem que a segurava jogou-a no chão até que o outro chutou a barriga da jovem. Mas ela não deixou por menos. Com a pouca força que sobrara de si, Alexia levantou-se rapidamente, correndo para fora daquele beco. Contudo, não fora veloz o suficiente – um dos guardas a alcançou com agilidade, virando a garota pra si que, em um ato de fúria, cuspiu todo o sangue de sua boca no rosto dele. E, então, ela sentiu um golpe em sua nuca.

– Eu não sei por que diabos temos que procurar essas lenhas... – A enfermeira Candice Greene resmungava, andando impacientemente pela floresta, ao lado de Katherine Sawyer. – Tantos homens naquele quartel e não chamamos nenhum deles pra fazer esse trabalho!

Katherine riu, meneando a cabeça enquanto ela e sua colega de profissão procuravam por lenhas capazes de fazer uma fogueira que aquecessem os soldados feridos, na enfermaria improvisada.

– Candice, você se lembra que você mesma falou que só nós duas bastava, certo? – perguntou, contendo um sorriso divertido.

A baixinha apenas revirou os olhos, murmurando um “Okay, okay, parei de drama!” que somente fez a loira de olhos escuros rir suavemente. Era pouco mais das sete da noite quando Candice decidiu que se uma fogueira decente não fosse acesa logo, os pobres soldados morreriam de hipotermia. Então tratou de chamar a Srta. Sawyer para ajudá-la na tarefa – mas procurar lenhas não era tão fácil quanto parecia ser, e as duas acabaram se atrapalhando.

– Candy, o que é aquilo? – A enfermeira inquiriu, ajeitando os óculos de grau na tentativa de enxergar melhor, mas não resolvera muita coisa.

– Meu Deus, Katherine, é algum ferido! – A jovem de cabelos curtos constatou ao estreitar os olhos azuis, encarando a amiga por um instante antes de ambas correrem até o alvo.

E, chegando lá, notaram que se tratava de uma garota, embora a farda masculina enganasse qualquer um que olhasse de longe – e sua pele alva estava repleta de ferimentos. Candice, no entanto, naturalmente checou a pulsação da jovem, notando que ela estava viva, e não hesitou em querer ajudá-la, mesmo com a suástica na manga esquerda de sua roupa indicando que ali havia uma inimiga.

– Precisamos ajudá-la, Kathy...

– Mas, Candice, ela é uma alemã... – A enfermeira questionou confusa, embora seus sentidos dissessem que era o certo o que a jovem ao seu lado dizia.

– Isso é o de menos agora. – Os olhos azuis fitaram Katherine, que assentiu. – Vamos, me ajude... Precisamos levá-la para a enfermaria do quartel general.

– Tem certeza, Candy? O Capitão Price não vai gostar nada disso...

– Estou pouco me importando com o Ethan! Agora me ajude logo com isso... – falou, fazendo Katherine suspirar para, em sequência, ajudar a amiga a levar aquela jovem para o quartel.

[1] Suástica: Símbolo nazista.

[2] Mein Kampf: Minha Luta – livro escrito por Hitler, o qual se tornou base dos ideais nazistas.

[3] M1 Garrand: Arma utilizada pelos americanos durante a Segunda Guerra.

Notas finais
N/A: Uau... Altas emoções!
Fiquei com muita pena do Jessie... Ele era tão divo pra morrer =/
E a Alexia? Eita super-mulher essa! Mas quero saber o que acharam...
Kevin super fofinho a fim da Candice, Ethan que não consegue tirar a nossa morena da cabeça, o encontro da Lexi com o Hitler e ainda o Arquivo Foltz... Palpites?
HAUSHSAUSHAUSAHUSAHSAU
Well, irei responder agora mesmo os reviews do cap anterior, e aguardo ansiosamente a opinião de vocês sobre esse *sorriso colgate*
Toodles honey
-> http://raphaella-paiva.blogspot.com
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.