Traiçoeiro
45 Capítulo 45
Notas iniciais
Arrumei a delicada coroa em minha cabeça. Suspirei, olhando meu reflexo no espelho e tentando reconhecer o rosto infeliz que me observava de volta. Reprimi o soluço que quis escapar de meus lábios, levando a mão até a carta de Killian e com a outra acariciando a protuberância em minha barriga.
Uma batida leve a porta e minha mãe colocou a cabeça para dentro, com o semblante preocupado, mesmo que tentasse esconder.
—Está doendo muito? – quis saber, entrando.
Assenti, abaixando a cabeça e lutando contra as lágrimas.
Dois meses. Havia aguentado mais dois meses, quando todos acreditavam que não conseguiria passar dos três.
Quinto mês de gestação e já conseguia sentir meu brotinho se mexendo inquieto.
Minha mãe achava que talvez, os deuses tiveram benevolência e decidiram me deixar viver tempo o suficiente para meu filho nascer.
—Eu quero muito aguentar para que meu bebê consiga nascer, ao mesmo, tempo que não quero, porque essa dor está consumindo-me lentamente... Killian está sofrendo tanto e eu não posso fazer nada. Tenho que esperar ele visitar Vovó Libélula para receber a carta que escrevi tem mais de um mês... Eu sinto a falta dele, mãe. Do calor de seus abraços, do sorriso em sua voz, a forma que Jones me olhava. – balancei a cabeça, aceitando o lenço que ela estendeu para que eu secasse os olhos. – Eu queria não ser especial. Queria apenas ser Emma Swan para poder voltar para os braços do homem que eu amo.
Branca secou as lágrimas antes que chegassem a cair, forçando aquele sorriso que erguia suas maçãs do rosto, e fazia o cantinho de sua boca de contorcer minimamente, como se ali estivesse escondido todas as formas de se fazer alguém feliz em seu pior momento.
—Não precisava ser assim. – lembrou.
—Eu sei.
—Eu teria feito o mesmo se a situação fosse comigo. – confessou, olhei para ela com curiosidade. – Faria o possível para deixar seu pai fora do perigo e tentaria aguentar com tanta garra como você está aguentando... Seu pai e eu lutamos uma guerra contra homens, você teve que enfrentar Cora que utilizava os poderes das trevas. Sua tarefa foi bem mais pesada que a minha, e se eu estivesse em seu lugar, não pensaria duas vezes em deixar David fora dessa. Por isso não a julgo por sua escolha, pois entendo seu coração. Ele é muito parecido com o meu. O que me machuca é o pouco tempo que terei com você, minha criança... Eu queria poder ter como ajuda-la filha, mas não sou poderosa ao ponto de mudar regras.
Consegui abrir um sorriso fraco para ela, apertando sua mão de leve, mostrando que estava tudo bem. Que eu entendia que não poderia fazer nada, por mais que quisesse.
—Pode me ajudar com o relicário? –perguntei indicando o colar que ela me dera com uma pintura de Killian.
Ela se esticou, pegando-o da caixinha, afastando meus cabelos e prendendo o colar em meu pescoço.
—Obrigada. – olhei para ela que me admirava pelo reflexo do espelho.
—Está pronta para descer? O casamento irá começar em instantes. A noiva está muito linda.
—Claro. Vamos, não perderia por nada o casamento de Graham.
Graham havia pedido a senhorita que vinha fazendo corte em casamento logo que se estabelecera em Mistheaven. E apesar de muito dizer “não” sobre a cerimônia ser realizada no palácio, e bancada por meus pais, ele não teve muita escolha. Humbert insistira em se casar o mais breve possível, já que queria que eu estivesse presente e fosse uma das testemunhas. Meu amigo garantiu que queria meu nome no livro, para lembrar-se que eu aprovara seu casamento e o principal, estivera no momento mais especial de sua vida.
Branca beijou minha bochecha demoradamente, abraçando-me como se quisesse guardar-me de todo mal, escondida em seus braços.
—Irei chamar seu pai para vir buscá-la. – avisou se endireitando, afagando meu rosto.
Aquiesci, pensando como todos ao redor estavam sofrendo por minha causa.
Perguntando-se quando eu não acordaria.
Estudei minhas mãos ossudas e a forma como eu estava terrivelmente magra, a pele acinzentada, sem vida. Os cabelos sem o brilho que irradiavam. O olhar apagado.
Sentia-me como se já estivesse morta.
Abri o relicário, observando a pintura de Killian que nunca iria fazer jus ao homem, mas que abrandava a saudade que acumulava em meu peito desde que eu o abandonara.
Eu esperava que Jones não demorasse, para visitar Vovó. Queria sentir algum alivio vindo dele, uma pequena aceitação de que não fora sua culpa. Quando visitei Libélula com minha mãe, não precisei dizer nada, a mulher apenas pediu que eu me sentasse com ela e me embalou, murmurando palavras desconhecidas, de sua língua provavelmente. Expliquei das cartas e Vovó assentiu, antes de dizer que apesar de meu ato ser nas melhores das intenções, de nada adiantaria. Disse que Jones iria encontrar outra coisa para se culpar, até que desistisse.
Ouvir isso não foi nem um pouco animador.
Uma pena branca pousou delicadamente perto de mim, incendiando-se logo em seguida.
Olhei para a capa a tempo de ver outra pena se soltando dela e vindo em minha direção.
Levantei-me com dificuldade, alarmada. Aquilo nunca havia acontecido antes e não sabia o que significava.
Talvez houvesse chegado a hora e aquele fosse o sinal. Minha capa se desintegrando era o indicativo que meu tempo na Terra como Donzela-cisne havia terminado.
Senti-me levemente irritada. Eu queria participar do casamento do meu amigo. Vê-lo feliz ao lado da mulher que escolhera para passar o resto da vida. E decidiam me buscar justamente nesse momento?
Enquanto tentava chegar à capa, apoiando-me nos móveis tentei alcançar Jones para saber se estava bem. Lembro que Regina me disse que quando eu morresse me tornaria Valquíria e continuaria a tomar conta dele, lá de Asgard e talvez até pudesse voltar para visita-lo, todavia mesmo assim o busquei, com medo de partir e não ter mais nenhuma noticia dele.
Mas eu não o encontrei.
Não fui capaz de chegar as suas emoções como fora todos aqueles meses.
—Por favor, não tenha feito nenhuma besteira Killan. – murmurei, segurando a capa que estava quente e a jogando nos ombros. – Eu não posso partir sem saber como está.
Fazia um bom tempo que não usava a capa. A última vez foi quando eu retornara para casa após derrotar Cora. Para visitar Libélula, Branca nos levou até lá para que eu não usasse muita energia e acabasse por ficar fraca. Desde então, ela havia ficado ali, pendurada, como um lembrete da minha condição.
Mas dessa vez algo estranho aconteceu. Não precisei imaginar um lugar como sempre acontecia. Simplesmente fui transportada para outro ambiente, sem esforço nenhum.
Se aquilo era morrer, até que não fora como eu havia imaginado. Tinha sido tranquilo.
Apenas não havia conseguido me despedir de ninguém.
Senti o ar fresco do mar, com o barulho das ondas quebrando ao fundo e o cheiro inconfundível de mistura de flores silvestres que apenas a ilha dos Mouros possuía.
—Por que fez isso comigo, Swan? Por quê? – a voz de Killian atingiu meus ouvidos como tiros e abri os olhos assustada, encontrando-me no lugar para onde ele me levara para conhecer quando estivemos lá. Seu lugar preferido na ilha.
Onde nos beijamos e eu aceitara estar apaixonada por ele.
Jones estava de costas para mim, se aproximando da borda penhasco.
—Por que me consertou para então quebrar novamente? Por que não me deixou do jeito que estava se não pretendia ficar comigo? – sua voz falhou, e ele deu mais um passo vacilante.
—Killian se afaste desse precipício. – pedi com calmamente para não assustá-lo, mantendo-me imóvel.
Ele se virou surpreso para trás, fitando-me como se eu fosse um fantasma. Senti um alívio ao ver seu rosto, mesmo que estivesse tão maltratado. Fundo e com olheiras, como se não dormisse e se alimentasse direito.
Eu queria beijá-lo. Correr para os braços e beijá-lo
Queria voltar para o meu lar.
Ao mesmo, tempo que me perguntava o que raios eu estava fazendo ali? Por que a capa me levara até lá?
Não fazia sentindo. Talvez eu, fora levada até lá para proteger Jones uma última vez, afinal esse era o meu trabalho.
—Ora, vamos querido. Eu tenho um casamento para comparecer e vão notar minha ausência se demorar muito aqui. Venha, ande calmamente até mim, se afastando da beira. – instruí, esticando a mão para incentivá-lo.
Killian caminhou em minha direção, sem desviar os olhos do meu rosto, como se tivesse medo de fazer isso.
—Você... Você é real? Está aqui? De verdade? – instigou incrédulo. – Não é mais uma alucinação?
Mexi na capa e abri um sorriso para tranquiliza-lo.
—Cortesia da capa. Sou uma Donzela-cisne esqueceu?
Seu semblante se contorceu com raiva.
—Não, não esqueci. Foi isso que a tirou de mim, como poderia esquecer? – retorquiu com a voz carregada de magoa. – Foi por causa de sua condição como Donzela-cisne que foi embora sem deixar rastros. Por ser uma Donzela-cisne você me fez quebrar um juramento para que nossa ligação fosse quebrada. – acusou. – Por ser assim, deixou-me sozinho, mesmo sabendo que era a última coisa que eu queria... Quando sabia o quanto quero um futuro com você.
Apertei as mãos sem saber o que fazer.
—Bem... Você leu minha carta? – indaguei, fazendo força para não chorar.
Ele deu mais uns passos, se aproximando e anuiu.
—E as outras? Dos seus pais e seu irmão?
Killian balançou a cabeça em negativa.
—Li apenas a sua... Assim que reconheci sua caligrafia, era a única que importava. – atalhou com sinceridade. – É verdade? Você está morrendo? – quis saber, sua voz estranha, como se algo o atrapalhasse falar.
Assenti.
—Eu sinto tanto Emma, eu não queria... – começou a se desculpar os olhos carregados de lágrimas.
—Shh meu amor, não foi culpa sua. Eu o forcei a fazer isso. Coloquei a poção do caos para que agisse daquela forma. Fiz isso para protegê-lo. Você é o homem mais maravilhoso da face da Terra. Você é bom e fiel para aqueles, que ama Killian, nunca faria isso em sã consciência. Sei que já disse isso em minha carta, mas talvez eu tenha sido trazida até aqui para que escutasse essas palavras de minha boca e acreditasse dessa vez. Você não foi culpado de nada. Eu fui. – bati em meu peito. – Eu fui egoísta porque não podia imaginar você morrendo e optei por manter a sua vida. Então por favor, viva da forma que eu o ensinei a viver. Não faça esse meu gesto ter sido em vão.
O queixo de Jones tremeu, enquanto ele lutava para não chorar.
—Eu a amo, Emma.
—Eu também o amo querido. Amo de verdade. Você sabe.
—Deveria ter sido mais forte e não ter me deixado cair à tentação do caos... Você prometeu uma família para mim. Disse que quer que eu seja feliz, mas está definhando e irá me deixar sozinho... – ele tentou chegar mais perto, contudo algo o impeliu, fazendo com que gritasse de dor. – Eu não consigo sem você, Emma. Não sei ser feliz sem você.
—Não podemos mais ficar juntos, Killy! É a regra. – lembrei-lhe, minha voz saindo aguda. – Se você se esforçar, conseguirá ser feliz...
—Eu poderia ter ajudado. Estaríamos juntos... Eu preferiria que não tivesse me protegido Emma. Preferiria que não fizesse eu me tornar aquele homem que detesto apenas para me proteger. Eu disse coisas tão horríveis para você, fada. – Jones se levantou e tentou se aproximar, o maxilar cerrado de dor. – Não era verdade, nada daquilo.
—Eu sei Killian, sei que não era e não levei nada a sério, tenho apenas as mais doces lembranças de nós dois. Esqueci aquela noite, agora pare que você irá acabar se machucando.
—Eu não esqueci. – murmurou entredentes. – E eu não me importo desde que eu consiga segurá-la mais uma vez. – decretou um protesto de dor deixando sua boca com o esforço que fazia para transpor o que nos impedia de ficar juntos. – Foi errado o que fez Emma. Você deveria ter me dado uma escolha. Deveria ter me deixado escolher e não ter escolhido por mim. – balbuciou, o rosto vermelho pela força que fazia e pelas lagrimas que saiam de seus olhos.
Ousei a dar um passo, não aguentando mais vê-lo tão perto de mim. Sentindo a necessidade de tocá-lo. Algo me puxou para trás, contudo continuei, forçando-me, pensando em como seria quando finalmente conseguíssemos nos alcançar.
Em como eu o abraçaria e pediria perdão por ter tirado o seu poder de escolha. Perdão por ter pensado apenas em mim.
Soltei um arquejo de dor, tocando minha barriga quando o bebê protestou com o esforço e precisei parar, já sem forças e com dificuldade para respirar.
Olhei para Jones que havia parado, gotas grandes de suor desciam por sua testa e ele olhava fixamente para a minha mão com curiosidade. Ele então voltou a tentar chegar a mim com mais afinco, as veias do pescoço visíveis por conta da força que exercia e a cada passo que dava, chegando mais perto de mim, os lamentos de dor que escapavam de seus lábios se tornavam pior.
Kilian foi puxado para trás se desequilibrando, a respiração resfolegante. Ele não disse nada, apenas se colocou de pé, demonstrando que não iria desistir de chegar até a mim e naquele momento soube que tinha que fazer o mesmo.
Voltei a tentar me aproximar dele, concentrando-me em manter-me firme. Fechei os olhos, recordando como era seu abraço, a forma que ele me apertava e beijava minha cabeça ou onde seus lábios sentissem vontade de tocar, com toda ternura do mundo.
Achei que poderia chorar de felicidade, pela primeira vez em meses, ao finalmente me sentir dentro do abraço de Killian, protegida como apenas ele me fazia sentir, apesar da camada que insistia em tentar nos afastar. Ele me abraçou mais forte, como se tentasse quebrar aquela barreira, e eu retribuí, com afobação. Prendi-me a ele como se fosse tudo o que importava.
E era.
Então uma faísca dourada nos jogou para longe, e tudo ao redor balançou como se uma bomba tivesse explodido, silenciando o mundo.
—Emma! – Killian chamou com desespero, correndo em minha direção.
E dessa vez ele conseguiu chegar sem dificuldades.
Agarrei em seu pescoço, colocando-me de pé e grudando-me a ele, feliz de sentir seu calor novamente aquecendo meu corpo, meu coração e minha alma.
Preenchendo de vida aquele corpo que permaneceu morto por tantos meses. Dando a mais calorosa das acolhidas.
Sua mão afastou minha capa e desceu para minha barriga. Ele olhou para mim com os olhos felizes. Não havia perguntas, apenas uma felicidade genuína queimando nos olhos azuis.
Sorri para Killian, pousando minha mão sobre a sua, sem conseguir acreditar que aquele momento era real.
Que ele estava conhecendo nosso brotinho.
—Você está...? – questionou com a voz embargada de emoção.
Fiz que sim freneticamente.
—Mas você...
—Eu menti, não queria mais lhe causar dor, Jones. Eu não tinha certeza se conseguiria aguentar o suficiente para o nosso bebê nascer.
Killian afagou minha bochecha com adoração, seus olhos brilhando, antes de tomar meus lábios, como se estivesse morrendo de sede e precisasse se refrescar, bebendo tudo o que eu tinha para lhe oferecer e dando-me tudo de que senti falta.
Apertávamos tanto que não sabia como não havíamos nos tornado apenas uma pessoa.
—Onde você esteve fada? – murmurou. – Por que não apareceu antes? Foi um inferno sem você.
—Estava em meu reino, Mistheaven. Com meus pais. – contei, beijando o canto de sua boca. – E não sei o que aconteceu. Minha capa simplesmente me trouxe até você. – expliquei, sorrindo ao estudar seu rosto que tanto amava, olhando-o como se fosse à última vez.
O bebê se agitou e Jones olhou para mim de olhos arregalados.
—Ele está mais inquieto essa noite. – dei de ombros.
—Vocês dois sempre mexendo com o destino não é mesmo? – uma voz feminina e temporal, fez-nos separar.
A mulher de cabelos carmim e olhos de um azul tão claro e límpido, que chegavam a parecer, as águas transparentes dos mares que havia visto enquanto estive com Killian. Ela tinha uma expressão de autoridade e estava séria. Suas vestes eram negras com pontos brilhantes.
Ao seu lado, uma mulher de cabelos louros e, olhos que lembravam duas safiras, admirava suas joias, parecendo não querer estar ali. Suas vestes eram douradas, com os seios desnudos e uma capa feita de pena de falcão descansava em seus ombros. Ela ergueu o olhar para nós dois, estudando-me com reprovação.
Ao redor delas, formando um circulo à nossa volta, mulheres, vestidas como guerreiras, com suas lanças e capas iguais as minhas.
—As Valquírias. – sussurrei, apertando a mão de Jones.
—Primeiro você o força a quebrar um juramento. – a mulher loura, Freyja, deduzi começou a falar. — Depois ele acha um jeito de se comunicar com você e então aqui estão um nos braços do outro... Não fora suficiente, termos decidido deixa-la viver tempo bastante para ter seu filho? Existe uma regra que devemos seguir e aqui estão zombando dela.
—Regras foram feitas para serem quebradas. – Jones falou com sarcasmo.
A outra mulher de cabelos carmim, que acredito ser Thrud, a regente do tempo, olhou para ele com olhos que poderiam iniciar tempestades.
—Não para nós. Graças a essas regras mantemos o mundo como vocês o conhecem. Houve uma quebra de juramento e sempre deixamos bem claro o que acontece.
Dei um passo para frente, soltando-me de Killian, sentindo-me irritada.
—Eu os salvei! Isso deveria significar alguma coisa. Tudo o que eu fiz, foi pensando no bem de todos... Eu não queria ser a escolhida para derrotar Cora, não queria ter tido todo o meu destino mudado ainda quando criança, não queria ser donzela-cisne. Mas aconteceu assim, e se forcei Killian a quebrar o juramento é porque o amo e não suportaria perdê-lo por culpa minha. Se eu fiz isso, foi para salvar o lugar privilegiado que ficam lá em cima. Vocês poderiam mostrar uma coisa chamada “gratidão” e... Não sei... Deixar essa passar.
Elas se entreolharam.
—Mas fomos gratas. Decidimos deixa-la viver tempo o suficiente para ter seu bebê. – Freyja informou.
—Foram ótimas palavras, guerreira, mas não muda o fato que houve quebra de juramento. Se permitirmos que você fique com seu guerreiro, então teremos que permitir que outras façam o mesmo. Você não é diferente, Emma Swan e devido ao reencontro caloroso e emocionante dos dois, você irá para Asgard agora, onde assumirá seu lugar como Valquíria. – Thrud declarou.
—Não!- Killian me abraçou, prendendo-me. – Vocês não irão levá-la a lugar algum. Eu não deixarei que a tirem de mim agora que a recuperei.
—Se a amasse tanto assim, teria lutado contra o caos, guerreiro. – Freyja se pronunciou. – Não foi o que aconteceu.
—A deusa que passou a noite com quatro anões para conseguir um maldito colar, que visita a terra para poder usufruir dos desejos carnais, quer mesmo achar que tem alguma moral para dizer isso para mim? – indagou incrédulo. – Por ser a deusa do amor está faltando um coração dentro de você.
Freyja deu de ombros.
—A vida é curta para não se aproveitar tudo que tem dela. E o colar era o mais bonito que já havia visto. Valeu a pena. – defendeu-se, parecendo levemente ofendida.
—A vida é curta e vocês ainda querem tirá-la de mim? – questionou, fazendo-me ficar atrás dele. – Eu a amo. Sei que deveria ter sido forte, mas infelizmente eu sou humano e cheio de falhas, mas Emma é tudo de bom que tenho nessa vida. Não foi correto o que ela fez, sei disso e senti raiva quando li sua confissão, porém entendo que foi pensando no melhor, como tudo que ela faz. Emma salvou a vida de vocês. Salve a dela também. Deixei-a comigo como tinha que acontecer se não tivesse sido sequestrada. Prometo a vocês que não iremos desrespeitar mais nenhuma regra que envolva o destino.
Um leve sussurrar se passou entre as Valquírias até chegar às deusas.
—A resposta continua sendo “não”. Ela agora é nossa e tem um dever em Asgard. – Thrud informou.
Colei-me as costas de Jones, começando a sentir medo.
Eu não queria deixa-lo mais uma vez.
Não queria ir embora e deixar meus pais.
Killian se virou para mim, como se buscasse alguma alternativa, parecendo apavorado.
Sequei suas lágrimas, dando-lhe um beijo, ao aceitar que não teria outro jeito.
Branca sempre dissera que esse seria o meu fim. Que eu seria levada e passara todos aqueles meses me acostumando à ideia. Contudo, agora que estava acontecendo, percebi que nunca estive pronta.
Ainda mais agora, que teria que olhar para o rosto de Jones, o meu Jones, e deixa-lo. Não era como da outra vez que eu sabia que não era ele falando aquelas coisas para mim.
—Talvez na outra vida. – sussurrei, tocando seu rosto, vendo-o fechar os olhos, lágrimas escorrendo e molhando meus dedos. – Você vai ficar bem. Por favor, viva por nós dois. – supliquei, beijando-o mais uma vez. – Eu o amo Jones. Amo de verdade Killian. Perdoe-me, por ter feito o que fiz. Acredite que fiz pensando na vida que poderia ter. Nunca quis que sofresse meu amor.
Ele abriu os olhos, dando um sorriso triste.
—Eu também a amo de verdade Emma. Com todo coração. – murmurou como se tivesse algo obstruindo sua garganta. – Não tem pelo o que pedir perdão, minha menina... Obrigado por ter me amado como nunca fui antes. Por ter feito, eu sentir novamente.
Afastei-me dele, indo em direção as deusas.
—Killian... Procure meu reino e informe meus pais. – pedi. – Diga por mim que eu amo-os, sim? E leia as cartas de sua família.
Jones aquiesceu, engolindo em seco.
—E prometa-me que ficará aqui. Que irá viver.
Jones ponderou por um instante, seu peito subindo e descendo por conta de sua respiração que saía com dificuldade, até por fim, aquiescer.
—Eu prometo Swan.
Sorri satisfeita.
As Valquírias vieram em minha direção, com suas lanças erguidas e esperei que acabassem com aquilo logo, para que assim o sofrimento da despedida cessasse.
Toquei minha barriga com ambas as mãos, como se a abraçasse, pedindo desculpas ao meu pequeno por não ter conseguido aguentar.
Ri de tristeza ao perceber que minha felicidade foi tão breve que poderia muito bem ter sido um sonho.
—Esperem! – Killian gritou. – Isso pertence a você, não? – instigou, e eu olhei para ele que estava com o meu colar erguido. Aquele com a pedra vermelha.
—A pedra do meu colar! – a Freyja exclamou. – Onde conseguiu isso?
—Não importa. Proponho uma troca.
—Fora de cogitação. – Thrud respondeu rapidamente.
—O que quer? – Freyja quis saber.
—Que deixem Emma comigo. Devolverei a pedra de seu colar se deixar Emma comigo. É minha única condição.
Freyja olhou para Thrud.
—Não. – a ruiva falou com determinação.
—É a pedra do meu colar! Você sabe como eu estava louca atrás dela.
—Odin ficará uma fera.
—Eu lido com Odin depois. É a pedra do meu colar, que Loki roubou. Ele não tem nada que ficar bravo.
Thrud revirou os olhos, dando-nos as costas.
—Você tem que parar de ficar defendendo esses amantes, Freyja. – resmungou. – Guerreiras, nosso trabalho aqui já terminou. Sabia que era perda de tempo no momento que vi a forma que a deusa do amor olhou para vocês. – então ela nos fitou seus olhos se suavizando. – Espero que sejam felizes juntos. Estava torcendo para ela ter a palavra final. – confessou. – Nós somos gratas por ter nos salvado Emma. Tentamos de tudo para mudar... Vimos o que você sacrificou. Fez bem de ter guardado o colar, capitão. – falou olhando para Jones, dando-lhe uma piscadela.
—Isto... Isto quer dizer...? – perguntei receosa, olhando para Killian que mantinha o colar erguido.
—Que desde que eu tenha minha pedra de volta, vocês poderão ficar juntos. – Freyja respondeu com uma falsa impaciência.
Virei-me para olhar Jones que jogou o colar em minha direção. Eu o peguei e entreguei-o para Freyja que abriu o mais lindo dos sorrisos ao segurar a pedra em suas mãos, acariciando-a.
—Muito obrigada, já havia perdido a esperança de encontrá-la. Garanto para vocês que Loki irá pagar por isso. – ela então segurou em meu queixo. – Vocês terão crianças lindas e serão felizes. Muito felizes... E não se preocupe guerreira, eu lido com qualquer problema que surgir por lá. Você fez muito por nós, merece seu descanso. Cuide bem dela, capitão. Estarei observando para ver se, irá cumprir todas as promessas que fez.
—Eu irei deusa. Garanto que irei. – prometeu.
Freyja nos deu um sorriso, se juntando ao grupo que a aguardava. Cavalos alados surgiram, pousando delicadamente perto de suas donas Valquírias, que logo montaram, esperando o comando das deusas.
Um relâmpago brilhou ao longe e uma por uma, as Valquírias deixaram o chão, voando para o céu, sem dificuldade, seguindo Thrud e Freyja que voava com suas asas.
As observei até que sumissem na escuridão da noite.
—Se eu soubesse que ia ganhar um cavalo alado, tinha escolhido ir com elas. – falei brincando, aconchegando-me no peito de Killian que me abraçava.
—Ah, então quer dizer que um cavalo com asas é mais interessante que eu? – indagou ofendido, com um sorriso no rosto.
Admirei-o, sentindo meu peito inflar de felicidade ao vê-lo feliz.
—Eu não o trocaria por nada, Killian. Nunca mais vou me separar de você. Eu sou sua, de coração, corpo e alma.
—Bom... Então talvez eu possa ter uma, certa resposta, para um, certo pedido de casamento que eu fiz.
Soltei uma risada incrédula quando ele se afastou, tirando de dentro do bolso interno o anel.
—Então, senhorita Swan... Aceita se casar comigo?
Respirei fundo e fiz que sim.
—Eu aceito, Killian. Não precisa nem perguntar... Sim, sim, sim! – gritei, gostando de ouvir os ecos.
Jones fez uns movimentos estranhos antes de pegar minha mão e deslizar o anel em meu dedo, admirando.
—Você precisa comer, está magra. – declarou ao perceber que ficara largo. – Não sabe o quanto eu sonhei em ver esse anel em seu dedo. Obrigado por aceitar, Emma.
—Sempre foi “sim”, Jones... E quanto a comer, digo o mesmo para você. Precisa se alimentar e principalmente descansar. Ainda é assombrado pelos pesadelos?
Ele aquiesceu, sem olhar em meus olhos, como se estivesse envergonhado.
—Desisti de dormir já tem um tempo. Você está em todos, sem exceção.
—Eu irei ajuda-lo a se livrar desses, meu amor. – prometi. – E nunca mais você terá pesadelos.
Ele me tomou novamente em seus braços, capturando minha boca, sua mão percorrendo meu corpo lentamente e causando-me todas as sensações que tanto senti falta. Que apenas ele me proporcionava.
Deixei minhas mãos correrem por seu corpo também, matando a saudade de cada parte dele, sem pressa, sabendo que eu o teria ainda no dia seguinte.
E em todos os outros dias.
Senti seus lábios se repuxando e afastei-me para ver seu rosto.
—Não acredito que é real. Estou tão feliz que parece que a felicidade não tem forças para chegar até meu peito. É difícil acreditar que está aqui. Que eu encontrei vocês, não é ovinho? – ele se agachou, falando com a minha barriga.
—Ovinho?
—Você é um cisne... Cisnes botam ovos. Como você o chama?
—De brotinho. Ele é uma sementinha que está crescendo.
Killian gargalhou.
—Ah, como eu pude me esquecer! Eu plantei uma sementinha em você.
Senti meu rosto esquentar.
—Eu não o chamo de brotinho por causa disso, Jones. Eu nem lembrava que um dia cheguei a dizer tal coisa. – defendi-me, enquanto ele continuava rindo. – Dê risada o quanto quiser Killian.
—Desculpe, lembrei-me de nossa conversa sobre o assunto quando você não sabia de nada... Você o chama de brotinho por causa do filosofo, não?
Anuí, observando a mão dele pousada em minha barriga.
—Você se lembra dessa história?
—Claro. Comecei a fazer a experiência do feijão no algodão. Foi uma forma que encontrei de acompanhar o crescimento do nosso bebê... – Killian se agachou, encostando a bochecha na barriga. – Eu sempre senti que você estava grávida. Sempre soube que você estava aqui, protegido... Eu o amo, pequeno. Não o conheço ainda, mas me pergunto como pode ser possível você trazer tanta felicidade sem nem ter nascido... Meu coração já havia se expandido para sua mamãe, agora está ainda maior para você. – sussurrou como se fosse um segredo e beijou minha barriga. – São lagrimas de felicidade. – se justificou ao levantar secando o rosto. –Você está arrumada e mencionou um casamento.
—Graham – contei animada. – Ele conheceu uma mulher em meu reino. Agora meu amigo, mora lá, e é chefe dos guardas no castelo. Graham fez isso para estar por perto se caso algo acontecesse comigo e ele tivesse tempo de se despedir. Não vejo a hora que vocês se conheçam, Killy.
—Ele parece ser um bom homem. Será um prazer conhecê-lo... E preciso agradecê-lo por ter cuidado de você esse tempo todo.
—Não vejo a hora que conheça meus pais, também, amor. Acho que meu pai irá gostar muito de você. Minha mãe já o ama. Veja, ela me deu isso de presente. – abri o relicário com a pintura dele. – Não chega nem perto do verdadeiro, mas ajudava a matar a saudade.
—Estou ansioso para conhecer sua mãe... Quanto ao seu pai, não tenho certeza se ele irá gostar de mim. Estou tentando me colocar no lugar dele, conhecendo alguém como eu e acabei de chegar à conclusão de que já estaria com a pistola, pronto para atirar em mim.
Dei risada puxando-o para mim, espremendo meus lábios contra os seus.
—Não consigo parar de beijá-lo.
—Eu não estou reclamando, Swan.
—Mas irá enjoar fácil de mim se não parar de beijá-lo.
Jones fez um careta.
—Acho difícil disso, acontecer. Nunca vou enjoar de você senhora Jones. – garantiu com convicção.
—Meu pai irá gostar de você, Killian. Pode ocorrer dele, ficar enciumado, mas ele entende sobre o destino. Ele era pastor de ovelhas, e veja só agora é rei... O que me leva a lembrar, que isso acontecerá com você. – afastei-me dele. – Você odeia isso... Como faremos dar certo? Não posso força-lo a ser rei... O que...
Killian tampou minha boca com sua mão.
—Emma, qualquer coisa desde que eu esteja com você. Nós seremos governantes diferentes dos que conhecemos. Inspiraremos- nos em seus pais. Conseguiremos qualquer coisa, desde que fiquemos juntos. Eu a amo... E agora. – Killian me pegou no colo. – Precisamos contar para todos que você está de volta.
—O casamento...
—Graham passou todos esses meses em sua companhia. Pode sobreviver com sua ausência em seu casamento.
—Mas eu sou uma das testemunhas.
—Podemos dar um pulinho lá para que assine, neste caso. Longe de mim, estragar o casamento do seu melhor amigo, porque a testemunha não estava lá.
Beijei seu maxilar, descendo para seu pescoço.
—Isso parece um sonho bom demais para ser verdade. – falei, fazendo com que me colocasse no chão. – Não quero acordar.
—Não iremos senhora Jones. Nunca... Escute como está Regina e Robin? – instigou, segurando minha mão. – Não tenho noticias deles tem um tempo.
Apertei os lábios, olhando para o céu, na direção onde as deusas desapareceram, antes de voltar a fitar Killian.
—Regina morreu Jones. – contei, respirando fundo. – Cora a matou antes que eu conseguisse matá-la... Robin não quer falar comigo, venho tentando todos esses meses. Espero que um dia ele possa me perdoar.
Killian abraçou-me novamente, beijando minha têmpora.
—Ele irá. Tudo o que precisa é de um pouco mais de tempo. Robin irá perceber que não foi sua culpa, que só estava tentando ajudar... Desculpe por ter perguntando, não queria deixa-la triste.
—Não estou triste, Killian... Regina partiu em paz e feliz, eu vi em seu rosto. Mas sabia também que ela teria paz e seria feliz com Robin. Porém a vida é assim e estou tentando aceitar, apesar de desejar que estivesse aqui... Contudo nessa noite, nada pode estragar minha felicidade... O que acha de irmos para o Jolly Roger? – sugeri. – Depois de contarmos a novidade para todos e darmos um pulinho no castelo para que eu assine, é claro. Sinto falta de nossa casa... E se você chegar por último irá me dever um castigo. – avisei, erguendo o vestido e saindo correndo, rindo.
Escutei seus passos me seguindo, apressados e seus chamados para que eu tivesse cuidado e lembrei-me de uma cena similar que acontecera naquele lugar. Eu correndo, fugindo dele depois que me beijara sem estar esperando. O quanto fiquei brava, confusa e apavorada com todos aqueles novos sentimentos dentro de mim.
E agora eu estava correndo, com Killian me seguindo, rindo comigo pela felicidade que não parecia, conter-se dentro, de nós dois e escapava para a noite, como se tentasse espalhar um pouco daquele sentimento para o mundo.
Dessa vez eu não estava mais correndo dele e sim para ele. Para ser sua e ele meu.
Estávamos correndo juntos para pertencer onde sempre fomos destinados.
Para os braços um do outro.
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