Traiçoeiro

35 Capítulo 35


Notas iniciais
Olá meus amores! Como passaram a semana? Cá estou com um capítulo novo e espero que gostem. Gostaria muito, muito mesmo de agradecer a Handstomorrison pela recomendação. Obrigada por achar que essa história merece, me deixa muito contente que você não faz ideia. Espero que goste desse capítulo. Boa leitura.

O cavalo continuou a galopar a toda velocidade por um bom tempo. Deixei meu corpo exausto e dormente se escorar nas costas de Killian, enquanto eu tentava ficar firme em cima do animal, lutando contra os meus olhos que pesavam, e ainda tentando acalmar meu coração que continuava descontrolado.

Pensei no abraço quente e confortável de Graham. No carinho com que ele me segurou em seus braços. A confusão em seu rosto quando fugi de seu aperto protetor e montei no cavalo.

Eu havia estragado tudo com meu melhor amigo.

O céu começou a clarear, mostrando que mais um dia chegava. Jones diminuiu o ritmo para um trote até pararmos por completo e ficou em silêncio, prestando atenção aos sons. Quando percebeu que estávamos sozinhos, ele desceu sem dizer nada, andando alguns passos para longe de mim, sem me encarar.

Desci sozinha do cavalo, com dificuldade, sentindo uma fisgada no quadril seguido de uma dor insuportável. Deixe-me cair no chão, respirando fundo várias vezes, tentando me recompor e fazer com que o frio que só eu sentia passasse.

–O que diabos foi aquilo, Emma? – Killian finalmente se dirigia a mim, o olhar carregado de raiva. – Você por acaso é idiota? – gritou.

Forcei- me a colocar de pé, pressionando com força o meu quadril.

–O que quer dizer Jones?

–Não se faça de estupida, Swan! Você... Você deixou que ele te alcançasse. Eu achei que você ia voltar com eles. Emma, você correu para os braços de Graham! – acusou.

Suspirei.

–No começo eu apenas hesitei porque queria vê-lo. Não vou mentir Killian, eu ia te deixar. Você sabe que sinto... Sinto falta do meu amigo. Então meu pai apareceu, e naquele momento eu queria sim voltar com eles.

Ele balançou a cabeça, incrédulo. Andando de um lado para o outro.

Eu só queria me sentar e ver o quão grave era o meu ferimento.

–Por que, Emma? Por que queria me abandonar?

–Eu estou aqui, não estou? – indaguei impaciente. – Eu vim com você... Olhei nos olhos de Graham e o deixei para trás. E isso está me matando, Jones. Deixei tudo para trás para vir com você, então eu agradeceria se parasse de gritar comigo.

O peito de Killian subia e descia lentamente, as emoções em seus olhos misturadas, se sobressaindo sem me dar tempo de tentar entendê-las.

Ele segurou meu rosto e espremeu os lábios contra os meus, como se quisesse me mostrar algo sem as palavras. Como se pedisse que eu sentisse alguma coisa de diferente.

Arfei de dor em sua boca, me afastando dele.

–Emma? O que foi fada? – indagou a, irritação dando lugar a preocupação.

Afastei a capa azul para que ele visse o sangue manchando a camisola branca.

–Fui atingida. – expliquei.

–Ah meu amor... Por que não me avisou logo?

Sorri para ele.

–Você desceu e nem olhou para mim. Então começou a gritar me acusando.

Jones se agachou, fazendo careta. Ele pegou a bainha da camisola e hesitou, me olhando.

–Vou precisar erguer sua camisola Swan. – avisou.

Soltei um riso fraco, olhando para o céu que já estava com uma cor pálida de azul.

–Não faça essa cara. Sei que você não acha nada ruim ter que fazer isso.

–Gostaria de erguer sua camisola para outras coisas, não para olhar um ferimento de bala. – retrucou franzindo a testa. – Tem roupa nesta trouxa?- indicou a trouxa caída aos meus pés.

–Sim. Belle disse que arrumou. Posso sentar para que olhe? Ou me deitar? Está doendo muito.

–Claro que está. – murmurou se levantando e começando a juntar as folhas secas perto de uma árvore, voltando para me ajudar a chegar até lá. – Vai ficar mais confortável. – falou quando fez- me sentar, em seguida colocando a trouxa de roupa para que eu usasse de travesseiro.

Fechei os olhos, mordendo o interior da minha bochecha quando senti o tecido da camisola sendo erguido devagar e Killian dando um puxão de leve para que desgrudasse da pele onde o sangue havia secado.

–Droga! – Jones praguejou.

–O que foi?

Ele não me respondeu de imediato, apertando perto do local com os olhos cerrados. Comprimi os lábios para aguentar a dor, quando eu senti algo enfiando na carne.

–O que está fazendo, Jones? – guinchei os olhos ardendo com as lágrimas contidas. Eu não iria chorar.

–Acho que... A bala está aqui. – ele suspirou. – Estou tentando tirar. Precisamos achar um rio logo. E álcool para que eu deixe o lugar limpo.

–Nós vamos encontrar Jones. Eu vou ficar bem, sempre fico. – o tranquilizei, procurando sua mão. – Perdoe-me, isso não teria acontecido se eu tivesse montado logo no cavalo... Fui uma idiota de verdade.

–Vou tentar tirar agora. Você acha que aguenta?

–Sobrevivi à cauterização, não? Faça o que for preciso.

Killian ficou me encarando por um bom tempo, sua expressão demonstrando o quanto ele detestava estar naquela situação novamente.

–Tente não gritar, Swan. – pediu. – Se estiver muito insuportável, aperte meu braço que eu paro. E não olhe enquanto eu estiver mexendo.

Aquiesci fechando os olhos com força e respirando fundo. Tentei manter minhas mãos erguidas para que eu não interrompesse, ele.

Senti algo afiado entrando em minha pele e contrai o rosto, tentando pensar em algo bom. Como o cheiro dos biscoitos amanteigados que Granny costumava fazer nos dias chuvosos, ou então quando estávamos no Jolly Roger e nós sentávamos no tombadilho superior junto com Landon e ficávamos conversando, passando a garrafa de rum de um para outro. Lembrei-me da voz de Graham quando ele contava-me uma história engraçada, como o seu riso dava a impressão de ser algo exclusivo do verão. Era um riso fresco como cheiro de grama e cálido como o sol da tarde.

As memórias boas foram interrompidas abruptamente e tive a sensação que era rasgada lentamente. Meu corpo se retraiu como para se proteger, e o cheiro enferrujado de sangue se fez presente. Era um cheiro ocre e que revirou meu estômago.

–Desculpe Emma. Estou tendo que usar o gancho para tentar alcançá-la. – lamentou.

–Não... Não se... Desculpe. – as palavras saíram com dificuldade. – Faça... O que... Tem de ser... Feito.

Mordi a língua para não gritar quando Killian voltou a tentar retirar a bala. O gosto de sangue estava agora em minha boca e abri os olhos, fitando a forma que a luz do sol entrava pela copa das árvores. Nas sombras que formavam e dançavam suavemente, não parecendo combinar com a dor que eu sentia. Apurei os ouvidos para ouvir os pássaros, com suas melodias que invadiam o ar. Tentei ouvir barulho de insetos, mas eu estava começando a me sentir entorpecida demais para tanto. Foquei nas coisas mais fáceis de serem percebidas.

Não sei quanto tempo fiquei arranhando o chão e mordendo o interior de minha boca. Quantas vezes memorizei o canto diferente de cada passarinho que por ali passava ou contei as formigas que entravam no meu campo de visão. Não percebi o quanto o sol havia mudado de posição, mas não gritei uma única vez, por mais que por dentro não havia parado de berrar e implorar para que Jones parasse por um único instante.

Senti Killian se deitando ao meu lado e envolvendo-me em seus braços, com cuidado para que não me causasse mais dor. Ele murmurou um pedido para que eu não chorasse mais, que o pior já havia passado.

–Obrigada. – murmurei finalmente, fungando sem parar.

Deitei de costas com cuidado e Jones se sentou sujo de sangue.

–Emma... O que passou pela sua cabeça quando...?

–Quando eu vi Graham e cogitei ir embora com ele? – perguntei. Killian assentiu. — Lembrei-me do que Hel me disse, quando nos deixou.

Killian piscou confuso, fitando-me para que eu me explicasse.

–Eu não contei isso para ninguém, apenas para Belle. Killian... Hel disse que tentaria estar no nascimento do meu filho... Perguntei se conseguiria voltar para casa.

–E o que ela te respondeu? – indagou baixinho, os olhos fixos na mão ensanguentada.

–Que se tudo saísse como está escrito, sim. Meu guerreiro e eu teremos filhos. Por conta disso eu hesitei. Por isso naquele instante eu escolhi voltar. E se for ele, Jones? E se Graham for meu guerreiro? Ele é oficial, logo é um guerreiro. E se eu baguncei o que está escrito ao deixar Graham para trás...

–Eu era tenente... Era um guerreiro também. Por que eu não posso ser uma opção? – instigou com um sorriso ébrio no rosto.

Apoiei-me nos cotovelos, mesmo que o gesto tenha me causado mais dor, para encará-lo.

–Killian já, conversamos sobre isso. Belle também acha que é você, mas eu sei que não é.

–Com base no que você sabe disso, Swan? – ele se levantou, sua voz beirava a frustração. – Eu sou seu amigo, sou seu amante, você me salvou da maldita cobra de Midgard, com a droga de uma lança que surgiu sabe-se lá de onde. Você vem me ajudando, me salvou quando me ofereceu sua ajuda. Acabou de levar um tiro que provavelmente era para eu ter levado se você não estivesse atrás de mim. Que provas mais você quer Emma que eu sou o guerreiro que deve proteger?

–Você não quer filhos! Não quer se casar... – soltei nervosa. – Não me ama. – murmurei. – Se preocupa e gosta de mim, mas não me ama. O senhor mesmo disse isso.

–E você acha que Graham a ama?

Fiquei em silêncio, voltando a me deitar.

–Sei que ele me ama o suficiente para me dar essas coisas. Eu só quero minhas crianças Killian. Não quero ser donzela-cisne, não quero ser guerreira, nem responsável por tecer o destino de ninguém. Não quero nada disso. Eu apenas quero ser mãe. – pisquei várias vezes tentando não chorar.

–Emma você não quer nada disso. Sua sociedade a envenenou com esse pensamento de querer ter filhos. Nós dois podemos ser diferentes! Você pode ficar comigo e não ter que se sujeitar a uma vida que odeia.

–Não diga o que eu quero ou deixo de querer Jones. E eu sei que eu quero uma criança minha saída do meu ventre. Não culpe a sociedade por eu querer isso. Eu não odeio aquilo, não concordo com muitas regras, mas também não odeio. Eu abriria mão de qualquer coisa para ser mãe, Killian. Então pare de agir como um asno sobre o assunto e não faça com que eu me arrependa de ter escolhido você. – sibilei. Ele me olhava como se cada palavra que saia de minha boca fosse um tapa em sua face. – Eu sonho com um filho meu, alguém que vá precisar de mim...

–Eu preciso. – Killian me interrompeu. – Eu preciso de você.

–Por quê? – questionei. – Por que precisa de mim Jones?

Ele ficou em silêncio, andando de um lado para o outro. Passou a mão suja pelos cabelos em um gesto nervoso, para então socar a árvore com o gancho.

–Por quê? – perguntei novamente. – Dê-me um bom motivo.

Diga. Diga. Prove-me que é você.

–Eu não sei Swan, mas preciso. Acostumei-me a tê-la por perto. A ter você. E você bem... Você me tem.

Balancei a cabeça em uma negativa, cansada demais para continuar com aquele assunto. Eu só queria dormir um pouco, descansar o corpo e a mente.

–Não é um bom motivo, Jones. E nem o suficiente para mim. Irei dormir por alguns minutos para podermos continuar. – informei tentando ficar confortável na cama improvisada de folhas. – Um dia Killian, você vai entender como eu me sinto.

Voltei a fechar os olhos, enrolando-me na capa e tentando esquecer a dor aguda e latejante em meu quadril. Eu sabia que precisava dar um jeito naquilo antes que fosse tarde. A bala não poderia ter sido em um lugar fatal, mas uma infecção poderia fazer o trabalho que o tiro não fez.

Escutei o farfalhar de folhar e então o calor de Jones ao meu lado. Ele ergueu minha cabeça, retirando a trouxa e substituindo por seu braço. Senti sua mão acariciando meus cabelos e sua barba arranhava minha testa.

Ajeitei-me, de modo que meu nariz ficasse próximo ao pescoço dele, para que eu pudesse sentir seu cheiro que eu tanto gostava, e como da outra vez em que sentia dor na ilha da névoa, tentei me concentrar nele para esquecer a dor física.

E como da outra vez, funcionou.

[...]

Despertei e a primeira coisa que vi foi o rosto de Killian próximo ao meu, seus olhos estudando-me com cuidado.

–Você dormiu pouco. – observou. – Não faz tanto tempo que pegou no sono.

–A dor é forte, mas não o suficiente para me derrubar por muito tempo. – respondi, querendo me sentar. – Acredito que temos que continuar.

Ele assentiu, mas não se movimentou dando a entender que iria se levantar.

–Uma hora dessas, eles já devem ter achado o caminho que pegamos. – disse com calma. – Quero pedir desculpas. Pelo o que lhe disse em seu quarto, e quase agora. Fui um grosso.

Sorri.

–Nisso eu tenho que concordar.

Jones olhou para cima, sua mão apertando a minha.

–Eu estive pensando... – começou, como se ainda considerasse a ideia. – Que talvez seja melhor eu levá-la de volta para Belle.

–O que?

–Você está ferida Emma. Não posso arriscar que pegue uma infecção porque escolheu vir comigo. Eu me sentiria culpado.

–Não. Nós vamos dar um jeito. Eu confio em você, Killian. Sabia muito bem no que estava me metendo quando corri para o cavalo. Você estava brigando comigo porque cogitei em abandoná-lo e agora quer me levar de volta?

–Shh, se acalme. – Killian sussurrou, beijando minha têmpora.

–Me acalmar, Jones? Eles vão te mandar para forca se aparecer comigo lá! – ele abriu a boca para retrucar. – E se você falar “pelo menos eu vou saber que está viva” eu te juro que o faço engolir esse gancho! – ameacei. — Eu prometi lhe ajudar a fechar suas feridas internas, e só vou embora quando eu cumprir. Por isso eu o escolhi. Pensei em você e como não queria ser mais uma que o machucou. Nós vamos continuar, agora! – ordenei, começando a me sentar. – Não abri mão da verdade mais uma vez para que você me diga que irá levar-me de volta. Francamente. – resmunguei, rejeitando sua mão estendida para me ajudar.

–Espere. Fique sentada por mais alguns minutos. Quero lhe mostrar uma coisa. – pediu, correndo para o lado do cavalo e pegando a caixa comprida presa na sela do animal.

Olhei desconfiada para ele, que voltava com um sorriso nos lábios e se sentou de frente para mim.

–O que é isso, Killian?

–Seu presente de aniversário. Desculpe a demora. – ele colocou a caixa em meu colo.

Segurei-a, sentindo o seu peso, tentando descobri o que era. Jones me olhava ansioso.

–Na hora da fuga, de todas as coisas que poderia ter pegado... Você escolheu o meu presente de aniversário?

–Pode ser muito útil, Swan. Abra.

Voltei a pousar a caixa em meu colo e a abri cuidadosamente, sentindo minha boca se abrir de surpresa ao encontrar uma espada prateada e brilhante dentro dela. Em sua empunhadura, estavam as pedras que eu havia escolhido, enfeitando-a.

Passei os dedos por cada pedrinha e finalmente tirei a arma da caixa, constatando que ela era leve.

–Ela é linda, Jones! Eu adorei. Muito obrigada.

–Imaginei que ia gostar e achei que já estava na hora de ter uma espada adequada para você. Está vendo os desenhos na lâmina?

–Cisnes! – exclamei fascinada pelos desenhos ao longo da lâmina brilhante. – É o presente mais legal que alguém já deu para mim.

–Fico feliz em ouvir isso, Swan. Esse é o motivo que ia tanto para a vila. Eu estava ajudando o ferreiro a forjá-la.

–E você sabe como fazer isso?

Ele negou com a cabeça.

–Mas nunca é tarde para aprender um novo ofício.

–Venha mais perto. – pedi e ele se aproximou de mim. – Agora, por favor, me dê um beijo para que eu lhe agradeça.

–Não precisa nem pedir, Swan. – seu sorriso se alargou, antes de tomar meus lábios com delicadeza e prender sua mão em minha nuca, aprofundando o beijo, sem pressa nenhuma. – Você sempre sorri quando eu a beijo. – murmurou sem separar nossas bocas por completo. – Sinto seus lábios se esticando.

–Assim como você. – rebati, afastando-me. – Agora vamos que já enrolamos demais. Acha que vamos encontrar um rio logo?

–Acredito que sim. – Killian tirou a caixa da minha mão, colocando-a debaixo do braço para ajudar-me a levantar.

Apertei onde o sangue escorria livremente e observei-o prender meu presente onde estava antes e então ele se virou para mim, passando o braço por trás de meus joelhos e o outro por minhas costas, erguendo-me do chão para me ajeitar no cavalo. Logo Jones tomou impulso, sentando-se atrás de mim, seus braços passando protetores por minha cintura, apertando-me contra ele.

–Não sei se comentei, mas gostei muito da nossa noite.

–Eu também... É uma pena que nossas noites sempre acabem dessa forma. Com alguma coisa dando errado.

–Vou confessar que eu estava estranhando que estava tudo dando certo demais.

–Não pode dar certo demais.

–Não. – ele concordou rindo.

–Acha que encontraremos Landon e Bae no meio do caminho? – perguntei, deixando minha cabeça descansar em seu ombro.

–Talvez. Eles não devem ter chegado a Bristol ainda. Mas agora minha preocupação é outra. Emma...

–Jones... Apenas nos leve para longe deles.

–Assim que for seguro voltar para a estrada, vamos procurar uma estalagem.

–E pagar com que dinheiro, Killian?

–Não se preocupe quanto a isso. Agora o que acha de não gastar suas forças com falatórios?

–Esse é um novo jeito de me mandar ficar quieta, é?

Ele olhou para baixo, descansando a bochecha em minha cabeça.

–De jeito nenhum, amor. Sabe... Enquanto você cochilava, eu me lembrei de como era no começo, desconfiada com tudo. Lembrei-me de quando ensinei você a atirar e de como ficou incomodada com a proximidade.

–Mas não tinha necessidade de toda aquela proximidade. — rebati, observando como o sangue continuava a manchar minha camisola. – Porém agora eu gosto. Gosto mais do que seria saudável e não deveria. Não deveria gostar e nem lhe dar o pouco que posso.

–Emma...?

–Mas eu não consigo mais me afastar de você Jones. Eu o amo e por conta disso eu sinto que preciso te dar pelo menos o mínimo. Mas também sinto que eu estou traindo Graham. Eu deveria amá-lo, mas me apaixonei por você e não sei o que fazer porque isso nunca vai dar certo. – desabafei.

Killian fez o cavalo parar.

–Você disse que me ama?

–Sim eu disse. E sim, eu disse naquela noite no meu quarto e não estou dizendo na esperança que diga de volta. – “por mais que seria bom ouvir pensei. –Longe disso, Killian. Eu apenas quero que saiba que é amado, para que tenha essa consciência quando achar que não tem ninguém. Eu o amo Jones e não deveria, mas amo e não me arrependo de confessar agora e não deveria ter recuado aquela noite em meu quarto.

Um sorriso se abriu, largo no rosto dele.

–Mas você disse que para Graham que o ama.

–Sim eu disse, porém são amores diferentes Jones. E eu deveria sentir por você o que sinto por ele. Céus eu estou me sentindo realmente péssima.

–Swan... Olhe para mim. – ele pediu, seu semblante estava alegre e seus olhos leves. – Você chegou a dizer “sim” ou “aceito” para Graham? – quis saber.

–Não, mas...

–Então ele não é seu noivo, fada. – constatou, beijando a minha testa. – Você ainda não disse que seria dele. Não se preocupe que isso não é adultério.

–Mas aos olhos da sociedade é! Aos olhos da sociedade eu sou noiva dele, é como todos já me enxergam.

–Olhe ao redor, amor. – falou. Achei estranho aquele pedido, mas assim o fiz da melhor forma que pude. – O que vê?

–Árvores?

Killian riu.

–Sim. Existe alguma sociedade aqui?

–Não.

–Existe alguma sociedade no Jolly Roger que irá condená-la?

–Não, Killian, porém...

–Então você não tem com o que se preocupar. Está longe da sociedade. Aqui comigo, você é apenas Emma Swan. Minha Emma Swan. E eu apenas Killian Jones. Seu. Não existe sociedade quando se está afastado dela. Quando estamos juntos não há mais nada além de nós dois.

–É ótimo conseguir pensar dessa forma, Jones.

–Iremos trabalhar nisso. Você irá pensar assim também. Agora nós precisamos continuar que você já está perdendo a cor. Tenho que dar um jeito de estancar o sangramento. – ele fez o cavalo voltar a trotar e não conversamos mais por um bom tempo.

Abri os olhos, vendo tudo embaçado e com a sensação de que o mundo estava girando. Escutava a voz de Killian ao longe, mas o peso em meus ouvidos não me deixava entender suas palavras.

O céu já estava escuro novamente. Deveria ter dormido o trajeto todo.

Meu corpo estava estranho, como se não pertencesse a mim.

Uma casinha entrou em meu campo de visão. Parecia antiga e abandonada, as paredes de madeira tinham um tom escuro, podres. Nesse instante entendi o que Jones tentava me dizer.

Nós passaríamos a noite ali.

Killian carregou-me com cuidado e de alguma forma conseguiu abrir a porta sem me soltar, então de repente minhas costas estavam acertando o chão, fazendo com que o ar abandonasse com violência meus pulmões, e uma lamúria, que deveria ter sido um grito, saiu de mim.

–Que inferno Landon!- Killian praguejou se agachando. – Perdoe-me Emma. – se desculpou ao se agachar perto de mim, voltando a me pegar no colo.

–Nós não sabíamos que eram vocês. – ouvi a voz de Bae se justificando.

–Isso não importa... O que ainda estão fazendo aqui? Imaginei que uma hora dessas estariam chegando a Bristol. Onde posso colocar Emma?

–Tem uma cama velha por aqui. – Landon deve ter indicado onde ficava, pois logo senti meu corpo sendo repousado em algo macio. – As estradas estão cheias de oficiais. E só estão deixando passar quem tem o passaporte. Achamos essa casinha e estávamos esperando que isso não durasse muito tempo.

–Oficiais franceses ou ingleses?

–Hmm... Ambos. – Bae respondeu. – O que aconteceu com ela?

–Graham e o pai dela nos descobriram e na hora da fuga, Emma acabou levando um tiro. – explicou. – Consegui tirar a bala, mas ela está perdendo muito sangue... Será que você poderia dar um jeito, Landon?

–Claro. Já volto.

O quarto caiu em um silêncio profundo. Eu queria conversar, dizer que eu estava bem e que sentia falta de Landon e Bae, entretanto minha língua parecia grossa e pesada demais. Deixaria para falar quando estivesse descansada.

–Os oficiais... É por causa de Emma, não? – Bae quis saber.

–Acredito que sim, Baelfire.

–Agora que eles sabem que Emma está por aqui, você sabe que vai ser impossível para sair da França, não sabe?

–Vamos dar um jeito.

Mais longos minutos em silêncio.

–Por que você não a entrega, Killian? Vai poupar os dois de muitas coisas. Não que eu ligue para você, mas me importo com ela.

–Emma escolheu vir comigo. Ela fica até sentir vontade de ir embora.

–Vá se limpar. Eu fico aqui. – mandou.

Acredito que houve um momento de hesitação, e então pude ouvir os passos se afastando até sumirem.

–Você consegue me ouvir, Emma? – Bae perguntou, segurando minha mão. – Posso dar uma olhada no seu machucado? – apertei sua mão o mais forte que consegui, dando-lhe permissão. – Ah merda! Já está infeccionado. – resmungou.

Ele falou mais alguma coisa, contudo, caí na escuridão do sono novamente, sem nem mesmo perceber.

[...]

Gritos. Gritos de protesto.

Meus gritos apavorados. Braços rodeavam-me para que eu ficasse quieta.

Gritos. Gritos animados.

Uma multidão olhava para frente e gritavam incentivos, assim como jogavam alimentos podres.

Forcei meus olhos a enxergar a mesma coisa que os outros e quando o fiz meus gritos e protestos se silenciaram.

Mas os da multidão não.

Um cadafalso.

Uma fila de homens sujos.

Cordas penduradas de frente para eles.

Baelfire entre os homens.

Ele me lança um olhar. Um sorriso de garoto, brilhante demais para esse mundo.

“Está tudo bem. Eu vou ficar bem” Bae mexe a boca formando as palavras sem som, enquanto o laço é passada por seu pescoço.

Gritos voltam a rasgar minha garganta. Eu quero ir até lá e tirar o laço de seu pescoço. Quero salvá-lo. Abraçá-lo e prometer que terá uma vida longa.

Abraçá-lo forte e senti-lo retribuindo, com um aperto firme, como eu acredito que um irmão deveria abraçar.

Mas Killian não me solta. Landon não se mexe, apenas assiste tudo com um pesar no olha.

“Por que vocês não fazem alguma coisa?

Porque não há nada mais a ser feito.

O cadafalso abre e Bae despenca, onde seu corpo se contorce em agonia, seu rosto vai se tornando escuro...

–Emma! Swan acorde. – sinto um leve toque em minha testa, antes de sentir braços me amparando. – Amor, olhe para mim. Está tudo bem. Shhh fique calma. Foi apenas um sonho ruim.

–Baelfire. – sussurro de encontro ao ombro de Killian. – Onde está Baelfire?

–Estou aqui, Emma. – ele se ajoelha ao meu lado e eu solto Jones abrindo meus braços para que venha até mim. – O que aconteceu?

–Eu... Você tinha sido condenado à morte. Foi horrível. Perdoe-me por não salvá-lo. Perdoe-me. – apertei-o apavorada, como se de uma hora para outra Bae fosse tirado de mim.

–Calma, foi apenas um pesadelo. Eu estou bem e estou aqui. Não precisa pedir perdão.

–Não... Ah Bae, eu não posso suportar se uma coisa dessas acontecer com você. Volte para Tamara. Não continue nessa jornada conosco.

–Eu não irei abandoná-la, Emma. Apenas entrei nisso para lhe proteger. – murmurou, afagando minhas costas. – E vou continuar protegendo minha irmãzinha. – brincou, dando um beijo em minha cabeça. – Nada de ruim irá acontecer. Fique calma.

Assenti, ainda apertando-o. Olhei para Killian que observava, nós dois com o rosto impassível.

–O pesadelo deve ser por causa da febre. – Landon entrou no quarto com uma vasilha. – Aqui, coma essa canja, vai lhe fazer bem.

Soltei Bae sem vontade nenhuma, olhando ao redor do quarto, como se a qualquer momento alguém saísse de algum canto e o pegasse.

–Swan tem falado em forca desde que escapamos da casa de Belle. – Jones comentou.

Estudei minhas roupas, a camisola havia sido trocada por algum tipo de camisa larga e minhas pernas estavam desnudas por baixo do cobertor velho e que fedia a mofo.

–Quando trocaram minha camisola?

–Tem uns dias. – Killian respondeu encostado à parede.

Olhei surpresa para os três homens.

–Uns dias? O que aconteceu? – abri a boca para aceitar a colherada que Landon ofereceu.

–Você ficou com uma febre alta por conta da infecção... Você resmungava o tempo, se debatia e nada fazia com que baixasse. – Bae explicou sentado ao pé da cama. – Então nos focamos em deixar a ferida da bala limpa. Foi bem complicado, mas acho que está dando resultados, já que estamos tendo essa conversa. – sorriu apertando meu pé de leve. – Você nos deu um susto.

–Como sempre. – resmunguei com a boca cheia. – Eu estou fedendo.

–Pudera... Você está soando igual uma porca, Swan. – Killian falou os ombros encostados na parede relaxadamente.

–Como vocês conseguiram comida?

–Vendemos o cavalo de Belle o que nos rendeu umas moedas, e algumas coisas, como as ervas para preparar seus remédios encontramos na mata.

Balancei a cabeça, tirando o prato das mãos de Landon e terminando de comer sozinha.

–Gostaria de um pouco mais, por favor.

–Vou pegar menina. – Landon afagou meu braço, saindo do quarto.

Respirei fundo, erguendo a camisa para ver uma faixa dando a volta em meu quadril.

–Por que não estou usando minhas roupas?

Bae arqueou as sobrancelhas e olhou de soslaio para Jones, começando a brincar com os frios soltos do lençol barato.

–Porque... – começou Killian calmamente. – Quando eu abri a trouxa para pegar suas roupas, eu encontrei isto. – ele ergueu a capa branca de penas. – Era a única coisa que tinha ali dentro.

Abri a boca sem saber o que dizer. Sem entender como aquilo havia parado dentro da trouxa de roupa. Eu havia dito para Belle que eu não a queria. Ela não teria tempo de guardar a capa ali dentro. A não ser...

Que a capa branca que ela segurava não era mesma e na hora do nervosismo eu havia me atentado apenas à cor e não ao material.

–Eu vou deixar vocês dois conversando. Qualquer coisa é apenas chamar, Emma. – Bae me lançou uma piscadela e saiu, fechando a porta.

–Quando iria falar-me sobre isso?

–Eu não ia. Era para ser um segredo. Mas aparentemente ninguém respeita os meus segredos, nem mesmo Belle. – reclamei.

–Um segredo que todo mundo sabia, menos eu? Por que você insiste em deixar-me de fora? Por acaso você realmente pensa que eu chegaria ao ponto de esconder essa maldita capa apenas para que não vá embora?

–Killian, quando eu a ganhei nem sabia dessa história da capa. Para mim era só um presente, que depois eu descobri ser mais que isso. Foi ela que nos fez chegar até a casa de Belle.

–Ótimo! Mentiu a forma que chegamos até a casa de sua amiga. Tem algo mais para me contar? – indagou com cinismo.

–Você não tem direito nenhum de falar desse jeito comigo, Jones. Você esconde coisas de mim. Coisas importantes, nem por conta disso eu o trato dessa maneira. Pare de exigir que eu seja um livro aberto, quando você não é.

Killian trincou o maxilar, alisando a capa.

–É diferente, Swan.

–Não. Não é. Essa capa faz parte de quem eu sou. Assim como aquilo preso em seu baú faz parte de você. Por que apenas eu não posso manter segredos?

–Eu lhe prometi que irei contar.

–Então conte.

–Não agora. Não aqui, Emma.

–Então não venha brigar comigo por eu esconder essa capa de você, Jones. Eu tenho meus motivos e espero que os respeite da mesma forma que respeito os seus.

Ele assentiu, deixando a capa na cama e se sentando ao meu lado, entrelaçando nossos dedos.

–As estradas ainda estão bloqueadas e eles estão fazendo busca pelas matas. – informou. – Sua capa pode nos levar até o Jolly Roger, não?

Fiz que sim com a cabeça.

–Killian... Eu não quero usá-la. É estranho demais...

–Apenas dessa vez, então depois você pode guardá-la e nunca mais mexer nela.

Soltei um suspiro, derrotada.

–Tudo bem. Eu farei isso. Apenas esta vez.

–Obrigado amor. – ele beijou meu ombro. – Desculpe eu dizer que você estava suando como uma porca.

–Mas é verdade. Estou fedendo azedo.

–Não. – Killian subiu o nariz para o meu pescoço. – Você tem cheiro de esperança, Swan.

Olhei para Jones de olhos cerrados.

–O que você quer?

–Como assim? – fez uma expressão de confusão adorável e ridícula.

–Eu conheço você quando vem com essas palavras. O que você quer pedir?

Killian sorriu de uma maneira inocente e me empurrou gentilmente para o lado, esticando-se na cama.

–Posso dormir com você?

–Eu acabei de acordar, e ao que tudo indica estou dormindo há dias! Não estou com sono.

–Mas vai ficar quando tomar outro prato da sopa de Landon.

A porta se escancarou de súbito e Bae entrou no quarto.

–Aqui está. – ele olhou para Jones deitado comigo, deu um suspiro profundo e saiu, sem dizer nada.

–Ele não aprova. – comentei, atacando o prato de sopa.

–Baelfire não tem que aprovar nada. A única pessoa que preciso de aprovação é a sua. Como está se sentindo?

–Como se tivesse levado um tiro. – respondi com ironia, engasgando com a sopa.

–Coma mais devagar, Emma.

–Eu estou com fome.

–Você já está realmente melhor.

Aquiesci, continuando a comer. A sopa de Landon mesmo que rala, estava deliciosa e meu estômago a aceitava muito bem. Killian continuava ao meu lado, observando-me, enquanto enrolava uma mecha do meu cabelo em seu dedo.

Quando terminei de comer, entreguei o prato para ele que o colocou no chão e se voltou para mim. Ajeite-me até estar deitada e o abracei, escondendo o rosto em seu peito.

–Isso é um sim?

–Até que eu pegue no sono. – minha voz saiu abafada.

Ele murmurou um tudo bem e ficou alisando minhas costas, vagarosamente. Em determinado momento Jones perguntou se eu gostaria de ouvir alguma história. Achei aquela pergunta estranha, mas respondi que adoraria, já que ele estava disposto a contar.

Killian começou a narrar uma de suas viagens, como sempre aumentando os acontecimentos para dar um ar especial. Contou-me sobre as sereias que encontrou e que quase levaram seus homens para o fundo do mar.

–E você não?

–Eu não. Não sou de- me deixar atrair fácil por um rostinho bonito. – seu dedo indicador deslizou pela linha do meu maxilar. – Mas meus homens sim.

–Sei. Continue.

Enquanto Jones continuava a contar, percebi Landon e Bae nos observando de longe e trocando palavras sussurradas. Apesar de incomodada com os olhares deles, foquei em prestar atenção na forma que a boca de Killian se movimentava, percebendo seus olhos alegres. Uma das minhas mãos ficou em suas costas, acariciando-a por cima do tecido da camisa que usava.

No fim, ele acabou dormindo primeiro que eu, seu braço passando por minha cintura, o nariz enfiado em meus cabelos. Tentei escapar de seu abraço, contudo ele se tornou mais apertado ao meu redor, e naquele instante, achei que poderia passar apenas uma noite na mesma cama que Jones.

Naquela noite não cheguei exatamente a dormir, por mais que havia tentando. Fiquei prestando atenção em como o quarto se tornava mais escuro conforme a noite caía, e nos estalos que a casa fazia. Podia ouvir a respiração de Bae e Landon em algum lugar da casa, e a de Killian esquentava minha pele.

Eu estava com calor por conta da forma que ele me segurava, como se eu pudesse fugir a qualquer momento, e perguntava-me como Jones estava conseguindo dormir tão bem se eu estava suando.

Foi quando eu ouvi, mesmo que distante o barulho de cascos, seguido de ordens de uma voz que eu conhecia bem.

–Killian. – sussurrei, cutucando seu peito. – Querido, acorde.

Jones resmungou, escondendo o rosto em meu pescoço.

–Querido...

–O que foi Emma? Você está atrapalhando o melhor sono que tenho em meses!

–Desculpe por isso, mas acho que fomos descobertos de novo. Preste atenção. – pedi.

A expressão de Jones se contraiu como sempre acontecia quando estava se concentrando.

–Você está certa. Temos que ir agora! – ele saltou da cama, indo acordar os outros.

Joguei as pernas para fora da cama e tateei o colchão procurando a capa onde Killian havia deixado, mas ela não estava mais ali.

Olhei ao redor, procurando a bendita capa branca, porém não a vi em lugar algum.

–Pronta? – Killian voltou, seguido de Landon e Bae.

Fiz que não, sem encará-los.

–Não encontro a capa.

–Como não encontra a capa? Eu a deixei bem aqui. – ele indicou onde eu já havia procurado. – E não está mais.

Os sons estavam mais próximos e eu comecei a entrar em pânico.

–É tarde demais para fugir. – Landon constatou.

–Talvez seja melhor desse jeito. – Bae falou despreocupadamente.

–Melhor? Eles irão mandar os três para forca e não haverá nada que eu possa fazer para evitar. Precisamos dar um jeito agora. – minha voz subiu alguns decibéis devido ao nervoso. – Janela?

Os três me lançaram olhares incrédulos.

–Certo. Muito pequena, eu sei...

–A casa tem uma espécie de porão, onde acredito que as pessoas que moravam aqui guardavam comida. É pequeno, mas acredito que caiba Emma. – Landon sugeriu.

–Não vou colocar Swan em um porão escuro. – Killian descartou a ideia imediatamente, parecendo desconfortável.

–É uma boa ideia, Jones.

–Não Emma!

Hesitei por um momento, as vozes agora pareciam estar atrás da porta.

–Você pode ficar comigo. Afinal, Graham irá reconhecê-lo... Por favor.

–Swan... Não me olhe assim e nem faça essa voz.

A batida forte nos vez saltar assustados.

Fiquei surpresa que a porta não caiu.

–Killian, eles vão me levar para casa e eu não vou poder te proteger mais.

–Mas eu não sou seu guerreiro, Swan.

–É para mim. Assim como Bae e Landon também são. Eu me sinto responsável por vocês. – as batidas na porta reverberaram pela pequena casa. – Mas eles estão seguros, porque não foram vistos comigo. Você foi. Nossa melhor chance de permanecer juntos é se for comigo. – tentei convencê-lo.

Percebi em seus olhos que ele ainda não concordava com aquilo. Não gostava da ideia, mas assentiu, procurando minha mão. Seguimos apressados e sem fazer barulho, até a cozinha, onde Landon já levantava a porta do porão.

Jones entrou primeiro, respirando fundo, como se estivesse com medo, e eu desci em seguida, procurando-o e me sentando no meio de suas pernas, enquanto eu sentia que meu coração sairia pela boca a qualquer momento. Apertei minhas mãos nas coxas de Killian, que permaneceu imóvel.

Olhei para cima quando escutei os passos pesados dos oficiais entrando na pequena casa.

–Por que demoraram tanto para abrirem a porta? – um deles perguntou.

–Estávamos dormindo, senhor. – Landon respondeu de cabeça baixa.

–Vocês vivem aqui?

–Por enquanto sim, senhor. Trabalhamos como jardineiros em uma propriedade não muito longe daqui.

Graham entrou na cozinha e eu me colei mais ao corpo de Jones. Conhecia os passos de meu amigo, sem precisar vê-lo para ter certeza que era ele. Fiquei com medo de respirar um pouco mais alto e ele conseguir me achar, ali embaixo.

Era capaz de ouvir minha própria pulsação em cada ponto de meu corpo.

–Por acaso, não chegaram a ver uma mulher loura, pele branca, olhos verdes e provavelmente ferida por conta de um tiro, acompanhada de um homem?

Landon e Bae ficaram em silêncio por alguns minutos.

–Alguns dias atrás, senhor. – Baelfire falou dessa vez. – O homem pediu um pouco de água para esposa, mas não cheguei a perceber se ela estava ferida. A mulher parecia adoentada.

–E seguiram para onde?

–Pelas matas em direção a Bristol, senhor.

–Eles estão planejando zarpar. – Graham resmungou para si mesmo. – Mandem uma mensagem para que as tropas de lá fiquem atentas. Temos um pirata para mandar para a forca. E uma princesa para resgatar antes que seja tarde demais.

–Como o senhor sabe que é um pirata? – um dos oficiais se atreveu a perguntar.

Estiquei-me para conseguir enxergar alguma coisa pelo espaço das tabuas e pude ver o rosto de Graham, sério e cansado.

–Porque eu o vi quando houve o ataque ao condado de Merseyside, deixando a carruagem da senhorita Swan. Não pode ser coincidência. Desculpe pelo incômodo e muito obrigado pela informação, senhores. – Graham se despediu com um aceno de cabeça, saindo da pequena cozinha, seguido dos outros guardas.

Voltei a recostar no peito de Killian, deixando o ar sair de meus pulmões em uma lufada, pegando na mão dele, para que seu toque me acalmasse.

–Jones? – murmurei sentindo sua pele gelada. – Querido? Está tudo bem?

–Claro. Apenas me avise quando pudermos sair. – sua voz parecia presa na garganta, e ele apertou minha mão, quase esmagando meus dedos. – Espero que seja logo.

Toquei seu rosto com a mão livre, sentindo seus olhos fechados e seus lábios comprimidos. Sua respiração estava ofegante, como se estivesse assustado.

Meu coração afundou em meu peito, quando eu me dei conta do que estava acontecendo.

Ficar ali estava trazendo memórias de quando Jones era obrigado a ficar preso em um lugar parecido quando criança.

Era como se estivesse de castigo novamente por não fazer nada de errado.

Beijei sua bochecha, deitando a cabeça em seu ombro.

–Fique calmo, Killy. Eu estou aqui com você. Lembra-se que eu lhe disse que ninguém nunca mais irá lhe castigar? Nós iremos sair logo daqui e então vamos direto para casa.

Seus olhos azuis brilharam na escuridão.

–Killy? Casa?

–Achei fofo o apelido.

–Tudo o que um homem mais quer é um apelido fofo, Swan. – rebateu com sarcasmo, revirando os olhos. – E quanto a casa?

–Jolly Roger é minha casa no momento, não concorda?

Ele balançou a cabeça positivamente e estava se inclinando para me beijar quando a porta do porão foi aberta.

Baelfire nos olhava exasperado.

–Não podemos deixar vocês dois sozinhos por uns minutos que já estão...? – ele fez um gesto esquisito com as mãos, antes de estica-las para me ajudar a sair. Levantei a camisa, para ver a faixa manchada com um pouco de sangue e me inclinei para limpar as teias de aranha das pernas. – Vê se faz as coisas direito com ela, Killian. Emma não é a minha mãe.

–Obrigado por me avisar isso, Baelfire.

–Não foi um aviso, capitão. Estou aconselhando-o a fazer as coisas direito com Emma, porque ela não é qualquer uma.

–Está dizendo que sua mãe era?

Bae deu de ombros, vindo para o meu lado e passando o braço pelos meus ombros.

–O que você espera que eu ache da mulher que abandonou o filho para fugir com um homem que tem idade para ser filho dela?

–Tudo bem. Vocês podem continuar essa conversa sem mim. Preciso encontrar a capa.

–Não é necessário. – Landon entrou na cozinha e a estendeu para mim. – Caída atrás da cama, provavelmente vocês chutaram enquanto dormiam. Sabe o que fazer?

Assenti, prendendo a capa em meu pescoço, sentindo um formigamento estranho em minha pele.

–Vocês estão vendo, não? – Killian instigou e os outros dois fizeram que sim. – Ótimo, achei que eu estava ficando louco ao imaginar que Swan, está de fato parecendo um cisne. Continua linda amor, é apenas estranho. – Landon deu um soco na barriga de Jones para que ficasse quieto. – Certo, desculpe-me Emma. O que fazemos agora?

Mas não respondi de imediato, estava estudando meus braços e a forma que a capa havia se moldado a eles como se fossem asas. Da primeira vez que a usara, não havia prestado atenção nesse detalhe. Procurei um vidro para que pudesse estudar meu reflexo e meu rosto estava com as bochechas mais anguladas que de costume, meus cílios estavam mais espessos e os cabelos estavam para trás, com um enfeitei que lembrava uma coroa invertida.

–Isso aconteceu da outra vez?

–Para ser sincero, eu não prestei atenção, Emma. – Bae respondeu. – Estávamos tão desesperados para sair daquela ilha...

–Sim. Eu entendo. – voltei-me para eles. – Todos para debaixo das asas.

Killian riu.

–E você falando que não tem crianças para tomar conta. Três garotos debaixo de suas asas, Swan quer mais o que?

–Fique quieto e venha logo!

–Espere. – ele saiu correndo da cozinha e voltou, segundos depois. – Não podíamos esquecer seu presente. – mostrou-me a caixa.

Jones ficou ao meu lado, olhando-me com uma expectativa quase infantil, enquanto Bae e Landon se ajeitavam. Os envolvi, escondendo-os nas penas brancas e fechei os olhos, imaginando o cheiro do mar, o barulho das ondas, a forma que o vento cantava ao passar pelas velas. Imaginei o cheiro de madeira molhada do convés, e o rum. Imaginei cada detalhe do navio em minha mente.

O colar que eu não tirava no pescoço para nada esquentou como da outra vez, mas não houve a forte ventania. Fomos envolvidos por uma sensação molhada e refrescante, como se água estivesse nos atingindo e então o familiar barulho das ondas chegou de leve aos meus ouvidos, assim como o cheiro salgado.

Killian começou a rir de incredulidade e admiração. Abri os olhos, nos encontrando novamente no convés do navio, que continuava em um estado lamentável, da tempestade que o atingira.

Jones deu um beijo demorado em minha bochecha, antes de me abraçar com força e apenas me soltar quando reclamei de dor.

–Você é incrível, Swan! – ele gritou, erguendo-me do chão. – Estamos em casa!

–Agora o que? – quis saber Bae.

–Descobrir quem teve a ideia de nos abandonar. –Killian começou indo abraçar o mastro.

–E consertos no Jolly Roger. – Landon completou, fazendo uma careta para o mastro.

–E precisamos querenar o navio. – acrescentou Jones, puxando-me pela mão. – Acorde os homens. Colocarei minha Swan na cama e então resolveremos isso.

Notas finais
Foi isso. Espero que tenham gostado do capítulo e não que seja importante, mas meu note teve conserto, ele já está em casa e estamos muito felizes com sua recuperação, ushaushau. Semana que vem não teremos capítulo porque estarei viajando (mereço um descanso, não?) e na outra semana não garanto capítulo, pois minhas aulas da faculdade começam e eu não sei como serão as coisas daqui pra frente. Espero que a primeira semana seja calma. Contudo, mantenho vocês informados pelo twitter. Muito obrigada novamente a Handstomorrison pela recomendação. E obrigada a pessoas do twitter por surtarem com os capítulos e dessa forma incentivá-la a ler Traiçoeiro, shauhsaua. Acho que foi isso. Muito obrigada por lerem. Beijos.