Traiçoeiro

28 Capítulo 28


Notas iniciais
Hey meus amores, como estão? Desculpem o atraso e espero que gostem desse capítulo. Realmente espero. Boa leitura.

–O que a fez perceber isso? Meu sorriso? Ou minhas vestes? – brincou me estendendo a mão. – Vamos. Eu não mordo. – me incentivou quando a encarei sem me mexer.

A deusa soltou um suspiro e abaixou a mão, se virando de costas para mim. Pela primeira vez consegui desviar os olhos dela e observar o meu redor.

As altas paredes escuras me chamaram à atenção e as estudei com cuidado, as rochas irregulares e pontudas, e por mais estranho que pareça, naquele ambiente elas não pareciam assustadoras. Eram exatamente como eu havia imaginado: negras, úmidas e prontas para exibir um cadáver em suas pontas.

–Imagino que esteja com fome. – comentou a deusa calmamente indicando a mesa posta. Ela se sentara no topo e tudo levava a crer que a cadeira afastada estrategicamente era minha. – Tenho água... Algo me diz que você está morrendo por um pouco.

Aquiesci minimamente e segurei em minha perna direita para conseguir andar, ainda olhando as paredes, vendo pequenos vultos acenderem as tochas que ficavam presas a elas, revelando quadros de diferentes épocas, como se estivessem contando a história desde a criação.

–Sua perna ainda a incomoda? – quis saber sem me encarar. – Provavelmente nunca mais poderá andar normalmente, porém isso é melhor que ficar sem ela. E claro, que ainda sentirá dor e desconforto pelo corpo, mas isso será temporário.

Fitei a deusa confusa, para então finalmente me estudar e fiquei boquiaberta.

Toquei meus braços com as pontas dos dedos, meu pescoço, meu rosto e podia sentir as cicatrizes sobressalentes e esbranquiçadas, como se eu as tivesse adquirido há muito tempo e não algumas horas atrás.

–Achei que gostaria de ficar com suas cicatrizes. – observou. – Para que possa dizer ao mundo que é uma sobrevivente... Afinal apenas vivos as possuem, os mortos nunca as terão. Cicatrizes são formas de contar nossas histórias e são...

–Lindas. – completei em um sussurro, sentindo a fina linha em minha bochecha e gostando de perceber como estava lisa em minha pele, apesar de existir e com toda certeza desfigurar meu rosto.

Hel assentiu.

–Eu estava ansiosa para conhecê-la princesa... Sinto muito que tenha passado por todas essas provações, mas se não existissem, todo mundo iria decidir me fazer uma visita e eu as detesto. Perceba como o silêncio é agradável. – a deusa fechou os olhos, uma expressão de prazer surgindo em sua parte viva. – Contudo visitas de pessoas como você me deixam feliz quando decidem aparecer;

Abri um sorriso hesitante, indo me sentar à cadeira vaga ao seu lado.

–Está com frio? Que pergunta! Claro que está. – murmurou para si mesma, se virando para trás, me dando a visão perturbadora de seu interior podre. – Decrepitude? – chamou. – Sirva a princesa e mande Senilidade trazer aquela capa que havia separado para ela.

Observei um velho todo curvado aquiescer, fazendo uma mesura, me dando a impressão que desmontaria a qualquer momento. Ele parecia... Que estava morto há muito tempo, mas seu corpo fora obrigado a continuar trabalhando.

Os olhos vítreos e bochechas fundas, pele macilenta e a expressão cansada, me assustaram a ponto que o dispensei com um aceno de mão, e comecei a me servir por conta.

–Onde está Killian? – indaguei finalmente, depois de minutos encarando a comida e água que tanto ansiava em atacar, mas parecia errado fazer isso sem ele aqui.

Hel desviou os olhos do próprio prato.

–Seu amante não passou no teste, princesa. – respondeu dando de ombros.

Senti minhas bochechas esquentando.

–Killian não é meu amante. – balbuciei levando a taça com água à boca.

–Não? Peço desculpas, pois acho que entendi errado, a relação de vocês...

Neguei com a cabeça, esticando os lábios em um leve sorriso.

–Lhe garanto que não é a primeira, deusa.

–Por favor, Hel. Apenas Hel, princesa.

–Sendo assim peço que me chame apenas de Emma, já que não sou princesa... Eu realmente gostaria de ver Killian se fosse possível... Só estou aqui por causa dele. Jones tem interesse na Cabeça de Falada.

Hel me olhou como se eu estivesse louca.

–Cabeça de quem?

Senti meu rosto indo parar no chão, já imaginando no equivoco em que havíamos nos metido. Claro que não existiria a cabeça de uma égua falante que teria a resposta para a maior dúvida em si.

–Falada. Sabe? Daquela história...

–Sim, sim. Aquela que a princesa é mandada para o outro reino para se casar, mas durante o caminho a criada a obriga a trocar de lugar, após ver que a princesa perdeu o lenço com as três gotas de sangue que sua mãe, a rainha lhe dera para que a protegesse. Chegando ao reino, a criada é tratada como princesa, e a verdadeira princesa é, mandada para ajudar o menino que guarda gansos. Mas a criada com medo que Falada, a égua que pode falar, acabasse por expor o que fizera, pede para o príncipe que mande o carrasco se livrar dela... Eu não em lembro direito o que acontece então. Poderia me ajudar?

Afirmei com a cabeça, limpando a boca.

–A princesa ao ficar sabendo disso, suborna o carrasco para que coloque a cabeça de Falada na entrada de um grande portão pelo qual ela tem que passar todas as manhãs para guardar os gansos. O carrasco assim o fez, e quando passou na manhã seguinte a princesa perguntou “Ó Falada, és tu aí pendurada?” – continuei animada, me lembrando de quando Granny contava aquela história para mim antes de dormir.

–Ao qual a cabeça respondia: “Princesa, como está maltratada! Se sua mãe soubesse, ficaria mortificada” – concluiu, me encarando seriamente. – Gosto muito dessa história.

–Também, mas seu final é um pouco perturbador... Se fosse comigo, eu não deixaria que colocassem a criada nua dentro de um barril cheio de pregos e fosse arrastada por todas as ruas... A deixaria presa por um tempo, ou a faria ser banida, porém nunca isso.

–Você é boa, Emma... Oh, veja! Sua capa! – exclamou parecendo contente ao ver outro criado, muito parecido com o primeiro, entrar carregando uma capa branca. – Coloque-a na princesa. – ordenou.

–Não há necessidade. Eu mesma a coloco.

–Deixe disso. Senilidade é um criado, é seu dever.

Fiquei parada, enquanto o velho, Senilidade, prendia a capa em meu pescoço e a ajeitava em meu corpo. Fiquei surpresa ao constatar que eram penas, tanto no interior, quanto no exterior da vestimenta. Penas macias e incrivelmente brancas, dispostas com perfeição.

–São penas de cisne. – informou me admirando. – Ela pertence a você.

Apertei a capa ao meu redor, gostando de como as penas tocavam minha pele.

–Posso lhe dizer que nunca tive uma capa assim.

Hel afastou a cadeira, se levantando com uma incrível leveza.

–Um dia, Emma... – suspirou como se fosse uma promessa. – Vamos dar uma volta. Quero lhe mostrar meu reino. – me convidou, se virando em direção à saída, seus passos ecoando no ambiente.

Saltei da cadeira, para acompanhá-la, me sentindo espalhafatosa perto de toda a sua elegância.

–Quanto a Killian? – instiguei novamente.

A deusa olhou para mim com um sorrisinho malicioso e posso jurar que a ouvi resmungar “Não é seu amante, ein?” ignorando minha pergunta.

–Quanto a Landon e Bae? – tentei.

Hel relanceou os olhos para mim.

–Devem estar bem, já que nenhum desses nomes entrou em meus domínios.

Achei que aquela resposta era algo bom. Pelos menos eu sabia que eles ainda estavam em Midgard.

–Se não existe a Cabeça de Falada... Exatamente em busca do que as pessoas vêm ao seu reino? Não deve ser apenas pelo prazer de conhecer a si mesmo e vencer seus medos. Sem querer ofender, ou ser rude... Apenas acho que não vale a pena.

–Algumas pessoas vêm até meu reino com esse propósito sim. Geralmente são almas desesperadas... O que no caso não era a do seu amant... Companheiro. A alma dele saiu do desespero obscuro há alguns meses... E nem imagino quem seja a causa disso. – sussurrou empurrando a porta e dando em um grande salão de baile, com armaduras medievais e espelhos ao longo das paredes como decoração. – Eu lhe disse que não existe a cabeça de Falada... Não neguei a existência de uma cabeça. Garm!- gritou. – Garm onde está você, garoto?

Um cachorro monstruoso branco surgiu correndo desenfreado com a língua de fora, os olhos totalmente negros, brilhando ao encarar sua dona, até que ele parou bruscamente, me estudando para então mostrar os dentes.

–Não se preocupe, Garm é um bom garoto... Apenas não gosta de visitas. – acariciou o pelo da perna do cachorro, recebendo um latido de agradecimento, que me fez fechar os olhos. – Essa é Emma, Garm. Quero que mostre como foi bem educado.

Garm me olhou desconfiado e se virou de costas para mim, mostrando que não iria ser meu amigo... Não que eu fizesse questão. Ele poderia decidir me usar como graveto para jogar e buscar.

–Esse é um dos meus bichinhos de estimação. – explicou, recomeçando a andar, sendo seguida pelo cachorro.

–Então existe uma cabeça?

–Claro. – afirmou. – Ela apenas não se encontra aqui.

–Mas... Mas...

–Emma... Meu reino é apenas mais uma etapa, mas ela se encontra em meus domínios ainda. Você veio atrás da cabeça de Mimir, ele era o guardião da fonte da sabedoria, cuja água é tão poderosa que Odin abriu mão de um dos seus olhos para bebê-la. Mimir era considerado um dos mais sábios dos deuses, conhecimento esse obtido por beber a água. Então ele teve sua cabeça decepada. – contou com pesar na voz. – Contudo Odin a manteve viva para sempre consultá-la. O nome Mimir significa “aquele que pensa”.

Fiquei em silêncio, absorvendo as palavras da deusa. Imaginar a cabeça de um homem, era ainda mais perturbador que imaginar de um cavalo.

–Como pode um deus morrer? Achei que fossem imortais.

–Não nós... Nosso povo nos criou como seres divinos, porém finitos. Esses deuses, inclusive eu, iremos morrer quando o dia do Ragnarok chegar, e quando isso acontecer, novos deuses surgirão. Temos uma vida mais longa que vocês, porém morreremos um dia também... Veja essa é minha cidade: Nifelhel. – disse orgulhosa, como se a cidade sem cor e barulho, fosse o lugar mais lindo que eu colocaria meus olhos. – Aqui é onde tudo acontece. Esses são os trolls, eles são encarregados de levar todos os inimigos das divindades e pessoas más para o caldeirão borbulhante... Não se espante, não mando pessoas para lá por diversão, apenas os que fizeram tantas coisas ruins em vida, que não têm mais salvação.

–Esse é o limbo, não? – indaguei, ao ver várias pessoas ou suas almas, paradas, como se esperassem algo.

Não pareciam estarem sofrendo como sempre era descrito nas pregações que ouvi muitas vezes, mais do que seria adequado para que tivesse algum impacto, do padre da igreja que frequentava.

–Não princesa... Digo, Emma. – Hel respondeu com toda paciência. – Esse é Halja, o lugar onde as pessoas boas esperam sua hora de retornar ao plano terreno. Para Midgard.

–Reencarnação? – instiguei cética.

–Exatamente. Não faça essa cara, pois você já reencarnou apenas não se lembra, e se lembrasse, qual seria o objetivo? Não iria aprender nada se soubesse exatamente o que deveria tentar melhorar... Se bem que no seu caso, você irá continuar em um ciclo sem fim de reencarnação, não porque não mereça descansar, mas porque você sempre terá alguém por quem será responsável na terra. Alguém que deva encontrar em todas as vidas para ser a guardiã... São pequenos preços a serem pagos por ser um ser de luz. – concluiu.

Esperei que ela falasse mais alguma coisa que me desse uma resposta sobre o que eu era, mas vendo que Hel não faria isso apenas assenti como se tivesse feito algum sentido o que ela havia acabado de falar.

–Aqui Emma. – recomeçou, indicando com os braços como se quisesse abraçar tudo. – É onde sua religião chama de “inferno”, mas o fato de ser o submundo, não quer dizer que seja de tudo ruim. Eu não sou o diabo que desenharam. – resmungou, como se a ofendesse esse titulo. – O lugar não é o mais lindo do mundo, e sim muitos temem, apenas porque têm medo da morte. Eu não sou ruim. – reforçou. – Eu protejo aquelas mulheres e crianças que morrem durante o parto, tanto que muitos me confundem com Bertha. Aceito todos que não morreram de forma heroica, pois não posso deixá-los vagarem pela terra e nunca terem um descanso, que culpa tem eles por não terem nascidos para serem guerreiros, assim não podendo ser aceitos em Valhallah? Eu analiso cada caso, antes de decidir seu futuro. Eu não tenho descanso. Não sou boa e nem má, Emma, sou neutra, justa. Assim como minha aparência, não sou luz e nem escuridão, mas sim ambos. Sou as enfermidades da terra, assim como sua fertilidade. Sou a vida vinda do ventre, como a morte que se encontra no túmulo.

A estudei, percebendo que pela primeira vez, a deusa que sempre se mostrara calma, havia se tornado um pouco transtornada, quase que chegando à frustração.

–As pessoas gostam de apontar e dizer que fui banida por Odin de Asgard, quando esse reino, meus domínios e meu status como deusa, foram presentes dele... Mesmo com o pai que tenho... Esse é meu cavalo.

Pisquei aturdida, em como ela mudava de assunto rápido, vendo um cavalo negro de três patas, ser trazido pela giganta Mordgud.

–Ele nos levará até as raízes da Yggadrasil... Não é um dos lugares mais agradáveis dos meus domínios, porém é onde fica sua fonte e Odin preferiu deixá-lo lá, imagine o desastre que seria se todos tivessem acesso?

Olhei ao redor, vendo que estávamos no limite. Aquele era o portão que eu usaria para sair do reino da deusa.

–Jones... – comecei.

–Foi você que conseguiu Emma. – a deusa me interrompeu séria. – Não acha que tem o direito de obter algumas respostas também? Eu sei que as perguntas estão borbulhando aí dentro.

–Sim, mas...

–Você poderia perguntar sobre sua mãe, ou sua origem... Não acha que merece isso? Você fez tudo sozinha praticamente, a única que abraçou a jornada foi você. Venceu seus medos, se esforçou ao máximo, não quis se esconder. Me diga... Acha justo ter feito tudo isso para dar o prêmio para seu companheiro? – questionou.

Abri a boca, querendo responder que “sim, era justo”, porém não consegui. Eu queria respostas também e caramba! Jones estava me escondendo algo importante, algo que poderia me ajudar ao que parecia... Não seria mais fácil eu aceitar e ter minha resposta, assim encurtando minha busca? Dependendo do que eu ouvisse, poderia simplesmente voltar para casa.

Se de fato minha mãe não fosse quem eu pensava, eu deixaria tudo para trás e retornaria para a segurança das paredes da minha casa. Ouviria contente o sermão de meu pai, e de Graham provavelmente, contudo conseguiria chegar ao fim do dia, sabendo que estaria segura para começar o próximo.

Aquela era a minha chance de ter minhas respostas, e sim, eu merecia elas. Lutei para chegar ali, quase morri para isso. Eu havia passado no último teste, por que daria para Jones, assim de mãos beijadas?

Fui em direção ao cavalo, determinada a subir e ir atrás daquilo, quando a culpa me atingiu, me deixando sem fôlego.

Se eu havia feito tudo aquilo, foi na intenção de ajudar Killian... Esse era o prêmio dele. Ele merecia subir naquele cavalo e ir ter sua resposta.

Eu estava sendo egoísta em pensar em mim, em minha segurança, em acabar logo com a busca e voltar para casa... Quando nem sabia se de fato queria isso.

–Não irei sem Killian. –informei. – Se não pudermos ir nós dois, quero que ele vá por mim.

Hel abriu um sorriso sem graça, acariciando o dorso do cavalo.

–Creio que isso não será possível.

–Por que não? É apenas abrir esse portão e deixá-lo entrar. É simples.

–Você não entende Emma?

Algo no tom de voz da deusa me fez ficar alarmada.

–O que aconteceu com Killian? – questionei sem rodeios.

Hel montou no cavalo e me estendeu a mão boa, para que eu subisse atrás dela.

Sem perder tempo fiz isso, sendo auxiliada pela giganta, que assim que me ajeitou foi abrir os portões que davam para o rio dos Ecos.

O cavalo começou a trotar e eu esperava que assim que pisássemos na ponte, as lamúrias que eu podia ouvir antes fossem me atacar, se envolvendo em mim e me puxar para que me tornasse uma delas. Contudo conforme íamos avançando lentamente, o silêncio inerte predominou, assim como a escuridão e o frio.

–Isso é como uma alma tomada pelo desespero e falta de perspectiva parece. – Hel murmurou suavemente, porém parecia que tinha gritado a plenos pulmões. – Fria e impossível de se habitar.

–São essas pessoas que você falou que vêm em busca de seu reino? — quis saber em um sussurro fraco.

–Sim Emma. Me diga como você se sente aqui?

–Como se estivesse sufocando e agoniada.

–Agora imagine ter que viver assim todos os dias. Como se sentiria?

–Presa. Sem esperança nenhuma de algum dia sair... Na verdade, iria sentir muita dor se tivesse que viver assim.

–E elas sentem Emma. É uma dor tão forte e insuportável, que as dores do corpo mortal são insignificantes... Na verdade, elas são a única maneira de perceber se ainda estão vivos. Você me perguntou em busca do que as pessoas vêm até aqui... Não acha que elas se sentem bem ao ver que ainda são capazes de sentir alguma coisa enquanto passam pelas provações?

Demorei uns segundos para responder, tentando guardar as palavras da deusa.

–Eu não sei como me sentir quanto a isso. — fui sincera. — Você disse que a alma de Killian estava nessa situação, não disse?

–Sim, eu disse. — concordou. — Mas não mais... Você o salvou disso. Entenda que ele realmente é um homem bom, mas saiu de casa muito cedo, se alistou para fazer a diferença e acabou por sofrer abusos físicos de seus superiores, até ele enfim se tornar um. Então se apaixonou e perdeu aquela luz de calor que o fazia sorrir apesar de tudo... — Hel hesitou como se considerasse se acrescentava mais coisas ou não. — Ele se perdeu. E quando uma pessoa se perde, nunca é culpa dela. Seu companheiro tem muitas coisas da quais se arrepende agora que voltou a si. Emma, uma alma triste se torna destrutiva. Seja para as pessoas ao redor, ou seja para si mesmo. De uma forma ou de outra, todos são afetados.

–Eu não fiz nada...

–Você lhe deu uma amizade que ele nunca teve, com ninguém com que conviveu. Você lhe ensina coisas novas todos os dias, mesmo que não perceba que faz isso. Você cuida dele, coisa que Killian não tinha desde que saiu de casa. Ele se sente amado novamente.

Escondi o rosto na minha capa, para me proteger daquilo, como também do cheiro de podridão que exalava da deusa, pensando em suas palavras. Enquanto continuávamos o caminho em silêncio, me lembrei de uma mulher que conhecera anos antes, havíamos praticamente crescido juntas, mas ela nunca demonstrou nada, nunca sorria, nunca brincava. Lembro que em seu casamento, seu rosto permaneceu o mesmo, o momento todo.

Nem um único sorriso a cerimônia inteira.

A visitei algumas vezes após isso, principalmente para ver o lindo garotinho que havia dado a luz. Eu ficava horas com o bebê, enquanto ela permanecia na cama, olhando para fora, olhos vítreos, sem qualquer sinal de emoção, para em certos momentos começar a gritar e chorar, se batendo, até que eu era retirada do quarto com o bebê nos meus braços sem entender nada.

Poucos meses depois chegou à notícia que ela havia se matado.

Simples assim. Ela decidira que não queria mais viver.

“Algumas pessoas já nascem triste” Granny dissera, quando fiquei com aquilo na cabeça por muito tempo, sem conseguir entender o por quê de ela havia feito aquilo. “Outras se tornam tristes por conta de problemas que elas não veem solução ou situações que a vida lhes dá. E simplesmente é uma luta viver um dia de cada vez... Pense como uma amarra de espartilho, se eu puxar demais uma hora...?”

“Ele irá arrebentar” respondi, tentando sentir o desespero que era viver daquele jeito, mas sem conseguir.

Percebi que havíamos chego quando o cavalo finalmente parou, e me atrevi a voltar a abrir os olhos, me encontrando exatamente no último lugar onde estivera com Jones. Saltei do cavalo, sentindo uma fisgada em minha perna direita, o procurando.

O encontrei deitado de bruços, quase perto da floresta de ferro. Fui até ele, me agachando para virá-lo.

–Killian. – o chamei, observando seu rosto cheio de cortes. Ele permaneceu imóvel. – Querido? – tentei novamente. – Jones, agora não é hora para brincadeira! – o repreendi, tocando sua bochecha. – Ah não! Não, não, não. Por isso você disse que não era possível. Ele está morto! – me descontrolei, levantando e começando a andar de um lado para o outro sem conseguir olhar para Jones. – Não era mais fácil ter dito antes?

–Se soubesse antes a faria mudar de ideia? – Hel quis saber, ainda montada em seu cavalo, sem se deixar abalar pelo meu estado.

Parei de andar a encarando com raiva.

–Se eu soubesse que um dos dois iria morrer eu o teria convencido a nem vir até aqui! Ah, Killian querido, se eu tivesse conhecimento que acabaria assim, eu teria deixado-o ganhar. – voltei a me agachar do seu lado, tirando o cabelo que caia em sua testa. – E agora o que eu faço? – sussurrei, esperando que ele me orientasse de alguma maneira.

–Você tem certeza que ele está morto? – Hel questionou.

–Claro que tenho certeza! Ele não está respirando. – respondi com rispidez, apertando a mão de Jones, como se quisesse passar um pouco da minha vida para ele.

–Você tem certeza? – insistiu.

Olhei-a por cima do ombro, para ver sua expressão, mas ela não deixava transparecer nada.

Deitei a cabeça no peito de Killian e fiquei parada por alguns segundos, nem me atrevendo a respirar, quando ouvi as batidas, vindo lá de dentro.

Senti o sorriso de alivio surgindo em meu rosto e me deixei descansar por uns minutos naquela posição, meus dedos inquietos brincavam com a pele exposta de seu peito, se enfiando nos pelos macios.

–Acredito que agora seja hora de irmos. – a voz da deusa quebrou aquele momento, em que eu ouvia o coração de Jones, batendo, para mostrar que ainda estava vivo.

Neguei com a cabeça, decidida.

–Eu não irei sem Killian. — afirmei. — Deve ter algo que possa ser feito para que ele vá junto. Para que ele fique bem.

A deusa sorriu.

–Você o ama. — concluiu.

Soltei uma risada esquiva, colocando minhas mãos na cintura, controlando a respiração, embora não tivesse muito sucesso em fazer o mesmo com o meu coração.

–Não. Não o amo. — garanti. Hel arqueou a sobrancelha, me fitando descrente. — Eu não o amo!- reafirmei exasperada.

–Não é educado mentir para uma deusa, Emma.

–Mas não estou mentindo... Eu... Eu apenas me importo com ele. Assim como me importo com todos, eu faria isso por qualquer um... Certo, talvez eu o ame. – confessei diante de seu olhar de descrença. Hel sorriu quando fiz isso. — Mas como amigo. – acrescentei. – Jones é meu amigo e apenas estou aqui para ajudá-lo, como ele está me ajudando.

–Se você quer chamar isso de amizade... – ela deu de ombros. – Eu preciso levá-la até a fonte para que fale com Mimir... Tenho muitas coisas a serem feitas aqui, Emma... Vamos, seu companheiro gostaria que fosse em busca de respostas no lugar dele.

Voltei a fitar Killian novamente, afagando seu rosto sujo de sangue, parecendo tão vulnerável.

Eu não poderia deixá-lo para trás, para conquistar aquilo que ele queria. Não era de meu feitio me apossar das vontades dos outros.

E além disso eu tinha a impressão de estar sem ar, apenas de pensar em não tê-lo mais, não ver mais seu sorriso ou ouvir seus flertes.

Sentiria falta dele, mais do que seria saudável.

–Eu quero minhas respostas, mas elas não são mais importantes do que Killian. Quero levá-lo comigo, mesmo que eu não possa falar com a cabeça... Gosto de acreditar que terei minhas respostas no tempo certo.

–Você nadou, nadou, para desistir agora?- questionou.

–Eu não estou desistindo. Estou escolhendo o que é mais importante para mim. Terei minha resposta e então o que acontecerá? Acabarei com isso logo, mas viverei para sempre com a culpa de tê-las conseguido a custas de um amigo. Se escolher Jones, sei que terei um amigo para me ajudar a encontrá-las. E essa, deusa, é uma opção que me agrada bem mais. Por favor, me diga que tem algo a ser feito.

Hel suspirou.

–Eu espero que você continue com esse pensamento quando a verdade vir à tona. — a ouvi falando em tom baixo para si mesma. — Posso deixar os dois em segurança em Midgard, mas você terá que se esforçar para conseguir salvá-lo.

–Eu irei. – prometi.

–Emma se escolher isso não poderei deixá-la falar com Mimir, se lembre disso. É uma escolha. Se for para Midgard, leva seu companheiro, mas sai daqui sem aquilo que veio atrás.

–Jones veio interessado na cabeça, não eu. Eu estava até que bem com o meu plano original de perguntar sobre a minha mãe toda vez que atracássemos. Então o que estamos esperando? Nos leve para Midgard! – guinchei, parecendo apavorada demais, o que tirou um risinho da deusa.

–Muito bem, então. Vamos. E pode chorar Emma. Suas lagrimas estão a salvo comigo. – me deu uma piscadela.

Mordgud, que aparentemente estava ali o tempo todo, andou a passos pesados até onde estava com Killian e o pegou do chão, com pouca delicadeza, grunhindo e indicando que eu fosse na frente.

Montei no cavalo, deixando um espaço entre a deusa e eu para que Jones fosse colocado entre nós duas. Apoiei sua cabeça em meu ombro, o segurando com todas as forças, sentindo o cheiro de sangue seco e novo que ainda saiam dele, fazendo meu estomago embrulhar com o aroma metálico preso em sua pele.

Hel não esperou que eu avisasse que poderia ir. Ela puxou as rédeas e o cavalo se colocou em movimento, tão leve que não parecia estar andando e sim flutuando.

Apertei o rosto no pescoço de Killian, sentindo seus vários machucados abertos e tentando não pensar neles. Naquele momento enquanto cavalgávamos de volta para Midgard, imaginei Jones bem, me lembrei do som e tom de sua voz, de como ficava grave quando estava flertando apenas de brincadeira, ou como ficava rápida quando estava nervoso, a deixando um pouco estridente, não que eu fosse dizer isso para ele algum dia. Como soava carinhosa durante a noite quando conversávamos em sua cabine. De como sua sobrancelha parecia ter vida própria. Recordei seu rosto quando acordava os olhos ainda pequenos de sono, os cabelos bagunçados como se tivessem participado de uma guerra enquanto ele dormia e como passava a mão no rosto para despertar, para então me chamar, sempre com um tom de dúvida.

“Aguente firme” pensei, sentindo um calor, tomando conta de meu corpo. Imaginei esse mesmo calor saindo e o envolvendo como um cobertor para mantê-lo aquecido.

–Você acha que aqui está bom? – a voz de Hel me chamou atenção, me fazendo levantar a cabeça para ver que já havíamos chegado.

–Claro. Está ótimo. – garanti.

Hel desceu do cavalo, segurando Killian para que eu fizesse o mesmo, então nós duas o descemos do animal, com a maior delicadeza possível, o deitando na areia negra.

–Emma... – ela começou, me observando deitar a cabeça de Jones em meu colo. – Não é seu amante?

–Não, não é meu amante, Hel. Acredito que não era isso que ia dizer quando começou.

–Tem razão, não era... Eu iria dizer que é para você procurar conhecer esse seu dom, então quero que vá a um lugar onde poderá achar respostas sobre quem você é. – sugeriu.

–E onde seria esse lugar?

–Onde as melhores éclairs do mundo são preparada. – respondeu como se fizesse todo sentido essa pista.

Onde as melhores éclairs eram preparadas?

–Belle. Eu tenho que buscar Belle? – indaguei sem acreditar.

–Talvez. – cantarolou a deusa, voltando a montar em seu cavalo. – Não esqueça que agora você é um cisne. Os cisnes têm asas para que possam voar. Agora você tem suas asas. – Hel apontou para a capa que havia me dado.

–Que história é essa de cisne...?

–Não. – ela me interrompeu. – Você disse que prefere buscar as respostas com seu “amigo”, agora é o momento. – sorriu, para ficar séria logo em seguida.

–Muito obrigada, Hel. Por ter nos deixado sair.

–Não me agradeça. Não podia deixá-la sair de meu reino sem nada já que lutou tanto para chegar até lá... – Hel comprimiu os lábios, pensativa. – Antes que eu me vá: lembre-se sempre de ser justa, Emma. Nunca, nunca decida as coisas no calor do momento, isso apenas atrapalha tudo. Tome decisões de cabeça fria e não se esqueça que todas as pessoas cometem erros, alguns muito graves e que podem lhe machucar, mas que assim como elas erram, elas também se arrependem. Olhe tudo como um todo, olhe toda a paisagem e não apenas aquilo que é feio. Todos tem o direito ao perdão quando todas suas atitudes demonstram que eles estão arrependidos de verdade.

–Obrigada pelo conselho, vou manter isso em mente.

–Ótimo. Foi muito bom lhe conhecer, princesa. E não vou dizer que espero vê-la em breve, mas quem sabe nos encontramos, quando for à hora de seu herdeiro nascer? Vejo se consigo estar com Bertha.

Olhei surpresa para ela que começava a ser envolta em uma névoa prateada.

–Eu serei mãe um dia?

Escutei a risada da deusa em minha mente.

“Se tudo sair como está no escrito, sim. Será mãe dos filhos de seu guerreiro, aquele que está destinado para você proteger.”

Estava prestes a perguntar, quando percebi que... Hel já havia desaparecido.

Olhei para Jones, e beijei sua testa, pensando em como iria ajudá-lo, ao mesmo tempo que algo dançava dentro de mim.

Eu sobreviveria para me tornar mãe.

–Você ouviu Killian? Isso quer dizer que eu vou conseguir. Irei voltar para casa e ter minha família. Eu terei filhos, isso não é incrível? Eu espero que vá me visitar quando isso acontecer, sua amizade é algo que estimo muito... E claro, para que eu saiba se anda se comportando. – murmurei, encostando minha bochecha em sua testa.

–Emma? – uma voz me chamou duvidosa. Ergui a cabeça, me deparando com Landon e Bae, me encarando a poucos passos, como se não acreditassem no que estavam vendo. Sorri para eles, vendo que estavam muito machucados, e famintos provavelmente. – Emma! – Landon exclamou, correndo minha direção, assim como Bae.

Sorri, o alivio me atingindo por completo ao vê-los bem, apesar dos ferimentos.

Abri os braços, para recebê-los quando se agacharam ao meu lado, sendo retribuída ao mesmo tempo por ambos.

–Graças a Deus, eu estava tão preocupada com vocês. – falei, me afastando para poder ver o rosto de ambos.

–O que aconteceu lá embaixo? – Bae indagou, percebendo minhas cicatrizes.

–Tantas coisas terríveis... Eu conheci a deusa, e acreditem ou não ela é... Neutra. Tem uma parte viva e outra como um cadáver... E não gosta de visitas.

–Bom saber, assim não voltamos mais. – Landon observou com cinismo, olhando para Killian. – Ele está...?

–Não, não. Apenas muito machucado. Killian perdeu na última etapa e quando eu o encontrei ele estava assim, desacordado. Precisamos voltar para o navio, para que eu possa limpar os...

–Então... – Bae me cortou parecendo sem graça. – O navio... Ele desapareceu.

–O que? – minha voz saiu estridente. – Eles nos largaram aqui?

–Ao que parece. – Landon murmurou, puxando uma folha de ferro que estava presa no braço de Killian. – Por que você não está machucada?

Eu havia ouvido a pergunta, mas estava perplexa demais com a ideia de que havíamos sido abandonados ali pela tripulação. Simplesmente não parecia possível. Eles não foram conosco, mas também não imaginei que nos abandonariam.

–Ahn... Acho que tem a ver com quem vence. Eu fui aquela que conseguiu passar por tudo, assim tive uma pequena recompensa pelo dano causado no trajeto.

–Então você falou com a cabeça? – Bae quis saber.

Olhei para Killian que continuava desacordado e parecendo que continuaria assim por muito tempo. Afaguei seus cabelos sujos e soltei um suspiro.

–Não. Eu escolhi voltar para cá com Killian, se eu tivesse ido falar com a cabeça de Mimir, eu teria que deixá-lo para trás... E eu não faria isso. Vejam, eu irei contar tudo que eu me lembro, mas quando conseguirmos sair daqui. Eu estou cansada, e preciso limpar os ferimentos de Jones antes que cheguem a ponto de gangrenar e ele acabe morrendo.

–Emma, nós dois já tentamos... Não tem saída sem um barco. Sem falar dessa serpente que pode decidir nos atacar novamente. – Landon estremeceu a se lembrar.

–Eu estou feliz que não tenha virado comida de serpente monstruosa, Landon. – disse com sinceridade, apertando seu braço.

–Por incrível que pareça, eu também. – brincou. – Nós vamos dar um jeito, Emma... E espero que rápido.

–Quanto tempo vocês não comem? – questionei.

–Desde que chegamos, mas já estamos acostumados ficar tantos dias sem comer. – garantiu Bae.

Percebi Landon olhando para cima, e fiz o mesmo, para ver o que tinha chamado sua atenção. Um pássaro vermelho fogo voava em círculos sobre nossas cabeças, como se estivesse querendo dizer alguma coisa.

Logo estávamos os três o observando, o animal planando por longos minutos sem nenhum motivo aparente.

Uma de suas penas caiu bem em cima do peito de Jones e então o pássaro sumiu.

–Isso foi estranho. – Baelfire comentou, se colocando de pé.

Peguei a pena, estudando-a, até que se tornou branca em minha mão.

–Caramba... Ficou branca igual às penas da sua capa. – Landon apontou.

“Cisnes sempre podem voar para casa quando sentem saudade.” Branca havia dito uma vez para mim.

“Não esqueça que agora você é um cisne. Os cisnes têm asas para que possam voar. Agora você tem suas asas.”Hel havia falado que a capa era feita de penas de cisne e que pertencia a mim.

Acho que agora estava meio obvio que eu tinha algo relacionado a cisne.

Apertei a pena contra o peito, fechando os olhos e tentando entender o que eu deveria fazer. Como eu poderia “voar” e tirar todos dali.

–Venham até aqui. – pedi com urgência, abrindo a capa e indicando que os dois se enfiassem ali debaixo.

–Emma...

–Não questionem, apenas façam. Quero testar uma coisa.

Landon e Bae se entreolharam e deram de ombros, fazendo o que eu pedi.

Envolvi os dois, puxando Killian com delicadeza para mim, o segurando próximo ao meu corpo, para que fosse envolto pela maciez branca. Meu colar esquentou, dando a impressão de estar queimando minha pele e sua luz se tornou mais forte que antes.

–O que diabos...? –Landon começou, ficando em silencio quando um vento forte atingiu a praia, nos fazendo fechar os olhos e se encolher.

Imaginei a casa de Belle, não a residência em Paris e sim a de campo. Eu sabia que nessa época estaria vazia e seria um ótimo refugio para ficar por um tempo. Mandaria uma carta para ela assim que chegasse, informando que estava ali, e poderia lidar com os poucos criados que ficavam para manter tudo limpo para quando seus senhores fossem passar o verão.

Então, o vento parou e tudo ficou quieto. Os únicos sons que eu ouvia eram de nossas respirações e Bae soltando um praguejamento, seguido de Landon.

–Emma... Como... Como fez isso? – Landon indagou parecendo assombrado. – Libélula tinha razão, você é especial. Onde nos metemos Killian? – o escutei murmurando, ao sair do meu lado.

Abri os olhos, me deparando com a casa de campo que eu passara muitos verões, sentindo a grama pinicando minha pele.

–Eu não faço a mínima ideia de como fiz isso. Acho que porque eu sou um cisne. – balbucie atordoada. – Me ajudem com Killian. Tenho que avisar Belle que estamos aqui.

Notas finais
Então? O que acharam? Peço que me perdoem se ficou muito tédio, eu fiz o melhor para deixá-lo o menos parado possível... Espero que tenha dado certo. Muito obrigada por lerem e até mais! Beijos.