Traiçoeiro

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Olá meus amores, como passaram a semana? Estou aqui com um capítulo novo para vocês e espero que gostem. E wow, mal posso acreditar que a fic recebeu outra recomendação, isso é tão surreal! Muito, muito obrigada Titta pela recomendação tão querida, eu amei. Tomara que goste do capítulo. Boa leitura.

–Emma. Emma acorde, Landon a está chamando. – Bae me cutucou.

Virei para o lado, soltando um som de desagrado por ser acordada justamente quando havia conseguido pegar no sono. Passei a noite inteira repassando o que tinha acontecido e tentando entender o que se passava dentro de mim. Cada toque, cada palavra, cada sensação que me atingiu na noite passada ainda estavam presentes em todo meu corpo.

E dessa vez eu definitivamente não queria encarar Killian.

–Emma? – Bae chamou novamente. –Você está se sentindo bem?

Abri os olhos, fazendo sombra com a mão para poder olhar seu rosto.

–Estou bem, só não tive uma boa noite de sono. – respondi me sentando, esperando minha mente acordar para dar os comandos necessários para o corpo.

–Ficou pensando na profecia?

Olhei para seu rosto, me sentindo um pouco desorientada. Claro que havia sido a profecia que me tirou o sono. Aquela profecia “por que raios eu deixei o beijo acontecer quando tive chance de fugir”?

–É. Acontece que tudo é muito confuso para mim, não sei como me sentir quanto a isso.

–Você vai ficar bem, Emma. – garantiu me estendendo a mão. – Agora vamos que exigem sua presença.

Aceitei a mão de Bae, e deixei que me conduzisse até a cabine de Killian, já que se dependesse de mim eu não entraria lá de novo tão cedo.

Foi imediato. Assim que pisei e me permiti levantar a cabeça, encontrei seus olhos azuis me fitando. Meu coração começou a bater rápido, como se estivesse contente por vê-lo. Me forcei a desviar o olhar quando vi um sorriso querendo se formar em seu rosto. Tudo o que eu menos queria era que ele zombasse de mim ou fizesse algum comentário na frente dos dois.

Bae me soltou e foi se sentar ao lado de Landon. Killian atravessou a cabine até estar ao meu lado. Não atrevi respirar, apreensiva com a proximidade.

–Swan. – murmurou me causando um arrepio.

–Bom dia, capitão. – respondi me afastando e indo para o lado de Bae. Segurei em seu braço, como se ele pudesse me proteger de meus erros. – Bom dia, Landon.

–Emma! –exclamou animado. Era bom ver alguém feliz daquele jeito. – Acho que consegui. Veja. – ele deslizou o pedaço de papel para que eu pudesse ler.

“O cheiro podre da morte irá anunciar que haverá mortos demais.

( O reino da senhora dos mortos se encontra próximo ao rio, Nastronol, logo conseguiríamos sentir o cheiro da morte assim que chegássemos)

Com a travessia pela garganta do diabo, aquele que sobreviver, diretamente ao inferno chegará.

(Talvez refere-se a ponte (provação) que liga à morada da deusa. Segundo a crença, Hel vive em um palácio feito de gelo, conhecido como “Elvidner” ou miséria, onde ela come em seu prato chamado “fome”, usando um garfo de nome “penúria”, com seus serviçais “senilidade” e “decrepitude”)

Um lugar onde a água do mar em sangue inocente se transformará, deverá se banhar, para que as criaturas das bestas o deixe passar.

(Acreditamos que seja o que chamam de “rios dos ecos”, mas antes de chegarmos ao rio teremos que passar pelo caminho da “provação”(o que acredito ser aponte citada no trecho acima)

Ao seguir pelo rio de cadáveres, na ilha maldita atracará. Apenas aquele com o coração cheio de culpa terá a coragem de nela adentrar.

(Assim que conseguir atravessar o rio, teremos que passar pela “Floresta de Ferro”, não tenho certeza do que significa, mas algo me diz que não é nada bom)

Se vencer o monstro do reflexo, o grande prêmio ganhará.”

(O portão do reino é guardado por um gigante, que avalia o que motivou a pessoa chegar. A maior provação estará ali, onde ela provavelmente irá nos fazer encarar o pior de nós)

–Parece... animador. – comentei com uma careta. – Está certo disso?

Landon assentiu com a cabeça.

–Ontem, fui conversar com um senhor que entende sobre o assunto. Ele me contou tudo: o reino dela é também conhecido como “reino das névoas”, a serpente que está enrolada no mundo se chama Jormungand e é sua irmã...

–A serpente não se chamava Fenrir? – o cortei.

–Como eu mencionei não me lembrava da história toda e acabei confundindo os nomes. – se defendeu, parecendo constrangido.

Soltei um suspiro, separando umas folhas, pegando o tinteiro e a pena.

–Acredito que terá que ficar comigo por um tempo. Quero que me conte a história, irei transcrevê-la para não ter mais confusões. Se você estiver certo, não podemos nos dar ao luxo de errar porque esquecemos um detalhe ou confundimos. – falei o encarando, com uma calma que até parecia que estava discutindo qual seria o cardápio do jantar. – Bae, poderia me dar licença? – indiquei a cadeira que ele estava sentado.

Ele rapidamente se levantou.

–Claro.

–Landon já me contou, posso ficar aqui com você. – Killian se ofereceu.

–Não! – praticamente gritei, apertando a pena na mão. Respirei fundo. — Digo, prefiro que Landon me conte, ele está mais familiarizado com a história. Pode se lembrar de detalhes que o senhor não se lembre.

As feições de Killian se tornaram dura, seus olhos demonstravam que estava aborrecido com a minha reação.

–Tudo bem Srta. Swan. Como desejar. – falou com uma falsa cortesia. – Irei deixá-los trabalhando. – avisou, saindo rapidamente.

Eu encarava a folha que estava à minha frente, minhas bochechas queimavam e eu sentia os olhos de Landon em mim. Eu deveria agir normalmente, não gritar como se estivesse apavorada com a ideia de ficar sozinha com ele, coisa que eu realmente estava.

–Killian deveria trabalhar melhor essas mudanças de humor repentina dele. – Bae comentou. – Do nada ele fica irritadinho.

Concordei com a cabeça, molhando a ponta da pena na tinta.

–Comece Landon. – pedi, tentando limpar minha mente e me focar nas palavras que começavam a sair da boca dele.

[...]

Fui obrigada a admitir que infelizmente aquele beijo, teve sim, um impacto na nossa convivência. Eu não queria, mas teve. Fui tola de imaginar que não teria.

Mais por minha parte, do que pela de Killian. Na verdade ele parecia muito com o Killian antes do beijo, porém eu não conseguia ser a mesma, não conseguia agir normalmente perto dele. Sempre que se aproximava de mim me sentia estranhamente ansiosa e desesperada para sair de perto, mesmo que eu quisesse manter o estranho relacionamento que tínhamos antes. Eu não gostava dos sentimentos que me invadiam quando ficávamos tão próximos, ainda mais por saber que eles eram tão fortes de ambas as partes, pelo que pude perceber.

Sendo assim comecei a passar mais tempo na companhia de Landon e Bae, evitava a todo custo ter que ficar muito tempo na cabine de Killian e só ficava ali quando tinha certeza que não voltaria logo. Ou então deixava a porta aberta quando era necessário que trabalhássemos juntos, porém eu não estabelecia uma conversa e sempre me afastava quando ele chegava mais junto de mim.

Com os dias, ele simplesmente parou de tentar falar comigo, aceitando de bom grado a minha indiferença.

Antes as horas em que passava na cabine de Killian em sua companhia, se tornaram horas que passava com o Cirurgião, o ajudando na cozinha com o que ele precisasse e escutando boas e assustadoras histórias do mar.

Assim como coloquei Bae em seu lugar para me auxiliar com as armas de fogo. Era seguro com Baelfire, eu não me sentia estranha e muito menos atraída por ele. Eu sem dúvidas conseguia prestar mais atenção no que estava fazendo, ao invés de ficar entretida com o calor do corpo de Killian, quando se aproximava de forma indecorosa do meu.

Eu sentia falta de conversar com ele, mais do que deveria.

–Por que você está evitando o capitão? – Smee indagou de repente, parando sua lição. Ele havia me perguntando se eu não me incomodaria de ensiná-lo a ler e a escrever, logo que zarpamos e eu estava afastada lendo um livro. Fiquei mais que contente em ser útil e saber que ele estava interessado em aprender. Já fazia algumas semanas que me sentava com ele por uma hora e ajudava com caligrafia, sílabas, verbos e todo o resto.

Tentei manter a compostura, mesmo sabendo que minhas bochechas coradas iriam me entregar.

–Eu não o estou evitando. – respondi tentando soar estupefata.

–Está sim, Emma. – Landon que estava do meu lado falou, levando a garrafa de rum a boca.

–Sem dúvidas nenhuma você está. – Bae concordou, largando o livro que estava lendo e me olhando com um sorriso provocador no rosto.

–Estou apenas fazendo o que Landon me pediu. Lembra que você falou “sem provocá-lo” ou algo do gênero?

–Sim, mas... não precisa evitar também. Esse navio já está se tornando sem graça sem você e ele discutindo. Afinal já faz algumas semanas. Aconteceu alguma coisa que você queira compartilhar? – Landon perguntou com as sobrancelhas arqueadas, sorrindo sugestivamente para mim.

Maldito Killian! Ele havia contado para Landon sobre o beijo. Eu tinha certeza disso só pelo olhar dele, se divertindo com meu embaraço e tendo a confirmação em meus olhos.

–Não, não aconteceu nada. Apenas estou seguindo seu conselho... E você volte para a sua lição agora! – falei autoritariamente para Smee, tentando assumir o controle e ignorar as risadas silenciosas de Landon que fazia todo seu corpo sacudir. – Me passe uma dessas castanhas, Bae, não seja rídico.

–Abra a boca. – pediu pegando uma e se preparando para lançar. Aquele havia sido um ritual nosso. Às vezes nos sentávamos no bote após todos irem dormir e ficávamos mirando um na boca do outro por horas enquanto conversávamos bobagem. Estávamos progredindo nesse talento inútil.

–Por pouco. – respondi quando a castanha passou relando em minha bochecha. – Que foi? – indaguei quando ele minimamente indicou que eu olhasse para trás. Me virei para ver e encontrei Killian no deque superior, nos olhando com os olhos duros, como que nos repreendendo.

–Talvez queira chamá-lo para socializar conosco, Emma. – Landon provocou, batendo o cotovelo de leve em minha costela.

–Fique quieto. – pedi irritada, me esticando para tirar o pacotinho de castanhas da mão de Bae.

As oito Landon e Smee deram boa noite e desceram para o alojamento. Baelfire decidira ficar me fazendo companhia um pouco mais. Ele sempre ficava.

–Está assim tão visível que estou evitando, Killian? – indaguei me ajeitando no meu lugar de dormir.

Bae pareceu pensar por um momento.

–Está, e os homens já estão fazendo suposições do que pode ter acontecido. Alguns dizem que Killian deve tê-la seduzido, mas eu sei que você não se deixaria ser seduzida. – falou me encarando.

–Claro que não. – murmurei desviando o olhar.

Tenho certeza que ele não acreditou muito na minha resposta, mas preferiu deixar o assunto por aquilo mesmo.

–Estou percebendo você um pouco desanimada esses dias. – observou. – Não está se sentindo bem?

–Não é nada... é que, logo a temporada irá começar e esse vai ser o primeiro ano que não estarei presente desde que debutei. Não que eu goste de ter que ir em bailes quase todas as noites, mas é estranho. A única parte boa era quando eu dançava, durante a dança é um ótimo momento para distinguir os tolos dos cavalheiros. E claro, poder rir dos vestidos horrorosos e desespero de mães querendo casar suas filhas. – inventei rapidamente. Não queria entrar no assunto que estava me desanimando.

–Mesmo?

–Sim. – respondi me animando um pouco por poder falar de alguma parte de minha vida, e assim tentar esquecer o assunto Killian. – É sempre bom dar boas risadas a custas de homens desesperados para conseguirem um casamento rico, e sou obrigada a ouvir cada coisa na hora da valsa que não faz ideia.

Bae se levantou em um pulo, fazendo uma reverência e me estendendo a mão.

–Me concede o prazer dessa dança, milady?

–Bae, o que está fazendo?

–Você disse que sente falta de dançar. Estou lhe convidando e de brinde deixá-la descobrir se sou um homem tolo ou não.

Abri um sorriso para ele. Como ficar na companhia de Bae era fácil.

–Apenas pelo fato de o senhor estar me tirando para dançar sendo que não temos música, prova que é um homem tolo.

–E você uma mulher sem imaginação. Tudo bem, como gosto muito de você irei imitar o som de um violino sendo maltratado.

–Sendo assim, eu aceito com o maior prazer. – peguei em sua mão, saindo do bote, não conseguindo esconder o sorriso em meu rosto.

Ficamos parados um de frente para o outro e Baelfire começou a fazer um som estranho com a boca, que mais parecia um gato sendo estrangulado. Apertei os lábios segurando o riso e fui para sua direita, enquanto ele ia para minha esquerda, para então darmos um giro. Segurei em sua mão, chegando próxima dele e então me afastando, dando um giro ao seu redor...

–Qual parte de que depois das oito não é permitido fazer barulho os dois não entenderam? – Killian falou bravo. – Irei ter que punir ambos?

Desviei os olhos, não aguentando ver a expressão que ele tinha e envergonhada por estar recebendo uma bronca.

–Só estávamos dançando, Killian. – Bae respondeu simplesmente, dando de ombros. – E Emma não dança sem música.

–Então acredito que terão que deixar a dança para amanhã. Os dois vão dormir agora! – ordenou apontando para dar mais ênfase.

–Desculpe capitão. – pedi antes de voltar para o bote. – Boa noite, Bae.

–Boa noite, Emma. E relaxe, ele só está com ciúmes que não pode dançar com você... nem conversar. – sussurrou me lançando uma piscadela.

Me ajeitei no bote, observando o céu. Eu tinha que voltar a conversar com Killian, não era certo eu o evitar, e tinha certeza que ele devia pensar que eu o estava evitando por causa do beijo, quando na verdade não tinha nada a ver com o ato de beijá-lo em si, mas sim todo o sentimento e desejo que veio junto com ele.

Fora que nessas semanas eu ainda não sabia como lidar com o fato que Killian disse que começara a me desejar... eu tinha medo disso. Medo de ser desejada por ele, por saber que eu o desejava também mesmo não entendendo completamente como tudo isso funcionava.

Tinha medo que um fósforo fosse aceso no fio de pólvora que ligava Killian e eu, e que esse fogo acabasse consumindo tudo por um puro deslize.

Mas estava sendo infantil fugindo daquele jeito.

Levantei decidida. Eu não queria estragar a convivência e era exatamente isso que eu estava fazendo. Os homens já estavam começando a falar e Landon a me jogar indiretas porque o língua solta do Killian deveria ter contado sobre o beijo. Era melhor acabar com os rumores, antes que eles pensassem que eu havia me tornado alguém como as mulheres que eles gastam dinheiro.

Respirei fundo ao subir no tombadilho superior e encontrando Killian em silêncio no leme. Ele parecia cansado.

–Senhor? – o chamei hesitante.

Killian olhou surpreso para mim.

–Decidiu falar comigo agora? – indagou desviando os olhos do meu rosto.

Foi uma péssima ideia, realmente uma ideia horrível. Minha língua parecia inchada e meu coração batia tão feliz em meu peito que me assustava, senti minha pele ficando arrepiada e a lembrança do toque dele voltou com força total.

–Ou não. – ele murmurou, cerrando os dentes diante do meu silêncio.

–Eu vim pedir desculpas, por estar o evitando. Não foi correto, é só que... eu estou assustada. – confessei rapidamente, me aproximando, tentando lutar contra tudo o que meu corpo estava sentindo que parecia se intensificar a cada passo. O calor crepitante já estava ali, ansioso para queimar com vontade. – Eu estou assustada e ainda tentando entender. Sei que para o senhor vai parecer bobagem, mas... – sorri sem graça, não tendo a mínima ideia de o por que estava dizendo aquilo. – O senhor já está acostumado com tudo isso, eu não.

–Eu sei. – respondeu calmamente.

–E como eu disse não espero que se desculpe, porque afinal eu correspondi aquilo. – prossegui, torcendo as mãos.

–Aquilo o que, Swan? – indagou.

Ele iria me fazer pronunciar.

–O senhor sabe. O beijo. – respondi em um fiapo de voz.

–Sei sim, só estava me certificando se a senhorita sabia, já que se referiu como “aquilo”.

– Então o senhor disse que... .- minha voz falhou e eu tive que limpar a garganta.

–Que eu comecei a desejá-la? – completou divertido.

Aquiesci, sentindo meu rosto e pescoço quente.

–Não sei como agir, nunca ninguém foi tão direto assim antes. – conclui. –Eu fiquei assustada, por isso o evitei, o tratei com indiferença. Mas percebo que o senhor está disposto a deixar tudo como era antes e quero fazer o mesmo. Me desculpe novamente.

–Está tudo bem, Swan. – falou me olhando. – Eu deveria saber que tudo aquilo era novo para você e ter me controlado mais para não assustá-la.

Assenti, sem saber o que falar.

–Posso fazer uma pergunta? – questionei um tempo depois.

Killian soltou uma risada.

–Vá enfrente.

–Como o senhor... Por que o senhor começou a me... ? Ah você sabe. É só curiosidade, afinal sempre deixou claro que não me achava bonita.

–Quando foi que disse isso?

–Ahn... várias vezes. E sempre faz criticas sobre meu corpo, comparando-o com o de sua antiga companheira.

–Acredito que tenha me expressado mal, ou não queria admitir que já a achava atraente. – respondeu abrindo um meio sorriso. – Não sei em qual momento deixe-a de ver como a garota irritante que faz perguntas o tempo todo, para começar a desejar a mulher irritante que faz perguntas o tempo todo, mas que também é inteligente... – ele desceu os olhos lentamente pelo meu corpo. – e sem dúvida uma das mulheres mais desejável de toda a Inglaterra.

–Tudo bem. Já me desculpei e eu vou indo me deitar. – avisei me sentindo desconfortável com seu último comentário, mas sem querer demonstrar. Sabia que era para me desconcertar, como sempre. – Você deveria fazer o mesmo. – o aconselhei.

Killian arqueou uma sobrancelha.

–Está convidando para me juntar a senhorita?

Arregalei os olhos.

–Não, claro que não! Que ideia, Jones. Só estou dizendo que está parecendo cansado e não me lembro de tê-lo visto descansando nos últimos dias, fica apenas ai o tempo todo.

–Para garantir que cheguemos ao lugar planejado.

–O senhor e Bae conseguiram descobrir o lugar? – questionei, sentindo um frio percorrendo meu corpo ao me lembrar da possível interpretação daquela profecia.

–Temos uma ideia de onde possa ficar.

–E vai me contar?

–Duvido muito que saiba onde fica, Swan.

–Certo, mas vá descansar. O senhor está péssimo, acorde Bae e peça para ele ficar em seu lugar ou Landon. Vai ser inútil todo esforço para chegar até lá para no fim o senhor não aguentar ficar acordado. Uma boa noite de sono também é sinal de saúde, senhor Jones.

–Irei dormir pela manhã. Feliz?

E então lembrei que ele havia dito que não conseguia dormir a noite, que talvez tivesse medo de escuro.

–O senhor tem pesadelos. – afirmei. Ele me olhou surpreso. – Não gosta de dormir a noite, pois tem medo dos pesadelos. Sobre o que são seus pesadelos, Killian? – indaguei. Uma sombra de dor cobriu seus olhos azuis. – São com Milah, não são? – perguntei suavemente.

Killian desviou o olhar e começou a assoviar, deixando claro que não iria falar sobre aquilo. Mas ele iria sim, nem que eu tivesse que passar a noite inteira lhe perturbando. Já estava na hora de voltar a estranha amizade que estávamos estabelecendo antes de eu estragar tudo.

Peguei um caixote que estava ali e o carreguei até perto de Killian, colocando o no chão para servir de banco. Gancho me lançou um olhar furtivo, porém continuou em silêncio.

–Quando eu era criança costumava ter medo do escuro também. – comecei. – Eu tinha esses pesadelos realmente horríveis, com mãos negras me puxando ou eu sendo tirada a força dos braços protetores de uma mulher sem rosto. E tinha gritos, muitos gritos desesperados, como se implorassem. – contei, apertando as unhas nas palmas das mãos. Não gostava de me lembrar daqueles pesadelos.

Killian estudava atentamente meu rosto, claramente querendo saber mais.

–E como você superou?

–Tive ajuda de Granny, mas eram sonhos realmente perturbadores para uma criança. – engoli em seco, levantando os olhos para ele. – Porque... essas mãos negras puxavam cada membro meu com força, até se descolar e me deixavam deitada , sangrando. E sempre escutava uma voz dizendo “quando a troca for feita, finalmente teremos tudo”. – repeti sem emoção. — Não sei porque tinha esses sonhos. Granny sempre entrava em meu quarto quando eu começava a gritar e a chorar.

–Sua mãe não a confortava? – Killian perguntou em um sussurro abafado.

Neguei com a cabeça.

–Minha mãe sofre dos nervos, não tinha paciência para ir acalmar uma criança barulhenta e fresca. Mas é para isso que temos babás, Granny me abraçava e ficava horas conversando comigo, então lia uma história bem bonita, daqueles livros cheios de gravuras, sabe? Ela beijava meus dedos assim. – levei os dedos até os meus lábios. – Ela diz que significa “eu lhe respeito e vou cuidar de você”, de onde veio. Até que um dia ela fez eu me ajoelhar ao lado da cama e comecei a rezar todas as noites. – Killian soltou uma risada de deboche. – Você ri, mas realmente ajuda. Depois que comecei a rezar, os pesadelos deram uma parada e no lugar comecei a sonhar com um casal que sempre me conforta. Eles me dizem coisas que nunca ouvi de meus pais, e sinto que me amam. Sei que é loucura, mas consigo sentir isso sempre que me abraçam em meus sonhos.

–Não acredito que rezar irá resolver meu problema.

–Você ao menos já tentou? – questionei. Killian respondeu com seu silêncio. – Imaginei que não. Não foi fácil no começo, Granny muitas vezes chegou a dormir no meu quarto. Ela dizia que se, dormirmos com a segurança de que há alguém conosco, é o suficiente para afastar os sonhos ruins, pois nos sentimos protegidos.

–Quantos anos você tinha quando os pesadelos pararam?

Fechei os olhos tentando me recordar. Eu lembrava quando haviam se iniciado, porém não quando pararam.

–Por volta dos meus dez, acho. Às vezes eles ainda aparecem. E se quer saber eles começaram quando tinha quatro anos. Graham acha que pode ser algum trauma, uma memória escondida de quando eu ainda era bebê.

–Você ainda era um bebê quando começou a ter esses sonhos, Emma. – resmungou. – Você conversava com Graham sobre seus pesadelos?

–Claro, ele é meu amigo. Até pouco tempo atrás sabíamos tudo um do outro. E então quer compartilhar histórias?

Killian respirou fundo, parecendo considerar se me contava ou não.

–Sim, são com Milah, da noite em que a perdi. – respondeu, sem me encarar.

Claro que seus sonhos seriam sobre Milah. Isso o perseguia até mesmo acordado.

–O que aconteceu?

– Uma tempestade nos atingiu, das bem furiosas, acho que você nunca deve ter presenciado uma ainda. Ela ficou no convés comigo, ajudando a manter o navio controlado... Uma onda veio daquela direção e outra nos encontrou de frente. – ele apontou para a esquerda e então para a proa, sua respiração saindo com dificuldade. – E invadiu o convés na intenção de levar e esmagar o que encontrasse pela frente, eu tive tempo de me segurar, porém quando procurei por Milah... Eu deveria ter me preocupado em segurá-la ao invés de me salvar e isso me assombra. Imagino o peso da onda esmagando seus ossos, ela sendo jogada de um lado para o outro nas águas traiçoeiras. Até ela desistir de lutar. – terminou de contar, parecendo desolado. – Por isso que não queria ter Baelfire a bordo, ele me recorda ela e não quero que nada aconteça com ele enquanto estiver à minha vista. – explicou.

Toquei seu braço de leve, tentando lhe dar algum conforto. Não sabia a dor de perder alguém assim, sem a chance de dizer adeus, mas conseguia ter uma noção apenas de observar Killian.

–Por que você não tenta dormir um pouco? Eu lhe faço companhia. – sugeri, sem pensar direito nas palavras antes de proferi-las. – Posso ler... posso lhe ensinar a rezar, podemos conversar ou cantar uma canção... não sei, alguma coisa.

Killian me lançou um olhar incrédulo.

–Por que não? Se não resolver nós não tentamos novamente. Não custa nada. – insisti. Já que havia oferecido, iria lhe fazer companhia se assim ele quisesse, iria conseguir manter tudo sobre controle, não conseguiria?

–Me sinto um idiota considerando isso.

–Já eu me sinto contente só pelo fato de estar considerando aceitar minha ajuda.

Killian ficou em silêncio por alguns segundos, e então soltou uma risada seca.

–Não vejo isso funcionando, Swan. – respondeu por fim.

Não vou mentir me senti decepcionada com sua resposta. Eu esperava poder ajudá-lo, tentar tirá-lo daquela melancolia que ele carregava dentro de si e tentava a todo custo escondê-la.

Não tudo, mas pelo menos aliviar um pouco o peso de seu coração.

Esperava ser útil de alguma maneira.

–Bom... tudo bem. – apoiei as mãos nas coxas e me levantei, me abaixando para pegar o caixote. – Vou ir me deitar. Boa noite Killian.

Notas finais
E é isso, tomara que tenham gostado do capítulo. Quero agradecer de novo a Titta pela recomendação. Quero já deixar avisado que eu tento postar um capítulo por semana, para não correr o risco de "esquecer" a fic como já ocorreu, mas eu estou com uma prova importante muito próxima de acontecer e o tempo pra escrever está curto, já que eu tenho que estudar. Então vou ter que pedir paciência para vocês se caso sumir por uns tempos. Não queria ter que chegar a esse ponto, porém não posso abandonar certas coisas e não gosto de escrever por escrever. Acho que é isso. Beijos.