Traição.
13 Tic - tac, tic - tac.
Eu corri até o carro de Andrew lá fora, e assumi o volante sem ao menos hesitar. Ele mal conseguiu fechar a porta do carona antes de eu acelerar.
– Liga pra Ziva – eu joguei meu telefone pra ele, e ele discou rapidamente, me passou e pegou seu próprio celular, ligando pra mais alguém.
– Jess? – ela atendeu, com tom de riso na voz.
– Ziva – eu disse, tentando manter a calma – tá aonde?
– Estou no NCIS, Jessy. Por que?
– Sai daí.
– Não dá, eu estou trabalhando no momento.
– ZIVA, sai daí AGORA.
– Eu não posso sair, Jonah está aqui comigo. Lembra que eu prometi um tour pra ele? Então, eu e Ducky estamos mostrando o prédio todo, vamos para a autópsia agora.
Eu quase bati o carro. Buzinei para que saíssem da frente bem a tempo para que saíssem.
– Ziva, Oscar está indo até vocês. Eu não sei o que ele quer fazer, mas vocês tem que...
– Jess – Andrew me disse, sua voz tremendo – Oscar está lá.
– ZIVA, faz o seguinte, vai pra Autopsia e FIQUEM LÁ.
– Mas...
– Ziva, você está grávida. Não pode se dar ao luxo de tentar salvar o resto do mundo. Essa é a minha função no momento. Vai pra autópsia, tranquem a porta e fiquem quietos. Liga pra Abby e fala pra ela se trancar no laboratório também.
– E quanto ao Dinozzo? Eu não sei onde ele está.
– Deixa ele comigo – eu disse e desliguei o telefone. Passei direto por três sinais vermelhos e fiz algumas curvas perigosas.
O carro praticamente derrapou na entrada do NCIS, eu não me dei ao trabalho de ir até o estacionamento.
– Jess! – Andrew agarrou meu braço, quando eu fui tentar correr – eu vou com você.
– Não vai não. Já tem gente demais lá dentro. Gente que eu me importo.
– Eu não vou deixar você ir sozinha – seus olhos verdes brilhavam, e eu sabia que ele não mudaria de idéia tão rápido.
No momento em que fui responder, ouvimos um tiro. Eu puxei ele instivamente para trás de mim e saquei minha arma. Mas o tiro tinha vindo de dentro.
– Eu vou entrar. Minha irmã está lá!
– Eles vão tirar ela daqui a 40 segundos – eu disse, enquanto prendia o cabelo novamente e recarregava minha arma.
Logo, alguns seguranças passaram com ela e com alguns civis que estavam lá dentro. Esse era o procedimento, tirar quem não fosse agente. Ziva não saiu, nem Jonah, nem Ducky. Um calafrio percorreu pelo meu corpo.
Eu tentei correr, mas Andrew me puxou novamente. Antes que ele falasse algo, eu o beijei. Eu não o beijei para cala-lo, ou para que ele me soltasse. Eu o beijei porque não sabia se poderia fazer isso de novo. Eu entraria naquele prédio por conta própria, assim como foi no Mossad. Mas no Mossad, Anthony estava lá me protegendo, como Gibbs e Mcgee. Eu não poderia confiar em mais ninguém para me proteger agora.
– Proteja sua irmã – eu disse, me afastando e olhando nos olhos dele – ela está assustada. E ligue para Gibbs, diga o que está havendo. Mcgee deve estar a caminho.
Eu entrei correndo, com o dinstintivo pendurado, assim os agentes não me barrariam. Eles já estavam a postos porque Andrew havia ligado. Eu não pensei nisso. Comecei a descer as escadas rapidamente, não poderia esperar por elevador nenhum. Então eu vi sangue saindo de um ponto do corredor. Eu parei bruscamente e saquei minha arma. Me aproximen pé ante pé, e lá estava, Oscar, em uma poça de sangue. Chequei sua pulsação e sua respiração. Morto.
“Isso foi fácil” eu pensei, respirando fundo. Mas um pouco mais a frente, pude ver uma mochila jogada, perto do laboratório de Abby.
Me aproximei e pude ver uma foto de seu filho, Dylan, e uma faca. Peguei a faca por precaução, e continuei vasculhando. Ali estava o celular com que ele trocava mensagens com Dinozzo, e vidros vazios. Vidros de Ácido Nitrico, e vários outros componentes químicos. Tudo bem, eu sabia que aqueles componentes juntos poderiam causar algo, mas não me lembrava o quê. Então eu vi o que temia. Uma embalagem vazia de TNT. Eu peguei o celular e tentei ligar para Gibbs, mas ele não atendia. Então corri para a autópsia, e a porta se abriu automaticamente. Ziva estava com as mãos em vota de Jonah, ele estava jogando algo no celular dela, e Ducky estava sentado, quieto. Todos olharam assustados para mim quando cheguei.
– Temos que sair daqui – eu disse.
Jonah olhou para cima, assustado. Ziva pegou sua mão e veio andando com ele, Ducky veio vindo atrás.
Então a porta se fechou, antes que Ducky pudesse sair.
– Cortaram a energia! – Ziva gritou, enquanto as luzes iam ficando cada vez mais fracas, e quase se apagando.
– Droga! – eu esmurrei a porta. Ducky bateu do outro lado, mas não adiantaria. A porta teria que ser aberta por energia.
– Vá lá pra cima, querida, e diga a eles para ligar tudo de novo.
– Eu volto pra te buscar, eu prometo – eu disse, pegando Jonah no colo e correndo pelas escadas. Ziva estava vindo logo atrás, mas não conseguia correr muito.
– Eu tentei passar o garoto por meio entre as pessoas, mas as portas estavam fechadas. Um dos seguranças me empurrou.
– HEY! – eu gritei – você tem que deixar essa gente sair. Tem uma bomba aqui!
– Como você sabe? Você a viu? – ele perguntou.
– Não, mas eu vi...
– Então não posso deixar ninguém sair. Há suspeitas de uma possível arma biológica aqui dentro. Pode causar uma epidemia.
– Ok, escuta, eu fico ok? Mas ele tem que sair – eu coloquei as mãos no ombro de Jonah, tentando fazer com que ele passasse, mas o segurança não deixava.
– Prove pra mim que é uma bomba, e eu te deixo passar. Deixo todo mundo passar. Mas antes disso, ninguém entra e ninguém sai.
– Liga a energia pelo menos!
– O vírus pode estar no ar condicionado. Não podemos correr o risco.
Eu olhei por cima do ombro dele, muitas pessoas querendo entrar, e muitas querendo sair. Parentes, maridos, mulheres, pais, mães, todos desesperados. Pude ver Andrew de relance, e Abby gritando com um dos seguranças. Vi Mcgee do outro lado, chegando de carro. Não vi sinal do Dinozzo, e muito menos do Gibbs.
– Vamos – eu disse, e Jonah me deu a mão, seus olhos começando a lacrimejar.
– Eu quero minha mãe – ele disse, pegando minha mão com as duas mãozinhas e parando em um dos degraus da escada.
– Você vai vê-la daqui a pouco – eu disse, puxando – o pra frente. Ziva andava com dificuldade.
Passamos em frente ao laboratório de Abby, e vimos a mochila.
– Tira uma foto, e vamos levar pra eles! – Ziva disse.
– Não dá tempo.
A porta do laboratório estava aberta. Me ocorreu uma idéia.
Nós entramos, e eu pedi para Ziva pegar dois jalecos da Abby pra mim. Ela estranhou, mas pegou. Eu enrolei um deles na minha mão, e pedi para Jonah cobrir os ouvidos. Ele o fez. Eu esmurrei a pequena janela que havia lá, machucando bastante a minha mão apesar do jaleco. Pequena demais para mim ou para qualquer pessoa passar, mas do tamanho ideal para uma criança. Tirei alguns cacos que restaram, mas não podia perder muito tempo. Então enrolei Jonah no outro jaleco. Quando estava prestes a levanta-lo, ouvi um barulho de algo metálico caindo. Olhei pro lado, e Ziva estava tentando se apoiar na mesa, mas sem sucesso, caiu no chão, desmaiada. Havia sangue escorrendo no chão.
Minha mente parou de trabalhar por um segundo.
– Jonah! – eu peguei ele pelos ombros – você vai ter que ser muito corajoso. Sua mãe está lá fora, mas eu preciso que você ache outro adulto, alguém grande, pra me ajudar com a minha amiga, ok? Você tem que fazer isso por mim, não vou conseguir sair daqui com ela sozinha. Pode fazer isso por mim?
Ele acenou com a cabeça.
– Ok – eu disse e o levantei, ele engatinhou pelos cacos de vidro sem se machucar e saiu correndo.
Eu me abaixei do lado da Ziva, ainda desacordada, e coloquei sua cabeça em meu colo.
– Zi, por favor, não me deixa sozinha nisso não. Você tem que ficar acordada, se não por mim, pelo seu bebê. Por favor, abra os olhos.
Eu tentei imaginar o que poderia ter causado aquilo. Talvez fosse o extress de ter uma bomba a metros de você, ou algo do tipo. Resolvi pegar o Bert, o hipopótamos de pelúcia de Abby, e colocar embaixo de sua cabeça, mas assim que me virei, quase desmaiei também. Havia uma caixa preta gigantesca apitando do outro lado da porta de vidro do laboratório. Ela estava ligada a várias outras caixinhas. Fios emaranhados por todos os lados. Bem ali. Bem aonde eu e minha amiga grávida desmaiada estávamos. Ouvi passos e me virei, quando vi quem era, saquei a arma sem medo e a destravei.
– Jess! – Dinozzo disse, segurando o pescoço de Ziva pra cima.
– Larga. Ela.
– Eu vim ajudar! – ele disse, passando as mãos por debaixo das pernas de Ziva e a pegando no colo.
– Com tantos adultos lá fora, Jonah escolheu você?
– Ele disse que precisava de alguém grande. Eu vim, ok?
Ziva mexeu o pescoço devagar, desorientada. Ela precisava de um médico.
– Da onde vem esse sangue? – ele arregalou os olhos.
– Escuta, se ainda resta dignidade em você, leva ela daqui e coloca ela numa ambulância urgente.
– Eu fui chantageado, eu juro. Não fiz nada disso por querer. Não dá tempo de explicar agora!
Algo em seus olhos me diziam que aquilo era verdade. Não sabia se poderia confiar nele de novo. Mas ela precisava de um médico.
– É verdade – eu ouvi uma voz chorosa dizendo, e olhei para trás. Victoria estava atrás da porta de vidro, ao lado da bomba. Eu arregalei os olhos.
– Dinozzo – leve-a daqui – dá um jeito de burlar os guardas.
– Eles estão deixando o pessoal sair, Jess. Andrew convenceu eles.
Meu estômago se revirou ao pensar que Andrew estava tão perto daquilo tudo.
– Vamos Jess, podemos subir – ele disse, com a Ziva no colo.
– Leva ela, eu tenho que ajudar essa aqui – eu disse, me virando para a porta de vidro que ainda estava trancada, e Victoria me olhou assustada de lá de dentro.
– O que? Não vou te deixar aqui! – ele veio em minha direção.
– Ziva precisa de um médico, Dinozzo – ele tentou falar algo, mas eu o interrrompi – ELA ESTÁ GRÁVIDA.
Sua boca se abriu em um O perfeito. Seus braços tremeram, e suas pernas falharam um pouco. Seus olhos se encheram de lágrimas, e um sorriso ameaçou aparecer em seu rosto. Mas então ele se lembrou do sangue. Tanto sangue. Subiu correndo as escadas, e eu me virei novamente para a porta de vidro.
– Por que você vai me ajudar? – ela perguntou, com a voz rouca.
– Porque eu sou uma agente, e é isso que agentes fazem.
– Eu entrei nessa por querer, ele me ofereceu muito dinheiro, e tudo que eu tinha que fazer era descobrir umas coisas de vocês, e ele ia descobrir o resto. Você foi a que menos falou. Ele ia chantagear o primeiro que abrisse a boca demais.
– É a cara do Dinozzo – eu murmurei, tentando abrir a porta a força, mas não deu muito certo.
– Mas quando eu vi o que ele pretendia fazer, parei. Ele ia prender um cara inocente.
– Sim, e graças a isso, todo mundo vai morrer hoje, eu e você.
– Eu quero morrer, não tenho nada a perder.
Eu parei por um momento, e depois continuei procurando uma chave reserva, qualquer coisa.
– Eu fiz isso pra ajudar minha mãe – ela se abaixou junto comigo, parecia querer olhar pra mim – o dinheiro. Ela tem uma doença terrível, e gasta mais do que tem com remédios. Se ela não pagar, vão tirar a casa dela. Ela não pode morar na rua. Se eu morrer aqui, e agora, ela recebe um bom dinheiro. Se eu sobreviver... Ela não recebe nada e eu vou presa.
– É o certo – eu disse, esmurrando a porta e quase quebrando um dedo.
– Por favor – ela disse, colando as mãos no vidro – sai daqui. Já não tem quase ninguém aqui. Vai, por favor, por favor – ela parecia olhar para trás de mim – por... favor!
Alguém me agarrou por trás, eu não vi quem era. Meus pés mal encostavam no chão. Eu pude ver Victoria virando-se de costas para o vidro, e passando as mãos no cabelo ruivo, que estava molhado de suor. Vi alguns degraus abaixo dos meus pés, e então quem quer que houvesse me agarrado, parou.
Eu me virei.
– Gibbs?
– Dinozzo saiu daqui com a Ziva. Ele me disse que você estava aqui dentro. O que diabos você estava fazendo?
– Tentando salvar alguém – eu disse, determinada a ir até lá de novo.
– Temos que descer – ele disse, pegando minha mão e me arrastando.
– Mas a saída é pra cima – eu disse.
– Eu sei. Mas não temos tempo de subir. Temos que nos proteger o máximo possível, ao invés de tentar escapar.
Nós corremos até o andar de baixo, um andar acima do estacionamento, no caminho vimos um grupo de bombeiros parados a uma porta. Gibbs parou por um momento. Ele me disse pra continuar andando, mas eu não poderia abandona-lo. Nem pensar. Ele se sentou em um canto, onde não havia nada que pudesse nos atingir, nenhuma janela, nada. Pegou um celular, e começou a digitar uma mensagem.
– Não vai mandar nada pra ninguém? – ele perguntou
Ele estava se despedindo de alguém. Caso não sobrevivesse. Eu peguei o meu celular, quase sem bateria nenhuma, e mandei uma mensagem rápida pra minha mãe. Ele bipou, e eu sabia a resposta. Só doeria mais ler. Meu celular começou a vibrar constantemente. Era Andrew.
– Amor? – ele praticamente gritou – onde você está?
– Estou – lágrimas começaram a descer, sem que eu tivesse controle – estou aqui fora, amor. Vem me encontrar, tá bom?
– Aqui fora onde?
– Eu estou perto de uma ambulância – eu disse, e Gibbs colocou as mãos em meu ombro – tô indo te encontrar, não sai daí.
Eu desliguei o celular, e chorei. Nunca pensei que teria medo da morte. Afinal, sempre me senti segura com uma arma. Se o perigo fosse algo que eu pudesse confrontar, era simples. Eu fui treinada para isso. Mas ninguém treina a gente pra esperar a morte. Isso sim dá medo.
O barulho que a bomba fazia ia ficando mais nítido, Gibbs me abraçou. Então, sem aviso prévio, ele se jogou em cima de mim. Eu bati a cabeça no chão, e logo depois um barulho ensurdecedor aconteceu, e um clarão repentino me cegou. Eu não podia ver mais nada. Tudo era uma grande escuridão.
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