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– Jess, não sei se estou pronta ainda — ela olhou pra mim com os olhos marejados.

Aquilo me cortou o coração, mas eu tinha que ser forte. Forte por nós duas.

– Levanta Ziva. Vem – eu puxei a coberta dela, e tirei uma roupa nova do armário – coloca isso, a gente vai sair hoje.

– Mas Jess... – ela começou, mas quando viu meu olhar pra ela, se levantou e colocou a regata (que ficou um pouco agarrada demais) com a calça. Penteou o cabelo e o prendeu num coque.

– Ótimo – eu disse, e peguei o pote de sorvete pela metade do outro lado da cama.

Eu o coloquei na geladeira, e olhei em volta. O lugar precisava de uma limpeza, mas eu não trataria daquilo naquele momento. Precisava achar algo pra fazer, algo que a fizesse esquecer dele por pelo menos um minuto. O carro dela estava lá fora.

– Gibbs – ele atendeu.

– Então, lembra das aulas de direção que você ia me dar? – eu disse, colocando o cinto – eu arrumei um novo professor. Ou melhor, professora.

– Jura? – ele perguntou, mas eu não pude responder porque Ziva tinha dado a partida no carro, fazendo o maior barulho – entendi. Boa sorte.

Eu desliguei o telefone. Ela dirigiu até um campo aberto, onde não tinha nada que pudesse ser um obstáculo (ou uma provável vítima) e saiu do carro. Eu fiquei olhando ela de dentro do carro, com os braços cruzados.

– Sai Jess, vamos começar!

Eu entrei em pânico.

Ela começou a me ensinar coisas básicas, como ligar o carro e não deixá-o morrer. Então disse pra eu pisar no acelerador, mas não me disse pra soltar em nenhum momento. E nem como usar o freio.

– Tem certeza que tá certo? – eu disse enquanto o carro ia super rápido, e pisando no freio com tudo pro carro parar.

– Perfeito! – ela disse, sorrindo.

Sorrindo. Eu senti tanta falta daquele sorriso.

– Então é melhor irmos pra casa – eu disse, acelerando novamente, só que desta vez eu apertei demais alguma coisa, ou virei o volante demais. Fiz algo errado, pois o carro saiu em disparada para a rua, e eu freiei bruscamente antes de acertar um barranco.

Ziva deu uma risadinha.

– Acontece. Continua – ela disse, colocando o cinto.

– Não, vai você – eu disse, tremendo — é melhor.

Nós continuamos tentando, consegui desviar de alguns obstaculos, outros eu derrubei. Achei melhor parar quando começou a escurecer, então ela dirigiu até em casa, chegando lá preparamos o jantar e comemos sorvete de sobremesa. Meio pote para as duas, o que foi um avanço. Ela dormiu no sofá ao lado do meu.

– Não me acostumei a dormir sem ele ainda.

Foi a única vez que ela o mencionou durante o dia.

Na manhã seguinte, quando eu acordei ela estava se arrumando. Eu me sentei e fiquei olhando. Ela colocou uma calça preta justa e uma blusa. Arrumou o cabelo, e até mesmo passou maquiagem. Olhou pra mim, e forçou um sorriso.

– Não precisa provar pra todo mundo que você tá bem, Ziva – eu disse, levantando e começando a me arrumar.

Chegamos no estacionamento. Ela respirou fundo antes de tirar o cinto, e colocou das duas mãos no volante. Suspirou “certo” pra ela mesma antes de sair. Quando entramos no prédio, ela não conseguia evitar olhar para os lados, e para trás de vez em quando, para checar se ele estava por perto. Mas quando entramos no elevador, ela entrou em colapso nervoso.

– Jess, não sei se vou conseguir encara-lo normalmente – ela disse.

– Nem eu.

– Por que? O que aconteceu? – ela desviou o olhar, que estava fixo na porta, pra mim.

– Nada.

Nós chegamos ao escritório. Vazio, a não ser por Victória na Fragmentadora, no outro lado da sala.

– Nem parece que essa garota trabalha na autópsia. Passa tempo demais aqui em cima – eu disse, fuzilando a garota com os olhos sem que ela me visse.

Ziva andou até sua mesa, e se sentou. Colocou a bolsa em baixo da mesa, como sempre fazia. Colocou sua arma na gaveta, e olhou em volta. Abby me chamou pela web cam, e eu atendi.

– Hey Jess, HEY ZIVA – Ela acenou quando Ziva apareceu do meu lado – melhorou?

Ziva olhou pra mim em dúvida, porque não sabia se eu havia contado ou não. Quando eu fiz que não, ela disse que estava.

– Hey. Já que Andrew está na cidade, acho que podemos todos sair juntos, o que acham? Quero dizer, casais. Assim a Jess não fica de vela, hahaha.

– Eu fico – Ziva disse, sorrindo de lado.

– Como assim? O Tony pode ir também – Abby bebeu um pouco de caf-pow, e quando Ziva disse que eles haviam terminado, o canudo fez um barulho estranho. Ela engasgou.

– Por que você terminou com ele? – Abby perguntou, colocando o refrigerante de lado. Se ela colocava a cafeína de lado, a coisa estava séria.

– Não fui eu, Abs – Ziva disse, dando de ombros – foi ele.

– Por que ele faria isso? – Abby perguntou, levando as mãos a boca.

– Pergunta pra ele – eu disse, enquanto ele entrava no escritório.

A principio, pude ver os olhos de Ziva brilharem, o que realmente acontece quando vemos a pessoa que amamos. Os de Tony demonstravam arrependimento. Remorso, talvez.

Ziva respirou fundo. Tony também. Ela olhou pra ele, encarando-o. Coisa que eu não sabia se ela seria capaz de fazer. Ele andou até a mesa, eu prendi a respiração e desejei por um minuto me misturar com a mobília para não estar ali. Aquele olhar foi algo muito mais pessoal do que eu imaginava.

– Tudo bem? – ele disse, se apoiando na mesa.

– Estou... bem – ela disse pausadamente, medindo a força de cada palavra.

– Me desculpa, eu... – ele ia falar, mas ela se levantou e pousou o dedo indicador em sua boca, rindo. Eu pensei que por um momento eles se beijariam. Mas nada aconteceu.

Ele não tirou o dedo dela. Ela apenas o recolheu, devagar.

– Não precisa se desculpar. Eu realmente estou bem – ela tentou sorrir novamente, mas eu sabia que aquele sorriso não era verdadeiro.

Ele se sentou em sua mesa. Eu deslizei até a minha e me sentei. Ele me olhou por cima do monitor. Eu fui até a mesa dele assim que ela saiu para comprar algo na máquina de doces. Pude ver Victoria indo até a fragmentadora de novo, e estranhei.

– Me desculpa – eu comecei – pelo tapa. E por ter duvidado do seu amor. Você confundiu as coisas, mas todo mundo tem esse direito. Me desculpa?

– Tá tudo bem. Eu realmente fiz isso porque achei que era o melhor. Ela merece alguém que a entenda, que saiba lidar com ela, e que acima de tudo...

– Que a ame – eu completei – eu me lembro desse discurso.

– Pois é – ele disse, dando de ombros – eu ainda acredito nele.

– Só que não é você.

Ele olhou pra baixo, e depois pra mim. Pequenas rugas se formaram em sua testa.

– Não.

Ziva estava demorando demais. Fui até o banheiro e a encontrei na pia, encarando o próprio reflexo no espelho.

– Hey, hey – eu cheguei perto e a virei pra mim – tudo bem?

– Estou. Nervosa, mas estou bem – ela passou as mãos molhadas no rosto – por um momento eu esqueci que estávamos separados. Foi estranho.

– Eu imagino – eu disse, passando as mãos de leve em seus ombros.

De repente, a porta se abriu, e Victoria colocou só a cabeça pra dentro do banheiro.

– Temos uma nova vítima.

Ela saiu e Ziva foi atrás, eu fiquei um pouco.

Como diabos ela sabia que estávamos ali?