Tradição
5 Penteadeira
— Ué, vocês já estão mexendo nessa madeira? Mas onde estão as meninas? Eu tô muito atrasado? – Assim que chegou ao apartamento, foram essas as perguntas de Poseidon para os meninos. Quando entrou, não viu ninguém na sala nem na cozinha, e só foi encontrar os garotos no quarto de hóspedes, já bancando os carpinteiros com vários móveis antigos.
— Ah, a gente veio mais cedo pra cá, então pensamos em adiantar o serviço até você chegar e dar as ordens... – começou Percy, que estava sentado no chão com as pernas cruzadas e um banquinho de madeira que estava sendo lixado no colo. Sua camiseta verde e seu jeans, outrora sujos de cimento, agora possuíam também uma fina camada de pó de madeira. – Realmente, os pisos são mais legais de se mexer, isso aqui é um saco!
— Lixar é chato mesmo, mas acho que você vai gostar de pintar – riu Poseidon – Vocês vão usar todos esses móveis? Tem bastante coisa aqui.
— Ah, mas aqui tão os móveis da casa toda, senhor – disse Grover, que estava em cima de uma mesa, raspando a antiga tinta da mesma – Falando nisso, está na nossa lista o item “Levar os móveis para seus respectivos cômodos”, e as meninas já pintaram o quarto da senhora Jackson e estão pintando o corredor agora, acho melhor já começarmos a levar a penteadeira e os criados mudos para lá.
— Então vamos fazer isso agora, me ajuda com isso aqui...
E os dois (deus e sátiro), levantaram a antiga penteadeira e começaram a levá-la para a porta. Era uma daquelas penteadeiras de estilo provençal, grande, que havia sido pintada há muito tempo de branco, mas agora estava com a tinta toda desgastada. Possuía até aquele grande espelho quadrado com as pontas trabalhadas, ladeado por dois espelhos retangulares, emoldurados com madeira entalhada, as cinco gavetinhas (uma no meio e duas de cada lado) e os pés curvados e delicados. Havia também um banquinho, que fazia conjunto com o móvel, e era estofado com um fino tecido florido. Era o sonho de qualquer menina que assiste aos filmes das Princesas da Disney.
— Céus, isso aqui deve ser mais pesado que um boi! – reclamou um vermelho Grover, após eles darem exatamente dois passos com a penteadeira.
Percy, que estivera apenas observando, correu para ajuda-los, o que facilitou um pouco o processo. Mesmo assim, foi a muito custo que a penteadeira chegou à sua nova casa e foi colocada no centro do cômodo. Ela já havia sido lixada e estava pronta para a pintura, o que também era departamento dos meninos.
— Então, pai, quais são as nossas coordenadas?
— Bom, — começou Poseidon, uns minutos depois, após ter ido buscar um dos dois criados mudos – Eu vou terminar os acabamentos dos pisos e azulejos. Como vocês estavam com os móveis? Ainda falta muito?
— Eu já lixei quase tudo, só falta pintar e envernizar – informou Grover, que trabalhara com isso durante a manhã.
— Então vocês dois podem começar a pintar já. Geralmente madeira precisa de mais de uma demão de tinta/verniz, e também demora um tempo para secar, mas se começarmos tudo hoje já adianta bastante.
— Você vai demorar muito na cozinha? – perguntou Percy, ao chegar ao quarto cheio de móveis.
— Em mais ou menos uma hora eu termino e venho ajudar vocês. Mas vamos separar tudo isso primeiro...
E levaram (com alguma dificuldade, alguns móveis caindo em pés desavisados e muitas palavras não exatamente polidas) quase todos os objetos para seus respectivos cômodos. Ao fim, restaram apenas os criados mudos e estantes e várias tábuas que um dia se tornariam camas (Lista das meninas!) do quarto de hóspedes e do quarto do Percy.
— O que nós fazemos com o que é do meu quarto? – perguntou o semideus, que estava querendo saber, na verdade, o que seu pai estava aprontando em seu quarto.
— Ah, esses vocês deixam comigo. Como eles não estão na conta dos itens, posso mandar magicamente para onde eu quiser... – comentou Poseidon, da forma mais evasiva do mundo, para a decepção eterna de seu filho. – Pronto, tudo em seu devido lugar, vocês podem começar, eu estarei na cozinha se precisarem de mim – e se foi.
Os meninos decidiram começar pelos móveis da Sally. No quarto dela haviam, para pintar, a tal Penteadeira-dos-sonhos-de-princesa e dois criados mudos simples. A cama e o guarda roupa já estavam prontos, só precisavam ser montados.
— Certo, eu fico com a penteadeira e você com os criados – começou Percy – Mas quais são as tintas que temos que usar, as cores e tudo?
— A sua mãe disse que as tintas já estão aqui, em algum lugar... Ali! – Grover apontou para um canto do quarto onde haviam várias latas de tinta, cada uma com uma plaquinha indicando qual seu móvel. Cada um pegou sua tinta, rolinhos, pincéis e um escorredor de tinta e se dirigiram aos seus móveis – Mano, esse rosa vai me cegar! – exclamou o sátiro, ou abrir sua lata e encontrar um viscoso líquido do pink mais berrante que existe.
– Ah, o meu é bonitinho, olha – riu Percy, mostrando um rosa-bebê extremamente fofo, que seria a nova cor da penteadeira – Nunca vi minha mãe usando rosa, nem sabia que ela gostava... achei que os móveis dela teriam uma cor tipo branco, ou aquela cor de sorvete de creme, sabe?
— Acho que a cor se chama Creme mesmo – comentou o outro, molhando seu rolinho e começando a colorir um criado mudo – Ah, mas isso aqui vai ficar bem legal, vai combinar e tal.
— Sim, vai mesmo. Escuta, cara, o que você acha que o meu pai vai fazer lá no meu quarto?
— Provavelmente vai fazer um ambiente aquático mágico em que só vocês ou outros seres feitos de algas podem sobreviver e tal... – disse Grover, totalmente alheio ao olhar maligno que Percy mandou para ele.
— Não fale assim das algas, elas são a base da cadeia alimentar aquática e sem elas para fazer fotossíntese não haveria oxigênio suficiente na terra. Ou seja, sem algas, sem vida; elas merecem respeito. – ralhou o super-biológo-marinho, Perseu Jackson.
– Pensei que esse trabalho da fotossíntese fosse mais importante nas árvores e tal – disse Grover distraidamente, pensando naquela dríade que estava paquerando já há um tempo.
— Não, as algas fazem a parte pesada do negócio, as plantas terrestres só levam a fama – resmungou Percy, ainda ofendido, enquanto transformava a penteadeira branca em rosa-bebê. – Mas, falando sério, o que será que ele tá querendo com meu quarto?
— Acho que ele não vai fazer nada demais, Pers, não sei por que você tá tão preocupado...
— Você não sabe de nada? Ele não comentou nada com vocês?
Então...
*Flashback on*
— Ei, vocês, seres que morrem, venham aqui – forma carinhosa de Poseidon chamar todo mundo que estava no apê, num momento em que Percy tinha ido ao banheiro.
— O que foi, desgraça eterna? – perguntou Sally, também mega carinhosa com o pai de seu filho.
— Calma, por que essa hostilidade logo cedo? – pela cara do deus, dava até para imaginar que ele tinha se magoado mesmo. – Certo, eu estava pensando em fazer uma surpresinha para o Percy... quer dizer, é aniversário dele no próximo domingo, não é?
— Ah, por isso você ficou com o quarto dele? – perguntou Annabeth, já se tocando de onde o deus queria chegar.
— O que você quer fazer lá? – disse Sally, de repente animada – Posso ajudar? Amo surpresas.
— Então, eu vou mesmo precisar da ajuda de vocês para fazer isso, mas a maior parte vai ficar comigo, e garanto que não vou atrapalhar o trabalho de vocês – disse o deus, com os olhos cintilando mais que esmeraldas – Topam?
— Ajudamos sim, mas você tem que falar o que pretende – disse Thalia, de um jeito meio estranho. Perguntava-se, interiormente, se o seu pai faria algo assim por ela algum dia.
— Ah, então, eu pensei no seguinte...
*Flashback off*
— O que, eu? Do que eu saberia, cara? Eu sou só um simples sátiro, até parece que o Todo Poderoso Senhor dos Mares viria pedir ajuda para mim – disse Grover, nervoso, mostrando para o mundo que não sabia mentir nem para salvar sua própria vida.
— Não sei, você é meu melhor amigo, né? Faria sentido ele te pedir algum conselho...
— Pediu não, nem falei muito com ele desde que chegamos, morro de medo. – mentiu o menino-bode, descaradamente.
— Você tem medo do meu pai? – perguntou Percy, ainda desconfiado. Ele conhecia o amigo, e sabia que este estava escondendo ouro. – Por que? Tipo, ele usa camisas havaianas, como você pode ter medo disso?
— Sei lá, o Hawaii não é de todo pacífico, tem uns vulcões e tudo. E seu pai tem, sabe, aquilo. – disse Grover, tendo um arrepio involuntário.
— Aquilo o que? – perguntou o semideus, agora realmente confuso.
— Bom, é uma coisa que você, a Thalia e todos os Três Grandes têm... Uma aura, entende? Não sei explicar direito, mas sempre que estamos perto de algum de vocês é como se nosso alarme interno de perigo iminente ficasse apitando feito louco – confessou o sátiro – Todos os nossos instintos mandam a gente correr o mais rápido possível na direção contrária a vocês.
— Sério que eu também tenho isso? – disse Percy, incrédulo, olhando para si mesmo no espelho da penteadeira – Eu entendo a sensação que você está falando, sinto isso quando chego perto dos meus tios, mas nunca senti com meu pai ou com a Thalia...
— Sim, cara, você tem MUITO isso – riu Grover – Digamos que se eu não fosse seu amigo, morreria de medo de você. E seu pai tem o mesmo tipo de energia que você, e Thalia tem a mesma intensidade, acho que é por isso que você não sente.
— Essas energias tem tipos agora? – disse Percy, já começando a ficar confuso. Era informação demais para um dia só.
— Então, sim. Quer dizer, a Thalia e o pai dela têm essa coisa que faz nós percebermos que eles é quem mandam, uma autoridade natural. Nós obedecemos sem nem pensarmos no porque de fazermos. Eles quase brilham, é um poder que intimida. – explicou Grover – Hades nos dá aquele medo, sabe, desperta os receios mais profundos, faz a gente querer se afastar o máximo que puder dele, por segurança.
— E nós? – perguntou Poseidon, que havia chegado ao aposento a tempo de ouvir o que Grover falava, e estava encostado no batente da porta, displicente, aguardando chegar sua vez.
— Bom, senhor... – disse Grover, de repente alerta – Vocês tem esse negócio que puxa a gente. Sabe, como um ímã. Não é tão intimidante, e não sentimos aquele medo que nos paralisa, chega até a ser reconfortante. E, na minha opinião, isso torna vocês mais perigosos ainda, sem ofenças.
— Por que você acha isso, criança? – perguntou Poseidon, com um tom assustadoramente gentil.
— Ah... acho que é porque nós não percebemos que estamos em perigo até ser tarde demais – disse Grover, tendo mais um arrepio – É que nem quando estamos no mar, vamos avançando em direção ao fundo sem percebermos que estamos em risco, e só nos tocamos quando estamos longe demais e não conseguimos voltar...
— E aí você se afoga – completou Percy, do jeito mais sinistro do mundo.
— É, aí você se afoga – confirmou o sátiro, engolindo em seco. Agora ele estava começando a ficar com medo dos dois de novo. Ambos estavam pensativos, silenciosos, os dois com aquela cara que o Percy fazia quando estava tendo alguma ideia maléfica.
— Bom, pelo visto vocês também já terminaram aqui – disse Poseidon, do nada, despertando de seu transe e quebrando totalmente o clima macabro que estava predominando no quarto. – Eu também terminei os acabamentos. Agora a gente pode ir para os móveis da sala e da cozinha.
— Isso, vamos lá – disse Grover, ansioso para sair dali.
No caminho para a sala, houve outro momento estranho. Sally e Thalia já estavam na metade da pintura do quarto de hóspedes (que agora estava num tom bem claro de laranja) e quando eles estavam passando na frente no quarto, Poseidon foi acertado em cheio por um pincel voador. Sua camiseta, antes imaculadamente branca (o que era muito estranho, uma vez que ele já tinha mexido com cimento e um monte de coisas que sujam), agora exibia um círculo laranja bem no meio do peito. Parecia um sol nascendo no meio do nada.
— Sally, sua diaba, você vai morrer por isso!
A autora do disparo riu muito alto quando o deus correu para o quarto dela, pegou o rolinho que Grover estava usando e uma tigelinha com a tinta pink e voltou, aparentemente muito bravo, e foi em sua direção.
— Quer mesmo perder na frente das crianças, querido? – provocou Sally, se afastando na direção de uma parede que ainda não havia sido pintada. Percy, Grover e Thalia observavam a cena totalmente estupefatos.
— Primeiramente, eu não vou perder. Segundamente, eu vou acabar com a sua raça – cada palavra do deus era pontuada com um passo lento e calculado em direção a sua vítima.
Sally gargalhou mais uma vez, mas sua risada morreu ao sentir a parede em suas costas e perceber que estava encurralada. Ao olhar para Poseidon, viu em seus olhos muito verdes aquele brilho incrível de que se lembrava, de uma criança que consegue enfim seu intento, e sorriu levemente ao fechar os olhos e se preparar para o ataque.
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