Três vozes e o Mistério Dos Ocultos
4 Perigo em CuteWorld / Libertinagem / Fome =S
Luzíada, 22 de fevereiro de 2005.
Cara, veja isso, odeio matemática.
Sou uma garota que vê fadas, podia ganhar dinheiro com isso ao invés de ter que estudar infinitamente para trabalhar em algo chato como escritório.
- Devia tentar multiplicar esse dois aqui — Alan estava sentado ao meu lado no chão do meu quarto, eu com o caderno nas mãos, tentando fazer as tarefas de casa.
- Tipo assim? — tentei fazer a conta, acho que deu certo.
Ele assentiu. Como ele podia fazer tudo parecer tão fácil?
Alan era iria dormir comigo naquele dia. Só dormir. Ele me compreende, apesar de não acreditar em mim. Na mente dele, eu sou a garota ingênua que vê nas fadas minha infância que está indo embora. E bem, ele achava que eu não queria perder era isso: a fase mais linda da vida.
Muita coisa aconteceu nos últimos dias. Minha irmã se mudou para uma cidade aqui perto. Minha mãe passou a incentivar que Alan dormisse por aqui de vez em quando, porque achou que assim, eu seria obrigada a crescer.
Só que não.
Meus amigos finalmente tem me aceitado como parte do grupo novamente. Isso tem sido útil, pois conversar com fadas somente não me ajudaria a crescer.
E bem, teve o lance com a Bel.
***
A pequena cidade de Luzíada dormia. Era madrugada, os grilos era o único barulho e as luzes estavam todas apagadas, com exceção dos vaga-lumes.
No prédio Center Fox, no décimo andar, apartamento 106, vivia Melissa Fortes, seu pai João Hélio, a madrasta Suzana e a irmãzinha Bel, de cinco anos.
Eu tinha dezesseis.
Era uma adolescente comum: saía para baladas, parques e shows, e era feliz e tinha amigos e namorado.
Nada era muito estranho em minha vida, com uma exceção: eu falava com fadas.
Nessa noite, curtia no meu fone a banda da qual eu era fã a algum tempo, escrevendo concentrada no meu diário, como faço agora. Meu dia tinha sido especial, ganhara uma aliança de compromisso e uma linda correntinha de ouro, com o pingente de uma fadinha voando.
Mas tudo estava calmo demais.
Quase caí da cadeira quando vi a fumaça azul se formar em minha frente, formando uma espécie de redemoinho bem em cima do tapete cor-de-rosa. A bela mulher de corpo perfeito, vestido azul longo e cabelos negros sorriu, fazendo brilhar os delicados olhos azuis.
- Fada Azul! — gritei, no impulso, logo colocando a palma da mão na boca, percebendo a gafe — Faz meses que não recebo notícias suas! A Ellen disse que você ganhou as eleições e é a nova rainha de CuteWolrd!
Ellen era minha melhor amiga e filha da nova rainha. O principal trabalho de Ellen era o de mensageira particular da mãe, mas passava a maioria do tempo livre comigo.
- Melissa Fortes, sempre entusiasmada e indelicada, venha me dar um abraço!
Abracei a fada, que trazia agora no dedo o anel de diamantes que indicava seu título. O abraço era mais forte e confortante que qualquer presente de Alan.
- O que te trás a minha casa, rainha? — fiz reverencia, de brincadeira, com um em frente ao outro, e a mão segurando o short branco do pijama.
Fada Azul se deixou cair na cama pronta, antes de começar.
- Emergências, menina — explicou — O século novo trouxe tecnologias tão cedo às crianças, que muito cedo elas perdem a pureza e a inocência, sem escolha, e isso tem nos prejudicado.
- Por que isso prejudica seu mundo, rainha? — minha testa se enrugou.
Os brilhantes olhos azuis da fada escorriam lágrimas de prata.
- Nossa população está curta, Mel — continuou a fada — As crianças, cada vez mais cedo, tem deixado de acreditar em bobagens como fadas e cupidos, e nós morremos.
Ajoelhei-me, sentida, aos pés da fada, meu peito cheio de dor.
- Cada vez que uma criança diz que não acredita em fadas — afirmou Fada Azul.
Levantei, caminhando de um lado a outro.
- E o que eu posso fazer a respeito? — perguntei.
A fada pousou, agora pequenina como um polegar e com asas, no ombro da menina e o brilho azul a seguiu.
- Você nos conhece melhor que ninguém e tem seus métodos, Mel — falou a voz baixa e fininha — Fale as crianças sobre nós, ensine-as a nos amar. Nos salve!
E sumiu.
A porta do quarto se abriu e a pequena Isabel entrou, com seu bico na boca e a fralda na mão.
- Conta uma história para mim, mana — pediu em meio as palavras erradas que saíam por trás da chupeta — Não consigo dormir.
Deitou-se encolhida na cama. Fechou os olhos, enquanto a irmã contava a Isabel de uma fada apaixonada.
- Fadas não existem! — gritou Bel, de olhos arregalados — Papai falou!
Senti um estranho aperto no peito, e vi uma fumaça colorida surgir no meu ombro, materializando Pig, a pequena fada de três anos, que eu vira nascer, a Fada da Primavera.
Bel dormia, ressonando. Pig chorava.
- O que foi? — perguntei, surpresa, pois jamais vira Pig chorar.
- Ellen morreu.
Meu choro acordou a pequena Bel, que ao ver menina e fada chorarem, pulou da cama.
- Mana, é uma fada! — gritou — Elas existem!
E sorriu.
Meio segundo depois, a fumacinha amarela da fada da riqueza apareceu, e Ellen surgiu, muito viva.
- Estou bem, meninas.
E uma fada estava salva, por enquanto.
♥♥♥
Cutewolrd, 24 de fevereiro de 2005.
Não que eu odeie minha prima, mas ela é irritante. Fútil, nojenta e rotuladoramente fada.
Minha única amiga — além do pessoal de Floripa — é Matilde, uma linda menina de treze anos, que também não parece muito com as fadas infantis.
Bem, talvez isso seja porque ela é a Fada do Sexo, protetora dos amantes, e como tal, a menina mais periguete e mais propensa a engravidar cedo de um humano qualquer.
Por incrível que pareça, ela parece fofa e usa vestidos, como qualquer fada (tirando o fato que usa corpinho e cinta liga, com sapato de prostituta). E eu pareço uma rebelde. Em compensação, é ela que apronta, e eu que prefiro ser a fada "comportada" que todo mundo espera de mim.
Ei, não brigue comigo, avisei que odeio rótulos.
Rotular alguém é como achar pelo em ovo. Se só o fato de alguém se vestir de preto significasse que é roqueira, bem, não nasceria uma fada de asas negras.
***
Matilde tem só treze anos.
Não que ela tenha iniciado sua vida sexual agora, talvez tenha sido depois dos nove. Mas isso não é apavorante, quando se trata da Fada do Sexo.
Matilde Pink é a forma real de uma fada: linda, loira, de cabelos abaixo da cintura e um vestido tubinho vermelho vivo. É vaidosa e consciente da sua principal função: proteger os atos íntimos dos humanos.
Ninguém reclama de sua libertinagem precoce, quem poderia? Ninguém pode proibir minha mãe de casar ou eu mesma de ouvir música. E tampouco podem proibir a delicada Matilde de fazer sexo.
- Quem é seu amigo? — foi a primeira pergunta que Matilde fez ao conhecer Mathew, meu amigo punk de moicano.
Eu revirei os olhos e deixei os dois sozinhos. Não sei bem o que aconteceu depois, mas posso imaginar.
Não foi por isso que nos tornamos amigas, até porque, somos opostos. Ela é a fada típica, eu, a aberração. Ela faz sexo em qualquer hora ou lugar e eu ainda sou virgem. O motivo principal de Matilde ser minha melhor amiga era bem simples: Ellen.
Ela e o ódio comum que sentíamos.
***
Foi confuso quando apresentei Matilde aos meninos. Ela não sabia esconder que era uma fada, e às vezes falava coisas que eles não entendiam.
Mas eles a adoraram. Quem não gostou nem um pouco foi Priscila, a nova namorada (mala) de Douglas.
Era uma roqueira, claro. Fazia o estilo gótico, sempre com sainhas armadas e corpinho preto. Naquele dia, o cabelo dela era preso em chiquinhas, e a maquiagem imitava sangue.
- Ninguém quer saber da sua amiga vadia por aqui, Larissa — falou, com a voz enjoada, que tentava imitar uma voz assustadora, sem muito sucesso — O jeito que se atirou pro Mathew, credo!
Revirei os olhos. Não tinha como explicar que isso era "coisa de fada", na visão dos humanos, Matilde era apenas isso, uma vadia.
- Acho que você não tem nada a ver com isso e nem eu — soltei — Se ela quiser dar pro parque inteiro, o problema é só dela.
A garota me olhou com nojo. Eu já não gostava dela, e agora vinha com essas, eu mereço.
- Sabe que se andar com ela vai ficar mal falada também? — ela perguntou.
Ergui uma sobrancelha.
- Isso só prova que você é uma fofoqueira — falei — E que rotular alguém porque ela anda com outra pessoa faz de você uma idiota.
Uuuh, fizeram os garotos, a minha volta.
É, eu não sou muito de ouvir quieta.
♫♪♪♫
25 de fevereiro de 2005.
Fome =S
Nunca fui de comer muito.
Fui sempre a "chata" da família, que evitava saídas para que não aumentasse o peso. Isso os irritava.
Me irrita agora. Foi inútil. Se eu fosse realmente inteligente, teria aproveitado a vida humana conforme podia.
Mas bem, tarde demais para se chorar o McDonald perdido.
Saí com Manuela na primeira vez. Jamais conheci criatura mais doce. Era como uma criança, só que mil vezes mais macabra. Me lembrava meninas de filmes de terror: meigas, doces e delicadas, mas apavorantemente malvadas.
Ela me levou a uma espécie de balada, completamente lotada e de repente pensei se não a deixariam entrar. Mas o segurança apenas olhou para ela, sorriu e piscou o olho direito, como se a entrada dela fosse um segredo de anos.
Nunca vi ninguém tão sedutora e frágil, ao mesmo tempo, num corpo infantil. Quase como se soubesse, ela se aproximou de uma mulher estonteante, de cabelos brancos não-naturais arrepiados e uma roupa estupidamente vulgar. Manuela iniciou uma conversa se derretendo em cima da mulher, que devia ter algo entre vinte e vinte e cinco anos.
Sem que eu tivesse tempo de respirar, a mulher roubou um beijo de cinema da garota-vampira, que sem perder tempo, mordeu-lhe.
Ninguém pareceu perceber.
Sentir o cheiro de sangue me doeu a garganta. Senti uma mão no meu quadril e virei-me absurdamente rápido, deparando-me com um garoto mais novo que eu, de olhos claros e sorriso estonteante. Não aguentei, e deixei que ele me beijasse. Minha boca foi rapidamente a seu pescoço, e ele nem resmungou. Caiu, e eu fui atrás de Manu.
- Belo rapaz — ela elogiou.
Dei de ombros. Estava enojada. Não que o sangue não fosse bom, na verdade, era como experimentar tequila pela primeira vez, só que melhor.
Mas algo no rosto angelical do garoto me fez pensar se ele teria família. Pais preocupados se ele voltaria para casa, talvez um namorado que roía as unhas de ciúme dessas noitadas ou uma avó doente, que morreria ao saber da morte do neto.
Estremeci.
- Algum problema? — perguntou Manu, preocupada — Quer mais um?
Neguei com a cabeça. Um assassinato era o bastante para mim.
postado por Márcia, a vampira, às 14:30.
Trecho do Narrador
Três vozes. Três versões de realidade.
Uma menina que ainda acredita, mesmo quando o mundo tenta dizer o contrário.
Uma garota entre fadas e humanos, odiando rótulos, mas lutando contra eles.
E uma jovem... que deixou de ser humana, sem ter certeza se queria isso.
Eu encontrei esses registros em caixas enterradas entre prédios rachados e parquinhos quebrados.
O nome "Luzíada" ainda aparecia em placas enferrujadas, cobertas de mato.
Algo estava prestes a acontecer em 2005.
E estou me aproximando da verdade.
Mas ainda não o bastante.
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