Três amigas e o amor.
50 Sílvia - Você se preocupa muito com o futuro.
De volta ao hotel, no fim da noite, já cansados, Sílvia observou Ana ir para o quarto, sabendo que, com certeza, a amiga estaria bem aborrecida por deixá-la mais uma vez sozinha com Marcelo. Mas, eles que se entendessem, já eram bem grandinhos, afinal, apesar de comprometido, Marcelo ainda não era casado e, como ela mesmo viveu antes, noivados podem terminar de maneira repentina e alguém sempre saía ferido, mesmo que morresse de pena da noiva dele, gostava muito mais da sua amiga. Além do mais estava com Pete e aproveitando muito a companhia dele, pois nunca havia encontrado alguém igual, com tantas histórias e aventuras para contar.
— Esse lugar é tão bonito – Pete declarou, tirando Sílvia dos seus pensamentos, enquanto viam as fotos tiradas naquele dia.
— É uma pena, que vão destruí-lo para construir um hotel aqui, será um desastre. O desequilíbrio ambiental será irreversível. Você deve ter visto muitos lugares assim pelo mundo?
— Assim não, alguns até parecidos. Cada lugar é diferente de outro com suas belezas e suas feiuras, cada um tem suas coisas boas e ruins, mais ou menos como as pessoas.
— Você aprendeu isso nas suas viagens?
— Sim, foi o que eu aprendi viajando por aí. Às vezes, eu chego em um lugar muito pobre, que não tinha nada, mas eles dividiram comigo o pouco que tinham. Já fui a lugares muitos ricos, que ninguém olha para você, só eles que são importantes, todo o resto é invisível – explicou, muito sério, olhando direito para ela.
Silvia observava seu rosto marcante, com o nariz reto, os olhos azuis, a boca fina, a mandíbula bem proeminente, mas havia nele mais que uma beleza física, era algo que Silvia não sabia definir.
— Deve ser muito interessante viver assim?
— Eu gosto, mas, às vezes, é muito difícil. Lugares distantes, estradas ruins, sem transporte, já fiz loucuras por uma boa foto – sorriu, recordando alguns dos seus atos intrépidos.
Ele lhe contou suas desventuras, com o entusiasmo, de quem gostava do que fazia, das surpresas, das descobertas e mesmo dos percalços, e não se aborrecia com as perguntas que ela lhe fazia e eram muitas.
— Quando eu era bem pequena, sonhava em viajar e conhecer o mundo, outros lugares e pessoas diferentes – Sílvia confessou, nunca havia contado isso para ninguém – Depois, a vida me levou para outro caminho, eu guardei desse sonho, sem esperança que pudesse realizá-lo algum dia. Talvez, por isso, eu estudei e ensino geografia.
— Por que você esqueceu do seu sonho? – Pete quis saber, sem entender aquela filosofia de vida dela, abrir mão dos seus sonhos por uma vida tão prosaica.
— Eu não sei, a minha vida começou a mudar e o sonho de viajar foi ficando para trás – Não queria falar mais sobre a sua história com Pedro, e mudou de assunto – E você, por que começou a fotografar?
— Quando era pequeno, ganhei uma câmera de minha mãe e comecei a fotografar tudo que via. Depois, eu queria mais e mais. Estudei e aprendi, trabalhei com muitos bons fotógrafos. Até ir trabalhar nesta revista, eles me mandam, para várias partes do mundo. Eu estive na Antártida, África, América e, depois, vou para Ásia.
— O que mais impressionou você?
Então, Pete contou sua viagem à África, falou das savanas, dos animais, das tribos e da vida difícil deles, da fome e sede e das guerras, e do sofrimento, que elas causavam. Em seguida, falou sobre a imensidão branca da Antártida e suas geleiras
— No ano que vem, irão lançar um livro com minhas fotos.
— Devem ser lindas, eu gostaria de ver suas fotos algum dia. Esperarei ansiosa pelo seu livro.
— Não precisa esperar pelo livro. Elas estão no meu quarto – Era um convite.
O quarto de Pete era um pouco bagunçado, mas ele não tinha muita bagagem, para alguém que viajava tanto, por todo aquele tempo, sentaram-se na cama dele, encostados na parede e ele começou a mostrar suas fotos, alguns brilhantes e coloridas e outras bastante tristes e sofridas, mas todas belas, enquanto, ele descrevia os detalhes de cada uma delas, com foi feita e em que lugar, ficava cada vez mais bonito e com os olhos cada vez mais brilhantes pela empolgação das histórias. Sílvia não resistiu, sorriu para ele e o beijou.
— É maravilhoso, como você fica quando fala do seu trabalho.
— Meu trabalho pode trazer algo surpreendente como você, Silvia.
— Eu não sou surpreendente, sou uma pessoa comum até mesmo banal, com meus sonhos triviais e sem graças.
— Não, Silvia, você é surpreendentemente incomum, só que esconde isso, com medo do desconhecido, mas é ele que pode nos trazer coisas extraordinárias.
— Como você, Pete – Silvia disse o envolvendo em um abraço, ele correspondeu a trazendo para junto de si, os corpos grudados, as bocas se perdendo em beijos cada vez mais ardentes, mãos, que descobriam e despiam, para saciar o desejo.
Sílvia acordou, no dia seguinte, com a luz do sol entrando pela fresta da janela e batendo no seu rosto, ela se ergueu nos cotovelos, olhou para Pete dormindo ao seu lado, de bruços, nas suas costas largas, junto ao ombro esquerdo, havia uma tatuagem de um leão.
— Bom dia, dorminhoco! – Ela sussurrou no ouvido dele, deslizando o dedo com suavidade sobre a tatuagem.
— Bom dia – ele abriu os olhos incrivelmente azuis, olhando para ela, sorriu, sonolento.
— Bela tatuagem – ela continuava seu desenho sobre a pele dele.
— O leão é o símbolo do meu país, além de ser bonito, passa força – Pete explicou, um pouco mais desperto.
— Nunca tive coragem de fazer uma tatuagem – Silvia confessou – Seria uma escolha para a vida toda.
— Você se preocupa muito com o futuro – Pete observou, virando´-se para ela, estava frente a frente, a pouco centímetros, ele começou a acariciar a lateral da coxa de Silvia, subindo ainda mais, sem pudor.
— É mais forte do que eu – Agora, ela descobre caracteres japoneses tatuado no peito de Pete.
— O que querem dizer? – Sussurra, prestando mais atenção na mão atrevida dele.
— Liberdade – Pete murmurou junto aos lábios dela, a beijando e aproximando para entrar nela, bem devagar.
Depois, ficaram algum tempo, ainda deitados, até Silvia levantar-se em um pulo.
— Você já vai? – perguntou, entorpecido.
— Tenho que ir. Vamos no manguezal hoje. Quer ir conosco? – indagou de forma natural – Acho que poderá fazer boas fotos lá – tentou convencê-lo.
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