Três amigas e o amor.
21 Sílvia - Só um passo e estaria tudo esquecido
Após o pesadelo de descobrir que seu noivo havia se apaixonado por uma outra mulher, Sílvia se sentia totalmente perdida e desamparada em um lugar estranho.
— Sílvia, há um hotel aqui perto, onde os estudantes costumam ficar, eu levo você até lá – Pedro disse de maneira piedosa, pegando a mala dela do chão, esquecida no meio da calçada, saiu andando na frente, sem falar mais nada, e ela o seguiu, automaticamente, para dentro da noite.
Eles andaram algum tempo, virando uma esquina e depois outra, pessoas cruzavam por eles, apressadas, querendo chegar em algum lugar, alheias ao drama que acontecia na vida daquela mulher. No entanto, Sílvia não os enxergava, nem sabia por onde andava ou para onde ia, até pararem na frente de um pequeno hotel de uma fachada estreita e antiga e entraram. Era um hotel simples, a recepção acanhada com um balcão de madeira e vidro e apenas uma poltrona de couro gasto verde. Pedro a colocou sentada na poltrona e foi até o balcão, atrás dele havia uma jovem mulher loura e de óculos de aros escuros, ele conversou com ela por alguns minutos, apontando para Sílvia, que permanecia sentada em estado de choque, o rosto sem expressão, os ombros caídos, com as suas mãos esquecida sobre o colo. Pedro preencheu alguns papéis e pediu o passaporte e o cartão de crédito dela, que os entregou, sem perguntar nada e, após algum tempo, ele os devolveu e junto uma chave.
— Tome! Guarde seus documentos e essa é sua chave, o seu quarto é 205. Suba, tome um banho e durma um pouco, amanhã você se sentirá melhor – ele afirmou em tom brando. — Sinto muito, Sílvia, mas a gente não pode controlar o coração. Você vai superar isso. Seguir em frente. Adeus, Sílvia — Pedro se despediu com um último olhar de piedade, fazendo lhe um afago consolador no ombro dela e foi embora.
Enquanto, Pedro partia, Silvia ficou parada na recepção, com o olhar perdido e o pensamento vagando, sem acreditar, que seu relacionamento de mais de quinze anos acabara assim, com um mero afago no ombro e um você vai superar. Levantou-se lentamente, como em um apagão, não se lembrava, como chegou até o pequeno quarto de cortina e colcha com a mesma estampada florida e alegre e um leve cheio de mofo e desinfetante, tomou um banho morno e caiu na cama, ficou olhando o teto por muito tempo, mas não chorou, recordava seus momentos felizes com Pedro, como o primeiro beijo, a primeira ida ao cinema, a primeira vez dos dois que fizeram amor, daquela forma tão desajeitada. Pensou, como Anete deveria ser muito mais experiente que ela na cama. Afinal, Pedro foi o único homem da sua vida, Silvia sempre achou, que o sexo não era uma parte tão importante do relacionamento, ficaria sempre atrás da afeição e da amizade entre o casal.
Já estava amanhecendo, quando conseguiu adormecer, foi apenas um leve cochilo de algumas horas. Acordou, assustada, como de um sonho ruim, demorou a reconhecer onde estava e lembrar-se o que aconteceu na noite passada. Sentia o coração vazio, quando levantou e vestiu-se, juntou seus poucos objetos espalhados, jogou-os de volta para a mala e saiu do hotel, meio anestesiada, com a mente entorpecida, só queria ir embora daquele lugar, daquela cidade, daquele país, então foi para a estação e pegou o primeiro trem para Paris, de lá seguiu direto para o aeroporto, precisava voltar para casa.
No balcão da companhia aérea, no meio do tumulto das chegadas e partidas, Sílvia encontrou uma atendente que, felizmente, falava inglês, que lhe que informou que os voos estavam lotados devido a época do ano e que não poderia fazer nada para antecipar seu retorno.
— Desculpe, mas preciso embora, o mais rápido possível, porque, ontem à noite, meu noivo terminou comigo, me trocou por outra mulher e eu não conheço ninguém nessa cidade – Foi em um ato de puro desespero, que Sílvia lhe contou a sua história, a moça ouviu tudo com atenção e ficou comovida e solidária, com o sofrimento daquela mulher desprezada, conseguindo antecipar seu voo de volta, mas só dali a dois dias. Ela agradeceu a atendente, com sinceridade, pela ajuda e retornou à Paris de trem.
Durante a viagem de trem de volta à cidade, consultava em suas anotações, para achar o endereço de um dos hotéis, em Paris, que havia selecionado, ironicamente, para uma possível viagem de reconciliação com Pedro, uma espécie de lua de mel, pura ilusão, desistiu não queria sofrer por algo que não aconteceria.
Sabia, que a cidade estaria cheia, em plena alta temporada de turismo, mas resolveu arriscar. Ao motorista de táxi, entregou o papel com o endereço escrito, hotel pequeno e acanhado escolhido a esmo que, por sorte, tinha um quarto para os dois dias que precisava. Mas, Sílvia não conseguiu ficar muito tempo dentro daquele quarto pequeno e escuro, de gosto duvidoso, sentindo-se oprimida, sem ar. Ela precisava sair dali, pegou sua bolsa e caminhando sem destino pela cidade. Andou e andou, entrando e saindo de praças, ruas e vielas, sem destino, não sabia estava indo até chegar à beira de do rio Sena, com suas águas escuras, cortando a cidade, testemunha silenciosa das histórias, que se passavam nas suas margens há milhares de anos. Então, começou a segui-lo, talvez, lhe mostrasse um caminho, mas Silvia não reparava nas belas construções, pontes e jardins, por onde passava, apenas vivenciando a sua dor. Só parou, um momento, quando viu a torre Eiffel, alta e majestosa, imaginando há quando tempo desejou conhecê-la, porém aquilo já não tinha mais sentido, não conseguia enxergar a beleza desse momento, a realização de um sonho. Então, deu um longo e doloroso suspiro, continuando sua caminhada, não estava disposta a enfrentar aquela multidão de turistas, para chegar ao seu topo. E quando exausta de tanto andar e de tanto sofrimento, parou e observou, como hipnotizada, a suave correnteza das águas escuras do rio e seu barulho sútil, perdido entre os sons da grande cidade. Naquele momento, deu um passo para frente, ficando, perigosamente, próxima da beira. Era tão fácil, só mais um pequeno passo para frente e seria o fim da dor e da humilhação. Só um passo e estaria tudo esquecido, pensou.
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