Três amigas e o amor.
34 Raquel – Como nunca havia sido beijada antes
Raquel ainda estava hesitante ao deixar Ana em casa sozinha. Enquanto dirigia para sua casa, pensava que mal podia acreditar naquela história de como a amiga havia se envolvido em uma roubada dessa. Apaixonar-se logo por Marcelo MontReggio! Não dava negar que ele era um gato charmoso e bonito só não entendia o que ele queria com Ana. Talvez, fosse uma fuga por medo do casamento e do compromisso, já ouviu falar sobre isso, sua revista até publicou uma matéria sobre o assunto. Pobre Ana! E descobri logo assim, tão de repente, da pior maneira possível. Afinal, era sobre Marcelo que ela tinha tanta urgência para falar. Estava curiosa até que ponto esse envolvimento chegou, pois pela reação da amiga deveria ser algo muito sério? Agora, só esperava que Ana superasse toda essa história, bem rápido, e não sofresse por muito tempo.
Entretanto, Raquel também ficou um tanto chateada, já que esperava se abrir com Ana, contar-lhe a respeito do seu caso com Vitor, dividir as dúvidas que Otávio plantou na sua cabeça, mas não teve a oportunidade falar dos seus problemas com a amiga, já que ela não tinha condições para uma conversa como aquela.
Considerando como vivia uma situação parecida, cheia de mentiras e falsidades, porém, o seu caso era pior, porque estava conivente com aquilo. Raquel sabia desde o início que Vitor era casado e que nunca deixaria a mulher por ela. Ele podia até gostar de Raquel, mas amava muito mais o status e o dinheiro que aquele casamento lhe proporcionava.
Com sua cabeça girando em mil pensamentos confusos, talvez, fragilizada pelo que aconteceu com Ana, Raquel decidiu aproveitar a oportunidade, que a distância de Vitor lhe dava, para pensar se seria isso que desejava para o resto da sua vida. Uma longa espera para ter uma migalha de sua atenção, uma vida em segredo. Ela merecia mais do que isso! Ela queria mais do que isso! Precisava conversar com alguém com urgência para acalmar sua alma em chamas. Mas com quem? Com Ana seria impossível, ela não estava em condições de ouvir ou aconselhar ninguém. Sílvia vivia aquela ilusão do amor eterno, escrito pelos deuses nas estrelas, depois, acabou sendo abandonada pelo noivo, ainda juntava os caquinhos. Sua mãe nunca aceitaria a filha em uma situação como aquela, tendo um caso com um homem casado, seria radical, principalmente, depois do que ela passou com o primeiro marido, pai de Raquel, um homem terrível, autoritário e controlador. Sentia-se sozinha e desamparada, até chegar no prédio onde morava, no seu andar parou em frente à sua porta, mas em um ato de pura loucura, deu meia-volta e tocou a campainha do apartamento vizinho. Otávio entreabriu a porta.
— O que você quer? – Ele enrugou a testa e interpelou-a com um ar desconfiado.
— Conversar — Raquel pediu, com um fio de voz.
— Comigo? Por que? – Agora, era ele que estava confuso.
— Porque você é a única pessoa, que sabe o que está acontecendo comigo! Eu nunca contei sobre Vitor para mais ninguém.
— Entre! – Ele se afastou para ela passar, parecia mais calmo. – Sente-se! – E apontou o sofá e sentou-se ao lado dela.
— Então, o que você quer conversar? – Otávio perguntou, encorajando-a, olhando nos seus olhos.
— Por que você se importa? – Raquel quis saber.
— Porque não aguento ver uma mulher como você, desperdiçar a vida assim, em uma relação que não vai dar em nada, com um homem daquele tipo – Otávio confessou.
— Ele não é uma má pessoa – Raquel defendeu Vitor quase para si mesma.
— Isso é o que você diz! — retrucou em tom de ironia.
— Eu o amo! – Raquel afirmou — Pelo menos, eu acho que amo – emendou, confusa, já não tão certa dos seus sentimentos.
— Isso não é amor, nem é um relacionamento, Raquel. Um relacionamento tem convivência, cumplicidade, troca. Não isso que vocês têm, ele subjuga você – Otávio ponderou, com a voz calma.
Aquelas palavras mexeram ainda mais com a cabeça de Raquel.
— Claro que não! Eu faço o que quero! – negou, com veemência, sacudindo a cabeça.
— Faz mesmo? Tem certeza? – Otávio a questionou, com sarcasmo.
Raquel suspirou, não tinha certeza, mas no fundo sabia que Otávio estava certo.
— Eu não quero ficar sozinha!
— Você já está sozinha, Raquel! Você passa a maior parte do tempo, naquele apartamento, solitária, esperando por aquele cara, que vem de vez em quando, fica só algum tempo e vai embora.
— Quem fala? Como você se tornou um especialista em relacionamentos? Depois do seu divórcio? Por que não conseguiu salvar o seu casamento? – Raquel contra-atacou, querendo feri-lo, magoá-lo, como ele fazia com ela agora, procurando por um ponto fraco. Otávio a encarou, abismado, Raquel pensou que ele rebateria com furor. Mas, ele apenas, sacudiu a cabeça e deu um sorriso triste.
— No meu caso foi diferente – ele respondeu de um jeito resignado. –Nós nos amávamos e tivemos uma bela história juntos.
— Diferente como? Por que se separaram, então?
— Não havia solução, não podíamos permanecer juntos – Raquel o interrogou com o olhar. — Minha separação foi por uma razão muito forte, mas, eu não quero falar sobre isso agora. Estamos aqui para falar sobre você – Otávio foi evasivo, parecia triste, continuou – Raquel, precisa sair dessa, pois, quando perceber você terá passado uma boa parte da sua vida, naquele apartamento em uma espera sem fim, sem viver, sem construir a sua própria história. Tome o controle da sua vida, Raquel. Esquecer este homem!
— Não posso! — Raquel não vi saída – Não sei como!
— Por que? — Otávio não conseguia entender, como ela se sentia em relação a Vitor, era um amor estranho, quase parasita.
— Preciso dele! – Raquel, finalmente, admitiu. — Por que você não gosta dele? Você não o conhece direito — parecia tentar convencer a ela mesma.
— Por que? Você se lembra que eu lhe contei sobre minha mãe se matar de trabalhar, para me criar e que eu não conheci meu pai?
— Lembro – Raquel assentiu com a cabeça.
— Meu pai era tal qual o seu Vitor. Era casado, quando conheceu minha mãe e ela era uma operária muito jovem e bonita, que se apaixonou por aquele homem rico e elegante, que lhe dava presentes e a enchia de atenção. Eles ficaram juntos por algum tempo, até ela engravidar de mim. Ele queria que minha mãe interrompesse a gravidez, mas ela não quis, porque era contra tudo que acreditava. Então meu pai a abandonou, nunca mais a procurou, ela ficou desesperada. Meus avós eram muitos religiosos e não aceitaram a filha solteira e grávida, ainda mais de um homem casado, expulsaram-na de casa e minha mãe foi morar com uma tia e fazia faxinas, até quando pode. Meu enxoval foi doado por um grupo religioso, nós moramos com essa tia, que era bem idosa, mas que cuidava de mim, enquanto minha mãe trabalhava, mas ela morreu. O resto você sabe – Otávio contou sua história com pesar.
— Lamento muito por sua história – Raquel disse, com sinceridade — Mas minha história é diferente, eu não sou uma jovenzinha desamparada. E Vitor nunca faria algo parecido comigo, me abandonar desse jeito.
—Será? – Otávio a questionou.
Raquel, realmente, não sabia, se um dia engravidasse o que Vitor faria, com certeza, não a deixaria ficar com o bebê. No entanto, Raquel não nunca teve esse tipo de preocupação, já que Vitor não poderia ter mais filhos. Sua esposa, Vera, exigiu que ele fizesse vasectomia, logo após do nascimento do segundo filho.
— Não sei!
— Raquel, você é uma mulher linda e inteligente, deve ter um monte de homens por aí que se matariam pela sua atenção – Otávio revelou sua admiração por Raquel.
— Não exagere! – Raquel riu, achando aquilo engraçado, sabia que a maioria dos homens não queriam um relacionamento sério com ela.
— É verdade! É só olhar a sua volta! – Suas palavras adquiriram um tom mais descontraídos, estava mais leve.
— A minha volta? – Raquel questionou, rindo – Como por exemplo?
— Como por exemplo, eu — Então ele falou quase como uma brincadeira, Raquel o encarou surpresa. Abriu a boca para retrucar, mas Otávio se aproximou e a beijou nos lábios, suavemente.
Primeiro, Raquel ficou sem ação, depois, pensou em empurrá-lo, no fim, deixou-se ser beijada. Um beijo bom e reconfortante, Otávio tinha lábios quentes e macios. Até que ele que se afastou.
— Perdoe-me! Não pense que eu estou me aproveitando da situação — Otávio se desculpou, sem jeito.
— Não, eu só fiquei confusa, não esperava por isso. Acho melhor, eu ir embora — Ela precisava refletir sobre tudo aquilo, que estava acontecendo na sua vida nesse momento. Não pretendia complicar ainda mais a situação.
— Você veio para me pedir ajuda e eu faço isso. Por favor, fique mais um pouco! Prometo que não vai acontecer de novo — ele falava de um modo sincero, e Raquel não queria ir. Queria ficar, porém sentia como estivesse traindo Vitor.
— Não, eu tenho que ir embora – ela precisava que sair dali, antes que pudesse fazer uma besteira.
— Tudo bem – ele falou, dando-se por vencido, erguendo-se. — Eu levo você até a porta – Otávio abriu a porta para ela sair – Desculpe-me mais, uma vez, Raquel. Mas, caso precisasse de ajuda me procure, por favor.
Raquel estava preste a sair, no entanto parou diante de Otávio, olhou direito nos seus olhos, deu um passo para frente e, um segundo depois, estavam em um abraço forte, as bocas coladas em beijo ardente, ele a puxou para dentro e fechou a porta. Ele a beijava como nunca havia sido beijada antes.
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