Três amigas e o amor.

8 Raquel - A promessa


Para Raquel, como sempre, a semana começou bastante corrida, textos para revisar, artes finais e fotos para serem escolhidas e aprovadas, já que era a responsável pela a edição da revista na internet, que estava sendo um sucesso, no entanto, dava muito trabalho.

Ocasionalmente, ao se encontrar com Vitor em um corredor, elevador ou em uma reunião, disfarçavam muito bem, não havia nenhum gesto mais íntimo perceptível ou um olhar comprometedor, nada que fizesse alguém desconfiar que houvesse algo entre os dois, além de uma simples relação profissional.

Vitor a visitava no seu apartamento, pelo menos, duas vezes por semana. E se sua esposa tivesse viajando de férias, a frequência aumentava, raramente, dormia lá, na maioria das vezes, passava só algumas horas. Raquel quase nunca recebia visitas, porque Vitor não gostava, dizia que ele poderia chegar e encontrar alguém, e a situação seria embaraçosa. Então, ela tinha que estar certa que Vitor não chegaria, para receber alguém na sua casa, assim se afastava cada vez mais dos amigos.

Naquela quarta-feira, ao regressar para casa, sua amiga Ana ligou, para lhe pedir socorro já que teria um encontro e precisava de ajuda para se vestir e, pela animação dela, devia estar muito a fim do cara. Como tinha certeza que Vitor não apareceria naquela noite, convidou-a para ir até a sua casa, pois ajudar as amigas era algo que Raquel gostava de fazer, sentia-se útil e importante já que moda era sua área. Estava acostumada com esses pedidos de ajuda, pois elas sempre a procuravam em uma ocasião especial, ou para pegar alguma roupa emprestada ou para pedir opinião sobre o que usar. Na última vez, fizera Ana gastar um bom dinheiro com o vestido preto para a festa de Robert, mas valeu a pena, ela estava linda. Torcia para que o encontro da amiga desse certo, pois Ana já estava há muito tempo sozinha e deseja muito que ela fosse feliz.

No momento que Ana chegou, Raquel lhe ofereceu uma taça de vinho para comemorar o seu encontro. Era bom ter alguém em ali, pois, muitas vezes, sentia-se muito sozinha, naquele apartamento tão grande. Empolgada e cheias de ideias, foram direto para o seu closet, decidir o que amiga poderia usar no tão esperado encontro.

— Eu sempre me espanto, com a quantidade de roupas que você tem aqui, Raquel – Ana confessou, olhando em volta o lugar abarrotado de roupas e acessórios da amiga – Olhe isso! – exclamou, admirada, enquanto pegava um vestido no cabide – Ainda tem a etiqueta! Meu Deus, isso é verdade, custa isso mesmo? – questionou, surpreendida, estendendo a etiqueta para a amiga.

— Eu gosto de coisas bonitas e, muitas delas, eu ganho de presente – Raquel respondeu, rindo indiferente e dando de ombros – Mas, vamos achar algo especial para você usar e ficar ainda mais bonita, porque parece que você está bem interessada nesse tal homem misterioso. Quem é ele? Eu conheço?

— Ele não é misterioso. Simplesmente, você não o conhece ainda – Ana mentiu, com dissimulada inocência, mais uma vez, já que foi Raquel que apresentou Marcelo a ela – Mas, acho que não vai dar certo, nós somos muito diferentes – confessou, desanimada.

— Pare com isso, Ana! Como é que você sabe? – Raquel retrucou, com vigor. — O primeiro passo é ficar bem bonita para impressioná-lo. O que achou desse? – perguntou, mostrando a Ana um vestido preto enfeitado com pedras – Não, não combina com você – ela mesmo respondeu.

Um pouco mais tarde, depois de muitas trocas de roupas e difíceis escolhas, Ana saiu carregada de bolsas da casa da amiga que ficou sozinha, outra vez. Raquel se sentou, encolhida no sofá de couro branco, meio sonolenta, assistindo um filme romântico, que tanto gostava, e tomando vinho, quando a campainha da porta tocou, sabia que não era Vitor, porque ele tinha as suas próprias chaves. Mesmo assim cogitou que, quem sabe, ele veio lhe fazer uma surpresa e esqueceu de trazê-las. Cheia de esperança, abriu a porta, bem depressa, mas não foi Vitor que encontrou, mas sim o seu vizinho antipático.

— Oi! Em que posso ajudá-lo? – Raquel perguntou, intrigada pela presença dele ali.

— Oi! Você falou que eu poderia pedir um favor se precisasse — ele relembrou a promessa feita há pouco dias atrás.

— Claro – mas, ela não esperava que ele cobrasse tão depressa. – O que precisa?

— Você poderia alimentar meu gato, enquanto eu estiver viajando? – ele pediu, com uma inesperada simpatia.

— Gato? Você tem um gato! – Ela ficou animadamente surpresa, pois não esperava por isso.

— Sim. Era da minha filha — ele explicou, sem dar detalhes.

— Você tem uma filha?! – indagou, sem conseguir se conter.

— Não – ele respondeu, secamente, Raquel não entendeu e nem pediu mais explicações.

— Pode deixar. Como é que eu faço?

— Tome, aqui estão as minhas chaves reservas – entregou-lhe um molho de chaves. – A comida do gato está no armário da cozinha, em cima da pia. Coloque-a no pote e encha o outro pote de água limpa, também. Os dois potes estão no chão perto da geladeira. Não se preocupe com a caixa de areia, eu troco antes de viajar. Eu irei amanhã e volto no domingo à noite. Poderia começar na sexta de manhã? – Seu vizinho deu as instruções e ela as ouviu, atentamente, teve até vontade de bater continência, mas nunca iria brincar assim com ele.

—Tudo bem! Entendi comida duas vezes ao dia e trocar a água. A comida está no armário em cima da pia da cozinha, começo na sexta até domingo. Ok! E só isso? — indagou, ainda insegura com a nova responsabilidade, pois apesar de sempre desejar, nunca teve um bicho de estimação para cuidar.

— Só! Boa noite e obrigado — ele se despediu em um tom mais suave e já ia embora.

— Escuta! Qual é o nome do seu gato?

— Jujuba – ele respondeu sem emoção na voz.

Jujuba! Raquel nunca imaginaria um homem daquele com um gato, ainda mais com o nome de Jujuba, achou aquilo muito esquisito, contudo não teve coragem para perguntar o porquê daquele nome.

— Eu, também, não sei seu nome — Raquel lembrou-se, antes dele desaparecer pela porta do seu apartamento.

— Meu nome é Otávio.

— Então, boa noite, Otávio.

— Boa noite, Raquel.

Cara estranho, mas bonito, um tanto intrigante, ela pensou, já que, no seu mundo, estava acostumada a conviver com pessoas bonitas, analisar suas aparências, valorizando seus pontos fortes e escondendo os seus fracos. Refletiu sobre aquele belo homem alto, com ombros largos, a pele marrom e sedosa, lábios carnudos, cabelos cortados muitos curtos e pretos, deixando a amostra aquela bela cabeça arredondada, e mãos grandes, daria um bom modelo se não fosse tão antipático. Apesar disso tinha algo que a atraía naqueles olhos escuros, profundos, misteriosos e tristes, sentia vontade de descobrir os segredos escondidos neles.

— Pare com isso, Raquel! – recriminou-se, em voz alta. — Você anda muito carente, ultimamente.

Então, para não esquecer do gato, colocou um recado para si mesma, pregando na porta da geladeira, com todas as instruções de Otávio.