Três amigas e o amor.
45 Ana — Sorte de uns, azar de outras
Assim que o avião se estabilizou no ar, Ana soltou seu cinto de segurança, sob o olhar atento de Sílvia, decidida descobrir porque Marcelo estava ali. Caminhou em sua direção, parando ao lado do seu assento.
— Podemos conversar? – disse direto, ele a encarou com uma expressão tranquila e levantou, andaram na direção dos banheiros, nos fundos do avião, o único lugar onde teriam um pouco de privacidade.
— O que você está fazendo aqui, Marcelo? Eu pensei que não quisesse seu nome envolvido – Ana falava em voz baixa e firme, sem disfarçar sua irritação.
— E não quero mesmo, mas ninguém sabe que estou aqui. Todo mundo acha que estou passando uns dias na casa de um amigo fora do país – explicou de um modo casual.
— E se alguém reconhecer você?
— Quem iria me reconhecer? Não passei muito tempo no lugar, íamos e voltávamos no mesmo dia, depois de uma breve visita. Além disso já faz um bom tempo que estive por lá, como um empresário.
— Por isso, a mudança, as roupas, o cabelo e a barba?
— Foi para parecer com um turista de férias.
— Então, por que você quis que eu viesse, ainda mais, arrastando Sílvia?
— Estamos aqui a trabalho, Sílvia veio para você se sentir mais segura.
— Por que ... – Ana ia fazer outra pergunta, quando a comissária de borda surgiu ao lado deles.
— Vamos começa o serviço de bordo, sugiro que voltem aos seus lugares – eles assentiram com a cabeça.
— Essa conversa ainda não terminou – Ana finalizou, antes de retornar ao seu assento.
— O que foi que ele disse? – Sílvia indagou, assim que Ana tomou o seu lugar.
— Nada só que achou que seria bom vir. E que você está aqui para me sentir segura.
— Imagino...
— Imagina o quê? – Ana questionou um tanto exaltada. – Eu já superei o que aconteceu entre nós dois, nossa relação é apenas profissional.
Sílvia a encarou de um jeito divertido, abaixando a cabeça para a revista que estava nas suas mãos. Ana não disse mais nada, apenas cruzou os braços na frente do corpo e respirou fundo.
Depois da viagem de avião, prosseguiram em um carro, que as esperava no aeroporto. Primeiro, viajaram por longo tempo em uma estrada asfaltada e, depois, o carro entrou em uma outra estrada de terra estreita e esburacada, Ana já estava menos empolgada, sacudindo por tanto tempo, naquele caminho poeirento, pensando como seria esse tempo todo tão próximo daquele homem, mas tinha que manter em mente que ele era noivo de outra mulher. Ninguém falou muito, dentro do veículo, economizando energia devido ao calor.
— Estamos chegando! Olhe já dá pra vê! É lá embaixo! – O motorista anunciou, sem emoção na voz, apontou para fora do carro e da estrada, que ficava mais alta, onde se podia ver uma enseada, de areias brancas, o mar com diferentes tons de verde e, no limite dela, uma mata de um verde intenso.
— Podemos parar para tirar fotos? — Ana perguntou, querendo admirar melhor todo aquele visual, ele parou e eles saíram do carro, chegando bem perto da beira da estrada para ver melhor o lugar.
— É lindo! — Sílvia estava admirada, já pegando sua câmera semiprofissional, começou a tirar fotos da paisagem.
— Estão dizendo, que irão construir um grande hotel por aqui, é verdade? — Ana quis saber, bancando a desinformada.
— É, moça, vai ter muito gringo por aqui. Coisa grande! — O motorista confirmou, assentindo com a cabeça.
— E onde será? — Ana queria saber o lugar exato da construção.
— Lá! — O homem disse e apontou para a enseada.
— Vão construir ali? — Ana falou, desagradavelmente surpresa, pensando na destruição daquele lugar tão bonito.
— Vão derrubar toda a mata, moça — o homem reafirmou.
— Como podem querer destruir um lugar como esse? – Ana indagou, chocada em pensar na ideia do lugar devastado.
— É por isso que estamos aqui – Marcelo sussurrou no seu ouvido, ela não pode impedir o arrepio que percorreu o seu corpo nesse momento, com o hálito quente dele contra a sua pele.
Então, desviando a sua atenção para a paisagem adiante, Ana sentiu um aperto no peito, pois, sabia que em pouco tempo, aquilo tudo poderia deixar de existir, essa ideia a deixou mais determinada, apesar de querer saber a opinião das pessoas do lugar.
Portanto, continuaram o caminho, agora em descida até a cidadezinha mais próxima, que era uma pequena vila de pescadores, com a sua rua principal em terra batida invadida pela brisa que vinha direto do mar mais além e algumas poucas casas simples e coloridas, que estavam, despreocupadamente, de portas e janelas abertas, os moradores locais levando sua vida, com calma e sem pressa.
E finalmente, o carro parou em frente de uma das casas, uma das maiores da rua.
— Aqui é a pensão. Volto em 3 dias para pegar vocês e levar de volta para o aeroporto. — O motorista anunciou — Boas férias!
Eles saíram do carro, pegaram suas bagagens e entraram na casa. O lugar era bem simples, na sala/recepção/refeitório, uma senhora pequena e sorridente veio recebê-las e se apresentou, a dona da pensão.
— Eu vou levar vocês até o seu quarto. O banheiro é comunitário – ela comunicou, em um tom informal.
— Quarto? – Ana estranhou o singular.
— Sim, um quarto triplo com três camas de solteiro, é o nosso maior – a mulher explicou, sem entender a surpresa.
— Quer dizer que vamos ficar no mesmo quarto?! – Ana indagou em um tom exaltado.
— Eu disse ao moço quando ela ligou que não havia mais quarto, só esse, e ele falou que não tinha problema – ela respondeu.
— Ele disse? – Ana falou com um tom sarcástico e as duas olharam para Marcelo que fez um ar de fingida inocência.
Sem escolhas, a dona da pensão os levou a um quarto rústico com três camas de solteiro, forrada com lençóis descoordenados, mas limpos, mostrou-lhes o banheiro comunitário, explicou os horários das refeições, gabando-se que a pensão estava cheia, com grupo de estudantes de biologia, que vieram conhecer a fauna e flora da região, além de um jornalista gringo, que estava fazendo uma reportagem sobre o lugar.
Ana perguntou a ela se haveria alguém, poderia servir de guia para eles conhecerem melhor a região.
— O melhor guia da região é o Tonho! Ele é cria da terra, sabe todos os buracos desse lugar — respondeu, rindo, como se aquilo fosse engraçado.
— E onde podemos encontrá-lo? — Ana tinha pressa, pois, seu tempo era curto, e ela nem sabia por onde começar suas pesquisas.
— Se você quiser, posso pedir para ele vim até aqui – a mulher falou, solícita.
— Sim, por favor — Ana pediu.
Quando a porta se fechou, Ana se voltou para Marcelo.
— Que história é essa de quarto triplo? — perguntou, cruzando os braços e o encarando.
— Quando resolvi vim, liguei pessoalmente, a dona falou que não tinha mais quarto vago, mas que eu poderia ficar com as minhas amigas, se elas não se importassem...
— Mas, eu me importo!
— Ana, agora, não tem jeito, ele não pode dormir na praia — Sílvia ponderou.
— Mas, devia!
Já no quarto, eles desfaziam a bagagem, o clima estava tenso, o ar pesado, só bastava uma fagulha para Ana explodir, quando bateram na porta e avisaram que o guia estava lá, esperando.
— Eu vou falar com ele – Ana anunciou.
— Eu vou com você! — Marcelo se prontificou, dando um passo à frente.
— Não, você fica! – Ana ordenou, em tom autoritário, e ele recuou.
Quando ela saiu, Marcelo olhou para Sílvia.
— Ela está ainda bem zangada comigo – ele admitiu, Sílvia confirmou com a cabeça com um ar divertido.
— O que você acha, que ela o receberia de braços abertos depois do que fez? — Sílvia indagou com firmeza. — Marcelo sacudiu a cabeça em negação — Por que você está aqui, Marcelo?
— Para salvar esse lugar.
— Só por isso mesmo? Ou está tentando reconquistar Ana? — perguntou, em um tom sarcástico, olhando direto para ele, que não desviou o olhar. — Sei que é uma pergunta retórica. Mas, sinceramente, espero que tenha resolvido a outra parte da sua vida, pois você não imagina como é sofrer por um coração partido.
— Sim, eu sei.
— Não, você não sabe, porque você tem a solução desse impasse nas suas mãos e alguém sempre acabará sofrendo. E eu torço que não seja a minha amiga, e farei tudo o possível para que isso não possa acontecer – Sílvia declarou, para o confuso Marcelo.
— Eu não quero que Ana sofra.
— Mas, ela já sofreu, ficou no fundo do poço e está se arrasando de volta para a luz, e se você não pode dar a mão para tirá-la de lá, pelo menos, não a derrube outra vez.
Na frente de Ana estava um rapazinho moreno e magro, com olhos brilhantes e um sorriso bonito e cativante.
— Moça, se você quer um guia, eu sou o melhor da região! – disse, sem nenhuma modéstia.
— Bom, se você está dizendo isso, então está contratado.
— E o que quer ver, moça? – Tonho quis saber.
— A gente queria ir naquela enseada, que se vê da estrada. Como a gente chega lá? – Ela estava interessada em conhecer o lugar, que seria desmatado para a construção do resort.
— Só de barco, por enquanto. Antes dos gringos fecharem, para começar a construção – Tonho informou, com um tom de pesar. – Mas, agora, está tarde, só amanhã.
— Tonho, você consegue um barco para a gente?
— Claro, moça! Vou falar com os pescadores na praia e ver quem pode ir. Passeio com turista paga mais que um dia de pesca. Amanhã, eu venho depois do café e a gente vai. Até! – Tonho despediu-se e saiu correndo, em busca do transporte para o dia seguinte.
— Até amanhã, Tonho! – Ana falou, para as costas dele.
Assim, Ana ficou animada, voltou para o quarto, encontrando Sílvia sozinha.
— Onde está Marcelo? – Ana perguntou, olhando ao redor, não havia muito lugar para se esconder ali.
— Saiu para dar uma volta – Sílvia respondeu, displicente.
Então, contou as novidades para Sílvia, mas não tinham nada para fazer naquele dia. Suadas e empoeiradas pela longa viagem, tomaram um banho refrescante e colocaram leves e floridos vestidos de verão, para escapar do calor do fim de tarde. Agora, era esperar o jantar da pensão, já que estavam cansadas e morrendo de fome, pretendiam dormir cedo, para enfrentar o outro dia. Bem a tempo, pois, logo depois chegou um grupo de jovens, rapazes e moças com roupas de praia e camisetas que estampava sua o nome da sua faculdade de biologia, faziam muito barulho, disputando quem iria tomar banho primeiro. As amigas ficaram sentadas na sala, observando e divertindo-se com as brincadeiras deles, até duas das estudantes, que haviam ficado para trás no sorteio dos banhos, sentaram-se ao lado delas e puxaram conversa.
— Não liguem para eles! São uns bobos! Vocês chegaram hoje, né? – Uma das garotas de cabelos compridos e escuros se desculpou pela confusão dos colegas.
— Não se preocupe, eles são engraçados! Sim, nós chegamos ainda há pouco. E vocês? — Silvia respondeu.
— Já estamos aqui, alguns dias, fazendo pesquisas para a faculdade, estudando a fauna e flora da região. Hoje, fomos mergulhar, além da arrebentação. Foi incrível! A gente nem imagina o mundo que tem lá embaixo! — A outra garota loura e bonita falou, animada.
— E o que mais vocês conheceram? — Ana quis saber.
— O manguezal. A maioria pensa que é só lama, mas lá é cheio de vida. É o que sustenta o equilíbrio da vida marinha. Vale a pena conhecer! – A garota morena respondeu, entusiasmada.
— Obrigada pela dica! – Ana agradeceu.
— Não nos leve a mal, mas aquele cara que veio com vocês é namorado de uma das duas? – A loura bonita se perguntou sem rodeios.
— Não – Sílvia respondeu prontamente, as duas garotas trocaram risinhos maliciosos.
— Mas, ele é gay – Ana observou e o rosto das garotas murcharam, Sílvia olhou para amiga e arregalou os olhos.
— Poxa! – a loura exclamou, desiludida. – Sorte para uns, azar de outras – completou dando de ombros.
— Ih! Está chegando a nossa vez! Vamos, Letícia, senão alguém pega a nossa vez no banheiro! A gente se vê no jantar! – A morena disse e saíram correndo, gritando que era a vez delas.
— O que foi aquilo, Ana? — Sílvia a olhou de um jeito divertido.
— Só não quero nenhuma distração no nosso trabalho – respondeu de um modo displicente, dando de ombros, Sílvia lhe devolveu um sorriso maroto.
— Ele já deve estar chegando – Sílvia assegurou, depois que Ana olhou mais uma vez para a porta.
— Eu não estou preocupada, só que está quase no horário do jantar – Ana fingiu indiferença, no momento que Marcelo entrava pela porta.
— Você pode ficar tranquila, ele voltou... — Sílvia provocou a amiga, mas parou de falar, quando um outro hóspede entrou.
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