Três amigas e o amor.

51 Ana – No silêncio quarto


O quarto estava silêncio e escuro, quando Ana entrou, imaginando que Marcelo já estivesse dormindo, cuidou para não fazer barulho. E no momento que seus olhos se acostumaram a escuridão, trocou de roupa um tanto descuidada, ao voltar-se, pronta para deitar-se, deu pequeno grito de susto, ao esbarrar com um obstáculo próximo a ela, era Marcelo parado, observando-a.

— Meu Deus! Você quase me matou de susto, Marcelo! – disse, sem folego, colocando a mão no peito para acalmar o coração.

— Ana, eu preciso falar...

— Por favor, não vamos recomeçar, com essa conversa. Essa história já acabou. Você vai casar. Lembra-se? O casamento do ano! E eu não posso mais, não tenho mais forças para isso — Era mais fácil falar, porque causa da escuridão, assim não podia ver o rosto dele.

— Mas, não acabou para mim – A voz dele era quase um murmúrio, Ana podia sentir o seu hálito quente na sua pele.

Ela deu um passo para trás, porém a cama a impediu de afastar-se ainda mais.

— E quando vai acabar? Quando você entrar na igreja? – Ana contrapôs em tom irônico, querendo afastar sua ansiedade.

— Diga que já me esqueceu, que eu não significo mais nada para você – Ele a desafiou, aproximando-se ainda mais, ela podia sentir o seu calor.

— Você não significa mais nada para mim, Marcelo – Esforçou-se para falar.

— Você é uma péssima mentirosa, Ana – Dito isso, ele a envolveu em um abraço e beijou-a intensamente, antes que pudesse reagir.

Rendendo-se, Ana se entregou sem ressalvas. Os beijos ficaram mais loucos, as mãos mais ousadas e atrevidas.

— Eu senti tanta a sua falta, Ana – ele sussurrou contra a curva do pescoço dela, sentindo cheiro da sua pele.

— Você está noivo, vai casar – A cabeça de Ana lutava contra o seu corpo. –

— Mas eu não casei ainda – retrucou, beijando seu ombro e acariciando seu seio.

— Sílvia pode chegar.

— Ela não volta essa noite – rebateu, colocando as sob a sua camiseta para acariciá-la, sem barreiras.

— Droga, Marcelo! Isso é uma loucura!

— Sim, é uma completa loucura. Eu sou louco por você, Ana.

Ela sabia que não iria vencer, então se entregou, sem nenhuma reserva, não podia negar que sentia a falta dele, apesar de saber que estava fazendo uma bobagem, que poderia arrastá-la de volta ao fundo de um poço de tristeza e amargura de onde acabara de regressar.

A manhã seguinte os encontrou, deitados em uma mesma cama, com pernas e braços se confundindo, os corpos aconchegados.

Ana despertou lentamente, abriu os olhos e viu Marcelo ainda dormindo ao seu lado. Queria continuar ali, aninhada nos braços dele. Felizmente, a cama ao lado continuava vazia, Sílvia ainda não havia chegado. Lá fora os primeiros sons das atividades matutinas já se ouviam, então ela se lembrou.

— Marcelo! Marcelo! – chamou, pulando da cama, pegando o short dele esquecido no chão – Acorde! Sílvia deve estar chegando.

Ele abriu os olhos, ainda sonolento, e ela jogou o short em cima dele.

— Vista-se! – ordenou e ele obedece, apressado, enquanto ela pega a sua roupa e se veste, deitando-se rapidamente na cama bem a tempo da porta, abrir e Sílvia entrar.

— Bom dia! Dormiram bem? — Sílvia indagou, iluminada por um imenso sorriso de satisfação.

— Sim, como uma pedra, obrigada. E você? — Ana perguntou, em tom de fingida inocência.

— Dormir. Algumas vezes – Sílvia disse com um sorrisinho malicioso, Ana retribuiu o sorriso.

— Eu vou ao banheiro – Marcelo se ergueu, pegando seus pertences e saindo do quarto.

— Ana, sua roupa está do lado avesso – Sílvia observou, intrigada.

— Estava escuro, ontem à noite. Vamos nos aprontar! Parece que você está fazendo sua própria pesquisa, Silvia – Ana afirmou, irônica, desviando o assunto.

— Estou e me sinto bem com isso. A cada dia, eu acordo, pensando menos em Pedro, principalmente, agora, depois que fiquei com Pete.

— Vamos nos preparar, Tonho vai chegar logo – Ana respondeu, com um sorriso conivente e a apressou.

Eles tomavam o café da manhã com a farta mesa de delícias locais, quando Tonho chegou. Naquele dia, eles iriam conhecer o manguezal, que segundo o jovem guia era um berçário da vida marinha do local. Desta vez, alugaram um barco pequeno, com motor de polpa, que pertencia a Dário, que se intitulava o melhor barqueiro da região.

No ingressando no manguezal, Tonho explicava cada detalhe sobre aquele lugar cheio de vida, a vegetação em volta tornava-se mais fechada e tortuosa, eles podiam ver nas margens, pequenos animais como macacos e pássaros, que se assustavam a passagem do barco barulhento. Uma cobra tomava sol, imóvel, sobre uma pedra e água transparente estava lotada de pequenos peixinhos.

Pete ensinava fotografar a Sílvia, mostrando-a como captar melhor a luz do sol filtrada pelas árvores, o melhor ângulo para registrar a cobra. Ela era uma aluna atenta, enquanto, Tonho explicava a eles como a vida daquele habitat funcionava, de maneira simples e direta.

— Os peixes vem para cá, botam os ovos e os filhotes ficam aqui até ficarem mais fortes – Tonho ensinou, com seriedade, demonstrando como aquilo era importante para aquela gente.

— Ana, sobre ontem à noite... – Marcelo cochichou para ela, enquanto Tonho falavam e Sílvia e Pete ouviam atentamente.

— Não há nada a ser dito sobre ontem à noite. Foi um ato de fraqueza, um acidente, nós não devíamos – ela concluiu no mesmo tom.

— Por que não?

— Você sabe muito bem porque, Marcelo. Além disso, eu estou começando um relacionamento – mentiu.

— Com quem?

— Alberto.

— O seu ex-namorado?

— Esse mesmo

— Querem conhecer a árvore dos papagaios? É a coisa mais linda do mundo! – Então, de repente, Tonho perguntou cheio de entusiasmo.

— Árvore dos papagaios? O que é isso? – Ana quis saber, desviando-se da conversa com Marcelo.

— É onde os papagaios têm os filhotes. Eles vêm todo ano, fazem o ninho, botam os ovos e, quando, os filhotes já estão prontos para voar, vão embora. Nessa época, os filhotes já estão grandes, mas, ainda não estão voando. É muito lindo! – Tonho disse, contagiando a todos, eles ficaram curiosos para conhecer.

Segundo Tonho, a árvore ficava bem lá no fundo da mata, em um lugar escondido, que pouca gente conhecia, portanto penetraram mais para o interior do manguezal, pararam em um lugar que ele indicou, desceram do barco. Dário ficou esperando na margem, enquanto eles adentravam à mata.

— É uma boa andada! Quase ninguém vem aqui, porque não sabem ou tem medo – Tonho preveniu. — E tem que ser na época certa, quando eles estão aqui – continuou explicando.

Então, eles andaram, andaram Tonho os guiava, indicando para não pisar aqui, não tocar nisso, cuidado com aquilo. Ana já estava arrependida, com suas pernas doloridas, imaginando se valia a pena aquilo tudo para ver alguns pássaros no ninho, quando Tonho, finalmente, apontou.

— É ali! Chegamos! – Tonho exclamou, apontando para frente, e advertiu — Cuidado! Tem cobra aqui, elas ficam esperando algum ovo ou filhote cair da árvore para comer.

No começo, não viram nada, porém ouviram os gritos estridentes, então, avistaram a árvore, que não era a mais alta, mas era bem larga, com muitos galhos, coberta de folhas de um verde estranho, que pareciam vivas, foi quando perceberam que ela estava repleta de centenas de pequenas aves esverdeadas e barulhentas, criando uma imagem incrível. Pete não pensou duas vezes, pegou sua câmera fotográfica profissional e começou a disparar milhares cliques, pulando de um lado para outro, saltando sobre pedras, subindo em troncos caídos, tudo pelo melhor ângulo. Sílvia, também, pegou sua pequena câmera amadora e começou a tirar fotos.

—Nossa! É incrível! – Sílvia exclamava, admirada com aquela visão inusitada.

Já Ana e Marcelo estavam de boca aberta, completamente abismados.

— Bonito, né? – Tonho falou orgulhoso, por ter impressionado os turistas.

— Muito! A gente não esperava por isso! – Ana respondeu, sem tirar os olhos da árvore – Mas, não parecem papagaios! Posso ver as fotos? – Pediu a Pete e ele as mostrou.

— Pode dar um zoom? — Ana solicitou, ele fez e puderam ver melhor o pássaro, parecido com um papagaio, porém eram menores e tinha penas de cores um pouco diferentes. Sílvia estudou a imagem da foto, por algum tempo.

— É, parece um tipo de papagaio. Eu já vi este pássaro antes, mas não me lembro onde – Ela disse, pensativa.

Depois de algum tempo admirado o lugar, vencidos pela fome, pelo cansaço e pelos mosquitos, morrendo de medo das cobras, que poderiam existir por ali, eles voltaram para o barco, impressionados com a imagem que viram.

— Eu nunca imaginaria algo assim! – Sílvia exclamou, ainda surpresa,

—Fantástico! – Pete disse, entusiasmado – Eu já fui a muitos lugares no mundo e nunca vi nada igual.

Ana só imaginava, que tudo isso iria acabar em breve, com a construção do resort. Entretanto, Tonho estava orgulhoso de sua terra, ainda sem temer o futuro.

— Bonito mesmo! Os outros gringos todo cheio de pompa que tiveram antes, não viram isso, não estava na época dos papagaios — comentou, casualmente.

— Que outros gringos? – Ana quis saber, já imaginando quem seriam, olhando para Marcelo pelos cantos dos olhos.

— Um monte de homens, todo arrumado, que veio antes visitar aqui, conhecer o lugar. Eles contratam um guia de fora, eles foram para todos os cantos, menos aqui, porque, não sabiam que tinha isso, também, não era época dos papagaios terem filhotes — Tonho explicou.

Ana sabia que era o pessoal que iria construir o resort, provavelmente, Marcelo estava entre eles, esperava que Tonho não o reconhecesse. Sem querer, relembrou como ele voltou bronzeado e lindo, mas tentou tirar essa ideia da cabeça, imediatamente, pois, logo, ele seria um homem casado. Apesar de tentar ser racional, o pensamento dela sempre voava, sem controle, na direção dele, Marcelo parecia estar entranhado dentro dela, como uma gigantesca teia de aranha, de onde não conseguia escapar, principalmente, nesse momento, que ele estava bem ao lado dela.

Depois de uma boa caminhada de volta para o barco, retornando à vila e Ana queria saber mais, sobre aquela descoberta.

— Tonho, muita gente sabe disso? Dessa árvore? – Ana indagou, interessada.

— Não! Quase ninguém, só o pessoal da vila, mas não vão lá – Tonho respondeu, dando de ombros, pois, para os moradores da região, só era um bando de pássaros barulhentos, que vinham e iam dali todos os anos.

— Tem Internet em algum lugar por aqui? — Sílvia perguntou a Pete, logo quando chegaram na pensão.

— Internet aqui? Está brincando? — falou, com ironia, pois naquela região mal tinha eletricidade.

— E aqui por perto? – Silvia insistiu, precisando tirar aquela dúvida da cabeça.

A viagem delas já estava quase chegando ao fim, Sílvia e Pete desapareceram das vistas, querendo aproveitar seus últimos momentos juntos, sozinhos.

No fim da noite, Ana estava ressentida de ir para o quarto, pois pelo que indicava, seria mais uma noite que Sílvia não dormiria lá, assim ficaria sozinha novamente com Marcelo. A amiga a deixou em uma cilada, contudo, não podia pedir para ela abrir mão da companhia de Pete, para protegê-la contra a sua fraqueza, por isso teria que ser forte e resistir.