Três amigas e o amor.

47 Ana – No silêncio da noite


Na calada da noite, Ana e Marcelo retornaram pela rua de terra batida, quase deserta, mergulhada na penumbra, quebrada pela fraca luz que vinha dos postes na beira do caminho, observados por poucos moradores ainda despertos que viam a vida passar debruçados nas janelas ou sentados nas cadeiras em frente da porta das suas casas. Um cachorro latiu ao longe e outros responderam em coro, quebrando o constante barulho das ondas da praia que deixaram para trás, sentindo uma brisa fresca noturna arrepiar a pele.

— Você não devia ter vindo, Marcelo – Ana quebrou o silêncio.

— Você já me disse isso, mas, agora eu estou aqui e não posso mudar isso.

— Por que você veio?

— Pelo que você me disse.

— Eu?!

— Sim, aquilo de ter sonhos e quer realizá-los.

— Mas, se você conseguir mudar isso, vai prejudicar os negócios da sua família. E vendo esse lugar percebo como as pessoas são carentes, a vida deles pode melhorar com a chegada desse hotel – Ana ponderou.

— Esse é um progresso predatório, pode trazer alguns empregos, mas traz poluição, destruição e aumento do custo de vida. As pessoas se tornam reféns, sem escolhas ou opções. Talvez, um projeto mais sustentável, poderia melhorar a região, mas não esse.

— Você está convencido mesmo disso – Ana observou, com certa admiração.

— Sim, estou.

Novamente, o silêncio caiu sobre eles, um gato cruzou a rua correndo, Ana queria perguntar sobre o casamento dele, mas, achou melhor ficar de boca fechada, quando chegaram a pensão. Passaram pela sala, onde o grupo de estudantes jogavam cartas, algumas garotas conversavam e o tom mudou a passagem deles, olhos cobiçosos acompanharam Marcelo e algo queimou dentro de Ana.

— Querem jogar? – a garota loura quis saber.

— Não, eu vou dormir – Ana saiu direto, Marcelo agradeceu e a seguiu.

Agora, dentro do quarto, sozinhos, era no mínimo muito estranho para os dois, mantiveram uma distância segura, um silêncio protetor, por algum tempo.

— Marcelo, pode virar-se de costa? – Ana pediu.

— Por que? – Ele não entendeu.

— Para eu trocar de roupa.

— Precisa? Eu já vi você nua antes – respondeu em um tom displicente.

— Mas, era diferente! – sentindo o rosto queimar, rebateu, exaltada.

— Tudo bem! – Ele deu de ombros e se virou, começando a tirar a própria roupa.

— Deve ser bem difícil para você – ela afirmou, enquanto mudava de roupa, colocando uma camiseta comprida e larga, que não deixava nada a amostra.

— O que? – quis saber, colocando um short e ficou sem camisa

— Ficar em um lugar como esse sem luxo ou conforto que você está acostumado, dividindo o quarto com estranhos?

Ele se voltou para ela, que se esforçou para não ficar olhando para o seu peito desnudo.

— Eu contei para você que estudei muito tempo em um colégio interno, os quartos eram comunitários, apesar de não ser tão rústico. Além do mais não somos tão estranhos assim – retrucou, com uma expressão travessa, e ela jogou um travesseiro sobre ele.

— Vou escovar os dentes – ela anunciou, pegando seus objetos e indo para o banheiro.

— Vou com você – ele a seguiu, e Ana quase pediu que ele colocasse uma camisa por causa dos olhares desejosos das garotas da faculdade, mas pensou melhor, não tinha nada com isso, a noiva dele que se preocupasse, no entanto, esse pensamento fez seu peito doer. Porém, ele vestiu uma antes de sair.

Algum tempo depois de volta ao quarto, Ana estava esperançosa que Sílvia já tivesse retornado, mas não havia nenhum sinal dela. Teria que ficar ali, sozinha com Marcelo, deitados no escuro, acompanhados das lembranças dos seus momentos juntos. Ela se deitou na cama mais distante da dele, contudo, sua presença era bem concreta ali dentro, pois apesar de tênue o perfume dele enchia suas narinas, despertando tudo aquilo que lutou tanto para sufocar. Na quietude da noite, escutava seu leve respirar que tantas vezes sentiu contra a sua pele. Imaginava se tudo poderia ter sido diferente, simplesmente, se recusasse o convite de Raquel para aquela festa, não estaria assim deitada perto do homem que amava, sem poder tocá-lo ou senti-lo.

— Você está dormindo? – ele indagou no escuro.

— Não – Ana podia ficar muda, mas não conseguiu. – Estou preocupada com Sílvia – mentiu.

— Ela deve estar bem. Eu também não consigo dormir, deve ser essa calma toda. — Em resposta, Ana riu. – É bom saber que posso fazer você rir, Ana.

— Parece que Sílvia vai demorar, então vou tentar dormir, pois amanhã será um longo dia. Boa noite, Marcelo – calou-se antes que se traísse.

— Boa noite, Ana. Tenha bons sonhos.

E novamente, o quarto escuro mergulhou no silêncio, mas os dois permaneceram acordados por um longo tempo.

Para evitar confusão, voltaram para o barco, antes da maré cheia, e com sobrava tempo, Zeca deu um passeio pela orla antes de voltarem para a vila, a visão era tão bonita, ficaram deslumbrados, quando avistaram tartarugas e cardumes de peixes, gaivotas mergulhavam para pegá-los. Já era de tardinha, quando regressaram a vila, Ana agradeceu aos pescadores e pagou o preço combinado. Tonho, também se despediu, falando que amanhã passaria na pensão, na mesma hora, para o passeio ao manguezal.

Exaustos com o dia de mar e sol, foram direto para pensão, tomaram banho, jantaram, quase em silêncio, ainda sentindo o balanço de um barco imaginário. Apesar de ter gostado muito do passeio. Passaram o resto da noite conversando sobre o passeio, ouvindo Pete contar algumas das suas histórias.

— Eu vou me deitar. Boa noite – Marcelo foi o primeiro a debandar.

— Boa noite! Estou exausta! Vou dormir – Ana disse, espreguiçando-se, protelando o máximo de tempo a hora de dormir, até não aguentar mais de cansaço – Você não vem, Sílvia? – insistiu, não querendo ficar sozinha no quarto com Marcelo, outra vez.

— Pode ir, Ana, eu bato na porta, quando chegar — Sílvia a dispensou e continuou a conversar com Pete, falavam sobre viagens e fotografias.

Ana assentiu com a cabeça, um tanto incrédula, foi para o quarto que encontrou silencioso e na penumbra.

Capítulo 50 – Sílvia — Você se preocupa muito com o futuro.

De volta ao hotel, já cansados, no fim da noite, Sílvia observou Ana ir para o quarto, sabendo que, com certeza, a amiga estaria bem aborrecida por deixa-la mais uma vez sozinha com Marcelo. Mas, eles que se entendesse, ficavam nessa história, já que, afinal, Marcelo não era casado e, como ela mesmo viveu, noivados terminam, mesmo morrendo de pena da noiva dela, no entanto, gostava muito mais da sua amiga. Além do mais estava com Pete e aproveitando muito a companhia dele, pois nunca havia encontrado alguém igual, com tantas histórias e aventuras para contar.

— Este lugar é tão bonito – Pete declarou, tirando Sílvia dos seus pensamentos, enquanto viam as fotos tiradas naquele dia.

— É uma pena, que vão destruí-lo para construir um hotel aqui, será um desastre. O desequilíbrio ambiental será irreversível. Você deve ter visto muitos lugares assim pelo mundo?

— Assim não, alguns até parecidos. Cada lugar é diferente de outro com suas belezas e suas feiuras, cada um tem suas coisas boas e ruins, mais ou menos como as pessoas.

— Você aprendeu isso nas suas viagens?

— Sim, foi o que eu aprendi viajando por aí. Às vezes, eu chego em um lugar muito pobre, que não tinha nada, mas eles dividiram comigo o pouco que tinham. Já fui a lugares muitos ricos, que ninguém olha para você, só eles que são importantes, todo o resto é invisível – Ele explicou, muito sério, olhando direito para ela. Silvia observava seu rosto marcante, com o nariz reto, os olhos azuis, a boca fina, a mandíbula bem proeminente, mas havia nele mais que uma beleza física, era algo a mais que Silvia não sabia definir.

— Deve ser muito interessante viver assim?

— Eu gosto, mas, às vezes, é muito difícil. Lugares distantes, estradas ruins, sem transporte, já fiz loucuras por uma boa foto –sorriu, recordando alguns dos seus atos.

Ele contava tudo a ela, com o entusiasmo, de quem gostava do que fazia, das surpresas, das descobertas e mesmo dos percalços, e não se aborrecia com as perguntas que ela fazia e eram muitas.

— Quando eu era bem pequena, eu sonhava em viajar e conhecer o mundo, outros lugares e pessoas diferentes. – Sílvia confessou, nunca havia contado isso para ninguém – Depois, a vida me levou para outro caminho, eu esqueci desse sonho. Talvez, por lembrar dele, um pouquinho, eu estudei geografia.

— Por que você esqueceu do seu sonho? – Pete quis saber, sem entender aquela filosofia de vida dela, abrir mão dos seus sonhos por uma vida tão prosaica.

— Eu não sei, a minha vida começou a mudar e o sonho de viajar foi ficando para trás – Não queria falar mais sobre a sua história com Pedro, e mudou de assunto – E você, por que começou a fotografar?

— Quando era pequeno, ganhei uma câmera de minha mãe e comecei a fotografar tudo que via. Depois, eu queria mais e mais. Estudei e aprendi, trabalhei com muitos bons fotógrafos. Até ir trabalhar nesta revista, eles me mandam, para várias partes do mundo. Eu estive na Antártida, África, América e, depois, vou para Ásia.

— O que mais impressionou você?

Então, Pete contou sua viagem à África, falou das savanas, dos animais, das tribos e da vida difícil deles, da fome e sede e das guerras, e do sofrimento, que elas causavam, em seguida, contou sobre a imensidão branca da Antártida e suas geleiras

— No ano que vem, irão lançar um livro com minhas fotos.

— Devem ser lindas, eu gostaria de ver suas fotos algum dia. Esperarei ansiosa pelo seu livro.

— Não precisa esperar pelo livro. Elas estão no meu quarto – Era um convite.

O quarto de Pete era um pouco bagunçado, mas ele não tinha muita bagagem, para alguém que viajava tanto, por todo aquele tempo, sentaram-se na cama dele, encostados na parede e ele começou a mostrar suas fotos, alguns brilhantes e coloridas e outras bastante tristes e sofridas, mas todas belas, enquanto, ele descrevia os detalhes de cada uma delas, com foi feita e em que lugar, ficava cada vez mais bonito e com os olhos cada vez mais brilhantes pela empolgação das histórias. Sílvia não resistiu, sorriu para ele e o beijou.

— É maravilhoso, como você fica quando fala do seu trabalho.

— Meu trabalho pode trazer algo surpreendente como você, Silvia.

— Eu não sou surpreendente, sou uma pessoa comum até mesmo banal, com meus sonhos triviais e sem graças.

— Não, Silvia, você é surpreendentemente incomum, só que esconde isso, com medo do desconhecido, mas é ele que pode nos trazer coisas extraordinárias.

— Como você, Pete – Silvia disse o envolvendo em um abraço, ele correspondeu a trazendo para junto de si, os corpos grudados, as bocas se perdendo em beijos cada vez mais ardentes, mãos, que descobriam e despiam, para saciar o desejo.

Sílvia acordou, no dia seguinte, com a luz do sol entrando pela fresta da janela e batendo no seu rosto, ela se ergueu nos cotovelos, olhou para Pete dormindo ao seu lado, de bruços, nas suas costas largas, junto ao ombro esquerdo, havia uma tatuagem de um leão.

— Bom dia, dorminhoco! – Ela sussurrou no ouvido dele, deslizando o dedo com suavidade sobre a tatuagem.

— Bom dia – ele abriu os olhos incrivelmente azuis, olhando para ela, sorriu, sonolento.

— Bela tatuagem – ela continuava seu desenho sobre a pele dele.

— O leão é o símbolo do meu país, além de ser bonito, passa força – Pete explicou, um pouco mais desperto.

— Nunca tive coragem de fazer uma tatuagem – Silvia confessou – Seria uma escolha para a vida toda.

— Você se preocupa muito com o futuro – Pete observou, virando-se para ela, estava frente a frente, a pouco centímetros, ele começou a acariciar a lateral da coxa de Silvia, subindo ainda mais, sem pudor.

— É mais forte do que eu – Agora, ela descobre caracteres japoneses tatuado no peito de Pete.

— O que querem dizer? – Sussurra, prestando mais atenção na mão atrevida dele.

— Liberdade – Pete murmurou junto aos lábios dela, a beijando se aproximando para entrar nela, bem devagar.

Depois, ficaram algum tempo, ainda deitados, até Silvia levantar-se em um pulo.

— Você já vai? – perguntou, entorpecido.

— Tenho que ir. Vamos no manguezal hoje. Quer ir com a gente? – indagou de forma natural – Acho que poderá fazer boas fotos lá – tentou convencê-lo.