Notas iniciais
DESAFIO CAIXA DE AMORES • GRUPO CANETA TINTEIRO.

Três Tentativas

Eu tinha oito anos quando me apaixonei pela primeira vez.

Estávamos no meio da segunda grande guerra, escondidos num abrigo e aquele era meu primeiro dia dos namorados admirando alguém. O nome dela era Gisele e eu gastava o longo tempo dos bombardeios olhando para ela, dizendo a mim mesmo que isso começou quando eu lhe perguntei o nome e ela me respondeu límpida e confiante, mostrando os dentes separados e branquinhos.

Naquele dia eu havia ganhado sapatos novos de meu pai, o que era um grande achado e um verdadeiro luxo, furtado de uma casa abandonada, mas o que importa é que eu me senti verdadeiramente importante para falar com Gisele nesta data que os adultos pouco estavam se importando. A poeira dos impactos caía sobre nossa cabeça, a lâmpada falhava e mulheres choravam abraçados a suas crianças. No entanto, tudo que eu queria era sentar ao lado dela e conversar.

Gisele não estava sendo abraçada por ninguém, porque me disseram que era uma órfã, mas os Morrison cuidavam dela, por enquanto. Aproximei-me com meus sapatos novos, me colocando ao seu lado, quase timidamente. Eu tinha um presente para dar. Um pedaço de um vitral de uma igreja. Algo realmente bonito e parecido com uma joia, poderia dar uma boa coleção, se eu encontrasse mais.

— Se colocar na frente dos olhos tudo vai ficar colorido — eu disse. Gisele o fez com algum descaso.

— Na verdade está tudo borrado, e há mais vermelho do que outras coisas.

— É porque não está inteiro ainda.

— Você vai pegar mais?

— É claro, e então vamos descobrir que desenho era.

— E por que faria isso? – ela me sussurrou aquilo como se eu fosse idiota. Senti-me um pouco envergonhado. E queria dizer de volta:

Porque eu gosto de você. Mas eu não poderia dizer isso nunca e se conseguisse já teria corado. Porque eu queria que você sorrisse mais. E então ela poderia pensar que estou a chamando de rabugenta.

— Dizem que dá para realizar um desejo se conseguirmos todas as peças. — Deus que me perdoe por mentir, meu pai disse uma vez que coisas horríveis aconteciam com meninos mentirosos, mas o que será que Deus diria se fosse por uma causa boa?

— Tudo bem. —Houve um pouco de silêncio, mas apenas vindo de nós dois, pois ao redor as pessoas continuavam murmurando e se assustando pelos estrondos. Foi nesse instante que Gisele olhou para mim, tocou minha bochecha e afastou o dedo como se fosse contagioso. — Não dói?

— Não mais, mas coça — eu toquei o mesmo local, a pele era estranha ao toque, enrugada e derretida. Eu não lembro do que aconteceu e foi há muito tempo, apenas que um dia acordei em chamas. Os inimigos atingiram meu abrigo, algo assim, e eu virei um monstrinho de oito anos depois que tudo cicatrizou. Não que eu fosse bonitão antes.

— Você é muito feio. — Não sei por que ela disse aquilo, talvez porque estivesse reparando muito em minhas cicatrizes e aquilo tenha escapado sem querer. Mas meus olhos se encheram de água e suas palavras me assustaram mais do que a guerra. — Desculpe.

Abaixei minha cabeça. Molhei meus sapatos novos com lágrimas, porque eu não poderia fazer nada sobre isso. Puxei a boina sobre a cabeça, para esconder os punhados de cabelos que restavam.

Bem devagar, me levantei, voltei para o lado de meu pai e nunca mais procurei nenhum vitral ou falei com Gisele, porque tinha vergonha de mim mesmo e medo de que ela me desprezasse. Prometi que nunca mais admiraria de ninguém.

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Eu tinha 22 anos quando quebrei minha promessa e me apaixonei por Bianca. Aquele era meu segundo dia dos namorados gostando de alguém. Foi um grande erro, já que eu não passava de um jardineiro deformado e ela era a babá dos filhos dos donos, prometida a algum rapaz da cidade. Às vezes nós conversávamos, ela elogiava o jardim sem saber que eu plantava cada flor pensando nela.

Era algo patético, eu não tinha a mínima chance e sabia muito bem disso. Ainda assim, plantei algumas tulipas em segredo e entreguei a ela no dia 14 de fevereiro, só para vê-las sendo jogadas ao chão e ouvir um discurso animado de como eu estava sendo inconveniente e deixando-a desconfortável.

— Você entendeu tudo errado, seu monstro!

— Bianca...

— Não quero nada de você. Só porque fui gentil, você, você...

— Você está enganada, eu só...

— Não fale comigo.

Mais tarde, descobri que os outros empregados da casa haviam alertado-a de que eu não devia ser tratado tão amigavelmente, porque poderia muito bem confundir as coisas e fazer mal a ela. Sempre tive um timming terrível e esse foi o pior de todos. Não sou nenhum maluco, nem tinha intenção de ser correspondido, mas gostar dela era tão sufocante que eu realmente achei que demonstrar isso me faria seguir em frente.

Bom, eu segui, mas por causa de uma cena negativa. Demorou um longo tempo para esquecer Bianca e conviver com minha isolação social. Eu não havia aprendido a ler e a escrever, pois as crianças da escola eram cruéis e em algum momento da minha infância, após a guerra, eu desisti de tudo aquilo.

Então, além de feio, deformado e introvertido, eu ainda era analfabeto,como boa parte da população, ao menos. Eu vivo uma perfeita tragédia de quase amores.

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Eu tinha 70 anos quando descobri o que era amor à primeira vista. Aquele era meu terceiro dia dos namorados, desta vez amando alguém. No começo, todo mundo no asilo era tão enrugado quanto eu, então em muito tempo me senti em casa. Mas quando Hellen cruzou aquela porta eu quase precisei de um respirador.

Foi a forma mais violenta de provar um homem descrente no amor a sua existência. Eu me esqueci de como sentir vergonha, de tossir e de usar a bengala. Eu não tinha mais certeza se estava olhando para o lugar certo, e durante instantes achei que fosse algum efeito do remédio errado que a enfermeira certamente me deu, uma poderosa droga que estava me destruindo.

— Posso me sentar aqui? — Hellen perguntou para o ar, apalpando a cadeira e já se sentando a minha frente com aquele cabelo ralo cheio de bobs e olhos cegos.

— Sim...

— Sou nova aqui, fui transferida. Sabe mexer no rádio e sintonizar algo que preste? Deus sabe como sofri naquele lugar, ninguém que gostasse do Holiday.

— Muitos aqui também não gostam.

— Contanto que você goste. Não estou a fim de conhecer outros velhotes desse lugar, já que devo morrer no domingo. Hellen, a propósito — ela finalmente se apresentou, estendendo a mão no ar e esperando que eu a pegasse.

— Arthur — respondi, sem firmeza. Estava me sentindo tonto, exausto, feliz e com medo, tudo ao mesmo tempo. — E só devo durar o resto da semana.

Ela riu. E eu posso dizer que esse foi o melhor som que já ouvi.

Notas finais
Foi algo que escrevi após dois anos de hiatus, então me sinto feliz por ter conseguido terminar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!