Três Príncipes, Três Princesas
42 Um dia infernal
Notas iniciais
Bella
— Hum! Cheirosa! Muito cheirosa!
Deixei a escova de cabelo cair.
Fui arrebata e prensada na pia por um Edward, de toalha, recém-saído de um banho.
— Hum! Isso me faz querer apreciar direto da fonte, senhora Cullen. É tão mais intenso aqui.
— Ah, Edward!
Gemi inerentemente.
Eu não tinha controle sobre mim quando ele me abraçava por trás, expunha meu pescoço e o enchia de beijos e mordiscadas provocantes, cheias de segundas intenções.
— Você é deliciosa demais para o seu próprio bem, princesa. Eu não me canso de dizer isso. Fico louco de tanto desejo.
Sedutoramente e sem muito cuidado, fui virada de frente e sem perda de tempo a boca exigente já estava em cima da minha.
Edward com desejo, não era fácil de dissuadir ou domar. Ele simplesmente vinha e exigia e com o beijo era do mesmo jeito. A boca dele sabia como dominar e sugar da minha tudo para seu bel prazer.
E pensa que eu reclamo? Nunca. Ele poderia sugar tudo o que quisesse. Eu daria de bom grado. Contanto, que não me soltasse.
— Delícia!
Saboreou se afastando minimamente. O intuito não era me soltar e sim, dar espaço para que as mãos, com vida própria, arrancassem minhas roupas.
— Edward...
Adverti, sem muita vontade, segurando suas mãos e impedindo-o de prosseguir. Isso era tortuoso, tanto para mim quanto para ele.
— O quê? Não estou fazendo nada. Juro.
— Não está. Eu sei que não está.
Beijei seu biquinho de criança inocente. Eu não podia me render, não agora. Eu tinha obrigações a cumprir.
— Eu lamento, príncipe. Mas, preciso ir.
— Eu sei...
Deu-me as costas e passou, nervosamente, as mãos no cabelo. Sinal claro de quando está irritado ou chateado.
— Queria tanto que pudesse ficar. Descansar mais. Você foi ao hospital todos os dias no fim de semana, nos dias que deveriam ser sua folga. E se isso não bastasse, meu amor. Ainda tem a louca da sua irmã nos ligando de madrugada.
— Edward, Rosie não é louca. Apenas está sendo movida pelos hormônios. Dê um desconto a ela.
Sem prestar atenção a meus contrapontos, ele se afastou mais, e começou a vestir as roupas que eu já havia separado para o dia de hoje.
— Três noites seguidas. Se isso não é um desconto para você, eu não sei o que é. Era para ser o nosso final de semana no nosso lugar, Bella.
Aproveitei que ele havia se sentado no, confortável, sofá do closet, e me aproximei.
Deliberadamente levei as mãos a seus cabelos e comecei a acariciá-los.
— Quantas vezes fui sua, nestas três últimas noites?
Abaixei-me a beijei suas madeixas acobreadas e desnorteadas, o fazendo suspirar.
— Não foi o bastante, nem o suficiente. Você saiu. Eu queria mais.
— Amor, eu sai por poucas horas. Estou com uma paciente se recuperando na UTI. É uma criança, Edward. Por favor, não faça assim comigo.
Choraminguei. Eu odiava que ele não pensasse nas coisas pelo meu lado.
Por Deus! Eu estava tentando tanto.
— Tudo bem, Bella. Não quero brigar. Não quero estragar nosso momento, nem começar a semana mal. Eu penso de um jeito e você de outro. Acho que isso nunca vai mudar. Desculpe-me.
Desabafou me abraçando e descansando a cabeça em minha barriga.
— Mas, pelo menos tome café conosco. Você não anda se alimentando direito. Eu tenho notado isso.
— “Droga, Bells. Saia daí. Nós estamos atrasadas. Ande logo”.
Graças a Deus, fomos interrompidos por Alice. Ou eu teria que decepcioná-lo de novo.
Minha irmã, sem noção, gritava e batia na porta, como uma louca. Tudo isso porque eu havia prometido que a deixaria no ateliê hoje.
— Não vai dar, Edward. Realmente já estamos atrasadas. Porém, te prometo que venho para o almoço. Ok? Fique bem. Te amo, príncipe.
Afastei-me de seu agarre, o puxei para que se levantasse e voltei a encostar sua boca na minha, antes que ele se deixasse dominar pela indignação e começasse a me retaliar.
— E adianta discutir? Vá logo. E não se esqueça de que também te amo. Amo demais, Bella. Independente de qualquer coisa.
Edward
Do quarto já, ela me soprou outro beijo, pegou a maleta e a bolsa e então partiu. Afastando de mim aquela perfeição de corpo, que hoje ela teimava em esconder num vestidinho de brim, branco, para variar.
— Merda, Edward! Pare de pensar na sua mulher e vá ocupar a cabeça com o trabalho. A noite ela será toda sua outra vez. Não pire, cara. Se concentre. Foco.
Resmunguei comigo mesmo, enquanto terminava de abotoar a camisa e calçava os sapatos.
Eu me vestia meio que mecanicamente, porque minha mente ainda estava inebriada demais pelo final de semana que Bella me proporcionara.
É bem verdade que poderia ter sido melhor se não fosse por Rósalie e a equipe do hospital, porém, situações adversas sempre existiriam em nossas vidas e uma hora ou outra eu teria que me acostumar com elas.
Estava ainda tão absorto de tantas sensações que quase tive uma vertigem ao me deparar com uma peça, que deveria ser inseparável de minha mulher.
— “Merda, Isabella”! Como pode ser tão difícil obedecer a uma simples ordem?
Esbravejei alto ao ver a tornozeleira em cima de seu criado mudo.
Sem pensar em mais nada, saquei o telefone do bolso e rapidamente disquei seu número.
— “Oi, você ligou para Bella Swan, no momento não posso atender, por favor, deixe seu recado após o sinal, que retornarei assim que puder”.
Putz! Eu odiava caixas de recado. Ninguém, nunca as escutava. E para minha completa frustração, ela ainda se intitulava nela como “Bella Swan”.
“Swan uma pinoia”.
— Vamos Edward, se acalme e resolva isso. Nada vai acontecer. É só correr e logo terá tudo sobe controle novamente. Não se enfureça, Bella não merece sua ira.
Peguei a carteira, o celular, coloquei a joia no bolso da frente e sem perder mais tempo, desci para começar meu dia. Stephan e eu passaríamos no hospital a caminho do trabalho, para que eu mesmo “forjasse a fogo” aquela tornozeleira na senhora, minha esposa.
— Bom dia, querido.
— Bom dia, mamãe. Papai, Jasper...
Cumprimentei a todos. Em Esme, fiz questão de, beijar seus cabelos e afagar seus braços.
— Sente-se, de uma vez, e tome seu café, porque, pelo que parece seremos somente nós. Sua mulherzinha conseguiu corromper até Alice agora.
Jasper e eu trocamos um olhar de quem pensa “vai começar cedo hoje”.
Sentei em silêncio e enchi minha xícara de café. Minha cabeça estava começando a doer, e eu não seria capaz de comer nada. Uma sensação estranha pairava em meu ser. Uma angústia estranha e uma raiva louca estavam na borda, prontas para saírem e fazerem estrago. Eu podia sentir, era palpável.
— Não comece, Carlisle. Estou pretendendo ter uma refeição tranquila, com meus filhos, aqui.
— Tranquila, tranquila...
Papai debochou, parecendo uma criança pirracenta. Ele estava prestes a falar besteiras, mais uma vez.
— Tranquila e solitária, você quer dizer? E tudo porque Edward se recusa a se impor perante aquela garota e...
— Chega!
Esme soltou os talheres com força fazendo um barulho infernal, quando os mesmo, se chocaram contra o prato e a xícara.
— Ou você se cala e nos deixa comer em paz, ou se levanta e vai para o “raio que o parta”, contanto que faça isso em silêncio ninguém irá se importar. Entendidos?
Estupefato e agora com medo, de dizer um simples “sim”, papai só ousou sacudir a cabeça e mesmo assim, foi bem pouco e devagar.
— Muito bem.
Jasper e eu escondemos um sorriso e para amenizar a situação desenvolvemos uma conversa tranquila sobre nossa rotina diária e nosso fim de semana.
Esme estava empolgada com a inauguração de um abrigo para mães desamparadas, que seria em um mês. Ela já alertava que desejaria todos nós lá. Eu teria que me lembrar de agendar isso com Bella. Mamãe era preciosa demais para ser desapontada.
Era incrível como ela resolvia as coisas, com um simples, “chega”. Era demais ver papai se render a alguém, ainda mais esse alguém sendo uma mulher. Fico imaginando se Bella será uma mãe leoa assim. Espero que sim.
— Quando terminarem, me encontrem no escritório daqui. Temos uma videoconferência em 15 minutos, com Charlie e Emmett. E faremos isso daqui mesmo e, além disso, temos uns assuntos a resolver, que incluem essas instalações e vistoriaremos e discutiremos isso aqui. Só iremos para o Palácio Celeste, depois do almoço. Portanto, se apressem.
Jasper se manteve em silêncio. Era evidente que ele já estava a par da agenda, pois esteve em casa no final de semana, já eu...
Droga! Eu estava com problemas que Carlisle nem imaginava e expor a falha de Bella, não era uma opção.
— Vocês podem começar sem mim, papai? Bella esqueceu algo e preciso muito entregar a ela.
— Não. Nós não podemos e não vamos começar sem você. Charlie exige que esteja presente em qualquer negociação. Pelo que parece, ele confia em você mais do que nos seus irmãos. Não desaponte seu sogro. Venha para a reunião, ela não se estenderá demais, e depois você pode sumir por meia hora, afim de, socorrer a sua mulherzinha.
— Carlisle...
Advertiu mamãe.
— Tá mulher, já estou indo. Já estou indo.
O tom sarcástico dele ardeu como álcool em minhas veias, da mesma forma, que aquela joia queimou em meu bolso. Eu precisava colocá-la em Bella urgentemente.
— Sim, senhor.
Respondi a contra gosto.
E ali, bem perto, estava ela de novo, bem na borda, pronta para me dominar, só faltava um empurrãozinho e a raiva sairia, ferindo o primeiro que a atiçasse.
Bella
Cheguei ao hospital e me encaminhei diretamente para a UTI. O plantonista era jovem, assim como eu, e parecia atencioso e inteligente.
— Não se preocupe, doutora. Ela passou bem à noite. Não houve nenhuma alteração considerável, no quadro da paciente. Ela é forte e luta como uma guerreira.
Pressionei, mais uma vez, o estetoscópio contra o peito de Nessie confirmando que os batimentos estavam bons e sincronizados.
— Bom, muito bom, gatinha.
Alisei o rosto de boneca e troquei um olhar conciliador com sua mãe, que nunca saia de seu lado. Isso era bom.
— Vamos baixar a sedação e a respiração artificial. Quero que ela volte a respirar, sozinha, mas aos poucos, não force. Mantenha a pressão estabilizada e não deixem de observá-la em pequenos intervalos. Estarei no hospital o dia todo e passarei aqui sempre que puder para vê-la. Mantenha-me informada.
O doutor, com cara de novinho, assentiu com atenção e logo saiu para seguir minhas ordens.
Respondi algumas dúvidas da mãe de Nessie e ainda, pedi à enfermeira que trocasse minha pacientezinha especial, de posição, eu não queria que sua pele sensível, se ferisse por ficar muito tempo de um lado só.
Depois disso dei mais rondada pela ala pediátrica e vistoriei cada canto daquele espaço que eu já identificava como meu. Tudo corria bem, nos conformes.
Ainda fui capaz de brincar e rir com dois palhaços que faziam a alegria dos pequenos, em recuperação, na enfermaria. O trabalho voluntário deles me encantava.
Somente às dez horas consegui, passar pro Bree e entrar em meu consultório. Não deixei de notar que minha secretária tinha um sorriso bobo nos lábios. Stephan teria que me contar depois, quais eram suas pretensões para com minha Bree. Eu não permitiria que ele a ferisse.
— Bom dia, doutora. A senhora tem um paciente agora. E os pais de Suzie já ligaram e os informei que a cirurgia será no início do mês. Devo agendá-la com o senhor Black?
Saí do banheiro, onde havia esterilizado as mãos e colocado o jaleco.
Sentei-me pensando em tudo que ela havia dito. Bree parecia uma força da natureza, no trabalho. Brilhante!
— Assim que o paciente e seus familiares chegarem faça-os entrar. E não precisa agendar com o senhor Black. A cirurgia de Suzie é bem pequena e simples, minha equipe e eu daremos conta. Mês que vem é o casamento do senhor Black, o incomodaremos o mínimo possível. Ok?
— Sim, senhora.
Ela anotava furtivamente, tudo que eu dizia.
— Reserve as salas de cirurgias, para as datas que deixei em sua mesa e passe para minha equipe a escala de cada um. Cancele meus pacientes de sexta, à tarde e me avise rapidamente se me biparem da UTI.
— Certo. Mais alguma coisa, doutora?
— Um café, Bree. Forte e com açúcar e, por favor, peça para que Sam me traga um croissant quentinho, daquela padaria italiana da esquina. Ok?
— É pra já.
Respondeu já saindo e me deixando trabalhar com a supervisão de uns exames que haviam chegado por email. Eu teria dias intensos pela frente.
Então, mãos a obra.
Corri e trabalhei como nunca e tive certeza de que teria um dia complicado, quando meu paciente das dez, chegou as onze, fiquei tentada a desmarcá-lo, porém, quando vi um menino de dois anos de idade, perdi toda vontade de ser má.
As crianças nunca tinham culpa.
Fiz uma avaliação inicial, constatando que os pais tinham sim motivos para se preocupar. A criança, apesar de já ter idade para isso, ainda não falava e não andava sozinha. Os movimentos estavam lentos e a musculatura fraca. Laudos de outros médicos, informavam que o sistema nervoso central dele, não havia se formado como deveria, mas eu precisava ter certeza.
Pedi uma tomografia, uma ressonância da cela túrcica e remarquei para que voltassem assim que tudo estivesse pronto. Se fosse comprovado, uma má formação eu não poderia ajuda-los muito, a não ser com encaminhamentos para profissionais especializados, que os auxiliariam no melhor desenvolvimento possível, para o filho. Agora, se o problema fosse outro, de minha alçada, aí sim eu faria o meu melhor.
Ao meio dia, percebi que estaria enrolada e “mal paga”, Bree me barrou quando estava pronta para ir almoçar em casa, e me informou que haviam me bipado da UTI naquele exato instante, Nessie estava com febre.
Nem pensei duas vezes, corri para lá e do elevador mesmo liguei para Edward. E que Deus me ajudasse.
— Alô.
— Amor, sou eu e...
— “Mas, “que merda”, Isabella. Cadê seu celular? Já te liguei um monte de vezes”.
— Hum! Perdoe-me. Deve estar na bolsa, esqueci-me de tirá-lo de lá. Tive uma manhã conturbada e agora tenho uma emergência. Não poderei almoçar em casa.
Um silêncio chato inundou a linha. Eu sabia que irritaria Edward. Ele odiava quando alguém prometia uma coisa e não cumpria.
— Edward? Você está aí? Edward?
— “Você não vem almoçar em casa de novo? Isso é sério, Bella”?
— Meu bem, estou dentro do elevador, a caminho da UTI. Minha paciente está com febre, isso num pós-operatório é muito sério. Por favor, tente me entender e perdoe-me, sim?
— “Não, eu não vou entender. Nós conversamos a noite”.
Por Deus! O homem estava furioso. Havia desligado sem ao menos se despedir direito. Isso era um saco. Será que sempre meu casamento e minha profissão entrariam em choque assim?
Edward
— Edward? Você está aí? Edward?
— “Você não vem almoçar em casa de novo? Isso é sério, Bella”?
Trinquei os dentes e apertei forte o telefone. Eu não estava acreditando nisso. Ela falharia comigo outra vez? Agora papai me enforcaria mesmo.
— Meu bem, estou dentro do elevador, a caminho da UTI. Minha paciente está com febre, isso num pós-operatório é muito sério. Por favor, tente me entender e perdoe-me, sim?
Ela tinha uma justificativa plausível, sempre tinha, porém eu não queria ouvi-la naquele instante.
— “Não, eu não vou entender. Nós conversamos a noite”.
Desliguei o telefone e o arremessei em cima do sofá. Se continuasse falando, era bem capaz de cometer uma loucura. Eu precisava me acalmar, antes de enfrentá-la ou acabaria fazendo uma merda de verdade.
Era preciso colocar aquela tornozeleira nela e tudo se ajeitaria, eu ficaria mais tranquilo.
Porém, tudo corria contra isso. A reunião havia se entendido demais. E depois, ainda nos juntamos à equipe de segurança para discutirmos sobre as alterações no sistema que protegia e monitorava nossa casa e o palácio.
E quando dei por mim, já era meio dia. E agora Bella ainda vinha com isso de não vir para casa agora.
E o pior ainda estava por vir: Carlisle e suas tiradas sem noção.
Se eu passasse a salvo pelo dia de hoje seria um milagre.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? Bella está bem?
Ah não! Ele estava de brincadeira, só podia.
Todo mundo havia tirado o dia para testar a paciência de Edward Cullen? Porque, se esse era o plano, eu estava perto de falhar, miseravelmente.
— Minha mulher está ótima, Jasper. E eu não sei por que isso é da sua conta, mas ela apenas, não virá almoçar. Surgiu uma emergência e terá que permanecer no hospital.
— Oh novidade! Alice também não virá. Está abarrotada de compromissos, por causa da nova coleção. Então, acho melhor nos unirmos e irmos almoçar de uma vez. Enfrentaremos papai juntos.
Arqueei a sobrancelha para o discurso de união dele. Às vezes Jasper me confundia.
— Baixe a guarda, irmão. Não é porque você tem algo que quero e me pertence, que vou sair por aí fazendo e concordando com as maluquices que Carlisle apronta. Quando eu decidir, de verdade, brigar por Isabella você será o primeiro a saber. Não farei nada pelas suas costas e usarei minha melhor arma.
Apontou para a cabeça, fazendo menção a coroa e ao reino.
Ele, definitivamente, não conhecia minha mulher.
— Estarei pronto, Jasper. Faça o seu melhor e veremos quem ganha o coração de minha princesa.
Sem deixar que ele retrucasse, me afastei. Respirei fundo e fechei os olhos me concentrando e buscando autocontrole.
Eu estava irritado além do normal.
Fiquei assim por um tempo e somente minutos depois, mas controlado, me sentei ao lado de minha mãe, Jasper já estava, ao lado de nosso pai.
— Pode servir, Charlote.
Surpreendentemente, Carlisle não disse uma palavra. Observando atentamente, ele parecia até um pouco acuado.
— Obrigado, mãe.
Sibilei disfarçadamente, enquanto beijava os nós dos dedos dela. Em retribuição, ela sorriu e alisou meu rosto.
— Disponha, meu amor.
Comemos no mais absoluto silêncio.
Num dado momento um ar melancólico pareceu dominar nossa casa e nossas pessoas. Algo estranho nos rondava, eu podia sentir.
— Sorvete de baunilha, com calda de romã, de sobremesa. Espero que apreciem, majestade.
Charlote nos servia, enquanto Bá retirava os pratos maiores.
— Guarde um pouco disso para nossas garotas, Chay. Está divino.
— Obrigada, senhora. Vou guardar sim e...
Mamãe e Charlote sorriam conciliadoras, porém, todo clima de brincadeira se esvaiu em instantes, quando Bá deixou, que todos os pratos que segurava, caísse.
— Donna! Você enlouqueceu? Preste mais atenção nos seus afazeres, mulher. O prejuízo será descontado de seu salário.
Ninguém deu a mínima atenção a Carlisle, estávamos ocupados demais prestando atenção em Bá e a Stephan que acabara de entrar.
Agora eu entendia o que havia assustado a babá das princesas, Stephan estava branco feito papel, suas mãos tremiam descontroladas e sua respiração saia em arquejos sôfregos.
— Por Deus, Stephan! O que ouve? Fale logo.
— Não se invade e atrapalha assim as refeições de seus monarcas, rapaz. Temos que ser mais rígidos com esses empregados, eles estão passando dos limites.
Mais uma vez, ninguém se importou com papai. Nesse instante, Jasper e eu já estávamos de pé, em volta de meu segurança.
— Um atentado. Os seguranças nos ligaram. Amum já correu para lá e...
Não precisei ouvir o final. A tornozeleira queimou em meu bolso. Bella estava em perigo.
— Edward, pare! Stephan vá atrás dele.
Ouvi os gritos de Esme enquanto corria para a sala e pegava a chave do Volvo, no mezanino.
— Por favor, Deus. Por favor...
Dei partida e saí cantando pneus. O portão estava aberto e uma movimentação enorme de seguranças, já rodeavam o local.
— Por favor, Bella, esteja segura, amor. Esteja segura, por favor...
Eu murmurava vários mantras, “voando” pelas ruas a caminho do hospital. Nunca o percurso pareceu tão longo.
— Vamos, andem logo. Vamos, “porra”!
Reclamei para o intenso trânsito do horário de almoço.
— Estou chegando, princesa. Estou chegando...
Quando freei e parei, de qualquer maneira, na vaga das ambulâncias em frente ao hospital, meu coração estava na boca.
Porém, não esmoreci. Adentrei correndo, assustando algumas pessoas e indignando outras.
— Edward, espere...
Stephan havia me seguido, no entanto, nem isso me fez parar. Continuei correndo e só ousei parar quando estava na porta da sala de Bella.
— Senhor Cullen, a doutora não está ela...
Também ignorei Bree e entrei.
Vazia.
A sala estava completamente vazia.
Um latejar pulsante dominou minha cabeça, me causando uma vertigem. Tive que me segurar na mesa para não cair.
— Alteza, era isso que eu queria avisá-lo. A princesa teve um intervalo de quinze minutos. Ela está na lanchonete agora.
Imediatamente abri os olhos, que nem percebi que havia fechado, e encarei uma atordoada Bree e um resignado e cansado Stephan.
— Intervalo? Bella está na lanchonete? Bem?
— É exatamente isso que venho tentando lhe dizer, desde que você saiu, como um maluco da sua casa, seu bastardo. Sua princesa está sã e salva.
Duas coisas me atingiram ao mesmo instante, o alívio e a raiva. A tal raiva que eu estava tentando controlar o dia todo.
— Bree, cancele todos os pacientes da tarde. Sua chefe está indo para casa. Stephan, faça alguma coisa que preste, pegue a maleta e a bolsa de sua patroa e me espere no carro.
Sem mais detalhes e como uma fera que vai a caça de sua presa, rumei à procura de Bella.
Algo me dizia que me acalmar primeiro, contudo, como havia feito muitas vezes hoje, ignorei esse conselho também. Eu apenas precisava descontar em Isabella toda “merda” de estresse desse dia infernal.
Alice
— Nessa blusa pensamos em usar essa viscose de seda estampada, princesa. O tecido é leve, próprio para o verão e as cores, praticamente, cantam uma para a outra.
Tracei, com as pontas dos dedos, as palhetas de cores que meu gerente de produção me mostrava. Às vezes ele me agradava, mas noutras, era um fracasso total. Eu sentia demais a falta da equipe de Forkian.
— Pensaram errado. Eu quero listras nesse modelo. Ele foi desenhado pensando nas inúmeras executivas que são nossas clientes. E executivas amam listras, para combinarem com seus terninhos. Por isso, quero listras, e em preto e branco, de preferência.
— Sim, senhora. Não havíamos pensado por esse lado, senhora. Perdoe-nos, e vamos tentar não errar da próxima vez.
O “imbecil” tremia e se desculpava sem parar.
Eu odiava gente fraca e sem coragem de me enfrentar com argumentos e ideias plausíveis.
— “Para os fundos. Rápido. Para os fundos”.
Eu já estava pronta enxotá-lo de minha sala, quando de repente, a voz pronunciada de Amun invadiu meus ouvidos.
— “A princesa, ela...”
— “Eu cuido dela. Vão para os fundos e saiam pelas portas de emergência. Evacuem o prédio, imediatamente”.
Pulei de pé, pronta para sair dali. Algo de muito grave estava acontecendo e era urgente.
— Princesa, venha comigo. Precisamos sair daqui agora.
Nem tentei reagir ou indagar. O chefe de segurança invadiu minha sala, me agarrou pelo braço e começou a me guiar pelos corredores que nos levavam aos fundos do ateliê.
— O que está acontecendo? Para onde estamos indo, Amun?
Ele não me respondeu, somente abaixou minha cabeça, com força, e me escondeu entre o braço direito, porque o esquerdo ele suportava o peso da arma que empunhava com a outra mão.
— Evacuem o prédio. Evacuem o prédio. Rápido. Vamos prevenir. Isso não é um treinamento é uma ordem. Saiam já daqui.
Minha visão periférica me mostrava os funcionários loucos, correndo para as saídas de emergência.
— Por aqui, senhor.
Viramos bruscamente por um corredor na direita. Alguém jogou sobre mim uma capa pesada e metálica. Agarrei-a com as duas mãos e a prendi em volta do pescoço.
— Isso a protegerá de fogo e resquícios, de qualquer natureza. Quando sairmos, não levante a cabeça e não diminua o passo. Certo?
— Sim.
Respondi trêmula. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Só sabia que era sério e que precisava cooperar.
— Agora!
Gritou ele, para “meia dúzia de pessoas” que nos rodeavam.
Em segundos, passamos pela saída e logo fui jogada no banco detrás de um carro. Minha cabeça e meu corpo foram pressionados junto ao estofado.
— Para o palácio. Rápido. Fique abaixada, Alice. Não levante a cabeça.
— Amun o que está acontecendo?
Todos ficaram em silêncio. Os únicos ruídos ouvidos, eram as vozes alteradas vindas dos rádios de longo alcance, que todos usavam.
— Falem, agora! Eu exijo saber.
Gritei me levantando e perdendo a compostura.
— Nada, senhora. Ainda não está acontecendo nada. Isso tudo foi uma medida preventiva. Um de meus homens encontrou um pacote suspeito em meio aos arbustos do jardim da frente, do ateliê. Minha equipe e eu resolvemos que o melhor seria colocar todos, a salvo e em segurança, antes de tomarmos qualquer medida. Agora se a senhora me permite, fique quieta e nos deixe fazer nosso trabalho. Prometo que respondo a todas as suas perguntas depois, quando tiver as respostas.
Assenti, trêmula, e voltei a baixar a cabeça. Estava apavorada demais para pensar em retrucar.
Edward
Passei por algumas alas, desci dois andares, atravessei alguns corredores e somente então cheguei a tal “lanchonete”.
O lugar era normal, grande. Na parte da frente, várias mesas de quatro e seis cadeiras, o preenchiam. E ao fundo, havia um enorme balcão que tomava toda parede do fundo.
Para o horário, até que estava cheio. Essas pessoas, mais especificamente, esses homens não trabalhavam não? Eles tomavam quase todas as mesas perto do balcão e pareciam fofocar como “mulherzinhas”. Não pude deixar de observar o quanto olhavam admirados para minha mulher.
Bella estava na esquerda, do outro lado do tumulto, sozinha. Com um copo de suco vermelho e intocável, a sua frente. E um enorme livro, de medicina, entre as mãos.
Sam e Zafrina estavam de pé, encostados na parede lateral e a observando atentamente. Fui notado assim que coloquei os pés na entrada.
— “Olhem só para aquelas penas. Ela é pura tentação”.
Fechei os punhos e me aproximei das mesas. Eu precisava ouvir melhor o que aqueles “putos” falavam.
Hoje não era mesmo meu dia.
— “Você já prestou atenção nos uniformes dela? É cada calça justa e blusa coladinha. Será que ela tem noção do quanto me excita? É gostosa demais essa mulher”.
Minha! Trinquei os dentes. Eles estavam falando, gesticulando e fazendo gestos obscenos pensando em minha mulher.
— “A mulher é boa de qualquer jeito. Olhem aqueles ombros, os braços, os cabelos... Eu me perderia sem medo, naquele corpinho desenhado”.
— “E o cheiro? Misericórdia! Quando ela passa, posso estar de costas que sei que é ela. Mulher cheirosa, dos infernos. Me deixa louco”.
Irado, dei mais dois passos e me fiz presente. Alguns me reconheceram outros não.
— Pois não? Em que podemos ajudá-lo, senhor?
O que havia mencionado seu estado de excitação, me enfrentou. Ele não sabia com quem estava se metendo.
— Não é nada de importante. Apenas espero que tenham outra residência em vista. Porque, em meu hospital, hoje foi o último dia de vocês, “bando de merdinhas”.
— O quê? Quem você pensa que é? Mas...
— Sou seu pior pesadelo, seu idiota.
O agarrei pela gola da camisa e o atirei de volta a seu lugar.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, em vão. Porque, eu não estava ali para aquilo. Não sujaria minhas mãos com ele. Seu castigo viria depois. E seria impiedoso.
Isabella era meu alvo.
A passos largos, deixei-os atordoados e sem saber do que eu falava.
Fui até ela.
Imediatamente, Sam e Zafrina se aproximaram. Será que estava tão visível assim o meu descontrole?
— Vamos para casa.
Fechei seu livro, a assustando, e o joguei em cima da mesa. Ela não havia dado por minha presença ali. Bella era avoada demais, às vezes. Será que não tinha se dado conta do quanto àqueles homens babavam por ela?
— Ah! Oi. Tudo bem?
Ela se levantou e olhou para os lados. Era evidente que eu estava começando a dar um show. Mas, se ela pensa que isso me frearia, rá, estava completamente enganada.
— Não posso ir agora, amor. Tenho pacientes até as cinco e... O que está acontecendo, Edward?
— Você não tem mais, pacientes hoje. Vamos para casa.
Agarrei seu braço e comecei a arrastá-la, contra sua vontade, para a saída.
— Bree os dispensou. Agora vamos de uma vez, porque estou meio sem paciência para seus “chiliques” de sempre.
Voltei a andar, sem o menor cuidado.
— Edward, devagar. Você a está machucando e todos estão olhando. Pare com isso, ou vocês estarão em todos os tabloides amanhã.
Zafrina se colocou a nossa frente, me desafiando e Sam me segurou pelo ombro.
— É alteza, para você. E da minha mulher, cuido eu. Agora se afastem, antes que eu me irrite de verdade.
Destemido, Sam deu mais um passo para perto de nós.
Ele queria briga. Ele brigaria comigo por causa de Isabella?
— Sam, não. Por favor, eu preciso de vocês.
Lamuriou Bella baixinho. Temendo, sabiamente, pelo emprego dos idiotas que ousavam me enfrentar.
— Vamos.
O olhei com fúria, por me desafiar, e voltei a caminhar e a puxar Bella comigo. Os seguranças nos seguiam muito de perto.
— Edward, agora que já deu muito que falar a meus companheiros de trabalho, será que pode me soltar e explicar o que está acontecendo?
Ela quis se rebelar quando chegamos ao elevador. Remexeu-se e tentou se soltar. Aumentei o agarre e me mantive calado.
Passamos pelos corredores, pela sala de espera e pela entrada. Todos nos olhavam espantados, ao longo do caminho. Isso não me afetou e pensar que Bella teria que voltar aqui no dia seguinte não me importou. Ela havia feito burrada, merecia ter que passar um pouco de vergonha.
Agradeci a Deus por não termos encontrado tio Aro no trajeto. Eu não estava em condições de explicar minha atitude naquele momento.
Já no estacionamento, Stephan nos aguardava ao lado de meu carro. A expressão dele foi de horror, quando percebeu o que eu fazia e meu estado.
— Nos leve para casa.
Joguei Bella no banco traseiro e segurei Sam, que se dirigia para o banco da frente, pelo braço.
— Você não! Leve o carro de sua patroa.
— Você não manda em mim, alteza.
Usou do sarcasmo e tirou minha mão de seu ombro.
— Trabalho para o rei de Forkian e é minha obrigação proteger a filha dele de malucos.
Fechei bruscamente a porta do carro e parti para cima. Com quem ele achava que estava falando?
— Edward! Não!
— Sam!
Zafrina e Bella gritaram, mas foi Stephan que me segurou e me impediu de arrebentar a cara daquele bastardo.
— Vá com Zafrina, Sam. Eu cuido das coisas aqui. Edward não vai encostar um dedo em Bella. Ele a ama, Sam. Só passou por um susto hoje. Entre naquele carro e sintonize seu rádio na nossa frequência e entenderá do que estou falando.
— Eu não posso e não vou fazer isso, Stephan. Eu prometi ao rei que cuidaria de nossa princesa. Olhe para o estado dela?
Me sacudi tentando sair dos braços de Stephan. Eu iria despedi-lo amanhã.
— Vá Sam. Nada vai acontecer. Stephan está aqui.
Foi Bella quem conseguiu dissuadir seu segurança. E meio a contra gosto eles se afastaram, porém, eu tinha certeza de que não se afastariam tanto assim de nosso carro.
— Me solte, Stephan. Vou colocar essa afronta em seu currículo, seu idiota.
— Eu vou soltar e você vai entrar no banco da frente, a meu lado. Você está fora de controle, Edward.
— Você não manda em mim. Vou atrás. No meu lugar. Isabella e eu precisamos ter uma conversinha.
— Ou vai na frente comigo, ou vai de táxi. Você escolhe, príncipe. Aliás, acho que você deveria ir a pé, para ver se coloca essa merda de cabeça no lugar.
Resmunguei e disse que iria no banco da frente, só assim ele me soltou.
Sentei e encarei Bella pelo retrovisor. Ela estava assustada e seus olhos já estavam vermelhos.
Não me deixei abater. Aquele rostinho de anjo não me convenceria aquele dia. Ela não escaparia de minha raiva.
Bella
Eu não conseguia pensar, meu corpo estava tremendo, meu braço, vermelho doía e minha cabeça estava a ponto de estourar.
Edward estava tendo um ataque, porque eu não havia ido almoçar?
Deus! Eu não sabia que isso o incomodava tanto. Era só ele ter conversado comigo a respeito.
— Chegamos. Bella, você desce primeiro.
— Stephan!
Edward gritou, a plenos pulmões, tentando destravar a porta e sair junto comigo.
— Calado. Desça, Bella.
Eu estava tão desconcentrada e confusa que nem havia percebido que já havíamos chegado em casa.
— Não desça, Isabella!
Ele voltou a gritar.
Com medo, segui as ordens de Stephan e corri para dentro. Todos estavam reunidos na sala. Porém, não parei. Não tinha condições para isso. Eu só precisava do conforto de meu quarto.
— Bella? Bells? Irmã?
A voz de Alice também estava assustada. Algo havia acontecido com minha irmã, porém eu não conseguiria cuidar dela agora. Precisa resolver minha situação, primeiro.
Subi as escadas, correndo, num fôlego só e logo adentrei o quarto.
— Edward? Edward? Alguém pode me dizer o que está acontecendo?
Ouvi Esme gritando no mesmo instante em que ele entrava no quarto e trancava a porta.
Esme continuou a esmurrando pelo lado de fora. Porém, Edward não lhe deu atenção.
Sentei-me na cama, segurando nervosamente uma mão na outra. Ele estava parado a minha frente e me olhava com fúria.
— Eu prometo que nunca mais deixo de almoçar em casa. Perdoe-me, não era minha intenção desafiar e irritar você.
Incrédulo, ele se aproximou e segurou minhas pernas com violência. Puxando-me para frente.
— Eu estou me lixando para a merda de seus horários, Isabella. Eu tive um dia de merda e tudo começou porque você não sabe obedecer a uma merda de ordem.
— Não estou te entendendo, Edward.
Puxei as pernas até o peito. Meu corpo inteiro tremia. Eu estava com medo de meu marido.
— Não se faça de sonsa!
Gritou de novo.
Impaciente, enfiou a mão no bolso, retirou algo de lá e o atirou em mim, atingindo, em cheio, meu rosto.
— Eu te pedi para nunca tirar isso. E na primeira oportunidade você me desobedece. Alice esteve à mercê de um atentado, Isabella. E poderia ter sido você, sua idiota. Tudo porque se recusa a obedecer a uma simples regra de não retirar essa “porra”.
De novo, ele se aproximou e voltou a puxar minha perna com força. Com a outra mão pegou a tornozeleira que havia caído a meu lado e a trouxe para minha canela.
Só agora me lembrei de que eu a havia retirado, de manhã, quando tomara banho e que me esquecera, completamente, de colocá-la de volta.
— Retire isso daqui outra vez e prometo que a mando tatuar em você, Isabella. Entendeu ou quer que eu desenhe?
— Edward, eu não estou entendendo. Perdoe-me se retirei a tornozeleira, isso não vai se repetir, mas, o que isso te a ver com o atentado de Alice? Estou ficando louca aqui.
— Não precisa entender, “merda”. Só não tire. Faça pelo menos algo certo nessa sua vida e deixe de ser essa menina mimada e cheia de querer, que não obedece ninguém.
Ele gritou e Esme voltou a esmurrar a porta e a gritar por nós. Ele estava sendo injusto, muito injusto e falava coisas sem noção.
— Edward Cullen, abra essa porta imediatamente.
Levantei-me para acalmar minha sogra. Talvez ela soubesse, de verdade, o que estava se passando.
— Onde pensa que vai? Eu ainda não terminei.
Ele voltou a me segurar pelos braços. Os olhos voltaram a ficar injetados de ódio.
— Eu odeio no que você me transforma Isabella. Eu odeio ser essa pessoa insegura e ciumenta, eu odeio essas suas roupas...
Insano, ele levou as duas mãos a parte de frente do meu vestido e o puxou. Botões voaram para todo lado e logo pedaços os seguiam. Ele havia me deixado apenas de lingerie.
— Eu odeio que você se insinue para Jacob e aqueles estagiários “de merda” daquele hospital. Eu odeio essas “merdas” de uniformes provocantes de “enfermeira safada” que “dá” para qualquer um.
Como um louco, ele entrou em meu closet e começou a arrancar meus uniformes dos cabides e passou a rasgá-los, se piedade.
— Pare. O que você está fazendo?
Gritei tentando segurá-lo.
Bruscamente, fui empurrada para o lado.
— Estou acabando com a alegria deles. Estou me impondo, Isabella. Me impondo, como meu pai me mandou fazer, desde que nos casamos. Você nunca mais vai usar isso. Blusinhas indecentes, calça justas, vestidos sem mangas, saias curtas? Isso já era, Isabella. Quero ver você se mostrar para alguém agora.
Peça após peça, iam se acumulando ao chão. Ele as rasgava e falava coisas incoerentes. Edward parecia dominado por algo. Eu não o reconhecia.
— Por favor... Pare...
Implorei e comecei a chorar.
Jurei que não faria isso mais. Porém, eu não sabia o que fazer.
Em certo momento, sem mais poder ver ele naquele estado, voltei para o quarto, sentei na cama e comecei a me balançar para frente e para trás. Eu estava perdendo a razão, sabia disso.
— Tragam a chave reserva.
Esme falava com alguém, do lado de fora. Edward continuava no closet e eu permanecia longe, tentando me afastar do mundo.
— Bells? Bella? Você está machucada? Ele te machucou?
Alice entrou correndo e me pegou nos braços. Me apalpando e vistoriando meu rosto.
Sem conseguir se segurar, e vendo meu estado, ela me fechou em seus braços. Não consegui me mover para abraçá-la de volta. Eu estava travada.
— Shiii. Tá tudo bem, Irmã. Tudo bem. Se acalme.
— Querida?
Esme jogou um lençol sobre meus ombros e tentou tocar meus cabelos. Me encolhi mais nos braços de Alice. Eu não queria ninguém perto de mim.
— Não me toque, Lice. Eu sou suja. Me insinuo para as pessoas. Faço Edward infeliz. Não sei obedecer a ordens. Não toque em mim, Lice. Eu vou contaminar você. Leah sempre esteve certa eu...
— Shiii. Irmã. Shiii. Já passou. Eu estou aqui. Ninguém vai ferir você. Ninguém. Eu prometo.
Ela se sentou e me deitou em seu colo. Fechei os olhos e voltei a me balançar, para frente e para trás.
Estava frio. Tão frio.
— Liguem para meu pai. Precisamos dele aqui. Bella está em choque e somente duas pessoas no mundo, a conseguem trazer de volta quando ela está assim.
Lice conversava com alguém. Porém eu não compreendia. Gritos e mais gritos inundavam minha mente.
Leah, papai, mamãe, Edward... Todos eles gritavam ao mesmo tempo, dentro de minha cabeça...
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