Três Príncipes, Três Princesas
29 O Plano
Notas iniciais
Bella
Eu estava fervendo. Um sentimento de raiva me tomava por inteira e eu não sabia o que fazer para apaziguar o fogo que tentava me dominar de dentro pra fora. Eu nunca havia sentido algo tão negativo e tão intenso.
Eu precisava me livrar daquilo, eu precisava aplacar aquela queimação.
Assim que passamos pela porta de entrada e meus olhos foram de encontro à figura cínica que me avaliava ardentemente, eu sabia o que precisava fazer.
Soltei-me dos braços de Renée e Rose, atravessei a sala e parei de frente para ele.
— Eu não sou um pião para seus joguinhos, idiota. Pare com isso!
Com determinação, levantei a mão e a desci, em forma de tapa, bem na face do noivo de minha irmã.
— Isso foi por me fazer de boba.
Sem conseguir mais olhar para aquela cara deslavada, virei às costas e me encaminhei paras as escadas.
Eu tinha consciência de que a sala já estava cheia nesse momento, ou seja, todos haviam presenciado a minha falta de controle e compostura. Contudo, eu não me arrependia, eu precisava extravasar.
Antes de correr para o refúgio de meu quarto, voltei a encara- lo.
Ele permanecia no mesmo lugar e com a mão rosto. Abobalhado pela minha atitude.
— Eu tenho pena de Alice, Jasper. Ela não merecia o que o futuro lhe reserva. E principalmente, eu tenho pena do seu povo, você nunca será um bom rei.
Esquecendo-me, outra vez, de quem eu era e da educação que recebera, saí dali sem nem olhar para trás. Eu queria, eu precisava, ficar sozinha.
As palavras de Edward ainda martelavam e feriam.
“- Santa ingenuidade! Cresça, Isabella. Cresça”.
“- Seu mundinho cor- de- rosa”.
Entrei no quarto e tranquei a porta. Tirei os sapatos e me joguei na cama. Uma mágoa profunda me assolava, todavia eu não iria chorar, não mais. Eu estava cansada disso.
Conheço-me e sei que uma hora ou outra transbordaria e aí sim, as lágrimas viriam. Contudo, jurei a Deus e a mim mesma, que nunca mais faria isso na frente de alguém.
A partir de hoje, Isabella Swan, na frente de todos poderia até se sentir triste, ferida e magoada, mas as lágrimas? Essa forma de desabafar só viria na solidão de um quarto, ou no conforto de um banho quente.
Esme
Observei tudo meio atônita. Isabella havia, merecidamente, estapeado Jasper e agora fugia para seu quarto.
Queira Deus que fosse para se acalmar e não para fazer algo impensado. Nós não precisávamos de que Charlie soubesse desse incidente. Não gosto nem de imaginar o que acontecerá se o rei ficar a parte do ataque de Edward.
— Ela me bateu?
Voltei meus olhos para Jasper. Ele agora estampava um sorriso estúpido. A mão continuava no lugar atingido.
— Ela me bateu. Petulante de uma figa. Ela é quente. Ela é incrível. Eu a quero mais do que nunca agora.
A incredulidade me abateu. Ele iria insistir naquilo.
— Mãe, Rose, vamos até Bella. Precisamos conversar. E além do mais quero ter certeza de que ela está bem.
Silenciosamente, as duas seguiram as ordens de Alice.
Meu corpo tremia e eu ofegava alto. Eu precisava dar um jeito nisso, antes que elas fizessem uma loucura.
Carlisle se aproximou e me encarou, ele sabia que agora o meu assunto era com ele.
Jasper, percebendo a tensão, se afastou, ainda rindo feito uma hiena louca.
— Esme, se acalme.
— Me acalmar? Me acalmar? Não me venha com bajulações, seu rei de uma figa. Eu exijo, que você leve meus filhos para a biblioteca agora e os explique como as coisas funcionam. Jasper está doente, por uma sede de poder insana. Ele me lembra um Eleazar de antigamente. Seu irmão era desse jeito. Eu não deixarei que meu filho se perca. Conte a eles de uma vez.
Carlisle deu dois passos para trás. Um traço de medo e horror o tomou.
— Querida, seja coerente, eu não posso fazer isso. Você sabe que ainda não posso. Não é o momento certo. Mamãe me mataria e eu colocaria meu reinado em risco. Não me peça algo que não posso fazer, Esme. Você sabe as regras.
— Que se danem as regras, Carlisle. Meus filhos estão em guerra, eles vão acabar se matando desse jeito.
— A revelação agora, só os colocaria em uma disputa maior. Eu não posso apressá-los assim. Tudo há seu tempo, minha rainha. Tem de haver outro jeito.
Fugi de suas mãos que queriam me acariciar. Eu não cederia a sua doçura. Ele era rei e pai, era função dele controlar meus filhos.
— Então o encontre e que seja rápido. Porque creio que nesse momento, Charlie já esteja a caminho. E eu preciso te lembrar de que: sem casamentos, sem aliança, sem exército, sem Pushian, sem Forkian, sem proteção, sem nada...
Segui rumo à cozinha, mas antes, voltei minhas palavras para ele.
— Ah! E sem Esme. Porque eu te garanto, que se essas meninas partirem, eu as seguirei e ainda por cima, ligo para sua mãe. A rainha adorará lhe ensinar como se governa filhos rebeldes. Porque foi exatamente isso que ela fez com você e seus irmãos.
Saí de lá, mas, pude ouvir perfeitamente o “arfar” de meu marido. Eu havia atingido meu ideal. Agora ele reagiria.
— Jasper, seu bastardo. Venha a meu escritório agora.
O grito ecoou.
É, agora as coisas dariam certo.
Edward
Ouvir meu pai gritar por meu irmão me tirou de meu transe. Larguei Emmett falando sozinho e corri para dentro. Eu o pegaria agora.
Jasper acabava de chegar à sala.Nossos olhos se encontraram e antes que alguém me impedisse, parti para cima dele.
— Ela é minha.
Gritei enquanto o acertava em cheio.
Jasper era mais forte, contudo, eu era mais rápido e contei com o ataque surpresa. Ele nunca imaginaria, que o “contra violência”, perderia o controle.
Esmurrei seu rosto, duas vezes, antes que ele pensasse em reagir.
— Nós veremos.
Ele agarrou minha camisa e me jogou ao chão. Esbarramos na mesa de centro e o vaso de cristais foi ao chão. Mamãe nos mataria.
— Parem, seus idiotas.
Emmett tentava interferir, mas não conseguia. Eram murros, socos e safanões para todo lado.
— Pai!
Gritou Emm, em algum momento.
Jasper tinha as mãos na gola de minha camisa e batia repetidamente minha cabeça ao chão, em contra partida, eu apertava seu pescoço. Ele já ofegava e eu já estava a ponto de perder a consciência.
— Parem! Eu estou mandando.
Carlisle também tentou, contudo, a situação nos comandava.
— Emmett, faça alguma coisa.
Emmett se aproximou outra vez, e arrancou Jasper de cima de mim. Pus-me de pé, pronto para pegá-lo de novo, mas, para meu desgosto, fui seguro por trás. Carlisle havia me engravatado.
— Eu mandei vocês pararem. Emmett leve Jasper para meu escritório.
— Isso ainda não acabou. Eu vou pegar você, Edward. E da próxima ninguém irá interferir.
Sacudi-me tentando me soltar do agarre de papai.
— Vem agora. Vamos resolver isso agora. Eu vou matar você, Jasper.
— Emmett, agora.
Abusando de sua estatura e força, Emmett o arrastou dali. Carlisle continuou me segurando.
— Eu vou te soltar agora, Edward. Contudo, saiba que suas cotas de besteiras já se esgotaram por hoje. Portanto, trate de colocar algum juízo nessa sua cabeça. E arrume uma maneira de acalmar sua noiva.
— Não diga que perdi o controle, pai. Jasper precisa aprender a...
— Jasper é assunto meu. Eu o colocarei em seu lugar. Agora trate de se limpar e vá para o hospital, sua cabeça está sangrando.
Levei a mão até a parte de trás, no mesmo instante que senti a dormência e a queimação. O bastardo havia me ferido.
Enquanto Carlisle ia ao encontro de Jasper, caminhei para meu quarto. Eu estava com muito ódio e frustrado. Todavia, tudo mudou no momento em que fui distraído pela presença de Bella e Rósalie no corredor.
Instintivamente, dei dois passos para trás, eu não estava pronto para perceber a raiva e o rancor que havia despertado em minha noiva mais cedo. Eu ainda estava tomado pelo calor da briga com meu irmão e tinha medo de cometer mais algum erro, caso falasse com ela agora. Eu precisava me controlar e me acalmar, antes de qualquer coisa.
Mas, para minha total surpresa e deleite, ao olha-las mais atentamente notei que, minha cunhada sim, parecia furiosa e decepcionada comigo, já minha princesa, diferente do que imaginei, tinha a face tomada por algo, que imaginei ser, complacência. Não era nada negativo, graças a Deus.
Ela não estava me odiando, pelo menos não naquele instante. Creio que presenciar minha briga com Jasper tenha desviado a atenção dos sentimentos ruins que havia despertado por mim.
Preocupação, era a palavra exata do que ela exalava.
Piedosamente e surpreendentemente, Bella estendeu a mão em minha direção.
Rose bufou de raiva, por causa do ato, creio que ela quisesse que a irmã me ignorasse, ou me castigasse de alguma forma.
Sem esperar que ela repensasse, estendi a mão e entrelacei meus dedos aos dela.
Caminhamos, silenciosamente, lado a lado, até chegar a seu quarto.
Pela minha visão periférica observei mamãe segurando Rósalie pelo ombro. Pisquei para ela, sendo retribuído por um sorriso. Dessa vez eu consertaria as coisas sem precisar da interferência de ninguém, afinal nos casaríamos em pouco tempo e teríamos que aprender a viver como um casal dono de sua própria vida.
Adentramos o quarto e suspirei aliviado ao não encontrar nenhuma mala sendo feita. Eu a havia chateado, contudo ela não parecia pronta para partir. Agradeci em silencio a Deus, Ele havia me ajudado, mais uma vez.
Ainda sem comunicação verbal, fui guiado para o closet e depois para o banheiro, incrivelmente branco e organizado. Não gostei de nota-lo tão impessoal, parecia que seu ocupante só estava ali de passagem. Apesar de que esse fato era verdade, em poucos dias Bella e eu ocuparíamos outro quarto e esse sim teria que se parecer conosco. Mesmo com esse pensamento, a ideia dela não ter mexido em nada ainda me incomodava, eu queria que cada canto dessa casa e desse reino se parecesse e fosse agradável a ela. Eu pretendia dar-lhe o mundo se isso a fizesse feliz.
— Sente-se aqui.
Obediente, me acomodei ao pequeno “puff” perto da pia principal.
Olhei-me no espelho e quase sorri, meu rosto não havia um ferimento sequer, ao contrário de meu irmão que nesse momento devia estar enfiado no gelo, para que seus olhos não inchassem tanto.
Porém, o que não havia de estrago no rosto, havia na cabeça e nos punhos. Minha camisa, meu cabelo e minhas mãos estavam impregnados de sangue, eu não sabia onde terminava o de Jasper e começava o meu.
Suspirei e acredito que Bella interpretou como dor, pois logo se aproximou mais. Suas mãos, meio trêmulas foram de encontro aos botões de minha camisa.
Perdi todo o ar quando notei que ela começava a desabotoá-la. A cada toque de seus dedos delicados em meu peito, eu estremecia. Coerência era algo que não me pertencia mais.
— Pronto. Agora eu...
Quando seus olhos se voltaram para os meus, ela perdeu a compostura. Eu emanava amor e desejo. Eu amava aquela garota, e ela seria minha, somente minha. Nem Charlie a tiraria de mim mais. Ela me pertencia.
Sem conseguir me conter levantei a mão, o intuito era tocar seu rosto de marfim raro. Eu precisava ter certeza de que estava mesmo tão perto dela.
Contudo, ao olhar para minha mão, ela despertou do transe e se afastou.
— Termine de tirar a camisa, por favor. Eu vou buscar minha maleta.
Ela havia entrado no “modus médica”.
Sacudi a cabeça, trazendo a sanidade de volta. Ela iria cuidar de mim. Eu estava ferido e aproveitaria dessa chance para fazê-la me perdoar. Afastei o pensamento de remorso que queria me dominar, eu aproveitaria essa oportunidade.
Retirei a camisa e a joguei-a no canto do banheiro. Assim que ela pousou ao chão, fui até lá e a peguei colocando-a em cima da pia, para que me lembrasse de levá-la a meu quarto assim que saísse daqui, eu não queria que Bella pensasse que sou bagunceiro.
Voltando a me sentar e me encarando de novo no espelho, uma ideia me veio à mente. Eu sabia o que fazer.
Antes que ela voltasse, levei a mão a cabeça, fechei os olhos e pensei em coisas muito, muito tristes.
Notei que retornou assim que ouvi sua respiração, um pouco mais alta e ofegante que o normal.
— Desculpe-me pela demora é que não tive tempo de descobrir onde estão todas as minhas coisas ainda. Você está sentindo muita dor?
Ela se aproximou e me tocou no rosto. Abri os olhos devagar, para que ela não notasse minha farsa.
— Estou meio tonto. E dói um pouco também.
— Edward, talvez devêssemos ir ao hospital. Ferimentos na cabeça podem ser sérios e...
Ela já se afastava com intuito de me rebocar dali.
— Não.
Gritei meio exaltado e a segurei pela mão. A sobrancelha dela arqueou perante meu ato. Quem estava com dor gritava? Não gritava?
— Digo, digo... Não deve ser nada sério. Deve ter sido só superficial. Nem está sangrando mais.
Com um meio sorriso no rosto, um sorriso que significava que sabia que eu estava mentindo, ela voltou a se aproximar. Só que agora deu a volta e se posicionou em minhas costas. Posso afirmar que Bella percebeu minhas intenções e se fez de desentendida.
— Então vamos ver como está isso aqui.
Delicadamente, ela abaixou minha cabeça e começou a afastar os cabelos do ferimento.
O toque dela era suave e carinhoso. Agora eu entendia o que Jacob e ela quiseram dizer com “a leveza das mãos de Isabella” no artigo deles.
Nem eu imaginava que ansiava tanto por aquele toque.
— Hum! Não parece ser nada grave mesmo. Saiu muito sangue, porque o couro cabeludo é propenso a isso, foi tudo superficial, contudo não vamos ignorar nada. Vou fazer um curativo e depois você deve descansar e se sentir algo diferente, iremos imediatamente ao hospital para que você faça uma tomografia.
— Fico aliviado.
Ela acabava de me dar mais uma ideia. Isabella Swan me perdoaria naquela mesma tarde, ou eu não me chamaria Edward Cullen.
Ela voltou a minha frente e pegou algo em sua maleta. Tentei levantar a cabeça para ver o que seria, porém fui impedido.
— Permaneça com a cabeça abaixada. Facilitará meu trabalho.
Ela voltou ao que estava fazendo e logo percebi algo frio sendo pressionado no ferimento. Não doeu, o remédio não, mas a pressão dos dedos dela sim.
— O que é isso?
Fechei os olhos e ignorei a dor. Ela soltou um risinho baixo. Pelo menos eu estava a fazendo sorrir em vez de chorar. Nem que isso me custasse mais ferimentos eu jurei que a faria soltar mais daqueles “sonzinhos” tão agradáveis a meus ouvidos.
— É água oxigenada. Eu preciso limpar esse sangue todo, antes de qualquer coisa. Você quer que eu conte uma história para te distrair? Dói menos, quando faço isso.
Eu podia imaginar o sorriso que estampava a face dela ao ser sarcástica comigo.
— É isso que faz com as crianças enquanto as examina?
Bella permaneceu em silencio por alguns segundos. Ela parecia pensar no que eu perguntara.
— Quando tem plantão no pronto socorro, atendemos a emergências de qualquer tipo, não importa nossa especialização. E isso, às vezes significa crianças acidentadas. E quanto digo acidentes, considere os domésticos como, quedas, cortes e assim vai, contudo, os piores são os automobilísticos. Em certas ocasiões tenho vontade de chorar junto com elas. Então para manter meu controle e os delas, as distrai-os contando histórias.
— Conto de fadas?
— Todo tipo. Varia muito de acordo com a idade. Já contei até uma versão mais criativa de como John Snow se apaixonou por uma princesa de um castelo.
— John Snow?
Perguntei.
— É. A garota era fã de Game of trones.
— Ah!
Pelo visto ela também era fã, já que conhecia o nome do tal “cabeludo” da série.
— E funciona?
Voltei a falar tentando ignorar a pontadinha de ciúme infundado.
— Com meninas sim. Já meninos é mais fácil se falar de esportes ou jogos de computador. Eles ficam bem mais falantes e calmos.
Eu amaria qualquer coisa que ela conversasse comigo.
— Prontinho, senhor brigão. Agora vamos ver essas mãos.
— Já? Mas, eu nem percebi.
Não acredito que me desconcentrei do toque dela jogando conversa fora. Eu estava esperando que a qualquer momento ela acordasse e me espantasse dali, lembrando-se do quanto fui imbecil hoje mais cedo.
— Viu? Contar histórias funciona. No seu caso, eu só limpei e apliquei um anti- inflamatório em spray. O certo seria colocar um curativo, mas para isso teria que raspar seus cabelos e creio que você não queira um corte tão moderno, levando em conta que temos uma cerimônia agendada para semana que vem.
Respirei fundo e aliviadamente. Elas estava falando do nosso casamento, ou seja, ele ainda estava de pé.
— Não mesmo. Minha noiva é muito bonita, quero estar perfeito para ela na sexta.
Ela sorriu e se posicionou, outra vez, entre minhas pernas. Parecia tão certo tê-la tão perto.
— Agora me dê suas mãos.
Fiz o que ela pediu e a obsevei enquanto trabalhava. Eu precisava fazer aquilo mais vezes. Bella era centrada e muito profissional. Eu já me derretia de orgulho dela.
— Aqui as coisas estão melhores, a cicatrização será mais rápida.
Ela repetiu todo o processo. E quando terminou foi até o quarto trouxe um copo com água e me entregou juntamente com um comprimido.
— O que é?
Se fosse um calmante eu recusaria. Tínhamos muito que conversar e eu precisava, me manter acordado.
— É só para tirar a dor. Pode tomar.
O tom de voz, de médica mandona, não me deixava alternativa.
— Acho que agora você deve tomar um banho e descansar, mas não durma. Você bateu a cabeça precisa se manter acordado.
Olhei para o chuveiro daquele banheiro, olhei para ela. Repeti o ato, pelo menos, umas três vezes. Eu queria que ela entendesse sem que eu precisasse verbalizar.
— Vá para seu quarto, Edward.
Ok, não deu certo, porém eu ainda não estava pronto para desistir. Se eu deixasse à ira dela voltar, não faço ideia de como a convenceria a me perdoar. Essa era minha oportunidade de ouro e eu iria aproveita-la.
Levantei-me, teatralmente dei alguns passos trôpegos, fiz cara de dor e me posicionei a sua frente, gemendo descaradamente.
— Amor, eu não estou me sentindo bem. Creio que ainda esteja com tonturas e um pouco de dor. Estou com receio de ficar sozinho. Deixe-me ficar aqui com você? Se eu sentir qualquer coisa você estará por perto, mais fácil de socorrer.
Usei o termo “receio” porque “medo” seria um prato cheio para as brincadeirinhas de Emm. Não que eu estivesse disposto a contar nada disso a ele.
Seria patético meu irmão saber que agi como uma criança mimada, somente para que minha noiva me perdoasse pela minha estupidez.
Bella me avaliou de cima a baixo. Um meio sorriso tentava sair pelos cantos de seus lábios, contudo, ela o disfarçou.
— Tudo bem. Você acha que consegue tomar banho sozinho ou terei que chamar alguém para te ajudar?
— Não!
Gritei, de novo. Continuo na dúvida, se doentes gritam.
— Digo, eu,... eu consigo sozinho. E também não demorarei.
— Tudo bem então. Tome seu banho, enquanto busco uma roupa no seu quarto.
Obriguei-me a soltá-la e encaminhei-me para o box do banheiro. Desabotoei a calça no exato instante em que a porta do quarto se fechou.
Eu estava sozinho, era o tempo de pensar em uma maneira doce, mas concreta, de pedir desculpas por ter sido um idiota, com i maiúsculo.
Bella
Edward era uma figura. Eu sabia que devia estar com raiva dele e na verdade ainda estava, todavia, ele me dera uma lição. Eu havia aprendido muito nessa manhã, mesmo que não tenha sido de uma maneira nada legal ou educada.
Sei que em algum momento a conversa surgiria, e eu já estava me preparando para ela. Sei também que ele estava exagerando na intensidade de sua dor. Segundo ele, eu era ingênua, mas também não era tanto.
Eu só estava esperando para ver onde aquilo tudo ia dar.
Sai do quarto, ainda pensando em como Edward estava fazendo drama quanto aos ferimentos. Era óbvio que o intuito dele, era passar um tempo comigo.
Estava tão distraída que nem percebi Esme no corredor.
— Perdão, majestade. Perdão. Eu estava distraída.
Ajudei-a a se firmar.
— Não se preocupe com isso, querida. E pare de me chamar de majestade. É Esme, não se esqueça, Esme.
Sorri timidamente e assenti.
— Vai a algum lugar? Você parece com pressa.
Meu rosto esquentou e eu sabia que estava vermelha. Confidenciar que Edward estava em meu quarto, tomando banho, era algo muito novo para mim.
— Sim. Na verdade, minha sogra, eu estava a caminho do quarto de Edward. Fiz alguns curativos nele e agora ele está tomando banho e precisa de roupas limpas.
Respondi envergonhada, mas confiante.
— Meu filho, está bem? Devo me preocupar com algo.
— Não, não precisa se preocupar. Os ferimentos foram superficiais. Ele só precisa descansar um pouco e logo estará recuperado.
— Graças a Deus. Então, se não precisam de mim, eu vou me retirar. Sua mãe me espera para um conversa. Com licença.
Retribui a reverência que ela me fez. E comecei a olhar para os dois lados, quando me dei conta de uma coisa.
— Esme?
Ela já estava pronta para bater a porta do quarto de minha mãe.
— Sim.
Corri até ela.
— Pensando bem, eu preciso de sua ajuda. Edward precisa de roupas limpas e eu me propus a busca-las, porém percebi agora, que não faço ideia de onde fica o quarto dele. Você pode me ajudar, por favor?
— Eu farei melhor que isso. Venha comigo.
Caminhei ao lado dela. Subimos mais um lance de escadas, passamos por algumas portas e então paramos quase no fim do corredor.
— É aqui. Lamento não poder ficar e te ajudar com as roupas. Sua mãe me espera e não quero me atrasar. Sinta-se a vontade, querida.
— Obrigada.
Esperei que ela se afastasse, para então adentrar.
Entrar no quarto de alguém quando esse alguém não está presente é meio constrangedor, ainda mais essa pessoa sendo seu noivo. Eu me sentia mal, como se tivesse invadindo sua privacidade, cometendo um crime.
O quarto em si, era um típico recanto masculino, a única diferença, era a organização, a limpeza e o cheiro bom, nada parecido com o quarto de Jacob, por exemplo.
A cama era alta, a cabeceira de madeira escura. Dois criados mudos a ladeavam. Em cima de um, se via uma luminária para leitura e também um livro, tive vontade de folhea-lo. A vontade de saber o que ele lia era quase insana, porém me segurei, logo eu saberia.
No outro criado, uma surpresa, uma foto minha do dia do nosso noivado, num lindo e delicado porta retrato dourado adornado com miçangas pretas. Agora fazia sentido quando ele dizia todas as noites, quando nos despedíamos ao telefone, que dormiria contemplando cada detalhe de meu rosto.
Se possível, o amei mais ainda.
Suspirei alto e então voltei a me concentrar. De frente a cama, um móvel também escuro, servia de suporte para uma televisão, um moderno sistema de som e um vídeo- game. Mais a direita se via uma escrivaninha e mais alguns livros espalhados por ela.
Ao lado da porta de entrada, outra porta, que imaginei ser do closet. Migrei para lá e não me decepcionei com o que vi. Nada de cuecas, meias ou toalhas jogadas ao chão, tudo estava perfeitamente arrumado.
Abri algumas gavetas até encontrar uma camiseta branca, básica e de algodão. Procurei mais um pouco e logo encontrei uma bermuda de brim grafite. Mais algumas gavetas e me vi corando de todos os tons de vermelho, ao ter nas mãos uma boxer preta. Eu nunca tinha pegado uma peça daquelas nas mãos.
Evitando pensar demais, fechei tudo e voltei correndo para o quarto em que estava hospedada.
Edward ainda estava no banho.
Entrei sorrateiramente. Mantive os olhos longe do box e deixei as roupas em cima do mesmo “puff” onde lhe examinei a poucos minutos atrás.
Eu ainda estava em dúvida do que faria agora, a vontade de brigar com Edward era enorme, contudo eu estava me divertindo e queria saber até onde ele chegaria com aquele teatro.
Edward
Desliguei o chuveiro, peguei uma toalha que descansava em um gancho, ao lado da porta. Pelo cheiro de morangos que emanava dela, creio que seja de Bella.
Melhor ainda.
Sai do cômodo e logo avistei minhas roupas. Rapidamente me sequei e as vesti. Só a escolha de minha noiva, já falava muito sobre ela. Simples, porém tudo em sintonia.
Abri algumas portas dos armários até encontrar um desodorante, diga-se de passagem, feminino. Nem me importei, era o cheiro dela. Muito melhor ainda.
Passei os dedos pelo cabelo, tomando cuidado com o ferimento, respirei fundo e descalço mesmo, fui ao encontro dela no quarto.
Bella estava concentrada em alguma coisa do lado de fora na janela. Aproveitei os poucos segundos que tinha, antes dela notar minha presença ali, para admira-la.
Cabelos amarrados, certamente para não atrapalhar seu trabalho enquanto me examinava. Calça jeans escura, quase preta. Blusa rosa, bem clarinha, quase branca. Linda era apelido.
— Você já terminou?
Assenti, ainda meio abobalhado.
Observei a cama e decidi o que precisava fazer. Não era mais hora de brincar ou fingir. Eu precisava tê-la, imediatamente, entre meus braços.
Estendi a mão e esperei que ela não me rechaçasse.
— Deite- se aqui comigo. Eu quero você perto de mim. Eu preciso de você para me curar.
Meio relutante e com uma expressão meio duvidosa, ela veio até mim e entrelaçou seus dedos aos meus. Suspirei de alívio, Bella estava me dando outra chance. Ela sempre me dava mais do que eu merecia.
Puxei o edredom branco, que cobria cama e me acomodei, ela seguiu meu ato.
Sem deixar que ela pensasse demais, a puxei para perto de mim. Enfiei meu nariz em seu pescoço e me inundei de sua maciez e de seu cheiro. Agora sim, eu estava pronto para começar a me desculpar.
— Você não deve dormir, Edward. Somente descansar, ficar de repouso.
Acenei afirmativamente que concordava e voltei a encara-la com intensidade.
— Eu quero tanto te beijar. Na verdade eu devia ter feito isso logo que te vi, mas...
— Edward, não creio que seja uma boa hora para isso. Você não deve se exaltar e além do mais eu já escutei desaforos demais por um dia. Por que não deixamos a conversa séria para depois? Por que você não continua fingindo que está com muita dor, enquanto eu continuo fingindo que estou acreditando?
E eu que jurava que estava atuando bem.
— Não, princesa. Eu não vou me exaltar e nem serei o mesmo babaca de hoje cedo. Eu só preciso que me escute.
Ela permaneceu em silêncio, então, aproveitei a deixa.
— Eu preciso que me perdoe por ter agido com um idiota. O ciúme me cegou, Bella. Eu queria tanto ter te buscado, e saber que falhei me deixou furioso e junte a isso a raiva acumulada que venho sentindo das atitudes de Jasper. Só podia dar em confusão. Perdoe-me, princesa. Você não deveria ter sido o alvo de minha fúria. Eu disse inverdades e me arrependo inteiramente de cada palavra. Perdoe-me e prometo te recompensar de alguma maneira.
Bella suspirou alto, esperei que as lágrimas dela viessem, contudo isso não aconteceu. Senti o baque. Eu tinha causado um estrago maior do que imaginei.
— Eu mereci. Não precisa se...
— Bella, por favor, você não pode...
— Shiiii.
Ela levou os dedos a minha boca me impedindo de falar.
— Eu mereci sim, Edward. Tenho que aprender a desconfiar mais das pessoas, infelizmente, vejo bondade em todos. E isso faz com que se aproveitem de mim. Obrigado, por ter sido o único a ter coragem de me dizer isso. Prometo que a partir de hoje isso, pelo menos com nossa família, irá mudar. No hospital é diferente, para que eu prescreva um diagnóstico 100%, preciso confiar inteiramente em meus pacientes. Mas aqui, te prometo que...
Sacudi a cabeça negativamente.
— Princesa, você é perfeita. Sua confiança nas pessoas, é uma qualidade. Eu é que não pensei nas minhas palavras. Você não precisa mudar em nada por mim. Eu gosto de você, exatamente do jeito que é.
Mais uma vez esperei por suas lágrimas, todavia, elas não vieram.
— Não é por você. A mudança é por mim. Obrigado por ter me alertado. De uma maneira meio rude, é verdade, mas mesmo assim, obrigado.
— Perdoe-me, amor. Perdoe-me....
Implorei, beijando cada canto de seu rosto de porcelana.
— Está tudo bem, Edward. Tudo bem.
Voltei a acaricia-la com meus lábios, na verdade eu reverenciava-a, pelo seu altruísmo e bom coração.
Não beijei seus lábios, em momento algum. Não me sentia digno. Foi uma forma de punição para mim, por ter agido como um troglodita. Eu havia caído direitinho no jogo de Jasper. Se ele pretendia contar a meu sogro o quanto ele era melhor do que eu, agora ele tinha minha sogra e Rose como testemunhas a seu favor.
Eu precisava me preparar para a guerra.
Ninguém tiraria Bella de mim. E isso era fato.
Ficamos presos em nosso momento por um longo tempo. Eu a implorando perdão com palavras, beijos e carinhos e ela dizendo que tudo já havia passado, que estávamos bem agora.
Eu não me sentia satisfeito, eu queria mesmo era que ela gritasse e me fizesse implorar.
— Eu te amo, princesa. Amo.
Sussurrei em algum momento. Infelizmente ela cochilava e não ouvira minha declaração. Eu não havia dito essas três palavras em voz alta ainda. Eu estava as guardando para a ocasião certa.
— Entre.
Respondi baixo, quando alguém batera na porta. Bella havia se rendido ao sono e eu não queria acorda-la. Eu estava amando tê-la em meus braços e aconchegada a meu peito.
— Ela dormiu?
Perguntou mamãe já se sentando a meu lado. Esme tinha expressão cansada e preocupada.
— Sim, mamãe. Creio que eu a tenha levado ao limite hoje. Ela estava exausta.
— Ela é linda até dormindo. Parece tão serena.
— Linda é um eufemismo, mãe. Bella é perfeita.
Nos a olhamos algum tempo. Os dedos da rainha foram de encontro ao cabelo dela, delineando um carinho leve.
— Vocês se acertaram?
— Eu penso que sim. Graças a Deus, Bella tem um coração maior que ela.
— Graças a Deus mesmo. Você passou dos limites dessa vez.
— Mãe, eu sei. Todavia, não quero falar disso agora. Eu só preciso aproveitar esse momento. Eu estava morrendo de saudades.
Enterrei meu rosto em seu pescoço. Inspirei seu cheiro e beijei seu pescoço, mais uma vez. Ela era o meu vício.
— Tudo bem. Falaremos disso noutra hora. Agora, eu lamento ser desmancha prazeres, mas seu pai exige a presença de todos no almoço, Portanto, acorde sua noiva e desça.
— Mas, mãe. Eu não quero acorda-la, muito menos descer. Peça para que nosso almoço seja servido aqui, por favor.
— Eu sei. Mas eu lamento, filho. São ordens do rei. E algo me diz que o assunto seja Jasper. Portanto desça. Ou você não quer saber o que eles têm para falar?
— Sinceramente? Não mamãe, eu não quero. Jasper já me estressou por uma vida hoje. Eu só quero um dia de tranquilidade com minha noiva. Depois podemos voltar à vida real. Contudo, hoje não.
— Eu sei, filho.
As mãos dela, agora estavam em meu rosto.
— E vocês merecem isso. Mas, seu pai foi categórico quanto à presença de vocês. Faça isso por mim, desçam, almocem, escutem a “lereia” do rei e depois se refugiem em algum lugar. Prometo que os acoberto.
Gemi de frustração, mas aceitei. Ninguém conseguia negar nada a Esme.
— Tudo bem, mãe. Nos dê 10 minutos.
— Tudo bem.
Com um beijo em minha testa, ela se despediu e nos deixou a sós. Era hora de acordar minha garota.
— Bella? Amor, você precisa acordar.
Com cuidado e gratidão a despertei devagar. E me odiei por isso. Bella e eu precisávamos de paz.
Expliquei-lhe toda situação. Ela não ficou feliz, no entanto se levantou sem objeção. Somente quando já estávamos a caminho do tal almoço foi que senti sua inquietação.
— Temos mesmo que ir?
Perguntou enquanto descíamos as escadas.
— Será por poucos minutos, eu prometo.
Ela concordou. Minha mão estava presa a dela. Eu não me afastaria, nunca mais.
— Sentem-se, ali.
A rainha nos mandou sentar do outro lado da mesa, junto a Renée e Alice, bem longe de Jasper. Ignorando as formalidades de posições, me sentei ao lado de Bella. Era bom que todos já se acostumassem.
— Antes de servirmos o almoço, eu gostaria de pedir a rainha de Forkian que nos desculpasse pelos episódios de hoje de manhã. Os meninos estão meio ansiosos por causa do casamento. Eu me comprometo a dizer que isso não irá mais se repetir.
Renée não sorria como sempre. Ela estava muito séria, por sinal.
— É bom que não se repita mesmo, Carlisle. Nós não estamos entregando nossas filhas para a infelicidade. É bom, que seus filhos as respeitem e as tratem como as verdadeiras princesas que são. Charlie nunca permitiria menos que a felicidade total para nossas crianças.
Renée encarava a mim e a Jasper enquanto falava. Envergonhado, abaixei minha cabeça. Bella encontrou minha mão, por baixo da mesa, e a acariciou.
— Você tem a minha palavra, Renée.
Carlisle me encarou com convicção. Ele queria que eu entendesse o que estava prometendo.
Eu estava pronto para me desculpar também, quando Jasper me interrompeu.
— Eu também gostaria de pedir desculpas pelo meu comportamento de hoje cedo. Peço desculpas a meu irmão, a princesa Isabella e principalmente a minha amada noiva Alice. Eu não sei o que aconteceu comigo. Estava confuso e agi mal. Por isso peço a todos que me perdoem, principalmente Alice. Você, minha noiva, não merecia o constrangimento que a fiz passar hoje mais cedo. Prometo que isso não irá se repetir e prometo que irei compensá-la com minha devoção e amor eterno.
Um silêncio tomou conta da sala, ninguém estava entendendo nada. A fala dele estava tão bem ensaiada que convenceria a qualquer um. Jasper sempre foi um excelente ator.
Eu sabia que tudo aquilo era balela. Eu só não estava conseguindo captar qual seria a jogada agora.
Olhei interrogativamente para Emmett, que imediatamente negou com a cabeça. Ele também não estava entendendo.
Esme também o avaliava de baixo a cima, como se tentasse enxergar sua alma.
Renée, Bella e Rose permaneciam meio atônitas com o rumo das coisas. Já Alice, ia de constrangida, a alegre, a duvidosa. Ninguém estava entendendo nada.
— Me perdoe, minha princesa.
Mais boquiabertos ficamos quando ele se levantou e foi até Alice e ajoelhou a seus pés lhe implorando perdão.
Todos fomos surpreendidos.
Todos, menos Carlisle. Papai sabia o que se passava.
Eu não imaginava o teor da conversa deles mais cedo. Contudo, tinha certeza de que de alguma maneira, Carlisle o havia convencido de que o melhor para ele, seria ficar com Alice.
E isso me assustava. Jasper não era homem de desistir assim, se ele o havia feito, um bom motivo meu pai deve ter lhe dado.
Eu só pedia a Deus que não fosse à custa da minha felicidade e de minha Bella.
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