Três Príncipes, Três Princesas
47 Duas semanas sem ela
Notas iniciais
Edward
"Por favor, Bella, não faça isso comigo. O evento de hoje é importantíssimo para mamãe. Venha logo, meu amor".
Eu implorava em pensamento, enquanto mantinha Esme entretida com minha última ideia mirabolante: Nossa mudança para Forkian.
— Filho, isso é inadmissível. Está fora de cogitação.
Esme estava de pé atrás do sofá, linda, impecável, só esperando dar a hora de partir para a inauguração de seu mais recente projeto social, o “Abrigo para mães desamparadas”.
E como eu não queria que ela se preocupasse com a demora de minha esposa, resolvi abordar o assunto polêmico.
Estávamos a sós na biblioteca, o que era uma raridade ultimamente, porque Bella simplesmente amava esse lugar e estava sempre por aqui. Papai, Jasper e Alice aguardavam na sala de estar.
Bella não havia chegado ainda. Para meu completo desespero.
Esme disfarçava bem, mas, era nítido que também já sentia a falta de minha princesa. Por isso, eu abordara esse assunto nesse momento, era a melhor forma de distraí-la.
— Mãe, eu preciso que a senhora me entenda, não está dando certo. Talvez em Forkian as coisas sejam mais fáceis. Bella, estaria com os pais, a irmã, os amigos e trabalharia no hospital que tanto ama.
— Mas, nós não teríamos vocês.
Eu não queria pensar por esse lado, nem queria enfurecer ou chatear Esme num dia tão especial para ela. Mas, eu precisava que ela olhasse as coisas pelo meu ponto de vista.
— Você sempre terá a nós mãe, não estamos deixando de te amar, só nos mudando. O problema daqui é conviver com Jasper e papai. Meu casamento não suportará a pressão por muito mais tempo. Estou doente de saudades de Bella, mãe. Mas, ela não cederá antes do tempo pré- estabelecido. E só de pensar que será assim a cada vez que discordarmos, eu fico insano. Não suporto mais ficar longe dela, mãe.
Dei-lhe as costas e esfreguei o rosto com força. Eu estava tão cansado. Há duas semanas que eu não conseguia respirar, nem dormir direito. Eu precisava dos braços de minha princesa em volta de mim.
— Eu sei, querido. É lógico que eu sei. E lamento demais que estejam passando por isso. Mas, desistir e se mudar seria dar a seu irmão e a seu pai, a certeza de que o amor de vocês é fraco.
— Não me importo com o que eles pensam ou deixam de pensar, mãe. Nós só precisamos de paz.
A questão agora não era mais distrair Esme e sim convencê-la de que Forkian era a solução para meus problemas.
Surpreendentemente, senti os braços dela em volta de mim. A cabeça descansava em minhas costas e as mãos acalentavam meu peito.
— Eu me importo, filho. Vocês não podem partir. Não podem simplesmente me deixar. Não podem prever o futuro. Ângelus reserva grandes coisas para você e sua família, Edward. Tenha paciência. Espere mais um pouco, filho. Essa fase vai passar, confie em sua mãe. Eu sei o que estou falando, meu amor. E além do mais, quando não resolvemos nossas dificuldades “lá bem na raiz”, eles tendem a nos seguir, para onde quer que tentemos escapar.
Esme soava desesperada e só de imaginar que ela ficaria muito pior do que isso com nossa partida, fazia minha alma sangrar. Minha linda mãe, não merecia.
Respirei fundo e joguei a cabeça para trás, me recostando totalmente nela e pesando tudo o que falara.
Eu precisava arranjar uma solução para aquilo.
— Então me ajude, mãe. O que faço para dar a Bella paz e a estabilidade que tanto ansiamos e necessitamos para nossa vida a dois?
Senti que ela deslizava a mão pelos meus ombros e agarrava minha mão, me puxando e me guiando até a grande janela de vidro que mostrava a parte do fundo de nossa casa, um pouco do jardim e da mata fechada que rodeava nossa propriedade.
— É lindo, mãe. Mas, não estou entendendo como a visão da mata e do jardim nos auxiliariam.
Esme deu um passo à frente e abriu a janela. Uma brisa suave e bem fresca nos atingiu imediatamente.
— Veja além, filho. Olhe para o terreno e pense no que ele pode se tornar, o que ele tem a oferecer.
Eu não estava conseguindo acompanhá-la e minha expressão deve tê-la alertado para isso.
— Bella, sempre foi uma pessoa solitária, Edward. Por mais que Charlie e Renée teimem em dizer que não, nós sabemos que isso não é inteiramente verdade. Alice e Rosie sempre estavam com os pais nas viagens. Bella não. Filho, sua esposa precisa de um lugar só dela. Aliás, vocês precisam de um lugar só de vocês.
— Uma casa, mãe? A senhora acha que se Bella e eu tivéssemos nossa própria casa as coisas seriam mais fáceis?
Ela passou para minha frente e segurou meu rosto.
— Mais fáceis não. Porém, vocês brigarão e se resolverão, sem a intromissão de ninguém. Isso é casamento. Diálogo, meu amor.
Ela falava e me explicava como quando eu tinha cinco anos e cometia uma das minhas peripécias.
— Não que eu vá ficar feliz com essa mudança, porque, de verdade, eu preferiria vocês aqui comigo. E não pense que ficarão trancafiados lá quando meus netos nascerem. Porque, vou querê-los aqui. E o máximo que permito que se afastem é até ali.
Esme voltou a me dar as costas e apontou para a área onde a mata começava.
— Tenho uma engenheira e uma arquiteta benfeitoras dos meus projetos sociais, que aposto, amariam trabalhar nisso para você. Já posso até imaginar um caminho de pedras ligando o palácio a casa de vocês, rodeado de flores, orquídeas talvez, já que você tem algumas e terá uma porção mais, até que seu castigo acabe e...
— Mãe...
Gemi em frustração. Eu tinha esperanças que Bella me perdoasse antes.
— A verdade dói, meu querido. Mas, agora voltemos a nossos planos...
Deixei que minha mente imaginasse aquilo tudo que ela narrava.
Um lugar nosso. Perto de mamãe, mas longe o bastante de Jasper e papai. Parecia um sonho.
— Jasper e papai, eles não...
— Deixe seu pai e seu irmão comigo, filho. Pense em Bella e no que ela gostaria e como gostaria que fosse sua casa.
Voltei a encarar minha linda e preciosa mãe. Esme me assustava as vezes.
— Imaginar como ela gostaria? A senhora está pensando em não incluí-la na ideia de nosso lar?
— Estou, filho. Você precisa reconquistar sua esposa por inteiro e fortalecer a relação de vocês. Presenteie-a, surpreenda-a, mulheres gostam disso. Você terá um trunfo nas mãos. E, além disso, o aniversário da princesa está chegando, será a ocasião perfeita.
— A senhora tem noção de que estamos falando de três meses, mãe? Não se faz uma casa descente em tão pouco tempo.
— Não duvide do poder de sua rainha, querido. Não duvide.
Não duvidei. Nunca! Ao contrário, abracei-a com força a agradecendo e mostrando o quanto eu a amava e era devoto a ela.
— Majestade...
Porém, nosso momento havia terminado. O que era para ser uma distração se tornou uma belíssima conversa entre mãe e filho.
— Lamento atrapalhar, minha rainha. Mas, o rei manda dizer que não podem esperar mais. Já está em cima da hora.
Soltei Esme e levei minha atenção ao relógio de pulso. Surpreendi-me ao perceber já era quase seis horas. Havíamos nos perdido em nossa conversa por mais de uma hora.
— Diga ao rei, que já vou Chay.
— Sim, senhora.
— Bella chegou, Charlote?
Nossa governanta pareceu apreensiva, porém, não negou-me uma resposta.
— Não senhor. Ela está atrasada. A princesa Alice, está tentando falar com ela, porém, o celular não responde. Stephan confirmou com Sam, que eles ainda estão no hospital.
Fiquei quieto. Como assim Bella ainda estava no hospital? Ela sabia do evento de mamãe e da importância dele.
— Ei! Não pense. Algo deve ter acontecido. Logo ela estará aqui.
Fiz o que minha mãe disse. Eu não podia me deixar dominar. Eu já sabia onde isso nos levaria.
Eu era outro agora.
Voltamos para a sala.
Todos estavam quietos e Alice parecia muito tensa com o celular em mãos.
Jasper me olhou, mas, logo desviou a atenção para outra coisa. Ele voltara completamente diferente da viagem. Mais falador, mais animado, me fez, por um minuto, lembrar-me do irmão que eu amava.
Porém, não me deixei iludir, algo me dizia que ele estava tramando.
— Isabela sabia do evento? Alguém a informou dos horários quando veio para o almoço?
Papai me indagou, porém, logo voltou sua fala para Alice, pois, creio que se lembrara de que minha esposa e eu estávamos em crise.
Por incrível que pareça, não havia críticas ou acusações em sua voz. Ele só parecia, realmente, preocupado.
— Ela sabia. Eu a ajudei a deixar o traje pronto. Ela tinha uma cirurgia às treze horas, mas, disse que era simples. Garantiu-me que estaria em casa as dezesseis.
Vasculhei o bolso do paletó e também peguei o celular.
Em vão! Só dava caixa postal.
— Mãe, nós não podemos mais esperar. Já estamos na hora. Seu discurso é muito aguardado. Temos que ir.
Jasper também não disse aquilo de forma provocativa.
O que estava acontecendo com eles?
— Nós vamos esperar.
Esme bateu o pé e voltou seus olhos para mim. Eles pareciam mais apreensivos que o normal. Será que eu era assim tão “bomba relógio”?
— Não, mãe. Jasper está certo. Podem ir. Eu fico e aguardo Bella. Assim que ela chegar, iremos até vocês.
— Mas, filho...
Ela não confiava em me deixar sozinho com Bella numa situação que poderia incitar uma discussão. E quem poderia culpá-la?
— Vá, mãezinha. Bella deve estar quase chegando. Iremos em seguida. Não se preocupe.
Fui até ela e agarrei sua mão, beijando-a logo em seguida. Eu queria que ela confiasse em mim.
— Está certo. Vamos então.
Respondeu ao me avaliar com mais atenção. Era um voto de confiança.
Carlisle, Jasper e uma relutante Alice, se dirigiram a saída. Esme se posicionou a minha frente, outra vez.
— Não deixe a raiva te dominar, Edward. Imprevistos acontecem e Bella deve ter seus motivos. Lembre-se de tudo que o criei para ser, filho. Não nos decepcione.
— Não farei, mãe. Eu prometo.
Mesmo que tivesse que engolir minha ira, eu não descontaria em Bella.
Porém, será que ela não podia cumprir sua parte no acordo?
Aquele era “o evento” de Esme. Dava para perceber isso pelo olhar desapontado dela.
— Estaremos esperando por vocês. Enrolarei a todos, até que cheguem.
A agradeci pelo gesto e a acompanhei até a porta. Eu não me perdoaria se perdesse seu discurso. Eu nunca havia perdido um.
— Por favor, Bella. Por favor...
Murmurei baixo, enquanto ia até o bar e enchia um copo com gelo e uísque. Nunca fui de beber, mas, situações como essas exigiam atitudes drásticas.
Bella
— Sugue. Isso. Bem aqui.
Apontei indicando o lugar exato.
Eu estava terminando a cirurgia de Suzie e graças a Deus, tudo corria bem. O procedimento era pequeno e somente minha equipe e eu trabalhávamos nela. Jacob não fora convocado, como eu pedira. Eu a operara, sozinha.
— Bom. Completamente limpo e pronto para fechar.
Voltei a falar com a enfermeira chefe, enquanto monitorava os sinais vitais no monitor. Tudo estava em ordem.
Fechei a incisão e voltei a limpar o lugar, percebendo feliz, que a cicatriz seria mínima.
— Isso, gatinha. Você vai descansar agora.
Admirei o rostinho de boneca, que dormia tranquilamente.
— Terminem de ajeitá-la e a levem para a UTI, vou deixar as recomendações do médico plantonista, na sala de preparação. Vocês fizeram um excelente trabalho. Obrigada.
Retirei a máscara e sorri para cada um dos profissionais que compunham meu corpo clínico.
— Assim que terminarem estão dispensados logo em seguida.
Acenei com a cabeça. E me dirigi para saída.
Porém, um segundo depois, fui parada de meus atos por um zunido irritante de um bip constante.
— Doutrora!!
Gritaram várias pessoas ao mesmo tempo, porém, nem precisava. Eu já estava de volta ao lado de Suzie.
— Parada Cardio- respiratória. Procedimento...
Gritei para que injetassem a adrenalina.
— Não está funcionando.
Observei o monitor e nada. Continuava com a linha horizontal e o bip irritante.
— Massagem...
Afastei as mãos de quem quer que fosse e passei a forçar o peito dela.
— Um, dois três... sopre. Um, dois três... Sopre.
Nada.
Se concentre, Bella. Se concentre...
Murmurei encarando o monitor.
Nada! A linha reta continuava irritantemente ali, me avisando que eu não tinha muito tempo para pensar.
— Vamos, Suzie. Vamos querida. Faça isso por mim. Lute, anjo. Lute...
Forcei mais o peito dela.
Nada.
Troquei de lugar com o enfermeiro que soprava na boca e nariz.
Em minha inocência e ânsia de salvamento, achei que ele poderia estar fazendo algo errado.
— Desfribilador...
Voltei a gritar. Quando Suzie não respondeu as massagens. Agora era tudo ou nada.
— Um, dois, três,... afastem,.... agora.
O aparelho desceu sobre o pequeno corpinho, o sacudindo com uma corrente elétrica.
Porém, nada adiantou.
— Um, dois, três,... afastem,... agora.
Nada aconteceu.
— Mais potencia nisso. Um, dois, três,... afastem,... agora. Vamos querida, vamos...
Eu falava incoerentemente, como se ela pudesse me ouvir e me ajudar.
— De novo. Um, dois, três,... afastem,... agora.
Nada aconteceu.
— Droga. Saia daí. Isso não está adiantando.
Afastei a máquina e consequentemente quem a segurava e voltei a massagear e a soprar, eu mesma.
— Vamos, Suzie. Vamos, meu anjo. Não faça isso comigo, não faça... Eu preciso de você aqui, pequena.
Eu sentia minhas mãos doendo e minhas forças nelas se extinguindo. Contudo, nem isso me parou. Eu precisava trazê-la de volta.
— Bata, bata. Respire, gatinha. Respire para mim...
Exclamei, aos gritos, para aquele maldito coração.
— Vamos meu Deus, me ajude, por favor. Socorra-me. Eu necessito do Senhor agora.
Nada acontecia. A sala estava num silêncio sepulcral. Eu estava desesperada já.
— Respire, respire. Por favor, Suzie. Por favor... Você precisa usar aquela coroa, meu amor. Respire para mim, respire...
Nada...
— Doutrora...
— Não!
Gritei para quem quer que fosse que me segurava pelos ombros.
— Ela vai voltar. Ela vai voltar, eu sei que vai. Respire, gatinha. Respire para mim e mostre a todos eles o quanto desistem fácil. Que nós duas não somos assim. Respire, Suzie. Respire...E prove para eles que milagres acontecem. Respire, princesa... Respire...
Mais uma vez, pares de mãos vieram para meus ombros e braços, segurando e impedindo meus movimentos.
— Ela não está mais conosco, doutrora. Nós a perdemos... Pare, por favor. A senhora a está machucando já.
A força daquelas palavras, me estagnaram.
Sacudi-me do agarre deles e baixei a cabeça até o peito, agora silencioso, daquele serzinho tão puro.
— Me perdoe, pequena. Me perdoe. Eu errei com você.
Por segundos, deixei que as lágrimas caíssem. Eu havia falhado.
E ainda precisava enfrentar outra parte dessa triste situação.
— Horário do óbito: dezessete horas e cinquenta minutos. Causa- morte: parada cardio- respiratória fulminante.
Tremendo de corpo inteiro, ousei a dar alguns passos.
Várias mãos vieram até mim, mais uma vez. Eu estava cambaleando.
— Me soltem, estou bem. Por favor, limpem-na. Vou falar com os pais. E tratar de agilizar a liberação do corpo.
— Princesa, nós podemos arranjar alguém para fazer isso. A senhora não está em condições e...
— Minha paciente, minha responsabilidades. Falarei com os pais. Vocês estão dispensados.
Dirigi-me ao banheiro da sala de preparação. Liguei a torneira, lavei as mãos e o rosto, aproveitando o frescor da água para deixar que mais lágrimas rolassem.
Eu não devia estar assim. Eu devia ser forte e corajosa. Fora preparada para isso. Não éramos deuses. Nunca teríamos total controle de uma situação como essa.
No entanto, eu nunca estaria pronta para perder um paciente. Ainda mais que estamos falando de uma criança.
— Droga, Bella. Porque, você não trouxe o Jake? Por quê? A brilhante doutora Swan não passa de uma fraude. Não consigo nada sozinha.
Resmunguei enquanto secava o rosto e me encarava no espelho.
Eu me sentia quebrada e totalmente indefesa. Uma revolta de minha ignorância ameaçando me assolar.
— Doutrora? Tudo bem aí?
Respondi um sim seco. Eu precisava de um tempinho.
Não queria que ninguém ficasse com piedade de mim. Eu arcaria com meus erros.
— Os pais de Suzie estão aguardando notícias na sala de espera.
Oh Deus! Levei meus pensamentos a Rosie e no que havíamos presenciado a pouco na sua ultra. A concepção, o nascimento... Crianças não deveriam morrer eram bênçãos de Deus.
Charlie, Renée, Esme e Edward sentiriam vergonha de mim, quando soubessem do fracasso e da farsa que eu era.
— Doutora?
Voltaram a, insistentemente, bater na porta.
— Está tudo bem. Já estou indo.
Respirei profundamente e deixei que lufadas de ar me inundassem, eu precisava ser uma profissional. Mas, doía tanto.
Saí de meu improvisado esconderijo e dei de cara com duas enfermeiras me encarando ansiosamente.
— Podemos chamar a psicóloga do hospital para que converse com a família. A senhora não precisa passar por isso, pode ir para casa.
Casa, eu só queria ir para lá. Eu só precisava desabar nos braços de Edward e me aquecer ali, com seu corpo e seu carinho. Hoje não haveria briga ou mágoa que me impediria de estar com ele.
— Não precisa. Vou falar com eles. Obrigada. E, por favor, peçam que a psicóloga os encontre também. Eles vão precisar de todo e qualquer acalento.
Despedi-me delas, passei por mais alguns que me olhavam com curiosidade e por fim, saí daquele ambiente sufocante.
Eu não estava em mim. Minha cabeça flutuava e meu corpo doía como se eu tivesse apanhado. Eu não suportaria por muito mais tempo.
— Doutora? Como está minha filha? Nós já podemos vê-la.
A mãe de Suzie vinha correndo em minha direção.
Olhei para o lado e busquei Sam e Zafrina, eu só precisava do conforto de alguém conhecido.
Não me decepcionei, eles se aproximaram assim que me viram.
— Como ela está? Por favor, doutora. Alivie minha agonia. Nós já podemos vê-la?
A mãe e o pai pararam em minha frente. Segurei seus ombros e a puxei para um abraço. Meus olhos lacrimejaram imediatamente.
— Me perdoe, querida. Me perdoe. Eu não consegui, eu não consegui...
— Não!
O grito da pobre senhora, retumbou por todos os lados do hospital. Era agonizante e ficaria gravado em minha mente para sempre.
— Você prometeu que não era nada. Você prometeu que a traria de volta para nós. Você prometeu...
Rapidamente ela se afastou, porém suas mãos apertavam e sacudiam meu jaleco, buscando, exigindo uma explicação. Meu corpo ia para frente e para trás.
— Ela teve uma parada cardio- respiratória. O procedimento cirúrgico correu tudo bem, mas eu não contava com essa situação adversa. Perdoe-me, me perdoe, eu tentei. Enquanto eu pude, enquanto havia possibilidades, talvez até mais... Eu tentei. Por favor, me perdoe?
— Não! Não foi o bastante. Você falhou. Falhou comigo e com minha filha. Eu a quero. Traga-a de volta. Você prometeu. Nããoo!!!
Ela continuava a gritar, desesperada. E eu, consequentemente, lamuriava pedidos de perdão.
— Querida, se acalme, se acalme. Ninguém tem culpa, ninguém...
— Ela tem. Ela disse que não era nada demais. Eu quero minha filha. Por favor, tragam-na para mim. Essa mulher está mentindo...
Ela continuava a gritar e a chorar.
O marido a abraçou por trás e a afastou lentamente de mim, murmurando baixo para que eu me afastasse e desse tempo a eles.
Sem saber como, saí a passos trôpegos dali amparada por Zafrina e Sam.
— Vamos para casa.
— Não posso, tenho que ajudar na liberação do corpo, Sam.
— Você pode e deve. Zafrina já comunicou tudo a Aro e ele já está tomando todas as providências necessárias para que os pais da garotinha tenham todo suporte necessário. Você vai para casa agora.
Com a mente nublada de tanta informação e de tantos acontecimentos, deixei que eles me guiassem para o carro.
Eu forçava a manter uma postura de profissional, mas por dentro...
— Você precisa de mais alguma coisa, ou direto para casa?
— Para casa, Sam. Por favor.
Zafrina sentou ao meu lado e segurou com força, minha mão. Como uma verdadeira amiga que era.
— Está tudo bem, princesa. Você fez o possível. Seu melhor.
Porém, não foi o suficiente. Eu havia perdido um paciente. Na verdade, eu havia perdido uma criança. Uma garotinha que confiava em minha e que tinha um futuro esplêndido pela frente.
Eu sabia que não era infalível. Sabia que isso aconteceria algum dia, já até aconteceu, pacientes que tratamos inicialmente, em Forkian, e que depois vieram a falecer em decorrência do restante do tratamento. Mas, nunca em uma mesa, nunca comigo sozinha, nunca com alguém tão pequeno.
Isso que dá achar que consegue ser autossuficiente. Eu não podia ter dispensado Jacob. Eu não era uma médica capaz sem a ajuda dele.
Deus! Eu só queria chegar logo em casa e me embolar em minha cama e nos braços de Edward. Eu só queria chorar e dormir com meu porto seguro. Edward era o único que conseguiria me amparar e me entender nesse momento.
Eu precisava dele ainda mais do que quando nos casamos.
Hoje eu acabaria com nossa briga. Nós precisávamos voltar a respirar.
— Onde estão todos?
— Hã? Quê?
Voltei à realidade ao perceber que já adentrávamos o estacionamento da residência oficial. Somente o Volvo de Edward se encontrava ali. Stephan estava a seu lado e nos observava com atenção.
— O evento da rainha. Todos já devem ter ido para lá. Aliás, todos não. O príncipe deve estar te esperando.
O evento...
Zafrina estava certíssima. Nossa família já devia estar lá.
Curvei o corpo para frente e no relógio digital do painel do carro, comprovei que já passava da hora.
Pra variar, eu estava atrasada.
— Vocês estão dispensados. Não vou sair de casa mais hoje.
— Bella, quer que entremos com você? Edward, ele pode...
— Não precisa, Sam. Explicar-lhe-ei o acontecido. Meu marido entenderá. Vocês podem descansar agora.
Não fiquei ali para ouvir os contra- argumentos deles. Edward estava mudando a olhos vistos. Ele me entenderia.
— Como queria, princesa.
Entrei pala porta lateral, que dava na sala de jantar. Ninguém estava à vista. Passei por alguns cômodos e logo cheguei à sala de estar.
Edward estava lá, completamente bem arrumado. De costas para mim, encarando a janela. Um copo com um líquido âmbar, descansava na mesinha de centro. Ele havia bebido.
— Edward, eu...
Dei dois passos em sua direção, a fim de abraçá-lo.
— Todos já foram. Não puderam esperar você.
Sua voz era fria, cortante. Em momento algum ele se virou para me olhar.
Refreei meus atos. Ele iria mesmo brigar sem nem menos me perguntar o porquê de meu atraso?
— Eu sei, eu tive um...
— Por favor, não fale nada. Estou me segurando, Isabella. Não quero e não vou brigar. Por isso, te espero no carro. Por favor, não se demore muito. Eu gostaria de pegar pelo menos um pedacinho do discurso de mamãe. Isso é muito importante para ela e você sabia disso.
— Mas, Edward...
— No carro. Estarei no carro.
E com essas palavras ele se afastou.
Não me olhou e nem me deixou falar.
Ele havia feito de novo...
De uma maneira diferente agora, mas havia feito. O que significava que ainda tínhamos um longo caminho pela frente.
Edward
— Leve o carro até a entrada. Esperaremos a princesa lá.
Ordenei assim que entrei no carro.
Stephan ligou o motor e guiou até a frente de casa. Nós dois estávamos silenciosos.
— A princesa está bem? A achei tão pálida.
Pálida?
Quis imediatamente voltar para dentro e olhá-la. Ela estava pálida? Eu não a olhara. Eu não podia. Tinha medo de perder o controle e ficar irritado. Isso não me pertencia mais. Eu preferiria fugir a ferir Bella com palavras e atos novamente.
— Bella é pálida, Stephan.
— Eu sei. Mas, especialmente agora, ela estava mais branca que o normal. Parecia exausta e...
— Stephan, hoje não. Fique quieto e faça seu trabalho, por favor.
Sem mais, ele se calou e voltou sua atenção para frente. Eu tinha consciência de que havia sido mal- educado, porém, não estava com humor, nem paciência para brincadeiras.
Eu só precisava correr para o evento de mamãe. Esme, havia me dado mais uma ajuda para salvar meu casamento. Eu devia muito a ela. E estar lá era o mínimo que eu podia fazer.
Tamborilei os dedos, impaciente, no banco, de couro, do carro. Meu relógio indicava que estávamos quarenta minutos atrasados. Será que Bella ainda demoraria muito? Há quanto tempo ela estava se aprontando?
— Nossa!!!
Olhei para onde Stephan encarava e fiquei, mais uma vez, embasbacado, com o tamanho de minha sorte.
Bella estava belíssima, num macacão vinho, de mangas compridas, justíssimo, de cetim e renda transparente, nas laterais.
Os cabelos estavam molhados, então ela meticulosamente, os prendeu um coque baixo e modelou a parte da frente em uma pequena franja, presa atrás da orelha.
Nos pés, um sapato fechado e alto demais para meu gosto. Aquilo devia fazer um estrago em seus dedos.
E como retoque final, seu rosto de boneca, estava mais delineado devido à maquiagem escura e os olhos esfumado, também em tons de vinho.
Se ela parecia pálida quando chegou, agora ninguém poderia identificar mais isso.
Ela estava Linda! Um deleite para meus olhos apaixonados.
— Princesa...
Sem que eu me desse conta, Stephan desceu e abriu a porta para ela. Arrastei meu corpo para o lado, facilitando assim sua entrada.
— Obrigada.
Sua postura estava estranha. A fala, não passava de um sussurro e os olhos se voltaram para o vidro lateral assim que ela entrou. Bella parecia... Triste?
— Pode seguir, Stephan e faça isso rápido.
O cheiro dela me atingiu com tudo e quase me fez insano. Tentei pegar sua mão. Porém, ela puxou o braço e cruzou-o com o outro. Formando assim uma postura defensiva.
Será que eu a havia chateado de novo? Mas, eu nem disse nada, para não correr esse risco.
Por Deus! Eu estava com tantas saudades dela. Já fazia duas semanas. Eu só queria que ela me perdoasse logo. Eu estava me esforçando, ela deveria levar isso em consideração. Não é?
— Chegamos. Vou parar o carro e descer. Permaneçam aqui, até que os seguranças do evento rodeiem o carro. Não desçam antes. Tem pessoas demais aqui. Amun está monitorando tudo, não tem perigo.
Acenei uma confirmação para Stephan. E logo me voltei para minha esposa. Eu precisava tocar num assunto crucial.
— Estaremos em público. Precisaremos manter as aparências. O que menos queremos agora é que nossos nomes estampem tabloides.
Ela não respondeu. Sua face continuava voltada para o lado.
Bella estava estranha, eu poderia jurar que ela estava está tremendo.
— Amor, você está bem?
Minha consciência me alertava que não.
Bella
Bem? Bem? Minha vontade foi de me virar para ele e gritar umas boas verdades. Porém, nem para isso eu tinha mais força. O restante dela se findou quando vomitei assim que entrei no banheiro.
Eu só queria ter tomado um banho e descansado.
Contudo, aqui estava eu. Numa festa...
Não que Esme não merecesse, aliás, ela era o único motivo deu estar aqui. Porém, minha mente ainda estava no hospital, em Suzie. Em meus erros.
E Edward nem foi capaz de me olhar. E agora perguntava se eu estava bem? Santa hipocrisia! E a burra aqui pensando em perdoá-lo.
— Podem descer.
Stephan abriu a porta. Edward desceu primeiro e logo estendeu a mão para me ajudar.
Quis repeli- ló, mas, creio que se não firmasse nele, não conseguiria descer e me manter de pé. Meu corpo ainda tremia.
— Suas mãos estão geladas? O que aconteceu, Bella?
Agora ele perguntava, não é?
Foi minha vez de ficar em silêncio para evitar uma discussão memorável.
— Vocês passarão pelo tapete e só pararão do lado de dentro para as fotos. Estamos pecando pelo excesso.
Stephan instruía e nos isolava da multidão que queria um vislumbre nosso.
Concordamos e então, logo senti as mãos de Edward em minha cintura. Ele me puxara para seu lado e me segurava de forma protetora.
Eu tinha consciência de que não era somente pelos paparazzi e sim porque, também estava se aproveitando da situação. Eu sabia que ele também estava morrendo de saudades.
Aliás, paparazzi esses, que teriam um prato cheio se descobrissem do meu erro de hoje mais cedo. Eu já podia imaginar os tabloides de amanhã com suas manchetes de primeira página em letras garrafais.
Princesa de Ângelus vai feliz a uma festa, logo após matar garotinha de oito anos em cirurgia fácil.
Mais uma vez, senti meu estômago embrulhar e minha cabeça girar.
— Sorria, amor. Faça isso por mamãe. Quanto antes passarmos por eles, melhor.
Edward sussurrou perto de minha orelha, quando paramos para as fotos. Uma pose e tanto para os abutres.
Eram tantos gritos de: “Princesa... Alteza... Mais uma... Agora aqui... Virem-se agora... Sorriam...”. Que eu até já sabia de cor, o que fazer primeiro. Eu odiava aquilo.
Eu só queria estar em casa agora.
— Pronto. Podem entrar. Não os seguirei para baixo e para cima. Vocês precisam de liberdade. Porém, podem ficar tranquilos, não os perderei de vista. Estarei à disposição sempre que precisarem, é só chamar. Princesa, você tem certeza de que está bem?
Os olhos de Stephan me avaliavam de cima a baixo.
— Estou sim. Obrigada.
— Relaxe um pouco, Stephan. Estamos seguros aqui. Não seja tão paranoico.
Edward o apertou no ombro, num comprimento de amigos. Porém, Stephan não pareceu feliz com ele. Os olhos do segurança ainda estavam em mim.
— Vamos por aqui.
O evento era na área de laser, do abrigo. Pelo tamanho do lugar, podia-se supor que somente pessoas selecionadas estavam ali. A nata da sociedade Angelina.
Continuamos a andar, até que a voz de Esme nos tomou por inteiro. Ela já discursava.
“- Um abrigo para mães desamparadas, para aquelas que são abandonadas a própria sorte, às vezes com filhos pequenos e sem condição nenhuma de se sustentar e consequentemente, sustentar uma família sozinha”...
Os olhos dela nos encontraram assim que paramos a uma distância aceitável. Seu sorriso me fez acreditar que eu deveria estar mesmo aqui, apesar de meu dia infernal.
“- Um lar. Um lugar para correrem e se abrigarem quando acharem que não têm mais ninguém por elas. Um lugar para chamarem de seu e se sentirem seguras”...
Também em cima do pequeno palco, porém, um pouco mais para trás, identifiquei Carlisle, Alice e Jasper.
O casal real e seus herdeiros diretos. Eles pareciam tão à vontade ali. Lamentei, de novo, meu atraso. Edward merecia estar lá também. O sorriso na face dele declarava isso.
— “É isso que o Abrigo Cullen, será. E podem crer, que nossa família dará todo suporte para que todas sejam muito bem amparadas aqui, até que possam retornar para suas vidas em sociedade com mais segurança financeira e emocional”.
E foi então que Esme terminou seu discurso e todos se levantaram.
Edward soltou minha mão e, como todos, começou a aplaudi-la.
E foi aí que percebi que não conseguiria mais. Eu estava em apuros.
O barulho retumbou em meus ouvidos. O vômito veio seco, a náusea tomou conta e para meu desespero final, ousei levantar a cabeça e encarar o palco num pedido de socorro.
Os olhos de Alice assustados, o celular na mão. E o grito, agoniado, de Edward foram a última coisa de que me lembro antes de cair na escuridão e no silêncio da inconsciência.
Alice
— Seu telefone, Alice. Está vibrando de novo. Atenda-o de uma vez, por favor, amor. O discurso acabou.
Virei-me de costas para o público e Jasper, e passei a vasculhar a bolsa em busca do aparelho.
Quando o encontrei, fiz uma careta ao perceber, no visor, quem me ligava.
Atendi.
— Alô? Alô? Jacob, você ligou errado. Aqui é Alice... Não é Bella...
Ele murmurava algumas coisas desconexas. Só que o barulho das palmas era tanto que não me deixava entender nem escutar coisa alguma.
— “Alice... Escute, Alice... Preciso saber de sua irmã. Pelo amor de Deus, passe o telefone para ela”.
— Hã? Jacob, fale mais alto e mais devagar. Não estou entendendo nada.
O barulho continuava.
— “Bella, Alice. Como ela está? Preciso falar com sua irmã. Passe o telefone para ela”.
— Jacob, eu não estou te ouvindo. Ligue mais tarde, estamos em um evento importante agora.
O respondi quando o barulho cessava.
— “Que droga, Alice! Eu preciso falar com sua irmã agora. O pessoal do hospital me ligou, Bella perdeu seu primeiro paciente hoje. Você tem noção do que isso significa? Passe a “porra” do telefone para ela imediatamente”.
Jacob ainda esbravejava em meu ouvido, porém, a frase: “Ela perdeu seu primeiro paciente hoje”, ainda retumbava em mim.
Rapidamente, me virei para encontrar minha irmã e para meu total desespero, ela estava desmaiando e indo diretamente ao chão quando a vislumbrei.
— Bella!!!
— “Alice, Alice... O que está acontecendo? Você está aí? Alicee”?
Gritei e saí correndo do palco, ao mesmo tempo que Jacob esbraveja no telefone. Porém, não voltei a falar com ele. Eu precisava chegar até minha irmã o mais rápido possível. Bella precisava de mim agora.
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