Três Príncipes, Três Princesas
69 Comece do princípio
Bella
— O que é isto que está bebendo?
— Hum, café?
Perguntei ao me sentar, no nosso lugar de sempre, na lanchonete do refeitório. A diferença era que dessa vez, Ângela também estava ali.
— Joga isso fora. Grávidas não bebem café.
— Quem disse?
— Eu disse. Ângela diz para ela.
Levantei as sobrancelhas e fiz careta para ele.
— Dá um tempo, Jacob. Estou cansada de todo mundo me cercando. Aqueles sucos coloridos e as frutas de Báh estão me deixando louca. E, aliás, papai e Edward já tem me atormentado o bastante, não preciso de mais uma das pessoas que amo acabando com meu juízo. Ang, diz para ele que posso tomar quanto café eu quiser.
— Vocês querem se calar? Estou tentando me desviar dos “raios assassinos que a obstetra louca” está jogando em minha direção. E me dá isso aqui, esse copo está enorme, café em exagero faz mal para qualquer um.
— O quê? Não!
Ela me ignorou completamente tomando o copo de minha mão já levando- o a boca.
— Ah, vocês são dois idiotas.
Continuei reclamando enquanto me sentava.
Ângela continuava encarando Jéssica.
— Por que ela me odeia? Ela devia odiar o chefe, você e seu marido. Vocês são o motivo de minha vinda para cá.
— Ela não pode odiar a Bella. Bella é a dona do hospital e a princesa desta “porra toda”. É pedir para ser demitida e colocar um fim na carreira, se implicar com a esposinha do Cullen.
Sorrateiramente, peguei uma batatinha frita da bandeja de Jacob. Ele merecia que eu o roubasse. Quem manda ser tão idiota?
— Ela não te odeia. Só está enciumada por você estar aqui. Ben e ela sempre tiveram a obstetrícia só para eles. Dividir com mais uma pessoa, ainda mais nessas circunstancias, não deve ser fácil para ninguém.
— Ben? Quem é ele? Aro disse que ele estava ocupado em uma cesárea de emergência e por isso não compareceu a reunião de apresentação.
— Hum...
Dei uma avaliada geral no refeitório até encontrar meu alvo, no canto direito, nos olhando sem disfarçar.
— O moreno oriental, na última mesa a sua esquerda. Olhe disfarçad...
Tarde demais, ela já se virara de uma vez.
Sutileza era o sobrenome de minha amiga.
— Nossa! Ele é gato. Sabe se pega alguém?
— Bem- vindos à residência outra vez.
Ângela estirou a língua para Jacob.
Aproveitei a distração deles e roubei outra batata.
— Ninguém pega ninguém aqui, Âng. É contra as normas do hospital. Dá demissão por justa causa.
— Rá! Sei como funciona. Exatamente como no hospital de Forkian. Em que mundo você vive, Bella? Regras nunca foram empecilhos para nós.
— Para vocês. Não me coloque no meio disso. Ai...
Reclamei quando ela bateu em minha mão quando eu pegava mais uma batatinha deliciosa de Jacob.
— Pare de comer, sua esfomeada. Você está em horário de trabalho, já lanchou e ainda tem uma consulta comigo hoje. Quer se conter?
— Estou grávida, de gêmeos. Posso comer.
— Pode nada. Vou passar uma dieta para você. Assim você se controla e controlo seus cães de guarda.
— Falando nisso, eles estão quietinhos hoje. O que aconteceu, Bells, seu pai e Edward não ligaram nem uma vez ainda?
Só para contradizê-lo e me envergonhar, o telefone começou a tocar.
— Ah, Jacob e sua boca grande.
Peguei o telefone no jaleco e qual foi minha surpresa ao ver o número que me ligava.
— Alô? Esme? Tudo bem?
Atendi no segundo toque. Não era comum minha sogra me ligar quando eu estava no hospital. Ela tinha receio de me atrapalhar em algo importante.
Ah, como Edward poderia aprender algumas coisinhas com a mãe.
— Bella? Querida, estou precisando de sua ajuda.
— Esme? O que foi? Pode falar.
A voz dela parecia aflita. Imediatamente me coloquei de pé e passei a andar para fora do refeitório.
— Ei?! Aonde você vai? Ainda não acabamos nosso lanche e nossa conversa. Bella? Espere! Preciso te contar do presente que papai está ajeitando para você e Jacob. Bella?
Não podendo perder tempo, fiz sinal para eles, com a mão, de que continuaríamos aquela conversa mais tarde. Eles não pareceram felizes, mas concordaram.
Graças a Deus, porque eu tinha assuntos mais urgentes no momento.
— Bella? Bella?
— Estou aqui, Esme. Pode falar. O que foi?
Assim que passei pelas portas do refeitório, Sam e Zafrina passaram a me seguir me encarando com total interesse.
— Bella, estamos indo para o hospital. Amum me disse que a entrada está lotada de paparazzis, tem uma entrada mais discreta?
— Tem, claro que tem. É por ela que entro todos os dias. Peça para ele dar a volta no quarteirão e passar pela cancela de entrega de equipamentos. Vou ligar lá e autorizar a entrada de vocês. Esme, o que está acontecendo? Alguém se machucou?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e precisei olhar par o celular achando que a ligação havia caído.
— Sim, Bella, alguém se machucou. E sei que estou pedindo demais, mas tem como você nos encaminhar para algum lugar reservado e discreto. Não quero que essa situação vaze e acabe tomando proporções catastróficas.
— Quem se machucou, Esme? Pelo amor de Deus, quem está ferido?
— Jasper, Bella. Jasper está ferido e precisa de nossa ajuda. Pode fazer isso por mim? Bella? Bella?
Droga! Droga! Senti o início de uma vertigem e foi preciso acalmar o passo. Isso não era uma boa notícia nem uma boa ideia. Edward me mataria.
— Bella, pelo amor de Deus me responda. Bella?
O que fazer? O que fazer? Era minha sogra pedindo ajuda.
Respira, Isabella. Respira...
— Estou aqui, Esme. Vamos resolver isso. Por favor, me ajude. Não sei da gravidade da situação, mas preciso que você me ajude. Tem sangue, Esme? Jasper está sangrando? Ele bateu a cabeça?
— Tem, Bella, tem muito sangue. Mas, ele não caiu, nem bateu a cabeça. Foi um acidente. Ele bateu a mão. É na mão o sangramento.
Não ousei a pensar no acarretara o “tal acidente”.
— Certo. Agora preciso que você me escute com atenção, pressione o sangramento, Esme. Pode fazer isso por mim? Pressione com força. Precisamos estancar esse ferimento. Ele não pode perder sangue demais.
A respiração dela estava ofegante e alta. Apressei os passos, assim que cruzei a emergência recrutei um dos residentes, que eu conhecia e confiava, para que me seguisse. Dependendo dos ferimentos, eu precisaria de ajuda.
— Estou fazendo isso. Acho que está dando certo. O sangue diminuiu. Porém, ele continua pálido, muito pálido.
— Certo, você está indo bem, sogra. Agora, vou desligar o telefone, já estou chegando ao nosso ponto de encontro. Quero que mantenha a calma e converse com ele. O acalme, Esme.
— Eu não sei se posso. Bella, não desliga, eu...
— Você pode, Esme. Sei que pode. Além do mais, preciso de minhas duas mãos para pegar algumas coisas de que precisarei no atendimento. Entende, Esme? Pode me ajudar, mais uma vez?
Fiz uma curva para a direita e entrei no depósito de material cirúrgico. Fui pegando o que vi pela frente e entregando ao residente.
— Posso. Estamos a duas quadras daí. Já, já nos vemos não é?
Essa fala dela ficaria marcada em minha memória, era uma das poucas vezes que percebi Esme tão vulnerável.
— Tudo bem, tudo bem. Estarei te esperando, Esme.
Antes de guardar o telefone, liguei para a telefonista do hospital que logo me transferiu para os responsáveis pela entrada de equipamentos.
Logo depois, desliguei e guardei o celular, já aproveitando para pegar o cartão de acesso ao armário de remédio.
— O que está acontecendo, princesa? Por que está tão nervosa? Quem vai atender de tão importante que não pode ser na emergência.
— Esme está trazendo Jasper, Zafrina. Pelo que parece ele está ferido. E precisamos evitar um escândalo.
Peguei o que precisava, tranquei tudo e voltei a correr para o lugar marcado.
— Pode parar aí. Você não vai fazer isso. Não vai socorrer, Jasper?
— Quê?
Fui surpreendida com um aperto de Sam em meu braço, me impedindo de seguir em frente.
— Pode parar aí, Isabella. Estamos aqui para te proteger, proteger até de você mesma. Está fora de cogitação te colocar no mesmo ambiente que Jasper Cullen. Você se esqueceu dos últimos acontecimentos?
Tentei puxar meu braço, mas ele estava irredutível.
— Sam...
— Não, Zafrina. Ela enlouqueceu. Edward vai surtar se souber que Jasper está aqui.
— Eu proíbo você, Sam. Ouviu bem, te proíbo de contar a Edward. Esme está precisando de ajuda, e eu a ajudarei. Me solte!
Aumentei o som da voz.
— Perdoe-me, Bella. Mas não...
Fique completamente fora de mim, quando ele se negou a me soltar.
— Me largue, agora. É uma ordem. Quem você pensa que é?
O olhei bem dentro dos olhos e me impus como havia aprendido com anos de convivência com Rosie.
Eu odiava fazer isso, odiava também o fato de estar tramando pelas costas de Edward, mas Esme precisava de mim como médica, e agora não importava quem Jasper era ou fizera, eu ajudaria.
— Por favor, não faça isso.
Puxei com força o braço ignorando a voz baixa dele e destilei todo o meu veneno.
— Nunca mais toque em mim ou ouse me desobedecer. Sou adulta e respondo por meus atos. Faça o que é pago para fazer e somente isso.
Merda! Merda! Agi como uma completa idiota. Porém, não havia tempo para arrependimentos, Esme e Jasper precisavam de mim.
— Vou informar a Edward.
Ele gritou quando eu já me afastava, sem me virar dei o tiro de misericórdia. Eu sabia o quanto aquilo era importante para ele.
— Faça isso e será demitido.
— Eu lamento, alteza.
— Avise Edward e perderá seu emprego. Não é uma ameaça, Sam.
Voltei a andar, apressando o passo. Zafrina me seguiu. Sam não.
— Ali. Tem um carro parando ali.
Olhei para onde o residente apontava, já observando Amum abrir a porta do carro.
— Princesa, me perdoe. Eu disse que era uma má ideia, mas a rainha...
— Tudo bem, Amum. Vemos as consequências disso mais tarde. Agora me ajude a tirá-lo do carro.
Enquanto ajudava Jasper a descer do carro, parei por meio segundo para observar minha sogra, instintivamente toquei minha barriga pensando no quanto eu seria capaz de fazer por eles: “Tudo”, expressava bem a capacidade do quanto eu faria.
— Doutora, o que faremos? Peço uma maca? Ou uma cadeira de rodas seria o mais certo?
— Espere só um minuto.
Tomando o controle da situação, puxei uma cadeira e fiz sinal para que o trouxessem até mim.
Graças a Deus, o local estava completamente vazio.
— Esme, me conte exatamente o que aconteceu.
E então ela começou a narrar do “acidente” de Jasper com a porta. Aproveitei enquanto ouvia, para aferir a pressão dele, “auscultar” os batimentos cardíacos e conferir as pupilas. Estava tudo bem aparentemente, a pressão um pouquinho alta, mas nada preocupante. Pelo estado dele a ressaca deveria ser a principal causa daquela alteração. Porém, eu não descartaria nada, pediria um check up completo.
— Tudo bem. Agora deixe-me ver sua mão.
Empurrei para algum lugar obscuro dentro de mim todo o sentimento negativo e a repulsa que eu nutria por Jasper. Ali éramos médico- paciente, eu faria o certo.
Agachei-me, desembrulhei a mão dele daquele emaranhado de tecido e passei a avaliá-la com atenção.
Jasper permanecia em completo silêncio, o que era o melhor para nós dois.
Por minha visão periférica observei que Sam estava parado perto da porta. Zafrina, a seu lado, cochichava e gesticulava freneticamente, porém Sam só acenava negativamente com a cabeça.
— E então, Bella? É sério? Saía tanto sangue.
— Vou precisar limpar melhor isso aqui, para fazermos umas radiografias, aparentemente, não é nada grave, Esme. O sangue está vindo de uma veia bem pequena que foi rompida. Nada de grave.
— Graças a Deus!
Voltei a ficar de pé, fui até o balcão lateral, onde havíamos colocado as coisas que trouxemos.
— Vou aplicar uma medicação em você, preciso que sua pressão e sua glicose se regularizem. É só uma picadinha, não precisa se preocupar.
Segui os passos que descrevi a eles e percebi um sorriso despontando dos lábios dele.
Jasper me encarou de cima a baixo, como se acabasse de me ver.
Zafrina, deu dois passos a mais para perto de mim.
— Consegue ficar de pé? Preciso te levar para uma das salas de emergência o mais rápido possível, mas sem chamar muita atenção. Acha que consegue andar?
— Consigo.
Assim que ele se colocou de pé Esme enganchou seu braço ao dele. Amum se postou do outro lado. Se ele vacilasse eles o sustentariam.
— Bom, muito bom. Agora deixe-me trocar isso.
Entre as coisas que trouxe, peguei uma toalha esterilizada e nova e troquei pela manta que cobria o ferimento.
— Leve isso para meu consultório e depois vá até o Raio-x e o prepare para nós. Em quinze minutos estarei lá. Seja discreto.
— Pode deixar, doutora.
Instrui o residente que prontamente correu porta a fora.
O seguimos de perto, porém, mais devagar e centrados. Disfarçando ao máximo o que estávamos indo fazer.
— Doutor Michael, preciso de uma sala de emergência.
Comuniquei ao chefe do trauma assim que nos vimos no meio do caos que era a emergência do nosso hospital.
— A sala três está disponível. Precisa de ajuda, doutora Cullen?
— Não, obrigada! Está tudo sob controle. Só preciso que mantenha os curiosos e seus celulares à distância.
— Certo, vou cuidar disso.
— Obrigada!
Foi impossível passar despercebidos totalmente, contudo, as caras e bocas do doutor, de Amum e de Zafrina, afugentaram a maioria das pessoas.
Sam não estava conosco e eu não sabia para onde ele tinha ido.
— Sente-se ali.
Apontei a maca enquanto fechava a porta e as persianas.
— Só preciso de Esme e Jasper nessa sala. Os outros podem sair.
— Bella, isso não é...
Ignorei o princípio de rebelião de Zafrina antes que perdesse a paciência com ela também.
— Jasper tem uma ferida aberta e estamos num hospital, não preciso de mais condutores de germes e bactérias. Podem ficar do lado de fora, com os ouvidos colados na porta, não me importo. Só saiam agora.
Abri a porta e esperei até que, a contra gosto, eles se retiraram.
— Sente-se, Esme. Isso aqui vai demorar um pouco.
Apontei a cadeira ao lado da maca.
— Eles te obedecem como cachorrinhos. Você tem uma postura nata de rainha.
— Jasper...
Esme o advertiu. Era a primeira vez que ela falava comigo desde que chegou. Não caí na provocação continuei a esterilizar as mãos e colocar as luvas.
— Eles não me obedecem cegamente, não é assim que funciona. Sou médica daqui. É uma questão de hierarquia, portanto, eles me respeitam. Respeito não se ganha, se conquista.
Voltei para perto dele, puxei a mesa de primeiros socorros e passei a trabalhar no ferimento.
— Hum! Parece que não há fraturas. A mobilidade dos dedos está boa. A radiografia comprovará isso. Não há resquícios de vidro, o que é ótimo também. Porém, terei que fazer uma sutura maior bem aqui.
Mostrei-lhe a parte de fora do punho.
— Uma sutura inclui pontos e cicatriz?
Virei à mão dele para cima e passei a limpá-la com cuidado.
— Uns três pontinhos e uma cicatriz mínima. Nada que vá te matar, mas se quiser posso chamar o cirurgião plástico para dar uma olhada.
— Não! Não é preciso. Deixe a cicatriz aí, será uma marca de guerra para me lembrar do caminho de voltar quando eu me perder de novo.
— É, talvez seja melhor eu não me esforçar tanto assim. Marcas podem ser legais mesmo.
— Bella!
— Estou brincando, sogra. Não precisa se preocupar não deixarei seu filho marcado.
Sorri para Esme.
— Bella está certa, mãe. Não a repreenda. Tenho feito besteiras demais, machucado demais as pessoas. Estou com uma dívida grande a pagar aos que amo.
Era a oportunidade perfeita para lhe dar um sermão recheado de lição de moral, o problema era que aquilo não era função minha. Estava ali somente como médica, não como cunhada. Por isso, fiquei na minha e deixei que Esme cumprisse com seu papel.
Ela era boa com aquilo.
— Então comece a quitar essas dívidas, filho, antes que elas tomem proporções irreparáveis. Comece do princípio...
— É tarde demais, mãe. Já estraguei tudo. Alice, Edward e Charlie nunca me perdoarão.
— Não se esqueça de sua filha.
Cutuquei, incapaz de segurar o ímpeto.
— Bella!
Dei de ombros e voltei a fazer meu trabalho.
Não queria ser repreendida por Esme, mas Jasper merecia ser torturado um pouquinho.
Será que ela não percebia isso?
— Não, mãe. Bella está certa, de novo. Não posso me esquecer do que fiz com minha filha. A reneguei. Reneguei sem dó, nem piedade e ela nem nasceu ainda. Deus! O que foi que eu fiz?
Ele usou a mão boa para esconder o rosto.
Esme aproveitou a oportunidade para se aproximar mais e acariciar os cabelos do filho.
Eu não sabia o que pensar. Jasper poderia estar brincando conosco somente para ter suas regalias de volta, mas, eu tendia a acreditar nas pessoas, por isso, algo me dizia que ele estava sendo sincero.
— Você errou, querido, grande e feio. Teve seu tempo para auto- piedade, raiva e arrependimento. Agora é hora de deixar tudo para trás e começar do zero. Pedir perdão e seguir em frente.
— Não será tão simples assim, mãe.
— Eu não disse que será. O caminho será longo e tortuoso. Como você sabe, Alice, Charlie e Edward serão seus maiores problemas...
— Inclua Rosie na lista.
Resmunguei, percebendo logo depois que voltara a me intrometer.
Enrubesci, baixei a cabeça e voltei a fazer meu trabalho.
Jasper, por incrível que pareça, sorriu.
— Inclua Rósalie na lista, mãe. O que só piora minha a situação. Eles não vão me perdoar, nunca.
Ainda bem que ele tinha consciência.
— Claro que perdoarão, querido. É só você começar a fazer as coisas certas que eles voltarão a ver o Jasper que ainda está aí dentro. Eu sei...
— Não consigo. Acho que aquele Jasper morreu para esse renascer. Não sou capaz de controlá-lo. Quando me dou conta ele já me dominou.
— Talvez você precise de ajuda. Alguém que lhe mostre como dominar o monstro.
— Bella!
— Droga, Esme! Pare de me repreender. Desde que me ligou tenho feito tudo que pediu. Estou colocando a paz da minha relação com Edward em jogo, por sua causa. Mas, se dizer algumas verdade a incomoda tanto, talvez você devesse ter procurado ajuda em outro lugar mesmo. Não sou uma máquina. Vocês estão falando da minha família.
— Ela tem um ponto, mamãe.
Droga! Perder a compostura não era minha intenção. Era a médica ali, devia saber me controlar.
— Querida, desculpe-me eu...
— Não, deixa para lá. Eu é que peço perdão. Você está certa. Vou ficar quieta.
Um silêncio ensurdecedor dominou a sala, somente o tilintar dos equipamentos que eu usava o quebrava de vez em quando.
— Então, é... Ouvir dizer que você está grávida. Gêmeos, hein? Meu irmão deve estar em êxtase.
Paralisei, por um momento, depois respirei fundo maldizendo mentalmente a situação que agora se virara para mim.
— Nós estamos em êxtase. Não é uma relação unilateral. É um casamento, Jasper. Um apoiando o outro em qualquer situação.
— Ai! Essa já é sua segundo indireta, Bella. E essa doeu mais.
— E era para doer mesmo. Você precisa crescer e ver o que fez, Jasper. Perdeu Alice, perdeu sua filha, perdeu sua família, seu emprego. Que mais quer perder? O que pensa que está fazendo?
Não o olhei nos olhos dele, eu continuava fazendo meu trabalho.
— Eu não estava pensando, Bella. Há muito tempo deixei de pensar e agir com coerência. Não sei mais onde está o Jasper que fui criado para ser. A ganância, a sede de poder me dominaram.
— Hum! Eu lamento.
Observei, com atenção, entre os dois últimos dedos, constatando que estava tudo bem.
Fingir que não estava dando importância para o assunto era o melhor que eu poderia fazer,
— Eu também, você não sabe o quanto.
Surpreendida pela confissão dele, levantei o rosto e o encarei, e admito, foi difícil ver ali um Jasper que eu não via há bastante tempo.
— Não sei se ainda é possível, se há tempo, mas eu preciso concertar as coisas, Bella. Quero minha vida de volta. Sei que lutar sozinho será complicado. Então me ajude, me diga por onde começar?
— Acho que se você procurasse ajuda já seria um bom primeiro passo. O hospital tem uma equipe ótima de terapeutas, psiquiatras e psicólogos. Comece por aí e depois, gradualmente, concerte as relações e as pessoas que quebrou. Fácil não será, tenha paciência. Acredito que o fim será compensador.
Nos encaramos por mais um instante, até que o suspiro choroso de Esme e uma comoção do lado de fora me fizeram acordar para a realidade.
Levantei-me e empurrei a mesa de primeiros socorros para o lado.
— Já terminei aqui. Vou ver se está tudo certo com o Raio-X. Voltou daqui a pouco. Enquanto isso, procure não mexer com os dedos.
— Bella?
— Hum?
Voltei a olhá-lo.
— Posso começar concertando as coisas com você? Sei que preciso me acertar com Edward, mas sei também do gênio dele. Acho que se tiver uma aliada influente será mais fácil. Então, pode me desculpar por eu ter sido um grande idiota? Por ter confundido meus sentimentos? Você é uma pessoa incrível, Bella. Uma irmã, uma cunhada e médica admirável. Pena que só percebi isso depois que desci ao inferno. Te admiro, Bella. Uma admiração de amizade e irmandade, hoje eu percebo isso, sabe por quê? Porque não é por você que meu coração está sangrando. Não é por você que tenho bebido como um louco. Amo Alice, Bella, e quero concertar as coisas. Quero minha esposa, minha filha, minha família. Então, será que posso começar recebendo seu perdão?
— Oh, meu filho! Eu sabia que você estava aí. Eu sabia...
Esme chorava emocionada e continuava a acarinhar os cabelos dele.
Jasper também tinha os olhos umedecidos e eu sentia as lágrimas descendo por meu rosto também.
Malditos hormônios da gravidez!
— E então? Me perdoa?
Olhei para a mão que ele me estendia, observei sua expressão, cansada, mal- tratada e sofrida. Foi impossível não reagir, foi impossível não me aproximar.
Porém...
— Toque em minha esposa e eu mato você!
O barulho da maçaneta da porta em atrito com a parede, o olhar aterrorizado de Esme de um filho para outro, a fúria na face e nas palavras de Edward, o susto de Jasper e minha total surpresa, fizeram o clima da sala mudar totalmente.
— Edward, filho...
— Não! Não fale comigo, Esme.
Edward interrompeu a mãe bruscamente e com duas passadas largas se colocou a meu lado, rodeando minha cintura com um dos braços, protetoramente.
Ele tremia de raiva.
— Você me traiu, Esme. Agiu na surdina, pelas minhas costas. Se colocou e colocou minha esposa em risco. E se não bastasse, fez com que ela me escondesse coisas e agisse por conta própria. Por isso, não. Não vou falar, nem te perdoar, Esme.
— Edward, amor, eu...
Tentei falar, porém ele se colocou a minha frente, respirou fundo, certamente buscando controle, e segurou meu rosto com as duas mãos.
— Por favor, Bella, por favor, vamos sair daqui. Estou me segurando para não gritar e quebrar todos os dentes dele. Só que não sou tão forte assim. Estou por um fio. E não quero envergonhar você em seu trabalho.
— Irmão, eu...
— Eu não sou seu irmão!
Gritou alto, fazendo assim com que Stephan e o doutor Michael adentrassem a sala.
— Por favor, princesa.
Fechou os olhos e encostou a testa na minha. O aperto de suas mãos em volta de mim se apertaram consideravelmente.
— Tudo bem, vamos para minha sala.
— Mas, Bella...
— Não fale com ela, porra! Pelo amor que você tem a sua vida, não fale com ela.
Puxei o rosto de Edward de volta para mim para que ele focasse só em nós.
Depois me dirigi ao doutro Michael.
— Doutor, será que o senhor pode ocupar meu lugar? Os ferimentos já estão limpos, mas quero uma radiografia para eliminar qualquer dúvida de fratura. Ele precisará de sutura também.
— Certo, doutora. Eu mesmo cuidarei disso, pode ir tranquila.
— Obrigado, doutor.
Sem mais o que fazer ali, me desvencilhei de Edward e rumei para fora. Porém, antes de chegar à porta parei, não me virei, Edward parou também.
— Não sou eu que devo te desculpar, Jasper. Não fui eu que vi o seu pior. Recomece, faça a coisa certa dessa vez e para isso poderá contar comigo. Sou ótima em dar segundas chances.
Olhei de soslaio para Edward.
— Obrigado, Bella.
Me impedindo de responder e prolongar a conversa, Edward empurrou meus ombros para que voltássemos a caminhar. A conversa havia acabado.
Andamos em silêncio até minha sala e quando percebi que além de nós, os seguranças também estavam ali, me certifiquei de que a conversa não havia acabado. Ainda teríamos um assunto para explanar.
Fui até minha cadeira e me sentei.
Edward foi até o frigobar pegou uma garrafa d’água, despejou seu conteúdo em dois copos, colocou um em minha frente e sorveu, de uma vez, o conteúdo do outro.
— Sam, eu gostaria de agradecer pelo que fez hoje. Me manter informado de tudo que se passa com minha esposa me deixa mais tranquilo para poder trabalhar e me faz tomar as atitudes certas. Obrigado!
Ele começou um discurso demagogo sobre trabalho, comprometimento e confiança, para nossos seguranças. Demitri parecia fascinado com aquilo. Stephan, deliberadamente, escondia uma risada para tamanha bobagem. Já Sam e Zafrina se mantinham atentos a mim. Eles me conheciam.
Não perdi a oportunidade.
— Está demitido.
Por cinco segundos o mundo parou ali, todos, sem exceção, me olharam meio atônitos é sérios. Até Stephan perdeu a graça.
Mas, infelizmente, o tempo de espera foi pouco, porque logo Edward reagiu.
— Quê? Como assim? Você não pode demiti-lo por fazer seu trabalho.
— Não só posso, como fiz. Sam não estava fazendo seu trabalho. O trabalho dele é me proteger, não dedurar para você quem eu atendo ou deixo de atender. Ele perdeu a compostura e quebrou meu juramento de sigilo de pacientes.
— Bella, a situação não foi essa e você sabe disso. Não vou brigar por ter atendido Jasper porque sei que mamãe a coagiu. Mas, que foi burrice foi.
Com os hormônios em ebulição fiquei de pé. Ninguém, além de mim, e Edward se manifestavam.
— Essa é outra parte do juramento, Edward, Não posso e não vou negar atendimento a ninguém. Ainda mais se essa pessoa fizer parte da minha família.
— Não vou entrar no mérito dessa questão com você, Isabella. Resolverei esse assunto com Esme. Não vamos brigar por causa disso, você não teve culpa.
— Pense o que quiser. Fiz e farei de novo quando e para quem precisar. E ninguém tem nada a ver com isso. Então, despedido... Eu avisei a ele que isso iria acontecer.
Os ânimos estavam exaltados. Eu, em parte por culpa dos hormônios, estava ofegante e havia elevado um nível o tom da voz. Por outro lado, e surpreendentemente, Edward mantinha a voz baixa e apesar de visivelmente nervoso, se mantinha controlado.
— Não pode demiti-lo. Ele não é seu funcionário, é de seu pai. Por isso, se acalme e pondere, Bella.
— Tá, você só se esquece de que sou a filha mimada de Charlie, posso tudo. Basta querer e eu quero isso.
Alcancei o telefone de mesa e já discava o número de casa quando ele colocou sua mão na minha restringindo meus atos.
— Você não é mimada e não envolveremos Charlie nisso. Resolveremos isso, você e eu.
O toque quente dele em mim, aquelas orbes verdes que me conheciam como ninguém, a intimidade do ato. Tudo, contribuiu para derrubar minhas barreiras, desacelerar meu metabolismo e me sucumbir.
Desabei a chorar...
— Princesa...
Edward correu para meu lado, me pegou nos braços e me ninou em minha própria cadeira, em meu próprio consultório.
— Não chore, pelo amor de Deus, não chore. Só quero sua segurança. Sam é o melhor para você, princesa, entenda isso.
— Ele me traiu, não o quero. Vou fazer da vida dele um inferno e você enlouquecerá. Vou sair sem avisar, conversarei com qualquer um que se aproximar e vou jogar sua tornozeleira na primeira lixeira que encontrar. Acabou o acordo de boa- convivência e cooperação.
— Por Deus, Bella! Agora você está sendo mimada.
— Não me importo.
Edward se retesou e meus soluços aumentaram.
Os hormônios tinham total controle.
— Me desculpe, princesa. Me perdoe, eu só quis ajudar e...
Escondi o rosto no pescoço de Edward. Não queria ouvir Sam.
— É melhor parar com esse assunto, Edward. Bella está se estressando a toa. Por que não fazemos uma troca...
Stephan veio até nós e me entregou outro copo com água. Com a outra mão ele acariciou meu cabelo, me acalmando.
— Deixe-me ficar com Bella por uns tempos. Ela perdeu a confiança, não se sentirá bem com Sam. Eu sou a solução. Ela me conhece e você também, não vou permitir que faça besteira e ninguém será sacrificado. É um bom arranjo, até que Sam encontre uma maneira de ser perdoado.
— Ele não precisa do meu perdão, fez o que acha que é certo. Eu só não concordo e não o quero trabalhando comigo, simples assim.
Edward
Segurei com mais firmeza o corpo de Bella junto a mim, procurando sustentação e força de vontade para me controlar.
— Você concorda com isso? Stephan pode ser seu segurança a partir de agora? Pode fazer isso por mim?
Beijei seus cabelos e inspirei seu cheiro agradecendo a Deus por ela estar segura em meus braços. Só Ele sabe o que se passou em meu íntimo desde o momento em que Sam ligou até minha chegada aqui.
Eu havia vivido o inferno na terra.
— Se ele ficar em silêncio, pode ser que funcione.
— Silêncio é meu sobrenome, princesa.
Passei o nariz na testa dela enquanto observava todos a meu redor.
Sam não demonstrava nada, mas conhecendo seus sentimentos por minha esposa, eu poderia mesurar o conflito interno que ele vivia. Eu teria que concertar essa situação entre ele e Bella em algum momento. Ele merecia isso em agradecimento a tudo que fez por mim hoje.
— Está com sono? Quer ir para casa?
— Estou cansada, exausta psicologicamente.
Acariciei o ventre dela sentindo uma coisa estranha comprimir meu peito.
Aquilo era medo?
— Zafrina, por favor, peça a Bree que “bipe” Ângela para mim? Acho que minha pressão está um pouco baixa.
— Certo. Já voltou.
Zafrina fez o que se pediu a ela, imediatamente.
Admirei a capacidade dela em obedecer. Sam agiu com prudência me informando o que estava acontecendo, Zafrina agiu com lealdade não saindo de perto de Bella, nem por um segundo.
É, eu também teria que agradecê-la por isso.
— Posso te ajudar com alguma coisa? Mais água, café? Talvez um corpo mais macio para se aconchegar?
Isso era a vantagem de se ter Stephan por perto, ele sabia usar seus dons.
Bella sorriu.
— Só tire ele daqui. Estou exausta.
Olhai para Sam e não foi preciso dizer nada, ele abaixou a cabeça e saiu.
Bella se arrependerá disso, isso era fato. Porém, devido ao dia confuso e a intensidade dos hormônios da gravidez dupla, não seria hoje.
— Edward, não brigue com sua mãe. Ela só está querendo ajudar seu irmão.
— Não vou falar disso com você, pode parar.
— Estou grávida, não me negue nada nem grite comigo.
— Não use meus filhos como forma de chantagem. Isso se parece com Rósalie, não com você.
Ela beijou meu pescoço. E eu podia descrever com perfeição o sorriso que devia estar dando.
— Com Emmett funciona.
Será que eu deveria contar a ela que se insistisse só mais um pouquinho funcionaria comigo também?
Rá! Acho melhor não. Deixa-la saber que me tem nas mãos não seria aconselhável, ainda mais numa situação como essa.
— Emmett é um frouxo, não nos compare.
— Um frouxo bonito.
— Quê? Você já ultrapassou todas as suas cotas de me irritar hoje, Isabella Cullen. Está querendo umas palmadas?
Ela levantou o rosto e expressou para mim aquele sorriso safado e cheio de malícia que eu amava. Era uma faceta dela que só eu conhecia.
— Argh! Vocês podem parar? Está me dando ânsia aqui. Prefiro quando brigam.
— Ah, Stephan! É melhor você dar o fora daqui porque...
— Ei?! É aqui que está uma princesa em apuros? Tentei encontrar um príncipe pelo caminho, mas foi impossível. Isso aqui está um caos hoje.
— O príncipe ela já tem doutora. O que precisa mesmo agora é de uma médica recomendada, como poderes mágicos calmantes e curadores capazes de ajudá-la a ter uma gravidez tranquila e feliz.
— Então, chamaram a pessoa certa: Ângela Weber, a médica mágica, a seu dispor.
Foi instantâneo: Gostei dela.
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